BC pode elevar juros até 14,5%, agravando a recessão

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O Banco Central está convencido de que, com a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada semana passada, os analistas vão se render mais rapidamente ao discurso de que a inflação vai mesmo convergir para o centro da meta, de 4,5%, até o fim de 2016. Ainda que os próprios técnicos do BC admitam que atingir tal objetivo “parece ser algo quase impossível”, uma vez que a carestia está se aproximando de 9%, todos os modelos econométricos usados pela instituição mostram que o tombo do custo de vida será forte no próximo ano.

A meta do BC, com a ata do Copom, foi consolidar a visão de que os juros vão subir até onde for necessário para que a promessa de levar a inflação ao centro da meta seja cumprida. Por mais doloroso que possa ser para a economia, que está mergulhada na recessão, a prioridade, neste momento, é retomar o controle da carestia. O BC está consciente de que, sem uma inflação mais baixa, a retomada do crescimento econômico ficará mais distante. Não há confiança de consumidores e empresários que resista à disparada dos preços.

Em recentes conversas com técnicos do governo, integrantes da cúpula do BC deixaram claro que, mesmo que o Copom dê por encerrado o aumento dos juros nos próximos meses — o mercado aposta em mais uma alta da taxa básica (Selic) de 0,50 ponto percentual em julho e outra de 0,25 em setembro, passando dos atuais 13,75% para 14,50% ao ano —, nada impedirá que, mais adiante, o arrocho seja retomado, caso a inflação saia da rota esperada.

DOIS FATORES

Na avaliação do BC, dois fatores tendem a levar o IPCA para próximo de 4,5% ao longo de 2016. O primeiro deles é a retomada do controle das expectativas. O entendimento é de que, ao manter firme o aperto monetário iniciado depois das eleições presidenciais, aos poucos, os economistas foram derrubando as projeções para o custo de vida. As estimativas para 2016 estão ancoradas em 5,5% e as de 2017 e 2018 já se aproximam do centro da meta.

Outro fator que anima o BC é a redução da inércia inflacionária, que estimula os agentes econômicos a reajustarem seus preços olhando para trás. Ainda que a diminuição da inércia esteja apenas começando, o mercado passará a incorporar tal movimento em suas projeções, fazendo com que elas se aproximem das previsões da autoridade monetária. O peso menor da inércia na inflação se dará por meio do mercado de trabalho. Com o desemprego aumentando, a demanda por serviços vai diminuir e, em consequência, os reajustes de preços.

 

4 thoughts on “BC pode elevar juros até 14,5%, agravando a recessão

  1. O Banco Central está tentando controlar a inflação no grupo de preços livres o que está se revelando difícil já que tal grupo sofre hoje a inércia inflacionária da demanda de outrora junto com o aumento dos custos, incluindo o aumento dos preços dos itens importados ocasionado pelo efeito da desvalorização cambial.

    A inflação nos preços livres, até maio, está acumulada em 6,72%. Acima, portanto do teto da meta que é de 6,5%.

    Já os itens com preços monitorados pelo governo continuam sofrendo reajustes de recomposição e equilíbrio de preços para compensar todo o período do primeiro mandato de Dilma em que esses preços foram represados.

    A inflação nos preços de itens monitorados (ou administrados) pelo governo, até maio, está acumulada em 14,11%, também acima da banda superior de controle inflacionário do BACEN, isto é, 6,5%.

    Veja a tabela de variação agrupada:

    Grupo de despesa………….Variação Individual x Peso…………Variação Agrupada
    ——————————————————————————————————————————–
    Itens de preços livres………………………6,72% x 76,23%………….5,12%
    Itens de preços monitorados………….14,11% x 23,77%…………3,35%
    ——————————————————————————————————————————–
    Variação total……………………………………………………………………..8,47% (inflação acumulada)

    Fonte: IBGE e BACEN.

    Antes das eleições e, portanto, antes que o governo viesse a liberar o reajuste dos preços dos itens de despesas das famílias monitorados pelo governo, achava-se que o impacto inflacionário com a liberação dos preços administrados seria de no máximo 2%.

    O economista Delfim Netto, inclusive deu uma declaração no final do ano passado dizendo que a inflação represada nos preços administrados seria de máximo 1,5%.

    Vemos, entretanto, que este impacto já atingiu 3,35% até agora.

    Em verdade a inflação só será colimada ao centro da meta de controle do BACEN (4,5%) depois que a recessão terminar por eliminar todo o excesso de massa salarial que ainda dita o ritmo da demanda e, ainda, o próprio efeito inflacionário ajudar a corroer esse excesso de massa salarial no decorrer do tempo.

    Esse excesso é a resultante do confronto entre o montante demandado e o montante ofertado de produtos e serviços na economia interna do país.

    A previsão estatística dada por cálculos econométricos e expostos no relatório trimestral de inflação do Banco Central é a de que a inflação não colimará com o centro da meta antes do fim de 2016; de tal forma que é preciso ter paciência para esperar a ação recessiva e aceitar o fato inexorável de que, ainda que a selic seja aumentada a margem de ação da taxa sobre a demanda (consumo) será cada vez mais restrita com ganhos marginais de redução de consumo cada vez menores. É, portanto, um remédio com efeito cada vez mais reduzido daqui por diante.

    É preciso lembrar, e o Banco Central está ciente disso, que quanto maior for a elevação dos juros menor será o desejo do setor privado em efetivar investimentos na economia real – aquela que produz e que gera emprego -; e, portanto, maior será o tempo de retomada da economia tão logo se controle a inflação e se abra a oportunidade para retomar o crescimento econômico com nova rodada de expansão monetária.

    A atenção do Banco Central, então, na condução da política monetária é para estes dois aspectos: controle inflacionário no menor espaço de tempo possível e retomada do crescimento econômico. Justamente por isso, o BACEN tem de dosar a alta da selic, pelo que o próprio mercado fixou sua previsão em um teto para a taxa básica de juros da nossa economia de 14% a.a.

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