Barra Torres, presidente da Anvisa, vetou mudar a bula da cloroquina para tratar a Covid-19

Depoimento de Torres expõe Bolsonaro a mais uma contradição

Pedro do Coutto

No depoimento ontem à CPI da Pandemia, o almirante Antonio Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), revelou ter desaconselhado de imediato o governo no que se refere à ideia de, por decreto executivo, qualificar a cloroquina como capaz de produzir efeitos contra o coronavírus e a pandemia que passou a ser tratada como Covid-19.

A resposta de Barra Torres deixou a oposição satisfeita e a bancada governista contrariada porque revelou ter o segundo escalão do governo se oposto a uma hipótese totalmente absurda, segundo especialistas na matéria, entre os quais se encontra o almirante. A CPI ouvirá hoje Fabio Wajngarten , ex-chefe da Secom da Presidência da República, após divulgar, há cerca de duas semanas, uma entrevista criticando os rumos traçados para a Comunicação.

CLOROQUINA – O depoimento do diplomata Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, que era para ocorrer amanhã, quinta-feira, ficou para o dia 18. No dia 19, encontra-se marcado o depoimento do general Eduardo Pazuello. Patrícia Campos Mello, Raquel Lopes e Julia Chaib, Folha de São Paulo desta terça-feira, revelam que a CPI vai questionar Ernesto Araújo, indagando qual o objetivo de sua atuação em favor da cloroquina, utilizando a rede do Itamaraty para propor aquisição do medicamento em vários países.

Se o medicamento tinha sido vetado para o coronavírus pela Anvisa, sob o ângulo de análise das três repórteres, não teria o menor cabimento ou sentido que o ex-chanceler partisse para uma ofensiva para adquirir a cloroquina. Além disso, o problema do uso de remédios ou imunizantes para a pandemia é um processo que teria que partir do Ministério da Saúde: no caso, o ex-ministro do exterior assumiu um comportamento que não era adequado porque estava sem base no roteiro estabelecido pelo Ministério da Saúde.

EXPOSIÇÃO DE BOLSONARO – O depoimento de Barra Torres vai, sem dúvida, agravar a tensão no governo , expondo o presidente Jair Bolsonaro a mais uma contradição. A pergunta que é decorrente da constatação é a de que por qual motivo então o presidente da República insistiu na tese absolutamente rejeitada pela comunidade científica ?

De outro lado, reportagem de Renato Machado e Julia Chaib, no Valor, destaca uma entrevista com o senador Marcos Rogério, aliado do governo federal, na qual diz que a oposição quer colocar no presidente da República o carimbo de culpado. O senador Marcos Rogério sustenta que o general Eduardo Pazuello não deve temer a sua ida à CPI, pelo contrário, deve aproveitar a oportunidade para divulgar a sua versão dos fatos.

O senador acrescenta que não tem procedência a notícia de que Eduardo Pazuello desejasse recorrer ao STF para não comparecer. Na minha opinião seria o pior caminho a ser seguido por Pazuello, pois é claro que o Supremo não poderia expedir tal mandado de segurança.

MEIO AMBIENTE – Fato acentuado na noite de segunda-feira pelo jornalista André Trigueiro, especialista em questões de meio ambiente no programa em pauta da GloboNews. Encontra-se em tramitação final na Câmara dos Deputados um projeto que recebeu parecer do deputado Neri Geller que tem como alvo facilitar amplamente a liberdade de desmatadores da Amazônia que poderiam a partir dessa nova lei expandir à vontade plantações ligadas ao agronegócio, enquanto outros empresários passariam a  instalar e colocar unidades industriais e comerciais sem a necessidade de licença ambiental, tanto para um caso, quanto para outro.

Para se ter uma ideia da nocividade da proposta, Raphael Di Cunto e Rafael Walendorff, Valor, destacam que a meta é retirar a necessidade de licença ambiental para 17 atividades comerciais e industriais.

André Trigueiro é um especialista na matéria que se refere ao meio ambiente e ao efeito estufa. Mais uma iniciativa contrária aos interesses legítimos dos que lutam, como André Trigueiro, para preservar o meio ambiente e conter o avanço de iniciativas que causarão maior aquecimento global.

DESCASO DE SALLES – Tal projeto prejudica ainda os sistemas e abastecimento de tratamento de água e de esgotos, incluindo a construção de usinas de triagem de resíduos sólidos. É incrível como o ministro Ricardo Salles trata o problema ambiental.

Por causa disso, em outra matéria também do Valor, Daniela Chiaretti, revela manifestações de ambientalistas comprometidos com o interesse nacional e internacional, classificando o parecer do deputado Neri Geller como o pior que transitou até hoje na legislação brasileira. As manifestações sobre o assunto devem ter efeito para impedir mais essa bomba contra a Amazônia brasileira.

BOLSONARO E LULAPesquisa da Consultoria Atlas divulgada na segunda-feira e objeto de matéria de Ricardo Mendonça no Valor de terça-feira, revela que em matéria de imagem pública, o presidente Bolsonaro recuperou pontos que havia perdido junto à população. Voltou aos 40%, enquanto Lula da Silva alcançou 37%.

A pergunta não se referiu  apenas ao desempenho, mas também à veiculação da imagem. A veiculação da imagem de Bolsonaro é natural por ser o atual presidente da República. A colocação de Lula em segundo lugar funciona para deixar explícito que o combate nas urnas de 2022 será entre ele e Jair Bolsonaro. Aliás é esta opção que o ex-presidente da República vem considerando como a melhor para a sua candidatura.

À medida em que o tempo for passando, outras pesquisas virão, principalmente as do Datafolha que focam mais nitidamente o potencial dos candidatos. Uma pesquisa de imagem funciona para definir trajetórias,  mas não incluem plenamente o revestimento político que cada candidato vai assumir na estrada que leva a outubro de 2022.

FOME NO BRASIL – Em artigo publicado no Valor de ontem, a jornalista Maria Clara do Prado focaliza o problema da fome no Brasil e acentua que a concentração de renda continua existindo como uma característica marcante e duradoura da vida nacional. Desde o final dos anos 90, o Brasil está exposto a uma série de fatores que comprimem cada vez mais a pobreza.

Hoje, são 61 milhões de brasileiros e brasileiras vivendo em condições sub-humanas. Acrescenta Maria Clara que 61 milhões representam a população de Portugal multiplicada por dez. Cada vez mais a maior parte da população brasileira é exatamente aquela cuja renda proveniente do trabalho vai diminuindo a cada ano.

COAF – Fábio Pupo, Folha de São Paulo de segunda-feira, assinala que o presidente Bolsonaro aplicou um veto reduzindo a verba destinada a modernizar o sistema anticorrupção no Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.

A incorporação do Coaf foi o primeiro lance que atingiu o ex-ministro Sergio Moro quando estava à frente do Ministério da Justiça. Estava acertado com o presidente Bolsonaro que o órgão fundamental para combater a corrupção e a lavagem de dinheiro fosse mantido sob o controle do juiz da Lava jato.

OBSTÁCULO – O Coaf representa um sistema de percepção e análise de todas as operações financeiras realizadas no Brasil e também capaz de identificar depósitos brasileiros feitos no exterior. Estava claro que o Coaf não ia permanecer nas mãos de Sérgio Moro. O Coaf representa um obstáculo ao grande número de atividades políticas e empresariais e da administração pública brasileira.

O Coaf permite vislumbrar as comissões e os super preços que circulam entre o relacionamento do poder público com os interesses do empresariado. Isso porque, digo eu, a corrupção é algo que exige pelo menos dois atores, mas pensando bem há um terceiro, a fonte que autoriza o pagamento das faturas, tais pagamentos não podem demorar. Mas essa é outra questão. O que quero dizer é que o controle do Coaf é vital para o descontrole do dinheiro público no Brasil.

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