Bento XVI: estado sem justiça transforma-se num bando de ladrões

Pedro do Coutto

Reportagem de Carolina Vila Nova, correspondente da Folha de São Paulo na Alemanha, publicada em apenas uma coluna na página 15, edição de sexta-feira, merecia maior destaque. Afinal, a afirmação de quem ocupa o Trono de São Pedro, feita na sede do Parlamento em Berlim, não é algo comum.

Em primeiro lugar, tem-se a impressão de que o Papa Bento XVI foi tomado de sagrada ira, talvez respondendo às manifestações de rua contra sua visita. Inclusive, analisando-se bem, manifestações hostis que não procediam. Também tinham origem numa justa e natural revolta contra casos de pedofilia. Mas o Vaticano tem repudiado tais crimes. Impedir que aconteçam, o Papa, apesar de ser, para os católicos, um homem santo, não pode fazer. Ele é também um chefe de Estado. Culpá-lo por isso é a mesma coisa que responsabilizar presidentes e primeiros-ministros pelos crimes hediondos que ocorrem em seus países.Isso de um lado. De outro, acredito que a matéria merecia maior destaque também face a construção da frase ou de sua tradução.

Alemão de nascimento, Joseph Ratzinger, claro, falou em alemão. Caso contrário estaria agredindo o auditório. Agrediu os ladrões do dinheiro público, isso sim. Não sei, francamente ignoro, se no plenário do Parlamento estava alguém capaz de sintetizar em si o alvo da revolta papal. Mas falei em tradução. É possível, já que a oração colocou o seguinte: “A busca de valores, como justiça e direito, e não o sucesso e os ganhos financeiros, deve orientar a atividade dos políticos no país”. (Logo se referiu aos políticos alemães. Caso contrário teria feito ponto na palavra políticos). “Sem justiça” – prosseguiu textualmente – “o que mais é um estado senão um bando de ladrões?”

Na sequência, exaltou o exemplo de Santo Agostinho, filósofo tanto do cristianismo quanto do catolicismo. Faço a ressalva porque o cristianismo antecede o catolicismo em 305 anos, portanto mais de três séculos, quando a Igreja Católica teve sua base construída pelo imperador romano Constantino, seguindo inspiração de sua mãe, Helena. Consagrada santa da Igreja de Roma a 21 de maio.

Mas não desejo me afastar demasiado do enfoque relativo à tradução. Traduzir é difícil. Vejam o exemplo da frase famosa de Sartre, “o inferno são os outros”,  contida na peça de “Huis Clos”, em português “Entre Quatro Paredes”. No original francês predomina o singular: L’Infer c”est les outres. No Rio, 1956, Teatro Dulcina, com Paulo Autran, Tônia Carrero e Margarida Rey, Autran afirmou: “O inferno são os outros”. Por esse fato observa-se que há sempre armadilhas na tradução. Principalmente quanto aos grandes autores.

É complicado o caminho para se chegar à atmosfera exata do texto original. No caso de Bento XVI, a atmosfera foi transmitida no texto de Carolina Vila Nova. Mas parece faltar uma ponte entre a primeira e a segunda parte da oração. Entretanto preservam o sentido, o que deve ter inquietado uma parte dos políticos brasileiros, já que o Papa vem a nosso país em breve para dar início à preparação do Congresso Mundial da Juventude, em 2013.

Preocupação de relevo. Pois se o catedrático de São Pedro revolta-se contra os ladrões que existem na política da Alemanha, que dirá quanto aos ladrões na política brasileira? Existem em profusão em todas as escalas, principalmente envolvendo alguns que detêm a caneta em suas mãos. As canetas de hoje são muito ais letais do que as lanças romanas que feriram Jesus Cristo em Jerusalém no eterno desfecho da cruz. Esta sim, para sempre um símbolo de justiça, dignidade, amor e justiça.

 

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