Beltrame: governador é meu parceiro. E os outros secretários?

Pedro do Coutto

Na entrevista quer as repórteres Elenilce Botari e Liane Gonçalves fizeram com José Beltrame, manchete principal de O Globo, edição de domingo, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, com total razão, afirmou que o êxito permanente das UPPs depende de investimentos sociais maciços nas áreas faveladas que se transformaram, ao longo do tempo, em redutos do tráfico  e da violência que alarma a população. A violência diminuiu, de acordo com os dados que forneceu. Mas os problemas locais que a alimentam permanecem. E vão continuar enquanto os esforços do governo não convergirem para enfrentar as raízes do conflito. Está certo neste ponto também. E coloca questão essencial: a força policial não pode resolver todas as coisas.

Beltrame deixou claro a O Globo que não está plenamente satisfeito com o apoio que recebe para realizar seu trabalho.  Tanto assim, afirmou que o governador Sergio Cabral é seu parceiro: “Peço, reclamo, o governador liga para as pessoas. Porém os pedidos e reclamações não surtem o efeito desejado”. Sem dúvida. Caso contrário, o secretário de Segurança não teria feito a exceção. Deu a entender nitidamente que o chefe do executivo empenha-se, mas tal empenho não encontra o esperado eco. Uma pena, digo eu.
“Sair – declarou – seria uma coisa egoísta. Não vou jogar a toalha. Brigo muito e isso me desgasta”. José Beltrame, que atua com autonomia, revelou tacitamente encontrar-se magoado com a falta de apoio efetivo à política que colocou em prática, a qual não termina na fronteira de repressão. Ao contrário. Tem como objetivo ultrapassar esse limite e ingressar no plano construtivo, a partir do repressivo. Correta a opinião novamente. A prevenção é algo essencial. Acontece o delito. A repressão o sucede. E portanto não impede seu reflexo nas pessoas e na sociedade.

Ao responder a uma pergunta das repórteres, Beltrame mandou um recado direto do Secretário de Fazenda, Renato Vilela. Em forma de indagação. Por que o estado não destina incentivos a empresas que investissem maciçamente nas comunidades? Ficamos nós esperando a explicação ou de Sergio Cabral ou de Renato Vilela. As estatísticas liberadas por Beltrame são incisivas. Ele assumiu o cargo em 2007. Em 2006, houve 6,3 mil homicídios no estado. Praticamente 19 por dia. Em 2010, caíram para 4,7 mil. Uma redução de 50%, sem levar em conta que o crime recuou enquanto o número de habitantes cresceu pelo menos 5%. Os furtos de veículos desceram de 21,6 mil para 18,7 mil. Os roubos (à base de violência armada) declinaram de 34,9 mil para 20 mil no ano passado. Mesmo assim o perigo mantém-se alto. Se somarmos os furtos aos roubos vamos chegar a um total de 38,7 mil casos em 2010. Este montante equivale a mais de 100 por dia. Ninguém portanto está  seguro na direção de seu automóvel. E o roubo a residências?

José Mariano Beltrame destacou como um dos pontos básicos  de sua atuação o combate à prática da desonestidade da qual nasce e se renova a corrupção. Não é tarefa fácil. O universo da corrupção é muito grande. O trafico de entorpecentes criou um câmbio interno dos piores. Pois o ladrão que rouba algo no valor de mil reais, acha que vai entregar o produto a um receptador e multiplicar o pagamento por 10 adquirindo e revendendo cocaína. Uma ilusão, certamente. Mas também uma proposta de sedução que o criminoso faz a si mesmo.

Enfim, como todos sabemos, o problema conjunto é extremamente complexo. E a política social de governo a que se referiu é indispensável. Como indispensável também é a ação que se espera do governador Sérgio Cabral depois de uma entrevista tão clara e tão oportuna.

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