Basta pedir para entrar

Carlos Chagas

Tem gente fazendo tempestade em copo d’água a partir da notícia de que o presidente Lula pretende formar uma frente de partidos de esquerda para neutralizar a influência do PMDB no governo Dilma Rousseff.  Integrariam essa frente o PT, o PSB, o PDT, o PC do B, o PRB e penduricalhos.

Por conta dessa suposta ameaça movimenta-se o deputado  Michel Temer, vice de Dilma, interessado em desmentir a versão de que o PMDB  dividirá o poder com a nova presidente, exigindo ministérios aos montes para garantir maioria no Congresso. Embora o próprio presidente do partido tenha convidado seus integrantes a “dividir o pão”, interessa-lhe evitar reações e confusões, pelo menos até a eleição.

Parece estar faltando experiência aos peemedebistas. Bastaria que lembrassem a malícia de Tancredo Neves para  encerrarem esse novo capítulo no relacionamento com o governo. Porque, governador de Minas, a velha raposa ouviu de seu principal auxiliar, Ronaldo Costa Couto, que parte da bancada na Câmara pretendia separar-se, votando  a criação do Estado do Triângulo. Sua resposta foi simples: “se eles criarem, nós  aderimos, pedindo   para entrar no novo estado.”

Vale a mesma coisa. Caso o presidente Lula insista em formar um  novo bloco de esquerda, bastaria o PMDB pedir para entrar.  Assim como o resto de Minas engoliria o Estado do Triângulo, o PMDB, sem ser de esquerda, dominaria o bloco…

Ousadia e clareza dão votos?

Atribui-se a Aécio Neves o comentário de necessitar a campanha de José Serra “mais ousadia e mais clareza”. Dificilmente o ex-governador mineiro, neto do dr. Tancredo, faria uma observação  dessas. Nem ao pé-do-ouvido, quanto mais de público. E por razão muito simples: trata-se do óbvio. Mais ou menos como afirmar que o sol nasce todas as  manhãs.  Coisa que o mundo já sabe e  não precisa ser dita.

O problema, para José Serra, é a falta de votos. Clareza e ousadia nos palanques e na televisão fariam o eleitor mudar de intenções? Fosse assim,  Neymar e Ganso não  deixariam o Santos perder  uma só partida, um a ousadia, outro a clareza, mas a verdade é que de vez em quando o time perde. Para o tucano eleger-se, hipótese cada vez mais impossível, seria preciso que a candidatura de Dilma implodisse, não que a de Serra crescesse.

Adeus Roriz

Voltam-se para o  Supremo Tribunal Federal  as esperanças do quatro vezes governador de Brasília, Joaquim Roriz, favorito nas pesquisas para outubro.  O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a interpretação do Tribunal Regional Eleitoral de que a lei ficha-limpa aplica-se sobre quem tiver sido condenado ou renunciado ao mandato antes de sua sanção. Uma visão acorde com a voz rouca das ruas e de plena justiça, não fosse a Constituição,  que determina não poder a lei nova retroagir para prejudicar, senão para beneficiar. Além da exigência de que mudanças no processo eleitoral precisam ser aprovadas até um ano antes das eleições.

Caberá à mais alta corte nacional de justiça dirimir a dúvida, sabendo-se que as opiniões se dividem. Uma decisão pela validade da letra da Constituição favoreceria não apenas Roriz, mas quantos candidatos tem sido impugnados até agora.

Metodologias

Por mais boa vontade que a gente tenha com os institutos de pesquisa, a atividade não escapa de freqüentes  lambanças. Nem vale à  pena referir anteriores eleições, quando as urnas costumavam desmentir previsões, levando os responsáveis pelas consultas a concluir com empáfia que o eleitorado havia mudado de tendência de um dia para o outro.

Acaba de acontecer uma dessas trapalhadas. Sexta-feira o  Datafolha dava Helio Costa, em Minas, com dezesseis pontos percentuais à frente de Antônio Anastásia. Sábado, o Ibope divulgava o atual governador dois pontos acima do senador. O povo mudou ou uma das entrevistas foi feita em outro estado? Não vale a desculpa de  metodologias diferentes…

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