“Ballet” do Banco Mundial ilumina o palco do Brasil com números delirantes

Charge do Arionauro (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

É antiga a frase de que o papel aceita tudo. O computador nem tanto. A realidade dos fatos muito menos. Reportagem de Marta Beck, Sérgio Fadul, Geralda Doca, Bárbara Nascimento e Cristiane Jungblut, em O Globo, destaca números e teses divulgadas pelo Banco Mundial voltados para recuperação da economia brasileira num espaço de tempo que começa hoje e se estende até a 2026. Uma distância de nove anos que se baseia em conotações matemáticas difíceis de serem decifradas em termos lógicos da economia política do país. O BIRD, por exemplo, propõe a diminuição pela metade dos vencimentos do funcionalismo público em relação aos salários dos empregados regidos pela CLT. Metade? Eis aí um corte impossível.

É o caso de soluções e teorias econômicas geradas por representantes do conservadorismo. Como diminuir à metade? Qual o parâmetro? Os salários daqueles que são regidos pela CLT variam de empresa para empresa. Como seria feita, portanto, a comparação?

INCONSTITUCIONAL – Além do mais, o corte de 50% nos vencimentos é absolutamente inconstitucional. Portanto, não seria possível e tampouco possui o menor cabimento. Além disso, é estimada uma redução de despesas, com isso, da ordem de 8,3% do Produto Interno Bruto Brasileiro. Como o PIB, em 2017, está calculado em torno de 5,8 trilhões de reais, a fração cintilante do Banco Mundial representaria algo em torno de 550 bilhões.

Surge uma dúvida: se tal importância seria anual ou resultaria de reflexos do corte ao longo dos próximos 9 anos, ou seja 2026. É necessário, a meu ver, que o Banco Mundial esclareça melhor esse ponto. Porque, inclusive, o valor do Produto Interno Bruto varia de ano para ano e o documento chamado de esforço pela reforma não inclui projeção sobre tais variações. No ballet dos números, esses lances da dança não se encontram bem iluminados, dando a impressão que o programa proposto baseia-se numa visão impressionista que colide com a realidade.

ARTES DO POSSÍVEL – Se a política é a arte do possível, a economia também se inclui no mesmo contexto. Até porque é impossível separar a política da economia. Não estou falando de economia política, porque esta pode ser interpretada e traduzida à base de pensamentos ideológicos diversos.

Para o ex-ministro Delfim Neto, por exemplo, sua visão estrutural parte de um princípio determinado. Para os reformistas, outro deve ser o caminho. Para os ultraconservadores, a visão também se altera. No fundo da questão encontra-se o desafio de se estabelecer o denominador comum entre o capital e o trabalho.

Isso explica, sobretudo, uma realidade pouco aparente. O reformista de hoje transforma-se com grande frequência no conservador de amanhã. O ex-presidente Lula, por exemplo, era um reformista até chegar ao poder nas urnas de 2002. Transformou-se num político conservador a partir de sua posse no Planalto em 2003.  Montou uma estrutura voltada para a corrupção, chegando ao ponto de dividir partidariamente as diretorias da Petrobrás. Em seu período, o BNDES forneceu créditos a juros favorecidos, como no caso de financiamentos à Odebrecht e a JBS. Nada mais conservador do que a corrupção.

DESIGUALDADES – Um reformista deveria lutar pela redistribuição possível de renda. Nada mais concentrador de renda do que a corrupção. A metamorfose atinge em cheio os políticos. Fernando Henrique Cardoso, logo após a vitória nas urnas de 1994, avisou ao eleitorado: esqueçam tudo que escrevi no passado. Mas as contradições são próprias do processo humano. O líder do Movimento Militar de 64, Carlos Lacerda, terminou cassado pelo processo que desencadeou.

Voltemos À dança dos números que o Banco Mundial exibe no palco de nosso país. Se fosse possível resolver os problemas universais com colocação de teorias, não haveria problema algum no Planeta Terra. A verdade é extremamente diferente. Colorir visões numérica não muda a cor da realidade.

10 thoughts on ““Ballet” do Banco Mundial ilumina o palco do Brasil com números delirantes

  1. Se a turma de Temer continuar é isso que deve acontecer.

    A 3ª denúncia contra Temer no caso da MP do porto de Santos acabaria com essa brincadeira e todos iriam pra prisão.

    Mas Temer colocou Segovia e Raquel Dodge em seus postos para evitar que isso aconteça !

  2. É indiscutível o interesse do sistema financeiro no Brasil. Ganham muito dinheiro aqui, mas nunca é o suficiente, querem mais. O governo “comprou” e o Banco Mundial entregou. Pela análise bem embasada deste blog, percebemos os furos de argumentação e sistemática. Só uma coisa não se encaixa. COMO TEMER PRETENDE SE REELEGER? Nenhum governo sai ileso impondo tais arroxos ao trabahador de seu país. Mirabolam projetos para daqui a vinte anos como se uma reforma séria não pudesse ser feita em um Congresso mais representativo e um governo legitimamente eleito, daqui a dois, três ou mais anos sem, qualquer transtorno econômico ao país. O pior é que sabem disso, mas não é o bem do país que almejam, outro fato incontestável ou não mentiriam e a falta do minimo de respeito ao cidadão do país é a marca de quem mente a ele. O grande e inconstetável fato é que quiseram aproveitar uma oportunidade, foram incentivado$ por grupos intere$$ados em ganhar ainda mais e como Temer e seu partido são sempre governo, independente de ideologia, ética ou caráter, este topou sem muito se contrapor. O problema foi Janot. Temer agora precisa rever sua posição, pois precisa continuar eleito para manter seu foro e escapar da INVESTIGAÇÃO e uma provável condenação. Com sua popularidade beirando a zero, fato inédito na história deste país ele parece calmo demais para as condições em que se encontra. Temer não tem condições morais de permanecer presidente de uma nação republicana, não merece e nem será respeitado como tal, tanto nacional, quanto internacionalmente. Temer dá toda visibilidade negativa que o Brasil não precisa ter e quem tramou para que ele permanecesse deveria saber disso, responsabilidade e decência não é seu forte. PSDB, DEM e o resto recebem seu devido e mais do que merecido, “abraço de afogado”.

  3. É como aquela história do sujeito que vai arrancando as patinhas da aranha aos pouquinhos e, ao desmembrar a última, deduz que a bichana era surda.

  4. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO critica com razão, o Relatório do Banco Mundial ( BIRD), que numa Projeção de +- 10 anos, propõe entre outras coisas, para diminuir o Déficit Público, o corte relativo dos Vencimentos do Funcionalismo Público em +- 50% em relação aos atuais Vencimentos.

    Dados do Site CONTAS ABERTAS tirados do Ministério do Planejamento:
    Ano 2016
    119.000 Func. JUDICIÁRIO Média R$ 13.290/Mês.
    36.000 Func. LEGISLATIVO Média R$ 12.516/Mês.
    1.800.000 Func. EXECUTIVO Média R$ 5.599/Mês.

    Salário Mínimo 2017…… R$ 937/Mês

    Salário Médio +- 100 Milhões CLT…….R$ 2.500/Mês.

    Tem razão o grande Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO em criticar a proposta de “nivelar por baixo” do Banco Mundial, rebaixando relativamente em 50% os Vencimentos do Funcionalismo Público ( +- 2.000.000 ), para aproximar a Média com os +- 100.000.000 Assalariados CLT.

    O que o Banco Mundial deveria fazer é uma boa Análise de: Porque os Assalariados da CLT tem Média tão Baixa ( +- R$ 2.500/Mês ), Porque nosso Salário Mínimo é tão Baixo ( R$ 937/Mês), em suma: Porque nossa PRODUTIVIDADE ( Produção por Hora Trabalhada ) é tão Baixa.

    Porque nossa PRODUTIVIDADE é 1/6 dos EUA e incríveis 1/9 dos Países Escandinavos.

    A PRODUTIVIDADE, esse é disparado o maior problema do Brasil, muito maior do que os Juros da Dívida Pública e dos Vencimentos dos Funcionários Públicos, etc.

    Quando se produz muito pouco “Couro”, não há como ter abundância de “Correias”.

    É nisso que o Banco Mundial deveria se CONCENTRAR.

  5. Dá para se imaginar um processo que divida pela metade os atuais ganhos de juizes, procuradores, policiais federais, fiscais federais e estaduais com o passar dos anos até 2026. NEM A PAU JUVENAL! Aliás a maior parte do atual conflito de instituições(JUDICIARIO X LEGISLATIVO X EXECUTIVOX MINISTÈRIO PÙBLICO X POLICIA FEDERAL X FISCAIS EM GERAL X OUTRAS ELITES DO SERVIÇO PÙBLICO) tem a ver exatamente com esses atuais embates, o principal deles a reforma da Previdência. Como é que se vai querer nivelar todas essas elites do funcionalismo por baixo. Os concursados(juizes, promotores e policiais federais) já começaram a colocar políticos eleitos na cadeia(a maioria esmagadora com razões muito bem fundamentadas).
    Está se encerrando a era do acordo de elites em que impunidade era a regra. O resultado disso tudo só pode ser uma de 2 hipóteses: Ou o país se ajeita de vez com fortalecimento das instituições e fim da impunidade ou o país vai cair num regime totalitário que na verdade nunca chegou a acontecer no pais.

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