Na delação premiada, o delator precisa matar a cobra e mostrar o pau

Jorge Béja

Será mesmo hoje, sexta-feira, 6.3.2015, que o ministro Zavascki vai divulgar a podre e fétida Lista de Janot? A heróica e bem-aventurada Lista de Schindler demorou 50 anos para que o mundo a conhecesse. Creio que não será hoje. Sigo Carlos Newton, nosso experiente e combativo editor, que a respeito do esperado para esta sexta-feira em Brasília, escreveu ontem: “É bastante improvável. São 28 inquéritos, envolvendo 54 pessoas e Zavaschi não pode agir apressadamente. Ou pode?”. Seja quando for – mas que não demore muito – o importante e urgente é rasgar logo esse abscesso e extirpar o tumor que há muito tempo está fora de controle neste país chamado Brasil.

SE FOR HOJE OU QUANDO FOR

Se a fedorenta lista for divulgada hoje (ou outro dia qualquer), é certo que os escroques nela relacionados vão ser assediados por jornalistas. E como vão!!! E as perguntas serão as de sempre: o que o senhor tem a dizer? a acusação é verdadeira? já tem advogado? qual será a linha de defesa? vai se valer da delação premiada? vai renunciar ao mandato para se dedicar à defesa?…

E as respostas também serão as mesmas: nada a declarar… é uma calúnia (“armação”, no jargão dessa gente) contra mim… é perseguição política… sou inocente… o dinheiro que recebi declarei ao TRE e minhas contas foram aprovadas… minha relação com fulano de tal é institucional… não conheço beltrano… jamais tratei com sicrano… não conheço a acusação… ainda não fui intimado…

Enfim, tudo repetidamente conhecido e sabido. Que ninguém espere deles um sentimento de vergonha, um reconhecimento de que “errei, sim, renuncio ao mandato, estou pronto para devolver o dinheiro e pagar pelo(s) crime(s) que cometi e peço perdão à nação…”. Não. Não se trata de julgamento antecipado. Todos têm o direito de defesa, sobretudo porque os inquéritos e processos criminais não foram criados para que indiciados e réus se defendam, e sim para que a autoridade policial e a promotoria pública provem a acusação. Em curta expressão: o ônus da prova cabe à acusação.

PROVAS SUFICIENTES

Acontece, porém, que o farto material que o juiz Sérgio Moro, a Polícia Federal do Paraná e o Ministério Público Federal enviaram ao Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, não é fruto de meras suposições, ilações subjetivas e dúbias, conjecturas, suposições. Nada disso. A prova, pré-produzida e pré-constituída, é robusta. Decorre do benefício da Delação Premiada concedido a réus que tiveram a prisão decretada pelo Dr. Sérgio Moro e homologada pelo ministro Teori Zavascki.

E para que o réu tenha o seu pedido de Delação Premiada aceito e homologado, exige a lei que, primeiro, ele identifique os demais coautores e partícipes da organização criminosa e os crimes por eles praticados (Lei 12.850/2013, artigo 4º). Que o Termo de Acordo Por Escrito contenha, obrigatoriamente, o relato da colaboração e seus resultados (artigo 6º) e que todas as informações sejam pormenorizadas (artigo 7º). Portanto, que a caguetagem-deduragem seja ampla, geral, irrestrita e, principalmente, comprovada. Caso contrário, o benefício da delação premiada não é concedido.

Registre-se que o prêmio da delação consiste no perdão judicial, na redução em 2/3 da pena privativa de liberdade ou sua substituição por restrição de direitos. Não pode o indiciado ou réu mentir, porque tudo quanto ele delata, a autoridade investiga. Eis o motivo que levou Janot a pedir ao STF o arquivamento contra uns, a abertura de inquérito contra os demais, quatro mandados de busca e apreensão e quebra de sigilo telefônico e bancário para todos aqueles que os premiados delatores identificaram como coautores e participantes da organização criminosa, e os beneficiários que recebem dinheiro sujo.

RARA E EFÊMERA EXCEÇÃO

Não se descarta, no entanto, a possibilidade de engenhosa e diabólica trama para, quase à perfeição, envolver pessoa inocente na organização criminosa e na condição de beneficiário do produto do crime. Exemplo: o depósito de dinheiro sujo na conta bancária de terceiro (um adversário político, digamos) sem o seu consentimento ou conhecimento, para incriminá-lo ou simplesmente para conseguir o delator fazer a prova que precisa para se sair bem no processo. Isso pode acontecer. É raro. É excepcionalíssimo.

Mas a tapeação não dura, nem se torna eterna, a ponto da verdade não ser descoberta. É mentira efêmera. No caso desse escândalo do Petrolão, um exército de policiais e promotores públicos federais agiu de modo competente e corretíssimo, sem deixar lacuna que pudesse comprometer o trabalho deles. Conclui-se que a Lista de Janot é amparada em provas suficientemente fortes contra os acusados. Foram provas obtidas sob o crivo da Lei da Delação Premiada, que exige que o delator mate a cobre e mostre o pau.

O que fazer? E quem está governando?

Sandra Starling

Recebo e-mail de um grande amigo que me faz a pergunta título deste artigo, já que, segundo ele, tenho conseguido fazer razoáveis diagnósticos sobre a crise no país. Respondo: não sei.

De meu ângulo, às vezes privilegiado para saber das coisas, já que passo a maior parte do meu tempo em Brasília, às vezes é terrível, porque boatos é que não faltam. Posso afirmar que não consigo enxergar um palmo adiante do meu nariz. Só sei que a situação é gravíssima e pode ainda piorar.

Alguns têm falado em impeachment da presidente. Consulto a Constituição Federal, e meu desânimo só aumenta: na linha de sucessão se encontram Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski. A meu ver, um time para levar qualquer seleção a uma fragorosa derrota. Conheço de perto dois deles e sei de que estou falando. Os outros tenho acompanhado em suas iniciativas na Câmara e no Supremo. Não tenho por que nutrir qualquer esperança de melhoria.

Em relação à vacância sucessiva de presidente e vice (por renúncia, morte ou suspensão de direitos políticos), o sucessor, na ordem indicada, chamará novas eleições no prazo de 90 dias após a vacância definitiva (a do antigo vice) nos dois primeiros anos do mandato e nos dois últimos a eleição será pelo Congresso Nacional.

NADA DE DITADURA

Certamente, repudio veementemente os que fazem apelo às Forças Armadas. Aliás, só para recordar, passei os melhores anos de minha vida, dos 20 aos 41 anos, sob o tacão da ditadura – isso supondo que esta tenha terminado em 1985 e não venha se prolongando em vários aspectos por meio da malfadada “transição pactuada”, inventada por gente como Tancredo Neves. Não preciso mais para não querer nada disso.

O atual Congresso Nacional, com suas bancadas da bala, do agronegócio, dos evangélicos, dos parentes e de reacionários de toda espécie, também não me autoriza a ter esperança de que venha alguma proposta minimamente articulada. Faz dó ver como parecem baratas tontas antigos partidos de gente séria, mesmo à direita.

Se as elites econômicas brasileiras são extremamente predatórias, as elites políticas são macunaímicas, e mesmo o que andam fazendo ao mandar Dilma “praqui” e “prali”, inaugurando creches e pontes, com seu novo visual mais enxuto (pelo regime que anda fazendo), os caciques que vêm se reunindo com as bancadas do PT e do PMDB não resolvem nada, a não ser ressuscitar mortos-vivos, como Sarney, convidado para o jantar no palácio de Temer com a presença de Lula.

QUEM ESTÁ GOVERNANDO?

E, para terminar: afinal, quem está governando? Joaquim Levy? Ou seria Lula? Por que não sai a malfadada lista dos políticos da Lava Jato ou dos donos de contas no exterior via HSBC? Ainda por cima, dizem que o procurador geral da República, Rodrigo Janot, está sendo ameaçado de morte. Afinal, nem custa perguntar: por que Joaquim Barbosa se aposentou tão cedo? E por que Dilma não o substitui?

Ao amigo que me escreveu só posso mandar estas mal traçadas linhas. Nada sei sobre o que vai acontecer conosco. Só sei é que nisso é que dá inventar um “poste”, batizá-lo de “grande gestora” e vender o peixe aos incautos.

Ai, que inveja do Uruguai e do Vaticano!

Senado precisa impedir a farra das ONGs com recursos públicos

Deu na Folha

A Câmara dos Deputados já aprovou regras mais rígidas para parcerias e convênios firmados entre órgãos públicos e ONGs (organizações não governamentais). O texto segue para votação no Senado.

O projeto fixa novos critérios para o controle, fiscalização dos recursos públicos repassados a essas entidades, além de estabelecer exigências sobre os dirigentes.

Pelo texto, ficam impedidos de ocupar cargos em ONGs, por até oito anos após o cumprimento da pena, os condenados por crimes relacionados à administração pública, como os cometidos contra a economia popular, o patrimônio público e o sistema financeiro. A vedação também vale para quem tiver contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas rejeitadas por irregularidade insanável que configure ato doloso de improbidade administrativa.

Os cargos também não poderão ser ocupados por agentes públicos que tiverem beneficiado a si ou a terceiros em razão de abuso de poder econômico ou político.

SEM REMUNERAÇÃO

Outra regra proíbe a remuneração dos dirigentes das entidades e veda que agentes públicos e parentes até o terceiro grau de autoridades do órgão público com o qual o convênio for celebrado participem da gestão da ONG.

Fica determinada a divulgação na internet de informações relativas a todos os projetos executados e em execução, assim como de informações relacionadas a seus dirigentes e suas atribuições específicas. Outra obrigatoriedade é a publicação de balanços no Diário Oficial da União e em jornais de grande circulação.

O projeto cria uma “nota” para efeito de classificação de ONGs, que será atribuída a partir de indicadores que ponderem o tempo de efetivo funcionamento, o número de projetos executados, os resultados de parcerias anteriores com o poder público e o nível de publicidade de dados dessas organizações.

ONGs que tiverem incorrido em anos anteriores em omissão na prestação de contas, descumprimento injustificado do objeto de parcerias ou convênios, desvio de finalidade na aplicação de recursos transferidos, dano ao erário e prática de outros atos ilícitos na execução de parcerias ou convênios não poderão receber transferências da União.

TEMPO DETERMINADO

O texto determina ainda que a parceria ou convênio com a ONG deverá ser firmada por tempo determinado e para desenvolvimento de projetos específicos, sendo vedada a prorrogação e a execução de atividades de caráter continuado.

Em relação aos repasses, fica estabelecido que as parcelas da parceria ou convênio serão liberadas em estrita conformidade com o plano de aplicação aprovado, podendo ser retidas, em caso de irregularidades apontadas pela concedente ou pelos órgãos de controle interno ou externo, até que a entidade adote medidas saneadoras.

Os convênios do governo federal foram alvo de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no governo Lula. Em 2014, a CGU (Controladoria-Geral da União) apontou que 28 ONGs que firmaram convênios com o Ministério do Trabalho tinham ‘indícios graves’ de irregularidades e 18 já foram consideradas inadimplentes. No governo, dois ministros chegaram a ser ‘faxinados’ diante das irregularidades em convênios no Ministério do Trabalho e no Esporte.

###
NOTA DA REDAÇÃO – Já não era sem tempo. As relações incestuosas entre o poder público e as ONGs bagunçaram esse país, aumentaram a fraude da terceirização de serviços e fizeram a fortuna de corruptos e corruptores. O governo federal não mexeu uma palha para acabar com isso, pelo contrário. Agora, só falta a aprovação do Senado e a sanção presidencial. (C.N.)

A vaca vai pro brejo?

Marta Suplicy
Folha

É um privilégio neste momento crítico da política brasileira voltar a este espaço que ocupei em 2011 e 2012. Já colaborei na Folha, em cadernos e anos diversos, exercendo atividade diferente da que tenho hoje. Tenho consciência da importância que foi chegar a milhares de pessoas quebrando tabus, defendendo os direitos do povo, das mulheres e minorias, avançando em temas de difícil aceitação.

Senadora, e com uma visão muito crítica da situação política brasileira, sinto-me no dever de exercer neste espaço a audácia e transparência que caracterizaram minha vida.

Em política existem duas coisas que levam a vaca para o atoleiro: a negação da realidade e trabalhar com a estratégia errada.

O governo recém-empossado conseguiu unir as duas condições. A primeira, a negação das responsabilidades quando a realidade se evidencia. A segunda, consequência da mentira, desemboca na estratégia equivocada. Estas condições traduzem o que está acontecendo com o governo e o PT.

ERROS NA ECONOMIA

O começo foi bem antes da campanha eleitoral deslanchar. Percebiam-se os desacertos da política econômica. Lula bradava por correções. Do Palácio, ouvidos moucos. Era visto como um movimento de fortalecimento para a candidatura do ex-presidente já em 2014. E Lula se afasta. Ou é afastado. A história um dia explicará as razões. O ex-presidente só retorna quando a eleição passa a correr risco.

Afunda-se o país e a reeleição navega num mar de inverdades, propaganda enganosa cobrindo uma realidade econômica tenebrosa, desconhecida pela maioria da população.

Posse. Espera-se uma transparência que, enquanto constrangedora e vergonhosa, poderia pavimentar o caminho da necessária credibilidade.

ENGANAÇÃO

Ao contrário, em vez de um discurso de autocrítica, a nação é brindada com mais um discurso de campanha. Parece brincadeira. Mas não é. E tem início a estratégia que corrobora a tese de que quando se pensa errado não importa o esforço, porque o resultado dá com os “burros n’água”.

Os brasileiros passam a ter conhecimento dos desmandos na condução da Petrobras. O noticiário televisivo é seguido pelo povo como uma novela, sem ser possível a digestão de tanta roubalheira. Sistêmica! Por anos. A estratégia de culpar FHC (não tenho ideia se começou no seu governo) não faz sentido, pois o tamanho do rombo atual faz com que tudo pareça manobra diversionista. Recupera-se o discurso de que as elites se organizam propagando mentiras porque querem privatizar a Petrobras.

Valha-me! O povo, e aí refiro-me a todas as classes sociais, está ficando muito irritado com o desrespeito à sua inteligência. Daqui a pouco o lamentável episódio ocorrido com Guido Mantega poderá se alastrar. Que triste.

Advocacia-Geral da União recorrerá da decisão de deportar Battisti

Battisti foi recebido no Ministério da Justiça por Tarso Genro

Deu na Agência Brasil

A Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou que o Estado brasileiro vai recorrer da decisão da juíza federal Adverci Rates Mendes de Abreu, que determinou a deportação do italiano Cesare Battisti. Em fevereiro, Adverci atendeu a um pedido do Ministério Público Federal e considerou ilegal ato do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) que concedeu a Battisti visto de permanência definitiva no Brasil.

“A AGU, quando intimada, recorrerá da decisão. O fundamento jurídico é a defesa do Ato de Concessão de Permanência, proferido pelo Conselho Nacional de Imigração, órgão colegiado vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego”, informou a entidade.

Battisti foi condenado na Itália à prisão perpétua por homicídio quando integrava o grupo Proletariados Armados pelo Comunismo. Ele chegou no Brasil em 2004, onde foi preso três anos depois. O governo italiano pediu a extradição do ex-ativista, aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Contudo, no último dia de seu mandato, em dezembro 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que Battisti deveria ficar no Brasil e o ato foi confirmado pelo STF.

A Corte entendeu que a última palavra no caso deveria ser do presidente, porque se tratava de um tema de soberania nacional. Battisti foi solto da Penitenciária da Papuda, em Brasília, em 9 de junho 2011, onde estava desde 2007. Em agosto daquele ano, o italiano obteve o visto de permanência do Conselho Nacional de Imigração.

###
NOTA DA REDAÇÃO
Como dizia Roberto Carlos, daqui para a frente, tudo vai ser diferente. O Supremo julgou um pedido de “extradição”, feito pelo governo italiano. Agora, não se trata mais de “extradição”, mas de “deportação”, o que significa que Battisti pode ser devolvido para o México ou para França, países por onde passou antes de entrar clandestinamente no Brasil e ser recebido como celebridade pelo governo Lula. Juridicamente, o caso se complicou muito. (C.N.)

Um compositor e suas fortes ligações com a natureza

O cantor, compositor e poeta mineiro Paulo Hugo Morais Sobrinho nasceu na cidade de Pedra Azul, a qual adotou como nome artístico. Na letra de “Pintura”, ele mostra como sua arte tem fortes ligações com a natureza. A música faz parte do LP Pintura, gravado por Paulinho Pedra Azul, em 1988, produção independente.

PINTURA

Paulinho Pedra Azul

Voa ave voa
Me ensina o teu vôo
Ou mostra pelo menos
Um pouco do teu canto
Plana nessa brisa
Me ensina o segredo
Me diz, não tenha medo
Que eu sou teu amigo
Te mostro o perigo
Dessa gente toda
Me ensine o encanto
Destas tuas asas
Me leva prá longe
Do cheiro destas ruas

Voa ave voa
Me ensine a beleza
Dessa vida solta
Me ensine a pintura
Dessa natureza
Me mostra a tinta
Risque esse detalhe
Na tela do espaço
No claro do céu
Te empresto o pincel
Tu traças o verde
Mas deixa que eu coloque
O cheiro do vento
Completa o movimento

            (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Renan devolve MP: onde estava a assessoria jurídica do governo?

http://1.bp.blogspot.com/-ImEDL5n65d8/TdKPdVeb_oI/AAAAAAAAGbA/Mk_DXhbATlc/s640/medida-provisoria-presidentes.jpgPedro do Coutto

O senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional, num gesto de independência tão legítimo quanto inesperado, devolveu ao Planalto, por colidirem com a legislação, duas Medidas Provisórias assinadas e enviadas ao Parlamento pela presidente Dilma Rousseff, as quais anulavam desonerações concedidas às empresas e elevavam a incidência de impostos. A presidente da República reconheceu o erro, tanto assim que substituiu uma delas por projeto de lei para a qual pediu tramitação em regime de urgência. A matéria foi muito bem focalizada pelas repórteres Cristiane Jungblut, Fernanda Ktakovics e Simone Iglesias, O Globo, edição de quarta-feira 4.

Substituindo prontamente a MP por um projeto de lei, Dilma Rousseff acusou o golpe e, tacitamente, ao mesmo tempo, destacou o erro enorme cometido por sua assessoria jurídica. Onde estava a assessoria quando a proposição foi concluída e remetida ao Congresso Nacional? Em lugar algum.

O episódio foi um desastre para o Poder Executivo. Em primeiro lugar porque inevitavelmente vai bloquear a iniciativa que partiu, é evidente, do ministro Joaquim Levy. Em segundo pelo fato de a nova trajetória inviabilizar, na prática, as desonerações e a elevação tributária, peças-chave da reforma colocada como indispensável pelo chefe da equipe econômica do governo. Sob o ângulo político, elimina o caráter indispensável das mudanças e torna dispensável, dependendo da sequência dos fatos, a presença do próprio Joaquim Levy no esquema governamental.

Sim, porque, ao mesmo tempo, Renan Calheiros revelou o propósito de rejeitar as Medidas provisórias 664 e 665, remetidas durante o recesso parlamentar, que reduzem direitos trabalhistas, especialmente a pensão deixada por morte dos segurados. Essas medidas receberam nada menos de 750 emendas de senadores e deputados. Mas, agora, a tendência dominante é rejeitar mais essas duas iniciativas governamentais. Inclusive porque Renan assinalou ser contrário a elas e, não fosse o recesso, as teria devolvido também ao Planalto por impertinência legal. Portanto acrescente-se no rol mais duas derrapadas de Joaquim Levy. A substituição de uma MP por um projeto de lei é um verdadeiro abismo.

ENTRADA EM VIGOR

A diferença fundamental é que a MP entra em vigor logo que seja publicada no Diário Oficial durante cem dias corridos. Um projeto, para ser transformado em lei, necessita ser aprovado pelo Legislativo e sancionado pela presidente da República. A comparação não termina neste ponto. E como ficam efeitos concretos que tenham ocorrido enquanto a Medida Provisória vigorou? O caso do corte das pensões por morte, por exemplo? São anulados certamente. Mas como e quando as diferenças serão devolvidas àqueles que tenham sido atingidos? A matéria é complexa, exigindo todo um percurso burocrático.

NÃO PODEM SOFRER SIGILO

Na mesma edição de O Globo de quarta-feira, reportagem de Carolina Brígido, Vinicius Sassine e Jailton de Carvalho, focaliza as opiniões convergentes de Rodrigo Janot, Teori Zavascki e Marco Aurélio Melo sustentando que os processos da Operação Lava Jato encaminhados pelo Procurador Geral da República ao STF não podem permanecer ou transcorrer sob sigilo. Evidente. Por um motivo simples: tais atos processuais são públicos. Isso em primeiro lugar. Em segundo, para que os envolvidos possam se defender e constituir seus advogados. Em terceiro, em face da transparência determinada pelo regime democrático, para que a opinião pública, pela imprensa, tenha pleno acesso ao desenrolar dos fatos e suas consequências concretas. Os nomes e as acusações têm que ser revelados para conhecimento geral.

Renan e Cunha desmentem o Planalto e deixam Dilma muito mal

Carlos Newton

Como se sabe, na terça-feira foi vazada propositadamente pelo Planalto a informação de que constam da lista do procurador-geral Rodrigo Janot os nomes do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e do deputado Eduardo Cunha (PMDB-TJ), que coincidentemente presidem Senado e Câmara.

Toda a grande mídia anunciou que Renan e Cunha haviam sido “avisados” pelo Planalto de que seus nomes constavam da lista, como se tivesse ocorrido um ato de gentileza e deferência do Executivo aos dirigentes de um dos outros poderes da República, o Legislativo.

Até então, não se sabia que se tratava de uma iniciativa da cúpula do Planalto visando a desmoralizar os presidentes do Senado e da Câmara, que estavam resistindo a cumprir determinadas ordens da presidente Dilma. Mas a verdade logo começou a surgir.

A notícia foi transmitida em caráter sigiloso (em “off”, como se diz no linguajar jornalístico) aos jornalistas que fazem diariamente a cobertura da Presidência da República, mas todos eles tiveram o cuidado de atribuir a explosiva informação a “assessores do Planalto”, embora sem indicar nomes.

PLANO MAL EXECUTADO

O plano para desmoralizar Renan e Cunha e fazê-los se curvar ao governo começou a desmoronar justamente quando a informação foi atribuída a “assessores do Planalto”. Além disso, os articuladores da manobra esqueceram outro detalhe importantíssimo. Antes de os assessores passarem a notícia aos repórteres, os presidentes do Senado e da Câmara já deveriam ter sido comunicados a respeito da lista, para que depois ninguém pudesse culpar o Planalto por espalhar a “notícia”, porque haveria também possibilidade de a  informação ter sido vazado pelas próprias assessorias de Renan de Cunha, o que ficaria difícil precisar no meio da confusão que fatalmente se formaria.

O fato é que nem a presidente Dilma Rousseff nem o ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil, se deram ao trabalho de avisar Renan e Cunha. E esta falha foi fatal, porque o Planalto acabou dando mais um tiro no pé, como se dizia antigamente.

NINGUÉM OS AVISOU

É claro que a delicada e desabonadora informação não poderia ser transmitida a Renan e a Cunha por um simples assessor do Planalto. A comunicação (ou “o aviso”, como saiu publicado) teria de ser feita pessoalmente pela presidente Dilma ou pelo ministro Mercadante,  em nome dela. Caso contrário, ficaria evidente que uma informação dessa gravidade fora levada ao conhecimento de funcionários subalternos do Planalto, o que representaria uma traição aos dois políticos do PMDB, até então ainda supostos aliados, na condição de dirigentes do principal partido de apoio ao governo.

Como se vê, Dilma e Mercadante são os dois principais aloprados do Planalto. Não tiveram o cuidado de avisar Renan e Cunha, antes que os assessores espalhassem a “notícia”,e agora os presidentes do Senado e da Câmara se sentem traídos e não há mais possibilidade de reconciliação com o Planalto.

TOCA TELEFONE, TOCA

No desespero pela “alopragem” (neologismo criado por Eduardo Cunha), a presidente Dilma já ligou várias vezes para Renan, mas ele não atende. Nem vai atender.

Renan e Cunha já desmentiram publicamente os assessores do Planalto, afirmando que ninguém lhes falou nada sobre a lista do procurador-chefe Janot, ou seja, foram apanhados de surpresa.

Devido a essa “alopragem”, o segundo governo de Dilma, que mal começou, tem agora um encontro marcado com o fracasso. A base aliada não existe mais, a ainda presidente não conseguirá aprovar nada no Congresso, a crise política, econômica e social se aprofundará inexoravelmente. E ela tentará ficar no poder enquanto puder, fingindo que não está acontecendo nada, como se fosse aluna do célebre professor Pangloss.

Se Dilma não souber quem foi Pangloss, pode perguntar a Lula, que com certeza já conhece profundamente as sábias lições do renomado pensador francês. Conforme foi divulgado semana passada pelos dirigentes do Instituto Lula, nos últimos dois anos o ex-presidente se tornou um leitor compulsivo dos clássicos da literatura universal. Pelos títulos citados por seus assessores, a biblioteca de Lula é de fazer inveja. Podem acreditar.

Quanto ao impeachment, é só uma questão de tempo.