Barriga de Aluguel

Sebastião Nery

Fernando Leite Mendes, baiano de Ilhéus, era cronista do “Correio da Manhã”. Fazia “Sexta-feira, estórias”, uma das coisas mais bem escritas e inteligentes da imprensa brasileira. Não tinha nada a ver com a cobertura política. Mas era amigo de Adonias Filho, também baiano, também da região do cacau, autor de romances magistrais, como “Os servos da morte”, “Memórias de Lázaro”. Adonias também era amigo do general Castelo Branco, que acabava de ser feito presidente da República pelo golpe militar de 64.

O “Correio” pediu a Fernando que, com a ajuda de Adonias, fosse correndo à Rua Nascimento Silva, em Ipanema, ouvir Castelo. O fotógrafo estava saindo rápido para pegá-lo em casa. Fernando morava na Rua Julio de Castilhos.

***
LEITE MENDES

Tocam a campainha na casa de Fernando. Era um senhor de terno azul, aflito, sotaque de português, bem carregado:

– O senhor Julio está?

– Aqui não mora nenhum Julio.

O senhor de terno azul pediu desculpas e saiu. Um minuto depois, novamente a campainha. Era o senhor de terno azul, já agora com um papelzinho na mão:

– Me perdoe a insistência. Mas me deram isso aqui. Esta não é a residência do senhor Julio de Castilhos?

– Ah, o doutor Julio de Castilhos não sabia que o senhor viria procurá-lo e morreu há exatamente 60 anos, em 1903. Se soubesse, talvez tivesse esperado.

– Ora, pois, pois, então esta não é a Rua Fernando Leite Mendes?

– Ainda não. Deverá ser daqui a 60 anos.

O senhor de terno azul era o fotógrafo do “Correio”. Correram para a casa de Castelo e fizeram a entrevista. (Quarenta e oito anos depois, a Rua Fernando Leite Mendes está lá, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio.)

***
OS SEIS

Nossos partidos são hoje como o fotógrafo português do “Correio da Manhã”: nada do que parece é. E o pior deles é o PMDB. Virou a grande barriga de aluguel da política nacional. Nela cabe tudo. No governo Lula, tinha seis ministros sem ter um só. Todos peemedebistas de mentira.

Nelson Jobim, da Defesa, lobista tucano, foi advogado e ministro da Justiça de Fernando Henrique, que o levou para o Supremo Tribunal. Geddel Veira Lima, da Integração, comandou dentro do PMDB, no governo de Fernando Henrique, com Moreira Franco e outros, a “bancada tucana de Sergio Mota”, para aprovação da reeleição de FHC. Helio Costa, ministro das Comunicações da TV Globo no governo Lula, era tanto PMDB quanto a descabelada cabeleira do suplente Salgado. Reinhold Stephanes, da Agricultura, este ao menos jamais enganou ninguém: deputado federal pela Arena do Paraná em 78, novamente deputado pelo PDS em 82, fundador do PFL no Estado, pelo qual se reelegeu em 94, era ministro do PMDB lulista de Roberto Requião. José Gomes Temporão, ministro da Saúde em nome do PMDB petista de Sergio Cabral, entrou no partido para ser “ministro do partido”. E depois  Edson Lobão, mais Arena, PDS, PFL, DEM e aliado de Sarney do que o general Geisel, que o fez deputado federal pelo Maranhão em 74, 78 (depois senador, governador, novamente senador).

***
SÓ RESTAM CINCO

Do verdadeiro PMDB (já nem falo do velho MDB), nos 27 estados, restam apenas cinco diretórios: do Rio Grande do Sul, de Pedro Simon; de Santa Catarina, de Luis Henrique; de São Paulo, que era de Orestes Quércia; de Pernambuco, de Jarbas Vasconcelos; e do Ceará, de Paes de Andrade. O resto está embeiçado nas divinas tetas do PT. Enquanto ele for governo, com sua barriga de aluguel.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *