Biblioteca Nacional: descaso com a memória é queima de arquivo

Lucas Alvares

“O Paiz”, uma daquelas publicações que deram origem a todas as outras, foi muito mais do que um órgão oficioso da República Velha. Foi, à moda da “Tribuna da Imprensa”, uma das maiores vítimas da intolerância política da história brasileira. Perseguido em seus primórdios por monarquistas, viveu anos de primavera durante a proclamação e consolidação da República. Foi só Washington Luiz sair preso do Catete para que uma turba enfurecida invadisse, empastelasse e incendiasse a redação do jornal, em 1930, em um dos episódios mais marcantes da Revolução. Pois bem: os alfarrábios da Biblioteca Nacional revelam dois outros períodos de publicação da histórica folha de Quintino Bocaiúva, ambos de curta duração: 1934 e 1968.

Em 1934, durante o sopro democrático da Assembléia Constituinte, fez circular moderadas críticas ao governo Vargas. Foi o suficiente para que, tão logo Getulio fosse eleito indiretamente, saísse de cena. Estes meses surgem, para espanto dos pesquisadores, ao fim da coleção do jornal e não aparecem nos catálogos da Biblioteca Nacional.

Se o pouco cuidado com a coleção de 1934 chama a atenção, a destruição da memória de um dos maiores jornalistas brasileiros gera perplexidade. Em 1968, por outro curto período, Joel Silveira relançou “O Paiz” como um jornal de esquerda. O discurso combativo de Joel, marxista da velha guarda, pôs fim à trajetória do diário com o AI-5. O escândalo mora aí: a publicação “subversiva” aparece nos catálogos da biblioteca como disponível. Consulta-se o acervo, e nada. De lá, desapareceu misteriosamente com outras publicações de vanguarda.

As duas primeiras edições de “O Tico-Tico” (1905), subtraídas das prateleiras da instituição em ação inviável sem a conivência ou imprudência de seus funcionários, se revelam como uma pequena parte do descaso maior do povo brasileiro: o ato contínuo de apagar, dia após dia, sua História e seus personagens.

Entregue no governo Lula à presidência de Muniz Sodré – homem das salas de aula e das diatribes sobre a notícia – e desde janeiro ao jornalista Galeno Amorim, convive com seguidas greves de seus servidores e tem o processo de digitalização de seu acervo estacionado há anos. Disponível na Grande Rede em doses homeopáticas, o acesso às publicações para pesquisa pessoal ou inclusão em trabalhos acadêmicos é vinculado ao pagamento de taxas abusivas, muito superiores ao custo da cópia ou mesmo da mão de obra para se transformar um microfilme em papel impresso. Seus microfilmes, aliás, sofrem com o desgaste do tempo e os frequentadores reclamam do mau estado do equipamento necessário para a leitura nesta obsoleta tecnologia.

Outra nota triste: a digitalização da “Última Hora” em seus tempos áureos é toda feita em São Paulo, no acervo público estadual. Um dos títulos mais tradicionais da imprensa carioca, pioneiro no jornalismo popular, tem sua memória preservada por uma instituição distante dos grandes nomes da UH que poderiam auxiliar no processo de preservação. O resultado: escaneia-se a folha, mas não se revive o jornal.

Preservar a memória é um ato contínuo, muito mais nobre e trabalhoso do que a mera reprodução. É unir a alma de cada publicação, extinta ou corrente, a seus personagens, leitores e pesquisadores. Só assim é possível escapar da queima de arquivo que condena títulos que contam a história do Brasil ao mesmo esquecimento a ela relegado.

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