Bento XVI repete o desastre Clare Boothe Luce

Pedro do Coutto

Reunido quinta feira em Roma com bispos brasileiros, o Papa Bento XVI recomendou aos dignitários religiosos que intervenham no desfecho eleitoral de domingo, no sentido de que as urnas tornem vencedor um presidente da República que possua posição definida contra o aborto. Não quanto à prática, já que ninguém pode ser favorável a ela, não teria a mínima lógica tal hipótese. Mas contra o posicionamento de retirar a interrupção da gravidez do Código Penal.

Com tal atitude surpreendente, o Cardeal Ratzinger intrometeu-se na política interna de nosso país e tacitamente desconheceu a diferença entre o Estado e a Igreja de Roma. Criminalização não pode ser tema religioso. Pertence à legislação civil. O Catolicismo não é religião oficial entre nós.

O alvo visado pelo Vaticano, assim, inegavelmente foi a candidatura Dilma. Claro. Em primeiro lugar porque, há tempos atrás, manifestou-se em favor de que o aborto não seja incluído no rol dos crimes.Em segundo lugar, o tema preocupou o Papa. Se não preocupasse, não haveria necessidade de se dirigir ao clero nacional como se dirigiu. Foi um desastre.

Ontem, O Globo, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, publicaram pesquisas atuais do Ibope e Datafolha. O Ibope assinalando uma vantagem de 13 pontos para a ex-chefe da Casa Civil. O Datafolha de 12 pontos. Convergiram, como se constata. Foram feitas antes do pronunciamento papal. Tornou-se portanto fácil conferir seu reflexo nas urnas.

Na minha opinião o gesto não altera nada. Talvez até proporcione mais alguns pontos a Rousseff. Isso porque é difícil aceitar, sem reação, a ingerência estrangeira nos destinos brasileiros. Afinal de contas, o Vaticano é um Estado. E o Papa, além de representar a face da religião, é o chefe político desse Estado. É possível até que a investida termine se transformando em fator contrário ao pretendido. Episódio semelhante, desastroso, por sinal, aconteceu em Roma, 1948, nas eleições parlamentares italianas. A embaixadora dos EUA, Clare Boothe Luce, mulher do magnata de imprensa Henry Luce, proprietário das revistas Time, Life, Fortune, compareceu a um comício da Democracia Cristã em favor do primeiro-ministro De Gasperi (não confundir com o jornalista Elio Gáspari, também italiano).

A luta entre o PDC, de um lado, e os Partidos Comunista e Socialista, de  outro, estava polarizada e radicalizada. Foi um desastre a atitude. A Democracia Cristã perdeu as eleições. O presidente Truman a demitiu sumariamente no dia seguinte. Mais tarde em 1959, foi indicada embaixadora no Brasil pelo presidente Eisenhower. Os senadores Wayne Morse, do Texas, e Mike Mansfield, de Massachussetes, lideraram uma campanha fortíssima contra Clare Boothe, cuja indicação acabou rejeitada.

Naquele instante encerrava-se também sua carreira diplomática. Em represália, Henry Luce colocou a face de Wayne Morse na capa da Time com o corpo de um cavalo. A legenda continha uma palavra: Incitatus. Incitatus foi o cavalo que o imperador Calígula colocou no Senado Romano, enfurecido com a derrota que lhe foi imposta em projeto de sua iniciativa. O episódio pertence ao passado e à História. Aliás os dois episódios, o do imperador e o da embaixadora. Mas estamos diante de um terceiro: a intervenção absurda e desnecessária do Papa Bento XVI no desfecho de domingo. Vamos conferir o seu efeito. Pode ser até que seja nenhum.

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