“Não matem o mensageiro por revelar verdades incômodas”, desabafa Julian Assange, sobre a perseguição ao site WikiLeaks pelas grandes potências.

Julian Assange (Editor-chefe do WikiLeaks)

Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor do jornal The News, de Adelaide, escreveu: “Na corrida entre o segredo e a verdade, parece inevitável que a venda sempre vença”.

A sua observação talvez reflita o desmascaramento feito pelo seu pai, Keith Murdoch, de que tropas australianas eramr sacrificadas inutilmente nas praias de Galipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não foi silenciado e os seus esforços levaram ao término da desastrosa campanha de Galipoli.

Aproximadamente um século depois, WikiLeaks está também publicando destemidamente fatos que precisam ser tornados públicos.

Criei-me numa cidade rural em Queensland onde as pessoas falavam dos seus pensamentos diretamente. Elas desconfiavam do governo como de algo que podia ser corrompido, se não fosse vigiado cuidadosamente. Os dias negros de corrupção no governo de Queensland antes do inquérito Fitzgerald testemunham o que acontece quando políticos amordaçam a mídia que informa a verdade.

Estas coisas ficaram em mim. WikiLeaks foi criado em torno destes valores centrais. A ideia, concebida na Austrália, era utilizar tecnologias da Internet de novas maneiras, a fim de relatar a verdade.

WikiLeaks cunhou um novo tipo de jornalismo científico. Trabalhamos com outras mídias para levar notícias às pessoas, assim como para provar que são verdadeiras. Este jornalismo científico permite-lhe ler um artigo e então clicar online para ver o documento original em que se baseia. É o modo de julgar por si mesmo se o artigo se baseia na verdade e se o jornalista informou com rigor.

Sociedades democráticas precisam de meios de comunicação fortes e WikiLeaks faz parte dessa mídia que ajuda a manter honesto o governo. WikiLeaks revelou algumas verdades duras acerca das guerras do Iraque e Afeganistão, e desvendou notícias acerca da corrupção corporativa.

Há quem diga que sou antiguerra: para que conste, não sou. Por vezes os países precisam ir à guerra e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo acerca da guerra, pedindo aos cidadãos para colocarem suas vidas e seus impostos ao serviço de mentiras. Se uma guerra é justa, então digam a verdade e o povo decidirá se a apoia.

Se já leu algum dos registros da guerra do Afeganistão ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos EUA ou algumas das histórias acerca das coisas que WikiLeaks informou, considere quão importante é para todos as mídias ter capacidade para relatar estas coisas livremente.

WikiLeaks não é o único divulgador dos telegramas de embaixadas dos EUA. Outros mídias, incluindo The Guardian britânico, The New York Times, El Pais na Espanha e Der Spiegel na Alemanha publicaram os mesmos telegramas.

Mas é o WikiLeaks, como coordenador destes outros grupos, que tem enfrentado os ataques e acusações mais brutais do governo dos EUA e de seus acólitos. Fui acusado de traição, embora eu seja australiano e não cidadão dos EUA. Houve dúzias de apelos graves nos EUA para eu ser “removido” pelas forças especiais norte-americanas.

Sarah Palin diz que eu deveria ser “perseguido e capturado como Osama Bin Laden”, um projeto republicano no Senado dos EUA procura declarar-me uma “ameaça transnacional” e desfazer-se de mim em conformidade. Um conselheiro do gabinete do primeiro-ministro do Canadá defendeu na TV o meu assassinato. Um blogueiro americano propôs que meu filho de 20 anos, aqui na Austrália, fosse sequestrado e espancado por nenhuma outra razão senão a de me atingir.

E os australianos deveriam observar sem orgulho o deplorável estímulo a esses sentimentos por parte de Julia Gillard e seu governo. Os poderes do governo australiano parecem estar à plena disposição dos EUA quer para cancelar meu passaporte australiano ou espionar ou perseguir apoiadores do WikiLeaks. O procurador-geral australiano faz tudo o que pode para ajudar uma investigação norte-americana destinada claramente a enquadrar cidadãos australianos e despachá-los para os EUA.

O primeiro-ministro Gillard e a secretária de Estado Hillary Clinton não tiveram uma palavra de crítica para com as outras organizações de mídia. Isto acontece porque The Guardian, The New York Times e Der Spiegel são antigos e grandes, ao passo que WikiLeaks ainda é jovem e pequeno.

Nós somos os perdedores. O governo Gillard está tentando matar o mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informação acerca do seu próprio comportamento diplomático e político.

Terá havido alguma resposta do governo australiano às numerosas ameaças públicas de violência contra mim e outros colaboradores do WîkiLeaks? Alguém poderia pensar que um primeiro-ministro australiano defendesse os seus cidadãos contra tais coisas, mas houve apenas afirmações de ilegalidade completamente não fundamentadas. O primeiro-ministro e especialmente o procurador-geral pretendem cumprir seus deveres com dignidade e acima da perturbação. Fique tranquilo, aqueles dois pretendem salvar as suas próprias peles. Eles não conseguirão.

Todas as vezes que WikiLeaks publica a verdade acerca de abusos cometidos por agências dos EUA, políticos australianos cantam um coro comprovadamente falso com o Departamento de Estado: “Você arriscará vidas! Segurança nacional! Você põe tropas em perigo!” Mas a seguir dizem que não há nada de importante no que WikiLeaks publica. Não pode ser ambas as coisas, uma ou outra. Qual é?

Nenhuma delas. WikiLeaks tem um histórico de publicação há quatro anos. Durante esse tempo mudamos governos, mas nem uma única pessoa, que se saiba, foi prejudicada. Mas os EUA, com a conivência do governo australiano, mataram milhares de pessoas só nestes últimos meses.

O secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, admitiu numa carta ao congresso que nenhuma fonte de inteligência ou métodos sigilosos haviam sido comprometidos pela revelação dos registros de guerra afegãos. O Pentágono declarou que não havia evidência de que as informações do WikiLeaks tivessem levado qualquer pessoa a ser prejudicada no Afeganistão. A OTAN em Cabul disse à CNN que não podia encontrar uma única pessoa que precisasse proteger. O Departamento da Defesa australiano disse o mesmo. Nenhuma tropa ou fonte australiana foi prejudicada por qualquer coisa que tivéssemos publicado.

Mas nossas publicações estavam longe de serem desimportantes. Os telegramas diplomáticos dos EUA revelam alguns fatos estarrecedores:

* Os EUA pediram aos seus diplomatas para roubar material humano pessoal e informação de responsáveis da ONU e de grupos de direitos humanos, incluindo DNA, impressões digitais, escanerização de íris, números de cartão de crédito, passwords de Internet e fotos de identificação, violando tratados internacionais. Presumivelmente, diplomatas australianos na ONU também podem ser atacados. 

* O rei Abdulah, da Arábia Saudita, pediu que os EUA atacassem o Irã. 

* Autoridades da Jordânia e do Bahrain querem que o programa nuclear do Irã seja travado por quaisquer meios disponíveis.

* O inquérito do Iraque na Grã-Bretanha foi viciado para proteger interesses dos EUA.

* A Suécia é um membro encoberto da OTAN e a parceria com a inteligência dos EUA é resguardada do parlamento. 

 * Os EUA estão agindo de forma agressiva para conseguir que outros países recebam presos libertados da Baía de Guantánamo. Barack Obama só concordou em encontrar-se com o presidente esloveno se a Eslovénia recebesse um prisioneiro. Ao nosso vizinho do Pacífico, Kiribati, foram oferecidos milhões de dólares para aceitar detidos.

Na sua memorável decisão no caso dos Pentagon Papers, o Supremo Tribunal dos EUA declarou: “Só uma imprensa livre e sem restrições pode efetivamente revelar fraude no governo”. Hoje, a tempestade vertiginosa em torno do WikiLeaks reforça a necessidade de defender o direito de todos as midias revelarem a verdade.

* Artigo publicado a 8 de dezembro de 2010 pelo jornal The Australian

A agonia do neoliberalismo

Carlos Chagas 

Vale, por um dia, começar além da  política nacional,  arriscando  um mergulho lá fora. O que continua a  acontecer  na França, onde montes de carros, escolas, hospitais e residências comuns estão sendo queimados e saqueados? Qual a razão de multidões de jovens irem para as ruas, enfrentando a polícia e depredando tudo o que encontram pela frente?  Tornando quase  impossível a vida do cidadão comum, não apenas em Paris, mas em muitas cidades francesas,  onde instaurou-se o caos. Por quê?
                                          
É preciso  notar que o protesto vem das massas, começando pelas  massas excluídas,  de negros, árabes, turcos e demais  minorias que buscaram na Europa  a saída para a fome, a miséria e  a doença onde viviam,  mas frustraram-se,  cada vez mais segregados, humilhados e abandonados. Exatamente como em seus países de origem.
                                         
Não dá  mais para dizer que essa monumental  revolta é outra solerte manobra do comunismo ateu e malvado. O comunismo acabou. Saiu pelo ralo.  A causa do que vai ocorrendo repousa  precisamente no extremo   oposto: trata-se do resultado do neoliberalismo. Da consequência de um pérfido  modelo econômico e político que privilegia as elites e os ricos, países e pessoas, relegando  os demais ao desespero e à barbárie.

Porque sempre que se registra uma crise econômica nas nações neoliberais, a receita é a mesma, seja na França ou na Grécia, em Portugal ou na Espanha: medidas de contenção anunciadas para reduzir salários, cortar gastos públicos,  demitir nas repartições e nas fábricas, aumentar impostos e taxas. 
                                         
Fica evidente não se poder concordar com a violência.   Jamais justificá-la.  Mas explicá-la, é possível.  Povos de nações e até de  continentes largados ao embuste da livre concorrência, explorados pelos mais fortes, tiveram como primeira opção emigrar para os países ricos. Encontrar emprego, trabalho ou  meio de sobrevivência. Invadiram a Europa como  invadem os Estados Unidos, onde o número de latino-americanos cresce a ponto de os candidatos a postos eletivos obrigarem-se a falar espanhol,  sob pena de derrota nas urnas.
                                        
Preparem-se os  neoliberais. Os protestos não demoram a atingir outras  nações   ricas.   Depois, atingirão os ricos das nações  pobres. O que fica impossível é empurrar por mais tempo com a barriga a  divisão do planeta entre inferno e paraíso, entre  cidadãos de primeira e de segunda classe. Segunda?   Última classe, diria o bom senso.
                                    
Como refrear a  multidão  de jovens sem esperança, também  de homens feitos e até de idosos,  relegados à situação  de  trogloditas em pleno século XXI?  Estabelecendo a ditadura, corolário mais do que certo do  neoliberalismo em agonia? Não vai dar, à   medida em que a miséria se multiplica e a riqueza se acumula.  Explodirá tudo.
                                    
Fica difícil não trazer esse raciocínio para o Brasil. Hoje, 40  milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com a metade desse  obsceno salário  mínimo que querem elevar para 540 reais.  Os bancos lucram bilhões a cada trimestre, enquanto cai o poder aquisitivo dos salários. Isso para quem consegue mantê-los, porque, apesar da propaganda oficial, o desemprego continua presente.   São 15 milhões de desempregados em todo  o  país, ou seja, gente que já  trabalhou com dignidade e hoje vive de biscates, ou, no reverso da medalha,  jovens que todos os anos gostariam de entrar  no mercado sem nunca  ter trabalhado.
                                             
Alguns ingênuos imaginam que o bolsa-família e sucedâneos resolveram a questão, mas o assistencialismo só faz aumentar as diferenças de classe. É crueldade afirmar que a livre competição resolverá tudo, que um determinado cidadão era pobre e agora ficou rico. São exemplos da exceção,  jamais justificando a regra de que, para cada um que obtém sucesso, milhões  continuam na miséria. 
                                       
Seria bom o governo Dilma  olhar para a França. O rastilho pegou e não será a polícia francesa que vai  apagá-lo. Ainda que consiga,   reacenderá   maior   e mais forte pouco depois. Na Europa, nos Estados Unidos e sucedâneos.   Até ou especialmente entre nós. Ainda  agora assistimos a tragédia na serra fluminense,   com   os ricos e os remediados fugindo, mas com a população pobre, majoritária, submetida  à morte e à revolta.  
                                        
A globalização  tem, pelo  menos, esse mérito: informa em tempo real ao  mundo que a saída deixada às massas encontra-se na rebelião. Os que nada tem a perder já eram maioria, só que agora estão  adquirindo  consciência, não só de suas perdas, mas da capacidade de recuperá-las através do grito de “basta”, “chega”, “não dá mais para continuar”.
                                        
Não devemos descrer da possibilidade de reconstrução.  O passado não está aí para que o  neguemos, senão para que o integremos. O passado é o nosso maior tesouro, na medida em que   não  nos dirá o que fazer,  mas precisamente o contrário. O passado  nos dirá sempre o que evitar.
                                        
Evitar,   por exemplo, salvadores da pátria que de tempos em tempos aparecem como detentores das verdades absolutas, donos de todas a soluções e proprietários de todas as promessas.

Guanaes confunde cultura com investimento publicitário

Pedro do Coutto

Em artigo que saiu no Caderno Mercado da Folha de São Paulo de terça-feira, o publicitário Nizan Guanaes, cuja tendência, me parece, é a transferir seu êxito pessoal no campo da publicidade para todos os assuntos, fez a apologia da inovação no processo humano, no que está certo, mas errou intensamente ao dizer que o criativo é naturalmente destrutivo. Absurdo completo. Todo processo humano, começa pela cultura, que é a razão da vida, é cumulativo, não substitutivo.

Equivoca-se: projetou seu universo pessoal de ação como modelo a ser seguido por todos. A contradição maior em que caiu, em síntese, foi destacar o caráter axiomático da publicidade sem levar em conta o teorema da existência. A publicidade é axiomática por isso não depende de comprovação prática. A comunicação em geral, inclusive política, é um teorema. Ou seja exatamente o oposto. Da mesma forma que a mágica é o oposto da lógica.

A imprensa surgiu no mundo com a galáxia de Gutemberg, por volta de 1450, mas não acabou com o livro no mundo. Ao contrário. Unificou o Velho e o Novo Testamento, produzindo a edição completa da Bíblia. Não destruiu, e sim democratizou o livro. A impressão em série não apenas assegurou ritmo veloz ao processo cultural, como consolidou o princípio da libertação torrencial da cultura.

A fotografia não acabou, muito menos destruiu a pintura. A Mona Lisa, no Louvre, Paris, continua sendo o quadro mais admirado e visitado do planeta. Foi pintado por Leonardo Da Vinci há pouco mais de 500 anos. Resiste ao tempo, a exemplo da arte que não sensibiliza e motiva Guanaes. O cinema não destruiu o teatro. O rádio não substituiu os jornais e a imprensa.

A televisão não eliminou o cinema. Pelo contrário: tornou os filmes assistidos não por milhões, mas por bilhões de pessoas que não caberiam nas salas de exibição. Agora, cada tela da TV é uma sala particular na residência de cada um e de todos. Nizan Guanaes afirmou que o facebook é a cara do hoje, pelo número de acessos que possui e habilita.

Ora, facebook substituir a cultura e o pensamento? Isso só num jingle de televisão, ou anúncio bem colocado em páginas de jornais. Ai do ser humano e do futuro, se a existência, cujo processo múltiplo e complexo, fosse depender da república do facebook e da insustentável leveza do ser.

O tema cultura, vale lembrar, meses atrás na página que aos domingos ocupa na Folha de São Paulo, foi magnificamente abordado por Ferreira Gullar. Ele provou, de modo irrefutável, que o nosso presente depende sempre de nossa memória. Caso contrário, como poderíamos relativizar nossas opiniões, impressões, conceitos, suposições? Porque – digo eu – cultura é apenas a passagem do ser humano pelo mundo. Seu eco, seu rastro, sua sombra. Suas impressões digitais, como gosta de acrescentar o acadêmico Marcos Vilaça, presidente da ABL.

A inovação é indispensável, como aliás frisou Guanaes no artigo. Mas ela eternamente partirá de quê? Da dúvida. Pois, sem dúvida, não há pensamento e sem pensamento não pode haver progresso. O movimento cultural se auto-realimenta. E para o ser humano, inovar não pode ser sinônimo de arrasar, destruir. Se assim fosse, tantas são as descobertas através dos séculos, que elas já teriam destruído quase tudo. A começar pela ideia de Deus e do que vem depois de nós.

Se a inovação se impusesse, a vida não seria como ela é. Qualquer inovação seria mais importante daquilo que a precedeu. E não é assim. Guanaes falhou ao negar a força eterna do passado e do pensamento.

Deputado tentou organizar um programa de prevenção a deslizamentos e enchentes no Estado do Rio, mas a Assembleia e o governo não dão importância a esse tipo de iniciativa.

Carlos Newton

Em seu primeiro artigo sobre as novas tragédias das chuvas, Helio Fernandes mostrou aqui a importância de duas medidas administrativas, que se somam e se acoplam: prevenção e mapeamento. Sem isso, não há como evitar que novos temporais, deslizamentos e enchentes façam tantas vítimas.

No verão passado, quando ocorreram as tragédias de Angra dos Reis, Ilha Grande, Morro do Bumba (Niterói), São Gonçalo, Baixada Fluminense e Morro dos Macacos (Rio), o deputado estadual André Lazaroni (PMDB) apresentou importante projeto na Assembleia, instituindo o Programa de Diagnóstico dos Riscos Geotécnicos e Ambientais, com a finalidade de criar um sistema de controle imediato que possa evitar novas vítimas de desabamentos, temporais e enchentes e em áreas habitadas.

“Precisamos mapear todas as áreas de risco existentes no Estado do Rio de Janeiro, a começar pelos locais onde ocorrem deslizamentos e enchentes”, afirmou à época o deputado, ao justificar a importância da proposta, detalhando que é preciso identificar também todos os pontos de estrangulamento e assoreamento de rios e córregos.

Da mesma forma, André Lazaroni incluiu no programa todas as encostas com declives acima de 30 graus, tenham cobertura vegetal ou não, para discriminar nesse mapeamento estadual todas as áreas onde haja possibilidade de deslizamentos, com prioridade para as que estejam ocupadas por habitações. 

“Somente identificando os pontos de maior risco é que o governo estadual e as prefeituras terão condições ideais para providenciar obras de contenção ou até remover os moradores, de forma a evitar novas tragédias como as que aconteceram recentemente em Angra dos Reis, Ilha Grande, Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Baixada”, destacou no início do ano passado André Lazaroni, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia fluminense.

O programa idealizado por ele inclui também as faixas marginais de rios e córregos, assim como as áreas submetidas à erosão devido à ausência de cobertura vegetal. “Os mapas e relatórios serão confeccionados com base em critérios técnicos, observados os dados já existentes na administração pública, inclusive os relativos a eventos anteriores”, afirmou o deputado.

“Teremos como base os levantamentos geotécnicos já realizados no Estado, e vamos atuar sempre em parceria com as coordenadorias de Defesa Civil do Estado e dos Municípios”, salientou André Lazaroni, que no verão passado esteve diversas vezes vistoriando os locais atingidos por desabamentos, não somente em Angra dos Reis e na Ilha Grande, mas também nos outros municípios afetados.

Um ano inteiro se passou e não aconteceu nada. Até agora a Assembléia não votou o projeto, e o governo do Estado do Rio também não demonstrou o menor interesse em levar adiante esse programa de prevenção e mapeamento, que é a única maneira de minimizar os efeitos negativos dos temporais, enchentes e deslizamentos que ocorrem todos os verões.

É revoltante. As famílias das vítimas deviam processar o Estado por omissão administrativa. Não se pode simplesmente alegar que choveu demais. Como mostra o programa idealizado pelo parlamentar, há maneiras de prevenir. Mas falta vontade política.

Da TRAGÉDIA, da CATÁSTROFE, do ASSOMBRO dos mais de 500 mortos só na Região Serrana do Rio, de positivo, apenas a SOLIDARIEDADE do POVO com o próprio POVO. De negativo, a imprudência de Alckmin e cabralzinho.

Helio Fernandes

Não posso deixar de começar (mais uma vez me perguntando e procurando entender com especialistas o fato dessas catástrofes se repetirem), com a entrevista do governador do Rio. Só podia ser na Globo, ele sozinho diante de um microfone, nem mesmo um repórter para fazer indagações, pedir explicações. Não, ninguém podia “roubar” o espaço e o tempo do governador.

E Cabral, ínclito, altivo, altaneiro, textual: “É muita irresponsabilidade dessas famílias que vão morar em lugares inacessíveis, áreas de risco permanente, morrem e traumatizam o país”.

Já que deixou o governador BRADAR sozinho a RESPONSABILIDADE do povo, e a sua total isenção diante da catástrofe, a Globo precisaria explicar: “Por que o governador viajou para o exterior quando a tragédia já caminhava para o auge ou apogeu?”

Qual a razão do governador ficar no exterior, só decidiu voltar quando soube que Dona Dilma viria ao Rio, o “holofote” estaria garantido. De passagem, poderiam perguntar a Sergio Cabral: “Quem financiava sua viagem de férias? O Estado do Rio? Impossível. Ele mesmo? Tem recursos, apesar de acusadíssimo de enriquecimento ilícito (começando no dossiê Marcello Alencar), e também pelo fato de nunca ter trabalhado na vida, só ocupado cargos públicos. A Globo fará essas indagações, o governador responderá?

Os exemplos de coragem, de luta, de solidariedade são centenas, mas podem ser resumidos num episódio emocionante. Dois rapazes, no terceiro andar de um prédio, viram uma mulher tentando se segurar nos escombros de uma casa, (que logo seria derrubada por ondas colossais) jogaram uma corda para ela. O que aconteceu depois, de tão empolgante e emocionante, parece inacreditável pelo desfecho;

Quase levada por aquelas ondas assustadoras, ela conseguiu pegar a corda (fina, e é impossível explicar como se agarrou), os rapazes começaram a puxá-la de 12 metros de altura, ninguém acreditava que pudesse se manter agarrada, e que eles, lá de cima, tivessem força para puxá-la.

Pois tiveram, ela se manteve firme, eles num esforço impressionante, conseguiram puxá-la e colocá-la no terraço da casa. Duvido que alguém, acompanhando pela televisão, não tivesse ficado emocionado, rezando, torcendo, pedindo a Deus, de toda e qualquer maneira.

Para essa salvação milagrosa (desculpem), mais de 500 outras não puderam se salvar, não tiveram a menor chance ou oportunidade. Desesperadas, sequestradas pelas chuvas OCASIONAIS, e pela OMISSÃO PERMANENTE das autoridades, que descuidaram das suas obrigações e deveres. Morreram até mesmo sem saber como.

Aquele senhor, que depois de muito procurar “achou” a casa, lhe perguntaram, “alguém vivo?”. Respondeu: “Eram 9 pessoas da minha família, todos morreram”.

E diante do horror dos que ouviam, concluiu afirmando ou perguntando: “O que é que eu posso fazer?” Nada mais lancinante do que os dois fatos juntos. A perda de 9 familiares (mulher, filhos, pais e sogros) e a constatação lancinante, mas que podia muito bem ser chamada de REVOLTADA, nas circunstâncias horrorosas.

Esse homem reconhecia que não podia fazer nada, mas ao mesmo tempo condenava os que podiam fazer e não fizeram. No ano passado, na mesma região, temporal e desabamento, não na proporção de agora, mas com advertências de técnicos de todas as formações.

Diante do vulto da DESTRUIÇÃO, quase todos perguntam: “Quanto tempo levará para a RECONSTRUÇÃO?”. E esses mesmos especialistas, engenheiros, geólogos, os que estudam a movimentação das águas, represadas, libertadas, mudando de curso e de percurso, descendo a uma velocidade de mais de 100 quilômetros, respondem: “Pode calcular em 10 anos, se forem tomadas as providências adequadas”.

Outros especialistas, que passam a vida estudando para que outros não percam a própria vida, dizem: “Isso é tarefa para uma geração”. E repetem, para demonstrar a falta de confiança nos que fingem que governam: “Se forem tomadas as providências indispensáveis”.

Mas a preocupação desses técnicos se localiza também no AGORA, advertem: “Vai continuar chovendo, mais tragédia”. E em muitos lugares, existem populações ainda “ilhadas”, sem o mínimo de possibilidade de socorro.

No Brasil nunca houve nada parecido. E o governador cabralzinho “condena” os que vão morar em encostas, mas não assume a responsabilidade em duas grandes questões. 1 – E a fiscalização, responsabilidade do seu próprio governo? 2 – E não dá uma palavra a não ser de reprovação, para os que vão morar nas encostas? Morariam em que lugares, no “entendimento” dele?

*** 

PS – No Estado do Rio, cabralzinho é o maior responsável, perdão, irresponsável, por omissão.

PS2 – No plano nacional, quem vai responsabilizar o ex-ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima? “Financiou” a própria candidatura a governador da Bahia, com o dinheiro que era para investir em áreas de risco. Pois 50 por cento dessas verbas, JOGOU na Bahia, que não teve chuvas e logicamente sem tragédia. Não vai responder por CRIME DOLOSO?

PS3 – E Geraldo Alckmin, o grande responsável em São Paulo. Voltou a chover na capital. Mas Alckmin se recolheu à própria insignificância. Depois de dizer, “não posso resolver nada em 24 horas”. Esquecido que, desde 1994, está no governo de São Paulo, como vice em exercício ou governador pela TERCEIRA VEZ, inconstitucional. Ficará impune?

Conversa com comentaristas, sobre dois assuntos: a Olimpíada e a tragédia anunciada das chuvas

Aroldo Teroz de Lima: “Senhor Jornalista, favor me esclarecer: na Olimpíada de 2016. que será na cidade do Rio de Janeiro, haverá jogos em Manaus como o senhor informou? Grato”.

Comentário de Helio Fernandes:
Não é a primeira cidade que realiza Olimpíadas com jogos em outros estados. É que eles são muitos, se fossem só no Rio, demorariam mais do que o resto. No Rio, só o Maracanã e agora o Engenhão. Por isso o futebol será jogado em outros estádios, incluindo o de Manaus, que está sendo construído.

***

 AS ENCOSTAS TÊM DONO

Ofelia Alvarenga:Helio, você, homem de cidade balneário (ao nível do mar), sabe o que é uma tromba d’água na serra, em região de montanhas? Não sabe, Hélio. Ainda que não houvesse uma única construção em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, as águas rolariam com igual intensidade, Hélio. Mas seria uma briga justa, a da natureza contra a própria natureza.
Os humanos são frágeis, Hélio, admiram essa natureza que de vez em quando lhes prega peças. Querem viver, conviver com ela, natureza, em lugares aprazíveis. Às vezes não deveriam, não poderiam construir nada aqui ou ali, mas o descaso das autoridades permite e/ou não fiscaliza. Quando a tromba d’água chega sem sobreaviso querem detê-la? Jamais conseguirão, é uma luta desigual, inglória.
As autoridades são omissas. Conhecem a força das águas e acham que também não conseguirão contê-la. Mas, ao invés de usar a lei para dizer, “olha, aqui não pode, aqui não dá”, deixam pra lá. E a desgraça se repete.
É preciso fazer um estudo sério do solo, do curso dos rios, do tipo de vegetação e também uma retrospectiva das enchentes anteriores. Ensaiar e ver o que acontece”.

Comentário de Helio Fernandes:
Teu texto, tuas recordações e lembranças, excelentes. Estou relendo, é ótimo. Desde pequeno, apesar de nascer e morar em cidade-balneário, fui sempre lembrado da invencível força da água, que você denomina muito bem de tromba d’água. Mais terrível do que isso, só o propagar, que palavra, do fogo. O homem pensa que pode tudo, menos contra a rebelião ou a revolta da natureza.

Mas precisamente por reconhecer a impossibilidade de vencer a água e o fogo, é que deveríamos exigir providências. Para perder por menos. E não deixar ninguém morar em encostas que já tem donos, pertencem à natureza.

Dona Erenice Guerra, que tem arquivos, não quer ser arquivada

Helio Fernandes

Muita gente ficou surpreendida quando viu a “ex-braço direito de Dona Dilma”, no reservado das autoridades, na cerimônia da posse. Agora, o problema que ninguém sabe como resolver: ela quer e precisa de um cargo importante. E tem como obter. A presidente tem como nomear?

*** 

PRESIDENTE DO PT, DESPRESTIGIADO

Seu nome, José Eduardo Dutra, Nos círculos políticos (principalmente entre PT e PMDB), ridicularizado e desmoralizado. Não consegue nada. Suplente de um senador de Sergipe (seu estado) tentou fazê-lo ministro, para assumir no Senado. Não conseguiu.

Agora tenta a BR- Distribuidora, com orçamento de apenas miseráveis 700 milhões. Não consegue, apesar de já ter sido presidente da Petrobras e da própria BR.

Seu passado eleitoral é ruim: derrotado duas vezes para governador e uma para senador. Como chegou a presidir o PT?

Ministro diz que a Previdência “é um tremendo abacaxi”, mas Barbalho, Jucá e outros da mesma estirpe, não acharam.

Helio Fernandes

Já foi prefeito, governador, senador duas vezes, presidente do Senado. Escolhido para Ministro da Previdência, disse textualmente: “É um tremendo abacaxi”. É possível que seja, por causa das intromissões do governo.

Mas para quem não rouba (é o caso de Garibaldi Alves), é experiência magistral. Valdir Pires, que foi excelente ministro, apesar de estar vivo, ganhou seu nome num prédio.

Quanto a Romero Jucá, Jader Barbalho e outros do mesmo tipo sanguíneo, não têm do que se queixarem. Barbalho foi nomeado por Sarney, que depois o promoveu a Ministro da Reforma Agrária. Que República.

Nota 10 para Dilma (mas não é adesão)

Helio Fernandes

Não é adesão, como alguns “paulistas” vão dizer logo, aqui mesmo. Mas a declaração da presidente, “não quero ver Eduardo Cunha por perto”, é merecedora dos maiores elogios. Ele é o rei do “lobismo”.

 ***

A PRESIDÊNCIA DA CÂMARA

Fui o primeiro, logo depois da posse da presidente Dilma, a alertá-la sobre a coordenação-intimidação para derrubar Marco Maia, candidato do PT-PMDB. Deputados “da base”, não tendo recebido os cargos que “pretendiam” e que alegavam que “mereciam”, procuravam formar um bloco e criar problemas para o Planalto.

Enquanto esses lobistas cuidavam do próprio interesse, o Planalto “acordou” tarde. Agora, se sentindo abandonado, o próprio Marco Maia se movimenta, percorre o país, implantando sua candidatura.

O Planalto-Alvorada ainda não percebeu: o que se trava não é a guerra pela presidência (que tem a sua importância compreensível), mas alguma coisa sem limite. Se derrotarem o governo e ganharem a presidência, Dona Dilma perderá tudo na Câmara, quer dizer, no Congresso. Um grupo minoritário, se juntou, não para fazer oposição, mas para arrancar compensação.

***

DÓLAR “FUTURO” E À VISTA

O primeiro movimentou ontem 14 BILHÕES, o segundo, 1 BILHÃO E 700 MILHÕES. Notem a diferença. O dólar à vista fechou em 1,68, e isso porque subiu meio por cento. Há mais ou menos 2 meses e 15 dias, não sai de perto de 1,70.

Mantega não perdeu tempo: “Os swaps vão frear a queda do dólar”. Ah! Mantega. E a taxação do compulsório, só em abril?

Os gastadores e os mãos-de-porco

Carlos Chagas 
                                              
Terá  Dilma Rousseff conseguido enquadrar o ministério, na primeira reunião de trabalho, ontem? Melhor marcar coluna do meio. Apesar do tom áspero com que a presidente dirigiu-se à equipe, ficou claro que parte de seus ministros discorda dos cortes de mais de 40 bilhões no orçamento, anunciados por Guido Mantega. Só faltou Dilma repetir as palavras preparadas por  Tancredo Neves  mas não  pronunciadas  na posse que não aconteceu: “é proibido gastar”.

Como deixar de  gastar?, pensaram  sem protestar  os ministros da área social. Dentro de um mês a própria presidente irá cobrar resultados de seus ministros, mas com as limitações agora impostas muitos  ficarão felizes caso consigam apenas  evitar a paralisação nos respectivos setores.
                                              
Espera-se, no ministério, que essa primeira palavra de ordem venha a ser flexibilizada. De que maneira os ministérios da Saúde, das Cidades e da Defesa, por exemplo, evitarão vultosos  gastos suplementares para enfrentar os efeitos da catástrofe verificada no Rio?  Ou de que forma o   ministério do Desenvolvimento Social negará aumento e ampliação do bolsa-família aos treze milhões de beneficiados com o programa? Como enfrentar a reação nacional ao salário-mínimo de 540 reais, mesmo se for contida a grita parlamentar por um reajuste mais justo e, claro, também por mais cargos no segundo escalão?
                                              
Em suma, mesmo com a tomada de posição  da presidente da República em favor dos ministros defensores da contenção, não se convenceram os ministros empenhados em realizações. Repete-se outra vez a quase centenária disputa entre os gastadores e os  mãos-de-porco.  
 
O JULGAMENTO DE DEUS
 
Com todo o  respeito, mas uma pergunta não quer calar: chame-se Padre Eterno, Jeová, Alah, Tupã, Júpiter, Zeus ou de  que outro nome disponha,  ELE não poderia ter evitado a tragédia que assola o estado do Rio? Afinal, não custaria nada desviar as tempestades e trombas d’água um pouquinho para lá, sobre o mar. Crianças morreram aos montes na serra fluminense, não seria o caso de terem sido poupadas? Qualquer dia desses, bem  antes do Juízo Final, alguém tomará a iniciativa de  convocar um tribunal para julgá-LO…
 
CRIMES HEDIONDOS
 
A televisão e os jornais têm mostrado menos do que deveriam cenas da região serrana fluminense onde cidadãos desesperados com a catástrofe estão fazendo justiça com as próprias mãos.  Os bandidos flagrados roubando casas abandonadas tem sido surrados  à exaustão. Provavelmente muitos acabaram engrossando a relação dos óbitos gerados pelas inundações. A questão é complicada: fazer o quê com esses animais? A polícia, mesmo se quisesse, não daria conta de  evitar a indignação popular.

Se há um crime hediondo não capitulado na legislação é esse praticado pelos ladrões em pleno caos encenado pela  natureza. Não há que concordar com a violência  e a ira quase sagrada dos que perderam a família e os bens, diante dos  que se aproveitam de sua  desgraça.  Mas  dá vontade.
 
DE VOLTA PARA O FUTURO
 
Não demora para o  Lula estar de volta de seu descanso na praia administrada pelo Exército. Retorna a São Bernardo. Ainda este mês poderá estar na nova festa de aniversário de criação do PT, quando reverá Dilma Rousseff. E depois?
                                                       
Só por milagre se suporia o ex-presidente escrevendo  suas memórias. Pensará que é cedo, tendo em vista o que ainda pode acontecer. Viajar para o exterior, nem pensar. Percorrer o país fazendo política pode não ser tão simples como imaginou. Ainda que possam sobrar convites, faltarão motivações específicas. Fica difícil começar já a campanha para voltar ao poder, como fez Juscelino Kubitschek em 1961. Seria atropelar o governo de Dilma Rousseff.

Melhor mesmo parece  agilizar os planos para a criação de uma fundação que leve o seu nome e reúna seus arquivos, certamente em São Paulo.

Torrentes de omissões no rastro das tragédias

Pedro do Coutto

Desde 1966, primeiro ano do governo Negrão de Lima, que temporais desabam no Rio de Janeiro e os governadores e prefeitos anunciam as mesmas providências preventivas , a monitoração das chuvas, o desentupimento dos bueiros, a remoção de casas em áreas de risco e, inevitavelmente, dão ênfase aos recursos federais necessários às obras inadiáveis, mas que não foram repassados, principal motivo do adiamento das ações concretas.

Negrão de Lima enfrentou bem, não apenas um, mas dois temporais que invadiram a cidade em 67 e no ano seguinte, além dos temporais políticos em torno de sua administração. As duas passeatas contra a ditadura, de junho de 68, a dos 100 mil que paralisou a capital, mas iniciou uma perspectiva de diálogo com a ditadura, e a dos 50 mil, dois meses depois, que culminou com o cerco desnecessário comandado por Vladimir Palmeiras e Franklin Martins ao STM e que forneceu pretexto para uma retomada da ofensiva do ciclo dos  generais contra as manifestações populares. Foram  as tempestades da era negrão de Lima. Ficam na história.

As chuvas continuaram a desabar, tanto na política quanto nas cidades fluminenses, mas as providências preventivas voltaram a não sair do papel. Assim foi em 87, na administração do prefeito Saturnino Braga, numa sequência de desastres ecológicos que começou a se espalhar por uma série de outras localidades fluminenses, incluindo Angra dos Reis, Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Morro do Bumba, em Niteroi, e agora na região Serrana, matando centenas de pessoas soterradas em Teresópolis, Petrópolis, Friburgo.

Não é uma coincidência, tampouco somente uma fatalidade. São forças inevitáveis da natureza, mas que não  foram amortecidas em sua violência por obras de escoamento, drenagem, proteção ambiental contra  desmatamentos criminosos, e construção em áreas verdes em cima de antigos cursos d’água que, de repente, ressurgem e arrastam prédios, favelas, casas, condomínios.

Não há rigor na liberação de obras dentro dos limites que o bom senso e a prudência indicam. São substituídos pela falta de obstáculos no campo sombrio da corrupção. Não são realizados serviços de impermeabilização adequados, sobretudo levando-se em conta uma lei universal eterna: a lei da gravidade.

As concorrências no papel estão perfeitas, todas as exigências atendem aos padrões técnicos nacionais e até internacionais. As investigações nesse campo levam inevitavelmente a um resultado igual a zero. Onde fica então a diferença entre o certo e o errado? Boa pergunta. A resposta está na medição invisível a olho nu. Por exemplo:  determinado cálculo exige a aplicação, digamos, de cinco sacos de cimento  por metro quadrado. Muito bem. Entram só quatro. O valor da quinta saca, que é paga, mas não existiu, é dividido em partes iguais pela empresa executota e pela fiscalização que deveria zelar pelos padrões técnicos de segurança. Daí resulta exatamente o efeito contrário: a insegurança.

Não são feitos cálculos de resistência do solo, de penetração natural das águas, da capacidade das redes pluviais, sobretudo em face do crescimento da população. A cada  doze meses, o total de habitantes do país, e portanto de todas as cidades, é de 1,2% maior. As redes pluviais e de esgotos teriam que se expandir na mesma proporção. Mas não se expandem e, com isso, o déficit da capacidade de escoamento das chuvas, cresce na mesma proporção.

Estamos, hoje, há 44 anos da primeira tragédia, como aliás destacou muito bem O estado de São Paulo em sua edição de quarta-feira. Planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades, torrentes e inundações, é obrigação do poder público. Está no item 18 do artigo 21 da Constituição Federal. Mais um belo princípio que está só no papel, na chuva e no sereno.

O exemplo de um povo, que em menos de um século, deixou de viver num regime semi-feudal para fazer uma revolução de verdade

Jorge Folena

É difícil escrever qualquer palavra neste momento de tristeza, após mais uma noite de intensas chuvas no Estado do Rio de Janeiro, nesta tragédia que se repete todos os anos e que, desta vez, deixou centenas de mortos. A vida humana, neste cenário de lugar comum, perdeu o sentido.

***

O panorama na velha Europa é de uma crise econômica cada vez mais alarmante, com austeridade fiscal e redução de salários. Em vários países, além do combate contínuo à presença de imigrantes de suas ex-colônias, existe ainda a crescente preocupação com a migração interna de cidadãos oriundos das regiões mais pobres do continente.

Os países mais desenvolvidos querem se afastar do Euro e regressar às suas moedas nacionais originárias, criando assim a expectativa de exportar alguma coisa a mais em mercados cada vez mais concentrados por capitais especulativos, o que só faz aumentar os preços das matérias-primas. Os ultraconservadores ganham mais espaço, num continente envelhecido e que poderá, em breve, restringir direitos fundamentais de sua população. Na verdade, este filme não é novo e ocasionou duas grandes guerras no século passado. 

Enquanto isto, as ex-colônias européias na África despontam como o lugar do futuro. O continente africano tem uma população muito jovem e nisto reside a esperança de dias melhores. Apesar de os países africanos serem ainda, o tempo todo, chantageados e corrompidos pelos exploradores de sempre, que cobiçam suas riquezas, a esperança mora naquele continente e poderá em breve dar prosseguimento a verdadeiras revoluções para a transformação de seu povo, usurpado pelo colonialismo e pelo imperialismo das Idades Moderna e Contemporânea. 

***

A República Popular da China tem, no preâmbulo de sua Constituição, a seguinte lembrança histórica: “Depois de uma muito árdua, prolongada e complexa luta, pelas armas e por outras formas, o povo chinês de todas as nacionalidades, dirigido pelo Partido Comunista da China e chefiado pelo Presidente Mao Zedong, acabou por derrubar em 1949 o domínio do imperialismo, do feudalismo e do capitalismo burocrático, obteve a grande vitória da nova revolução democrática e fundou a República Popular da China. Desde então o povo chinês tomou o poder político em suas mãos e tornou-se senhor do seu próprio país”.

Após a fundação da República Popular, a transição da sociedade chinesa da nova democracia para o socialismo foi-se fazendo aos poucos. Completou-se a transformação socialista da propriedade privada dos meios de produção, foi suprimido o sistema de exploração do homem pelo homem e estabeleceu-se o sistema socialista.

A ditadura democrático-popular, conduzida pela classe trabalhadora e baseada na aliança dos trabalhadores e dos camponeses — que é, no fundo, a ditadura do proletariado — tem-se vindo a consolidar e a desenvolver.

O povo chinês e o Exército de Libertação do Povo Chinês conseguiram fazer frente à agressão, à sabotagem e às provocações armadas de imperialistas e hegemonistas, salvaguardando a independência nacional da China e sua segurança e fortalecendo a defesa nacional. No domínio do desenvolvimento econômico averbaram-se grandes êxitos.

Implantou-se na indústria um sistema socialista independente e largamente integrado. A produção agrícola registrou um assinalável aumento. Fizeram-se significativos progressos nas áreas da educação, da ciência e da cultura e a formação ideológica socialista obteve notáveis resultados. O nível de vida do povo melhorou consideravelmente.”

Esta mesma China, em menos de um século já fez a sua revolução cultural, deixou de ser um país semi-feudal para levar o homem ao espaço (apenas três países conseguiram isto com tecnologia própria), bem como o Estado Chinês passou a ser o segundo maior investidor do mundo, adquirindo empresas capitalistas, minas e terras estratégicas.

A tragédia da irresponsabilidade. Em São Paulo, excesso de CONCRETO e OBRAS VIÁRIAS. No Rio, duas catástrofes: falta de PREVENÇÃO e MAPEAMENTO. E alguns, até aqui mesmo, defendem as “autoridades”.

Helio Fernandes

Não ia escrever mais sobre o assunto, como disse a Ofelia Alvarenga: “Não consigo mais ver tanta desgraça, mudo de canal”. Não adianta, todos repetem com insistência as mesmas coisas, principalmente no Rio e em São Paulo.

Mas quando vi o relato da artista plástica e advogada Bia Garcez (aqui mesmo no Blog), nem sei como conseguiu mandar, sem comunicação, ilhada, perdeu tudo), decidi que diante desse libelo-lamento-condenação, precisava continuar.

No momento, não há nada mais importante, triste, doloroso, irreparável. E fico estarrecido com o fato de muitos defenderem esses governantes do Rio e de São Paulo.

Algumas coisas que coloquei no título destas notas, precisam ser dissecadas. Rio de Janeiro, Região Serrana. Os fatos se repetem, às vezes mudando de locais, mas sempre destruidores, arrasadores, e não inesperados. Os especialistas, na televisão ou em contatos pessoais com o repórter, repetem mais de 100 vezes: “Com MAPEAMENTO e PREVENÇÃO, gastaríamos menos de 10 por cento do que teremos que gastar na RECONSTRUÇÃO”.

E acrescentam, alguns até revoltados: “O descaso de prefeitos e do próprio governador do Estado do Rio, impressionante”. Ainda de Francis Bogossian, presidente do Clube de Engenharia, (um dos mais sérios, competentes e importantes do Rio), em entrevista na televisão: “Temos feito relatórios que mandamos para as autoridades, ALERTANDO, recebem tudo, engavetam, não fazem nada”.

Não se omite nem tenta preservar autoridades federais. E afirma corajosamente: “Temos feito reuniões coletivas, convidamos o Ministro das Cidades, (há mais de 1 ano) compareceu, debateu, levou os relatórios. Não apareceu mais, nem fez uma obra sequer”. Num país sério, facílimo identificar quem é esse Ministro. E Bogossian diz também : “O Clube de Engenharia propôs até a criação de um ministério para cuidar do assunto”. Nessa enxurrada de 37 ministérios, não há lugar para esse, imprescindível, talvez não interessasse ao PT ou PMDB.

As imagens de Petrópolis, Teresópolis, Friburgo (para quem não conhece o Rio, Nova Friburgo é a mesma coisa que Friburgo, uma cidade só) assombram o cidadão de todo o país. Alguns, não sei como rotulá-los, desculpem, insensivelmente, dizem: “A culpa é da chuva, os governantes não têm nada com isso”.

Com essa mentalidade, não haveria solução para nenhum problema, tudo seria insensível e não solucionável. Esses governantes se livrariam da culpa, bastaria ou basta dizer: “Vai continuar chovendo mesmo, não podermos parar as chuvas”.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, diz parecendo até revoltado: “Querem que esses problemas crônicos sejam resolvidos em 24 horas?” Não são 24 horas e sim 16 anos, o tempo INACREDITÁVEL que ele está direta ou indiretamente no governo do Estado. E já tomou posse para novo período, que se chegar ao fim completará 20 anos. Muito mais do que as 24 horas citadas por ele.

E uma alta autoridade de São Paulo, declarou, saiu nos jornais e na televisão: “Tive de mandar abrir as comportas de uma represa, sabia que ia agravar a situação. Mas não tinha alternativa”. Aí, além da gravidade da afirmação, a constatação que ela vem desde a construção.

Como em São Paulo só fazem obras viárias e “plantam” concreto, sabiam que estavam comprometendo o futuro. As águas inundam tudo, e “OBRIGADOS” a abrir as comportas, sabem que VÃO AUMENTAR A INUNDAÇÃO. (Sei que vão aparecer aqui mesmo, alguns que defenderão esses irresponsáveis do Rio e de São Paulo).

No Rio, culpam e atingem até os que morreram: “É muita leviandade fazer casas em encostas sem a menor segurança”. Esses “culpados” não têm onde morar. Vivos ou mortos, são as verdadeiras e únicas V-Í-T-I-M-A-S da irresponsabilidade dos governantes. Se houvesse MAPEAMENTO, essas pessoas não iriam morar nesses lugares.

E com MAPEAMENTO PREVENTIVO e FISCALIZAÇÃO RESPONSÁVEL, quem insistisse em habitar essas áreas, seria retirado e transferido para outros lugares. Enquanto estivessem fazendo obras. Acontece que as catástrofes se repetem, não são feitas obras de prevenção ou de reconstrução.

No Rio, apesar do meu horror, não posso deixar de ligar a televisão. Começo a ver um programa, os mortos são mais ou menos 200, no meio são 300, quando acaba, já estão em 335. Isso é número real, não são estatísticas técnicas.

Ninguém será responsabilizado, o governador de São Paulo não se livra de dizer bobagem, o do Rio estava na Europa, como sempre. Não queria voltar, decidiu vir quando soube que a presidente Dilma viria ao Rio. O helicóptero da presidente vai deixá-lo aqui, pede para ficar perto do Aeroporto Internacional, para a longa e satisfatória viagem de volta a Paris.

 ***

PS – Isso continuará como sempre, os “culpados”, a chuva e os irresponsáveis (?) que vão morar em lugares onde correm todos os perigos, como acontece há pouco tempo em Angra.

PS2 – Bia Garcez, continue escrevendo, impressionando os comentaristas deste blog, e os que reproduzem o que sai aqui. Sei que é pedir muito, Bia, mas são relatos como os teus, que podem levar “autoridades” a alguma providência.

PS3 – Não houve, Bia, em lugar algum, um depoimento como o teu. Libelo mesmo, relato autêntico, sem artifício, de corpo presente, vendo tudo, sofrendo e contando.

PSDB manda fazer pesquisa sobre a popularidade de Dilma

Helio Fernandes

Estão tratando de publicar um levantamento, no dia 1º de fevereiro, comparando a popularidade de Lula com a de Dona Dilma. Partiriam dos 87 por cento dele, para “atualizar” com ela.

Se ficar, digamos, com 80 por cento, irão retumbar. Mas a ala Aécio Neves, do PSDB, não quer hostilidade desde agora.

*** 

MARTA DESISTE DA PRESIDÊNCIA 

Depois de derrotada para a Prefeitura, a ex- só admitia um salto duplo: Senado-Planalto. Quase perdendo o Senado, (só se elegeu por causa da retirada e morte de Quércia e Tuma) viu que não ganharia nenhuma eleição para o Planalto.

Marta Suplicy mudou de plano,  quer a vice-presidência do Senado (Sarney chega tarde ou nem vai, todo o holofote irá para ela, (deixou a Prefeitura de lado, tentará ser governadora em 2014, no limiar dos 70 anos). Tudo hipótese.

***

CIRO GOMES TRANQUILO

Íntimos estão satisfeitos com seu procedimento. Pelo que me dizem, não tem preocupação com o futuro. Deixa entrever até que foi bom não ter sido nomeado na primeira “leva” de Ministros.  

Considera que, fora algum “acidente do trabalho”, a validade desse Ministério não chega a 12 meses ou por aí. Sobrariam então 3 anos para ser chamado.

Itamaraty quer 60 dias para analisar o caso dos passaportes da família Lula

Helio Fernandes

A Procuradoria Federal quer “anular” todos os passaportes que o ainda presidente Lula concedeu para filhos e netos. O Itamaraty “pediu 60 dias para investigar o interesse público das concessões”.

60 dias é muito pouco. Os netos do ex-presidente precisarão de anos. Um neto tem 4 meses, por que cassar um benefício do qual nem tomou ciência? Parece que é “pura perseguição” a um presidente que saiu com 87 por cento de quê? Popularidade? Esse número 87 é garantido por quem? Por Clésio Andrade, agora senador?

PMDB nada surpreendente, na caça aos cargos do segundo escalão

Helio Fernandes

Não sei porque criticam tanto esse partido, pelo fato de querer (exigir) cada vez mais cargos no governo. A cada eleição presidencial, registro (antes no jornal impresso, agora no blog) a posição: o PMDB não apresenta candidato a presidente. Se ganhasse, teria que dar aos outros, tudo o que recebe não se apossando do Planalto.

A Procuradoria Eleitoral Federal deveria investigar: por que o maior partido nacional nunca tem candidato a presidente? Enquanto não se explica essa abstinência eleitoral, o PMDB tem direito a cada vez mais cargos. Elementar.

 ***

GEDDEL VIEIRA LIMA EM BAIXA

Derrotado para governador da Bahia, está querendo um cargo importante no segundo escalão, depois de ser vetado para Ministro. Sua situação é desesperadora. Foi Ministro da Integração Nacional, que devia evitar (ou minimizar) tragédias como as do Rio e São Paulo.

*** 

ELETROBRÁS E OUTRAS ESTATAIS  

Dona Dilma falou: “Para a Eletrobrás e outras estatais do mesmo setor, só aceitarei indicações de alta credencial técnica”. Excelente. Para começar, devida trocar o Ministro das Minas e Energia, Lobão não sabe nem o que é um apagão.

Só que não pode demiti-li, desempregaria o filho suplente no Senado, o notório Edinho 30.

*** 

EDUARDO BRAGA PARA PREFEITO

Eduardo Braga, ex-governador reeeleito do Amazonas e senador eleito, está disposto a cumprir o que revelei aqui, em 2009: será candidato a prefeito. Para isso, colocou a mulher como suplente.

Motivo: está sendo construído um estádio, onde haverá jogos da Copa do Mundo e da Olimpíada de 2016. E ele prefeito, mesmo perdendo 6 anos do Senado.

Luciano Coutinho gastará em aluguel R$ 252 milhões, mais do que gastaria para construir o prédio anexo do BNDES (já projetado e orçado). Os funcionários estão estarrecidos.

Carlos Newton

O clima no edifício-sede do BNDES, no Rio de Janeiro, é de estarrecimento e revolta. Segundo o economista Mauricio Dias David, não se fala em outra coisa, com a “Rádio Corredor” antenada o tempo todo, divulgando a notícia do aluguel milionários de 19 andares num prédio próximo.

Os funcionários são de altíssimo nível, quase todos concursados (salvo os que entraram pela janela via Finame e Constituição de 88, além é claro, dos 25 assessores do presidente Luciano Coutinho). Por isso, não gostam de determinadas liberalidades com os recursos públicos do banco.

Eles acham inacreditável a notícia de que está sendo ou já foi firmado um contrato de aluguel de 19 andares do edifício Ventura, por 60 meses, para alojar setores do BNDES enquanto se faz a reforma do edifício sede. Valor total : 252 milhões… E isto em uma época em que o novo governo (ou melhor, o velho governo Lula/Rousseff) assume anunciando contenção e corte de despesas.

“My God”!, como diria Paulo Francis. O pior é que todos os funcionários sabem que a construção do edifício anexo (que está inteiramente projetado e orçado, e significaria um luxuoso prédio que se incorporaria permanentemente ao patrimônio do Banco) sairia pela metade (metade, sim!) desse valor.

Isso tudo está acontecendo na gestão do renovado e discreto economista Luciano Coutinho (não gosta de aparecer, prefere bastidores), que acaba de ser elogiado pela presidente Dilma Rousseff. Segundo O Globo de ontem, página 21, a chefe do governo proclamou que “Luciano Coutinho é muito no que faz”.

Sem a menor dúvida. Ele é um economista muito bom. Pena que não se preocupe em fazer economia com o dinheiro do erário. A presidente Dilma precisa com urgência saber quanto custou a recente reforma do 22º andar do prédio do BNDES. Ela também é economista e gosta de cálculos. Poderia fazer as contas para saber o valor do metro quadrado. Se o fizer, aposto que Luciano Coutinho será demitido no ato.

Se isso aqui fosse um país decente (ou tivesse um governo decente), algumas cabeças rolariam pelo 22º andar abaixo. Mas nossa realidade é outra. Como diz o Millor Fernandes , “ou acabamos com a corrupção neste país ou não me chamo Jader Barbalho”. Aliá, só está faltando o Jader nesse governo. O resto – Sarney, Lobão, Palocci, Novais, Jobim, Jucá & Cia – está todo lá.

Os novos cavaleiros de Granada

Carlos Chagas 
                                                       
É provável que na reunião ministerial de hoje  Dilma Rousseff  confirme a disposição de criar, no âmbito do governo, o tal Conselho de Gestão, formado por técnicos e empresários empenhados em ver reduzidos os gastos públicos. Se isso acontecer, a presidente da República estará enxugando gelo. Para que um órgão paralelo cuidar da gestão da coisa pública quando há um  ministério intitulado do  Planejamento e Gestão?

Para amarrar  Jorge Gerdau Johanpetter, empresário de conhecida competência,  que recusou ser ministro do Lula e, agora, também de Dilma? Desse conselho ele não poderá escapar, mas, convenhamos, se é para economizar, para que gastar no mínimo com passagens aéreas, hospedagem, quem sabe jeton, para um numeroso  grupo de amigos do governo chegar às mesmas conclusões a que já terá chegado a ministra Mirian Belchior?
                                                       
Nos tempos do Lula foram constituídos muitos conselhos, como o do Desenvolvimento Econômico, do Desenvolvimento Social e do Desenvolvimento Político. Alguém se lembra de resultados práticos decorrentes das suas bissextas reuniões? Na hora das decisões, são os ministros que mandam. Ou deveriam mandar. Com todo o respeito, esse Conselho de Gestão lembra os versos de Cervantes sobre os Cavaleiros de Granada, aqueles que alta madrugada, brandindo lança e espada, saíram em louca cavalgada. Para quê? Para nada…
 
DEVER CUMPRIDO SEM ALARDE   
 
Aplausos para a presidente Dilma Rousseff por haver cumprido o seu dever. Sem alarde, com pequeno grupo de ministros e assessores, ela agiu de bate-pronto. Viajou para o Rio em plena catástrofe,  sobrevoou as regiões atingidas pelos temporais, solidarizou-se com as vítimas. Não tripudiou com a desgraça alheia nem omitiu-se.

Não fez promessas mirabolantes mas colocou o governo federal à disposição das autoridades fluminenses, ao mesmo tempo mobilizando contingentes e pessoal subordinados ao poder central. O importante é que Dilma não titubeou em ver sua imagem ligada a uma das maiores tragédias dos últimos quarenta anos, como alguém costumava fazer, esperando às vezes uma semana para viajar a locais semelhantes. 
 
PROPRIEDADE CRUZADA
                                                       
A questão é complicada mas o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, resolveu enfrentá-la. Trata-se da propriedade cruzada dos meios de comunicação. Se um empresário de atividades ligadas à alimentação pode possuir uma fábrica de biscoito, outra de sardinha, esta de salsichas e aquela  de macarrão, por que um empresário de comunicação deve ser proibido de dispor de um jornal, uma revista, uma emissora de rádio e outra de televisão?
                                                       
Esse é o argumento a favor, mas há o contra: dominando os variados instrumentos da mídia numa determinada região, ou até nacionalmente, esse empresário não estará impondo à sociedade uma única versão dos acontecimentos? Ainda mais quando coloca a notícia serviço de seus interesses e de suas concepções. Se for político, pior ainda.
                                                       
De qualquer forma, é preciso debater e, se for o caso, agir. Nos Estados Unidos, até o governo George W. Bush, a propriedade cruzada dos meios de comunicação era proibida. Depois, abriram-se brechas e o assunto ainda é objeto de debates no Congresso. Aqui,  jamais existiram restrições à formação de verdadeiros impérios. Terá sido bom? Vamos discutir.
 
PRAZO PARA ADAPTAÇÃO
 
Irrita-se a ministra da Pesca, Idely Salvatti, quando ameaçam presenteá-la com um caniço e um samburá, quem sabe até com um peixe. Suas relações com  a atividade pesqueira são nenhuma, mas  esse não é motivo para criticá-la ou denegri-la. Poderá aprender, em tempo útil, como outros aprenderam. Edison Lobão, por exemplo, entendia muito pouco de energia e nada de minas. Em pouco tempo tornou-se um expert nas duas  matérias, tanto que após o interregno para reeleger-se senador, viu-se convidado por Dilma Rousseff para conduzir o ministério que ocupou no governo Lula.
                                                     
Quem garante que Pedro Novais, especialista em Receita Federal, não produzirá bons resultados  no ministério do Turismo? Vale o exemplo para Garibaldi Alves, na Previdência Social, Fernando Bezerra,  na Integração Nacional, Mario Negromonte nas Cidades, Alexandre Padilha na Saúde, Fernando Pimentel no Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Aloizio Mercadante na Ciência e  Tecnologia, Tereza Campelo no Desenvolvimento Social e quantos mais deslocados e até surpresos com os ministérios recebidos?
                                              
O problema é que estarão todos de saia curta na reunião ministerial de   hoje,  caso a presidente Dilma Rousseff resolva iniciar uma sabatina a respeito dos  planos e projetos de cada um. Esperam, pelo menos, mais um mês de moratória…

Noblat esqueceu o projeto de Hitler: um Reich de mil anos

Pedro do Coutto

Na coluna que publica às segundas-feiras no Globo, Ricardo Noblat , nesta semana, focalizou diversos projetos de poder que, traçados com base no futuro, fracassaram totalmente. Melhor dizendo: desabaram diante da realidade dinâmica dos fatos que, a exemplo do belo poema musical de Nelson Motta, giram sem parar. Nada do que foi será igual ao que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. Pois é. Gravaram Lulu Santos e Caetano Veloso. A interpretação de Caetano é infinitamente melhor.

Mas poesia à parte, Noblat, a quem conheci de perto no Jornal do Brasil, 1982, quando o jornal denunciou o escândalo da Proconsult, citou o projeto de poder de Fernando Collor: 20 anos. Assumiu em 92, foi afastado pelo impeachment aprovado em setembro de 92.

Referiu-se igualmente ao projeto de poder que o ministro Sergio Mota fixou para o esquema FHC. Também vinte anos no Planalto. Não aconteceu nada disso. Esvaziado, sem apoio da opinião pública, Fernando Henrique apoiou José Serra em 2002 que perdeu disparado para Lula: 62 a 38%. Não mais se recuperou. Nem Geraldo Alckmim, em 2006, nem o próprio Serra, de novo em 2010, desejaram aparecer a seu lado nas duas campanhas.

O articulista de O Globo não se referiu a JK. Juscelino, que deixou o governo consagrado em 61, tinha como meta o retorno triunfal nas urnas de 65. Mas não contava com o desastre que envolveu o governo João Goulart e sua deposição pelo golpe militar de 64.

Noblat, penso eu, sem querer, omitiu o maior desastre da história universal: Hitler, ao chegar ao poder em 33, na Alemanha, e implantar o regime nazista, assegurou  um Reich para mil anos. Doze anos depois de causar a morte de 45 milhões de pessoas, e de destruir seu próprio país, cercado pelos russos dos generais Zukov e Koniev, no seu bunker subterrâneo, que Churchill chamava de covil dos abutres, suicidou-se e foi levado pelo esgoto da história.

Previsão foi feita para não se realizar. Portanto, especular quanto tempo vai durar este ou aquele esquema de poder é sempre um salto mortal sem rede de  proteção. Tudo passa, tudo sempre passará. Principalmente na política que, na bela definição de Magalhães Pinto, é como uma nuvem: muda de forma e direção a todo instante.

Agora mesmo, especula-se como o PMDB vai agir em relação aos rumos traçados pela presidente Dilma Rousseff. Reportagem de Cristiane Jungblut, também em O Globo de segunda-feira, expõe um quadro de projetos polêmicos que se encontram em tramitação no Congresso Nacional e deixa no ar a pergunta sobre como o Partido do Movimento Democrático Brasileiro agirá em relação às contradições que tais matérias despertam, se a legenda não for plenamente atendida pelo Planalto quanto ao preenchimento de cargos em empresas estatais.

Faltou entretanto uma pergunta: o que poderá o PMDB fazer? Votar contra a orientação de Dilma Rousseff? Mas o partido ocupa quatro ministérios, entre eles o de Minas e Energia. Abrirá mão dos postos? Não creio. Aliás, ninguém acredita em tal hipótese. Pois se o PMDB rompesse, o PSDB de Aécio Neves e Geraldo Alckmim estaria pronto para o sacrifício de substituí-lo em nome da governabilidade. Expressão da moda, a exemplo da figura do desenvolvimento sustentável.

O PMDB não pode romper, pois em política qualquer espaço aberto no esquema de poder é preenchido em cinco minutos. Não mais. Quais os projetos realmente polêmicos em pauta? O valor do novo mínimo e a cobrança (absurda) da contribuição previdenciária dos funcionários públicos aposentados e dos beneficários do INSS que, mesmo aposentados, continuam trabalhando.

Sem problemas. A cobrança dos servidores inativos e dos aposentados do INSS que continuam trabalhando rende 1 bilhão e 200 milhões de reais por ano. O orçamento para 2011 é de 2,1 trilhões. Os números falam por si. Piso de 540 ou 560 dá no mesmo. Não muda.

“As chuvas e os governantes”, um artigo que diz tudo sobre as tragédias no Rio e São Paulo

Em atenção à comentarista Suzana Oliveira, que lembrou a atualidade do artigo postado dia 1º deste mês por nosso colaborador Jorge Folena, estamos republicando o texto:

Jorge Folena

O primeiro dia do ano é para festejar e renovar a esperança por dias melhores, ainda mais quando hoje toma posse a primeira mulher presidente do Brasil, fato que simboliza o avanço numa sociedade retrógrada, na qual, segundo as estimativas, um milhão de mulheres são violentadas diariamente, de várias maneiras (psicológica, física e patrimonialmente), em todo o mundo.

A Presidente Dilma assume com grandes desafios, uma vez que os administradores públicos, de forma consciente ou não, sempre governaram o Brasil como uma sociedade fundamentada na exclusão, na diferença e na indiferença. Nunca valorizaram o trabalho, base de tudo, e enxergaram nos homens e mulheres dos bairros dos subúrbios e das favelas brasileiras apenas uma fonte de mão-de-obra barata, a ser explorada diariamente, bem como um manancial de votos para a confirmação da ordem política.

Um exemplo disso é a tragédia que se repete todos os anos, no mês de janeiro, com as chuvas torrenciais que castigam nossas cidades. Parece, então, que o único culpado é a população pobre, que construiu suas casas onde não deveria. É o que fica aparente nos pronunciamentos das autoridades constituídas, sempre que lemos os jornais, ouvimos as rádios ou assistimos à televisão. Mas o que têm feito os governantes, antes ou depois das chuvas, ao longo de todos estes anos?

Não podemos perdoar estes políticos, pois o problema não é falta de dinheiro, de tecnologia ou de áreas adequadas para se construir residências dignas para todos. Não fazem porque não querem e por ser próprio do regime em que vivemos a manutenção da desigualdade, apesar de se apregoar por todos os cantos que constituímos uma sociedade livre e democrática.

A letra da lei é bonita, mas só vale no papel, como todos sabem. É fácil, na tragédia, transferir a responsabilidade para a população, incriminando-a como sempre fizeram ao longo da História. E apesar de estar consignado na Constituição (artigo 6º), é negado aos pobres e aos miseráveis o direito de habitar com o mínimo de dignidade e em condições salubres.

Por isto, enquanto houver a exploração de homens e mulheres, enquanto os idosos não forem amparados e enquanto as crianças viverem sem esperança de futuro, tudo estará na mais perfeita ordem natural das coisas, com chuva ou qualquer outra forma de tragédia que recaia sobre nós.

Então, Presidente Dilma, sua posse hoje (01/01/2011) representa a esperança de um Brasil melhor para todos. Que seu governo seja coroado de êxito e, assim, nosso país se transforme efetivamente numa grande potência de desenvolvimento humano e social, sem ficar limitado ao mero crescimento econômico.