Beltrame declara a guerra: Rio cidade aberta

Pedro do Coutto

Quarta-feira, O Globo publicou como manchete principal – pesagem correta quanto a importância do tema – a afirmação do Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Mariano Beltrame, que, diante dos atentados que vêm sendo praticados em série por facções criminosas, envolvendo a cidade numa torrente de vandalismo e terror, a reação da PM será em dobro. Em dobro? Como? Dessa forma, o Secretário decreta uma guerra que a população rejeita e o governador Sergio Cabral deve evitar, pois, além de aumentar os riscos para todos, contribui para frear as atividades econômicas. As ruas estão ficando vazias em relação ao panorama normal.

O caso não é de revide duplo. Dizer isso representa admitir o desencadeamento das ações criminosas. A solução do problema – creio – está no plano oposto:  impedir a iniciativa e desenvoltura do crime e a ação dos bandidos que ameaçam e encurralam a sociedade como um todo. As declarações do titular da Segurança, publicadas quarta-feira, claro, foram feitas na véspera. Entretanto, para se ter uma ideia da onda de violência e depredação, da madrugada à manhã do dia seguinte, o RJ-TV da Globo colocou no ar cenas de ataques, incêndios de ônibus e automóveis, explosão de uma van, além do alarme falso de uma bomba em Ipanema.

A disposição de confronto sem quartel, portanto em qualquer lugar, destacada pelo titular da Segurança, contribuiu para ampliar a insegurança. Foram quatorze atentados numa sequência sinistra, até o momento em que escrevo. Na véspera, havia publicado artigo com o título inspirado em filme de Elia Kazan. Hoje, o título é inspirado na obra de Rossellini, Roma Cidade Aberta, cujas filmagens incluíram cenas reais do assalto final ao reduto nazista da cidade no crepúsculo da segunda guerra mundial, em 1945. Mas esta é outra questão.

Na realidade carioca e fluminense de 2010, extremamente  crítica, afirma-se que a ordem para os ataques partiu  de perigosos prisioneiros de dentro do Presídio de Catanduva. Que importa isso? Isso não explica nada. A ordem para os crimes em sequência terá que partir sempre de algum lugar ou de vários lugares. O fato é que os mandantes não foram os autores da violência física que faz submergir o conceito de ordem e da paz urbana.

Importa menos quem mandou. Importa mais quem organizou e os que praticaram os incêndios e suspenderam em várias regiões o direito de ir e vir que deve ser exercido por todos. Tal direito não pode ficar isolado no papel da Constituição porque bandidos presos determinaram. Não esclarece nada a constatação. Ao contrário. Complica. Pois, na medida em que encarcerados são apresentados como responsáveis pelo pesadelo, tacitamente se reconhece a fraqueza do poder da ordem legal.

Em entrevista ao RJ-TV, o governador Cabral sustentou a tese de que os episódios refletem uma situação de desespero por parte dos bandidos. Perfeito, estão desesperados. Mas isso não quer dizer que a população também não deva se encontrar na mesma aflição. O governador aconselhou as pessoas a manterem a calma e realizarem normalmente suas tarefas, seus hábitos e seu trabalho.
Aí é difícil aceitar como válida a observação. Seria uma prova de insensibilidade e até de irresponsabilidade.

Pois como exercer normalmente as atividades quando, como ocorreu em Vicente de Carvalho, balas da morte e da mutilação cortavam as ruas e esquinas do bairro? Impossível. Ao contrário. O conselho do governador deveria ser no sentido de cautela, não de exposição. Exposição ao risco iminente compete à Força Policial. Para isso, inclusive, o chefe do executivo recorreu ao ministro da Justiça. Tal apelo não pertence ao universo da normalidade. O Rio, infelizmente, transformou-se numa cidade aberta. Ao crime.

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