BH, uma capital rumo ao século XIX. O que se pode dizer de uma capital de estado importante cujo metrô é ainda uma quimera?

Fernando Pawlow

O que se pode dizer de uma capital de estado importante cujo metrô é ainda uma quimera, uma figura de linguagem (segundo Itamar Franco. a linha não avançou não um km, mas nem um metro nos últimos 20 anos)? Onde, por motivos supostamente ecológicos, os vereadores proíbem as sacolas plásticas (mesmo ecologistas consideram esta medida inócua, afinal os sacos de lixo não poluem?) sem apresentar alternativas senão o uso de sacolas retornáveis (em outras capitais se oferecem bônus por redução do uso de sacolas e se estuda reciclá-las), enquanto fabricantes de “sacolas ecológicas” e retornáveis têm lucro gigantesco já no primeiro mês da dita lei – sem falar dos supermercados que se veem livres de fornecer embalagens ao mesmo tempo em que colocam os preços dos sacos de lixo na estratosfera?

Capital cuja meia passagem para estudante não entra nem como hipótese na política de transporte coletivo, em uma cidade onde a Associação de Usuários de Transporte Coletivo sempre toma a defesa da BHTRANS (a companhia de transportes coletivos) justificando aumentos e supressões de linha de ônibus?

A massa anônima recebe estes golpes como se acostumou a recebê-los: de cabeça abaixada e murmurando entredentes contra governantes que foram eleitos por ela própria, sob influência de “agentes sociais” que martelam através dos meios de comunicação que dominam (com o apoio cúmplice de “artistas” mineiros sempre ciosos de suas posições e distantes da vida ordinária da metrópole) e das escolas publicas, que não servem para outra coisa além de centros de doutrinação.

Os que reclamam não parecem cientes de sua responsabilidade no suplício comum a todos, votam levianamente no vizinho, no dono da loja onde trabalham, num concunhado, na sogra da prima  etc. Permitem que assim suas vidas sofram pelos caprichos de uma minoria que decide, por exemplo, criar Estações de Ônibus que tomam uma hora a mais de seus dias à toa, pois os ônibus não desobstruem o centro da cidade (a justificativa oficial para a construção destes elefantes de cimento armado) e de uma maioria obtida por programas assistenciais que são (ainda que vitais para quem deles dependa para ter o mínimo) a forma acabada do coronelismo urbano, e que tudo justifica e propagandeia e mesmo patrulhe quem se atreva a queixas contra a “administração popular” (sim,  aqui há Centros de Defesa da Revolução que não se declaram como tal, ainda).

O papel unificador de pensamentos que a Universidade exerce é notável, ninguém deseja a pecha de “desinformado” e “direitista” que se fixa nos descontentes, e o modelo caminha já em ponto avançado para uma cristalização de hábitos mentais e costumes cívicos que em nada difere do que se conhece por totalitarismo, tal como Hannah Arendt nos apresenta (qualquer estudioso do fenômeno totalitário, não apenas ela, claro, lembremos do Norman Mailer profetizando o “Totalitarês” a linguagem inodora e burocrática dos engenheiros sociais, Mailer prevendo simplesmente o Politicamente Correto em 1967).

A UFMG, chão sagrado do petismo (matriz ideológica do sistema que descrevo em BH) suspendeu, através de sua reitoria, toda e qualquer festa no campus por conta de uma agressão que teria ocorrido contra homossexuais na calourada da Faculdade de Letras, chegando mesmo a estender a proibição a recepção a calouros até nas Moradias Estudantis. Os DAs protestam, ameaçam com marchas e demonstrações em frente à Reitoria, mas o poder na UFMG permanece firme em sua política de evitar incêndios na floresta derrubando as árvores de antemão, não punindo os incendiários.

E muitos estudantes elogiam, notando que as festas atraem “gente de fora, funkeiros, que vem fazer bagunça” – embora os ditos funkeiros não aprontem mais confusão no campus que os “membros da comunidade acadêmica”.

Não são poucos os que consideram invasão os populares que comparecem às festas, fugindo da modorra dos bairros que nada lhes oferece, apesar da propaganda oficial. Sei que não faltarão comentaristas atacando o que escrevo, elogiando os “esforços da prefeitura” e me rotulando como “desajustado” ou “reacionário”.

Não espero outra coisa, até acho legítimo que justifiquem o que recebem em Assessorias de Imprensa (falando nisso, a Câmara de Vereadores votou lei tornando obrigatório o Diploma de Jornalista para se trabalhar na área em BH, ao que parece em órgãos de imprensa municipais apenas, desafiando o STF e confirmando BH como mercado cativo de “jornais populares”, os únicos que conseguem público leitor, afinal) e em ONGs como “agentes de transformação social”.

Não sirvo a estes poderes e me sinto livre para gritar pela cidade que amo e pela maioria desprezada que recebe os golpes sem gritos, apenas gemendo maldições.

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