Autor de “Como as democracias morrem” se diz assombrado com ações de Bolsonaro

Levitsky diz que Bolsonaro “paga pelo seu comportamento irresponsável”

Eduardo Salgado e Letícia Sander
O Globo

Professor da área que estuda governos na Universidade Harvard, o americano Steven Levitsky é um dos autores do best-seller “Como as democracias morrem”, uma das principais referências na análise do fenômeno do populismo em escala mundial. Conhecedor da realidade da América Latina, Levitsky se diz assombrado com a reação de Jair Bolsonaro à pandemia do coronavírus. “É impressionante ver um líder colocar em risco a vida do que pode ser, no pior cenário, milhares de seus cidadãos”, afirmou.

Sobre as motivações do presidente, Levitsky acredita que só resta especular. “Não dá para saber ao certo o que ele está pensando. Talvez Bolsonaro não saiba o significado de crescimento exponencial. Ou ache que os vulneráveis terão de morrer para proteger o resto da população das agruras do impacto econômico do isolamento”, disse, ao longo de mais de meia hora de conversa, o especialista em autoritarismo, democratização e instituições.

O presidente Bolsonaro tem defendido a reabertura de escolas e lojas. Qual é o cálculo político dessa estratégia?
Bolsonaro é bastante inepto e capaz de errar muito. Nesse quesito, ele se parece com Donald Trump. Mas nem todos os populistas são assim. Não diria o mesmo sobre o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi e o turco Recep Erdogan. Não sei dizer se a decisão de Bolsonaro de não ouvir o que a comunidade científica mundial está dizendo de forma quase unânime é um cálculo político ou um tremendo erro baseado no seu instinto. Mas é impressionante ver um líder colocar em risco a vida do que podem ser, no pior cenário, milhares de seus cidadãos.

Por que Bolsonaro parece não temer ser culpado por um número crescente de mortes?
Ele pode estar pensando no curtíssimo prazo. Bolsonaro é um político que tem sofrido resistência do Legislativo e do Judiciário. Aqui e ali já há quem fale em impeachment. Outra possibilidade é que ele não entenda o que a ciência diz sobre a doença. Na semana passada, ele chegou a dizer que brasileiro pula no esgoto e não acontece nada. Não dá para saber ao certo o que ele está pensando. Talvez Bolsonaro não saiba o significado de crescimento exponencial. Ou ache que os vulneráveis terão de morrer para proteger o resto da população das agruras do impacto econômico do isolamento.

Alguns analistas brasileiros acham que Bolsonaro está apostando que o clima brasileiro vai ser uma barreira ao vírus, o que ainda não tem comprovação. Se for verdade, a estratégia do presidente poderá estar correta?
Sim, mas é uma estratégia altamente imprudente. Por um instante, vamos imaginar que essa hipótese se prove correta. À medida que o inverno se aproxima, a temperatura nos estados do Sul e em parte do Sudeste vai cair, o que deixará uma grande parcela da população vulnerável. Dado o tamanho e a diversidade do Brasil, não vejo como a estratégia de Bolsonaro fica de pé, mesmo que a hipótese de um coronavírus menos potente no calor se prove certa, o que hoje é apenas uma possibilidade. Bolsonaro parece preso a um padrão baseado no confronto.

Por quê?
Porque foi o que funcionou na sua vida toda. Políticos populistas mais talentosos conseguem se adaptar quando as circunstâncias exigem. O argentino Juan Perón, por exemplo, tinha um discurso radical e maluco quando estava no exílio nos anos de 1960 e no início dos 1970. Quando voltou ao poder, conseguiu adotar um tom mais conciliador. O venezuelano Hugo Chávez se tornou mais pragmático e moderado entre 1999 e 2003, quando tinha pouco dinheiro do petróleo para gastar. Perón e Chávez são dois exemplos de políticos populistas mais sofisticados do que Bolsonaro.

O que o faz colocar Bolsonaro no mesmo grupo de Chávez, que está no outro extremo no espectro político?
Populismo não tem a ver com posição no espectro político ou na economia. Há populistas da extrema esquerda, passando pelo centro, até a extrema direita. Populistas são, geralmente, personalistas, que apelam às massas com um discurso que ataca o establishment. Nesse sentido, Trump e Bolsonaro fazem parte desse grupo. Bolsonaro também é um autoritário.

Bolsonaro foi deputado por quase três décadas e se tornou presidente numa eleição. Como o senhor pode dizer que ele é a favor do autoritarismo?
Ele não tinha outra opção senão operar num sistema democrático, que é a regra no Brasil. Mas sempre que ele teve um microfone à mão mostrou pouco apreço pelas instituições democráticas. Ele passou décadas defendendo a ditadura e as milícias, homenageando torturadores e criticando normas básicas de direitos humanos.

Na semana passada, o presidente falou de um suposto risco de o Brasil sair da “normalidade democrática”. Qual é a sua leitura?
Me parece apenas retórica. Bolsonaro mostrou na eleição ser muito bom em culpar a esquerda, o que não é uma coisa muito difícil de fazer no Brasil dado a história recente. Mas não vejo nada além de retórica.

Nas últimas semanas, Trump disse que o coronavírus era tão perigoso como uma gripe. Bolsonaro repetiu. Existe algum chefe de Estado que siga as falas de Trump mais que Bolsonaro?
Não conheço nenhum outro. É realmente incrível a semelhança. Não saberia dizer se Bolsonaro e sua equipe estudam Trump e espelham tudo o que ele diz ou se existe uma simples convergência de pensamento. Outros presidentes que estão negando os perigos da pandemia não são ligados ideologicamente a Trump. É o caso de Andrés Manuel López Obrador, do México.

Nos EUA, Trump tem visto sua aprovação aumentar, enquanto Bolsonaro enfrenta panelaços diários. O que explica a diferença?
Bolsonaro parece ser uma exceção. É muito raro que, durante uma crise, o presidente tenha queda de apoio. Em várias partes do mundo, líderes têm visto um aumento de apoio popular. Isso aconteceu na Itália, na França e na Alemanha. Trump também subiu, mas numa proporção menor. Bolsonaro sempre foi menos popular do que Trump. O brasileiro tem tido cerca de 30% ou 35% de aprovação e o americano acima de 40%. Trump tem o apoio quase unânime do Partido Republicano, o que lhe dá uma base sólida. Bolsonaro não tem isso. Acho que a popularidade de Bolsonaro vai cair rapidamente por causa de seus erros. Muita gente que votou nele, mais por um antipetismo do que qualquer outra coisa, está ficando cada vez mais cética. Bolsonaro paga pelo seu comportamento irresponsável.

9 thoughts on “Autor de “Como as democracias morrem” se diz assombrado com ações de Bolsonaro

  1. Democráticos devem ser os ministros do STF que protegem e soltam toda a bandidagem. Cadê os processos do Renan e do Temer? Tudo guardadinho na gavetinha. Ou então o Congresso Nacional, que não vota uma lei sem a contrapartida financeira. Botafogo e Alcolumbre devem estar dando pulos que o coronavirus acabou até com a Lavajato. Ou quem sabe, democrático é a mídia que quer derrubar um presidente porque pensa que o efeito econômico deve ser considerado nesta equação do coronavirus. Uma mídia que não recebe mais dinheiro público para financiar seus salários astronômicos.

  2. Tudo bem Celso, concordo, mas em 2022 vc vota em outra pessoa ou então a população escolhe outro presidente. Também não sou fã do Bolsonaro, mas infelizmente, se não mudarmos o sistema não acharemos melhores soluções do que ele. Eu votei em Meirelles no primeiro turno.

  3. Bolsonaro é um assassino de democracias.
    Xi Jinping é um distribuidor de democracias pelo planeta, ela não pode ver um país capitalista, fascista comandado por populistas que ele vai lá e dá uma dose dupla de democracia.
    Xi Jiping é o novo farol da humanidade, sem ele já estaríamos todos sequelados pelo vírus morcegante.

  4. “Ele passou décadas defendendo a ditadura e as milícias, homenageando torturadores e criticando normas básicas de direitos humanos.”

    E 57,7 milhões de eleitores pensam como ele

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