Bolsonaro e Pazuello estão testando até onde vai a fidelidade dos comandantes militares

Charge do Quino (Arquivo Google)

Malu Gaspar
O Globo

O artigo 45 do estatuto militar é claro: “São proibidas quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político.” E o que fez Pazuello no último domingo?

Foi ao Rio de Janeiro, embrenhou-se na multidão até chegar ao palanque de Jair Bolsonaro e subiu. Uma vez em cima do palco, tirou a máscara, colou-se ao presidente da Republica, que o apresentou como um “gordo do bem”, “ministro que conduziu com muita responsabilidade os últimos meses aí”, e lhe passou o microfone.

“FALA, GALERA!” – Entre risos, aplausos para o povo e sinais de positivo, Pazuello bradou em tom de animador de auditório. “Fala galera! Eu não ia perder esse passeio de moto de jeito nenhum. Tamo junto! Parabéns a vocês, parabéns a galera que tá aí prestigiando o PR (Presidente da República)! PR é gente de bem! Abraço galera!” A cena é fácil de achar em vídeos no Youtube.

Ainda assim, ao longo desta quinta-feira, brotou no bolsonarismo e foi sustentada pelo “PR” a tese de que o tal ato não era político. Pazuello inclusive sustentou nesse argumento sua defesa no procedimento disciplinar do Exército.

Não vale nem a pena gastar caracteres debatendo tamanha asneira. Mas, ainda que fosse verdade, não bastaria para resolver o problema de Pazuello com os comandantes militares.

INSUBORDINAÇÃO – Basta confrontar a regra para saber que o ato de insubordinação foi inequívoco.  Tanto o capitão Bolsonaro como o general de intendência Pazuello sabem disso. E não apenas sabem como ignoraram deliberadamente os códigos da caserna, para depois debochar deles como quem tem a certeza de que não haverá maiores consequências.

Afinal, o presidente da República é o comandante-em-chefe de todas as forças. Quem ousaria desautorizá-lo? Além disso, não seria a primeira vez que Bolsonaro testa o brio do generalato. E, entre crises e tensionamentos, ainda acumula um saldo positivo.

A aposta, porém, é arriscada. Os generais de quatro estrelas do Alto Comando do Exército estão indóceis desde que o episódio aconteceu, engolindo em seco os desaforos em série. Entre eles (e para interlocutores capazes de passar essa mensagem ao público), dizem que não há nenhuma chance de Pazuello não ser punido. “Bolsonaro quer semear a anarquia”, comentam, indignados.

HAVERÁ PUNIÇÃO – Deixar Pazuello sair dessa incólume significaria abrir o precedente para que militares de todo o Brasil vão às ruas ou subam em palanques nas próximas eleições, e depois saquem da manga uma desculpa furada que que estavam só num passeio de moto, numa feira livre ou num forró – mas não, imagine, nunca em um ato político.

Significaria, ainda, a humilhação pública do comandante da força e a desmoralização generalizada da noção de hierarquia, valor central do Exército.

Não é segredo para ninguém que isso é o que Bolsonaro sempre quis, desde os tempos de capitão. A questão agora é saber o tamanho da punição que os comandantes estão dispostos a aplicar. Será uma boa medida da humilhação que eles ainda são capazes de aguentar.

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