Bola Preta reviveu para o Rio de hoje os grandes carnavais de ontem

Pedro do Coutto

Com o monumental desfile que realizou no sábado, centro da cidade, abrindo o carnaval 2012, o Bola Preta, que reune em si quase cem anos de tradição, reviveu para o Rio de hoje, para as gerações de agora, como era o carnaval de ontem, o do passado, que estava coberto pela poeira do tempo. Reviveu recordações sem fim.

As emissoras Globo, Record e Band, estimaram a multidão em mais de um milhão de pessoas fantasiadas ou quase, sambando alegres ao som de tantos sucessos inesquecíveis na vida carioca. Foi uma bela demonstração de como revive o espírito de um carnaval que parecia ter desaparecido para sempre. Reviveu. Ressuscitou. Uma surpresa.

O Bola Preta sempre abriu o carnaval no Rio de Janeiro, saindo tradicionalmente nas manhãs de sábado. Porém nunca em sua longa história congraçou multidão igual ao longo de seus cordões. A que se deve o fenômeno? A que se deve a ressurreição? Não sei. Mas o episódio me conduziu a tantos outros de fevereiro, às vezes março, de tempos idos.

Para mim, foi uma viagem da memória, como se eu encontrasse a mim mesmo em ocasiões já antigas.Lembrei dos blocos e cordões que passaram. Não só pelo centro da cidade, mas pelos bairros, lotando as ruas e praças. Na Avenida Rio Branco, a famosa Galeria Cruzeiro, hoje Edifício Avenida Central, fervilhava. Milhares dançavam em frente à varanda do Hotel Palace, onde se hospedou Caruso quando cantou no Municipal. A esquina com o Clube Naval, que está na Almirante Barroso até hoje, com a sede do Jóquei Clube que mudou de endereço.

Artistas como Noel Rosa, Lamartine Babo, Rubens Soares, Monsueto, Nássara, Zé Keti, Davi Násser (também jornalista) Klecius e Cavalcanti, Bide e Marçal, legaram composições inesquecíveis, hoje peças de museu. Havia dois clubes históricos em matéria de carnaval: o Bola Preta, que renasceu, e o High-Life, na Rua Santo Amaro, hoje sede do INCRA, que desapareceu.

O Bola Preta foi, inclusive, tema de várias composições. Não só a que abre eternamente seus desfiles (Quem não chora não mama), como também a de Joel e Gaucho (Adeus a Guiomar, no Bola Preta é que eu vou me acabar). Frase de épocas antigas, sinônimo de carnaval e descompromisso. Uma outra dizia: “Você vai pro High-Life, que eu vou pro Bola, ora se vou”). São Tantas. Recordei estas.

Na fase pré-carnavalesca, o Bola promovia os chamados gritos de carnaval na sede da qual saiu por dificuldades financeiras. A velha guarda, como todas as velhas guardas, foi desaparecendo, o clube ficou entregue aos que resistiram ao tempo. Porém de repente, não mais que de repente, o Bola ressurgiu e, como no filme famoso, suas luzes brilharam outra vez.

Vou sugerir à vereadora Tereza Bergher que o Bola Preta seja tombado e, nesta condição apenas retórica, se incorpore à história do Rio e à memória cultural da cidade.E que seu desfile de sábado, que foi evidentemente gravado pela Globo e pela Record, seja adquirido e destinado ao Museu da Imagem e do Som.

Por falar em Museu da Imagem e do Som, de acervo tão importante, como se encontram as obras de construção de seu novo prédio? Estão paradas há mais de três anos. A casa noturna que ocupava aquele local na Avenida Atlântica, entre Miguel Lemos e Djalma Ulrich, foi desapropriada e demolida. Mas a construção do Museu que entraria em seu lugar está absolutamente paralisada. É uma obra do governo Sérgio Cabral.

Mas o novo MIS é outra questão. O fato é que o Bola Preta voltou a tornar o Rio mais carioca, como era antigamente, e mostrou que o carnaval não é só patrimônio das Escolas de Samba, um belo patrimônio por sinal. Mas é patrimônio da cidade, do povo e do país.

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