“Bolsonaro é resposta tosca, mas não ameaça a democracia”, diz Mangabeira

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Mangabeira Unger explica a derrota de Ciro Gomes

Carolina Linhares
Folha

Para o filósofo Roberto Mangabeira Unger, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) é uma resposta tosca a uma aspiração legítima do Brasil profundo de botar para quebrar. O professor da Universidade Harvard (EUA) critica a hegemonia do PT, de Lula. “Como eles vão liderar? Eles se esborracham porque não compreenderam o que o país queria”. Amigo e guru de Ciro Gomes (PDT), ele assume erros na campanha.

Qual o significado da eleição de 2018?
Foi um plebiscito sobre a volta do PT. A maioria decisiva dos brasileiros estava disposta a pagar quase qualquer preço para evitar o retorno do PT. O PT e o Lula deveriam ter tido a grandeza de reconhecer que a maioria dos brasileiros não aceitaria a volta do PT. Não havia qualquer chance de vitória do candidato do PT, mesmo que Lula pudesse ter sido candidato. O natural é que o PT desde o início tivesse apoiado Ciro.

E por que Ciro não venceu?
Ciro e nós, seus aliados, cometemos um erro. Havia dois caminhos. Um era acertar-se com Lula e com o PT. Aceitar ser vice de Lula para depois virar cabeça de chapa. Havia objeções a isso, devido à diferença entre os projetos par o país e à falta de confiança nos acertos do PT, que tem uma longa história de dar rasteiras. Esse caminho tinha uma consistência tática. O outro caminho era romper desde o início com o PT. Deixar clara a diferença de projeto e oferecer-se ao eleitorado como uma alternativa mais confiável do que Bolsonaro. O erro foi ficar no meio termo. Muitos até o final continuaram a achar que o Ciro era um homem de Lula. Isso é que foi fatal.

Ao não declarar apoio a Haddad no segundo turno, Ciro buscou esse afastamento?
Tarde demais para superar os males gerados por essa ambiguidade. Ciro passou muito tempo explicando-se para as classes ilustradas e endinheiradas, que na maioria jamais votariam nele, em vez de buscar o povão.

Qual dos caminhos que o sr. mencionou para Ciro era melhor?
Os dois tinham consistência. Se ele escolhesse o acerto com o PT, não havia nenhum risco de que, no poder, ele se conduziria como instrumento do lulismo. Eu advoguei essa alternativa.

O sr. não disse que tem que correr fora da raia do lulismo?
Você está fazendo confusão. Uma coisa é o caminho tático. Nós não escolhemos as circunstâncias. Se fosse o primeiro caminho, haveria o problema da confusão da população, porque ficaria manifesto que o Ciro tem um outro projeto.

Mas ele seria eleito?
Com grande chances, com o apoio de Lula, mas sendo não-Lula e sendo quem é, inconfundível com poste, teria grandes chances. O [caminho] preferível teria sido começar de lá de trás essa pedagogia da diferença.

O sr. disse que é preciso correr fora da raia do lulismo…
Eu não disse isso, Fernando Haddad atribuiu essa frase a mim, porque ele confundiu duas coisas: a questão tática com a questão de fundo. Sinceramente eu acho que ele, meu amigo, até hoje não compreende a diferença substantiva dos projetos.

Como o sr. explica a ascensão de Bolsonaro?
PSDB e PT juntos, duas cabeças da mesma serpente, conduziram o Brasil por uma lógica da cooptação. Cada parte do país foi comprada, a corrupção foi apenas um dos vários corolários desse sistema. Intuitivamente o Brasil buscava passar da lógica da cooptação para a lógica do empoderamento. E por trás dessa rejeição ao PT havia o repúdio à lógica da cooptação. O modelo que chamamos de nacional consumismo democratizou a economia do lado da demanda e do consumo, não do lado da produção. O agente social mais importante do Brasil, os emergentes, é órfão de projeto político. Não é apenas a pequena burguesia empreendedora mestiça, morena, que vem de baixo. É também uma multidão de trabalhadores pobres que vê nos emergentes a vanguarda. Essa é a cara do Brasil profundo.

A esquerda abandonou essa população?
Chamar de esquerda o PT é muito esquisito. Porque esse nacional consumismo não tinha qualquer projeto de mudança estrutural. A parte social é o açúcar com que se pretendia dourar a pílula do modelo econômico. Esse Brasil profundo quer desesperadamente mais do que açúcar. Quer instrumento e oportunidade. Quer botar pra quebrar, criar, construir, inovar, ser gente. ​Bolsonaro é o beneficiário acidental desse desejo frustrado. Acidental não é para desmerecer o esforço que ele fez durante anos de construir um discurso e canais para esse Brasil desconhecido, que é o agente decisivo hoje.

Bolsonaro teve essa estratégia ou foi sem querer?
Intuitivamente sim [teve estratégia]. Oferece soluções simplistas, mas que no imaginário apelavam para uma ideia de libertação e merecimento. Era a forma simplista e até distorcida e mentirosa de uma aspiração legítima.

Por que o PT não apoiou Ciro?
Tudo indica que preferiam perder o poder à direita a perder a hegemonia na esquerda. Por soberba, sobrevalorizando a sua influência sobre a população e subvalorizando a descoberta pelo povo brasileiro da insuficiência do projeto petista. Um povo farto da lógica da cooptação nacional consumismo e buscando o empoderamento. Isso era o mais difícil de eles aceitarem porque seria uma crítica fundamental a eles mesmos..

Bolsonaro fará um bom governo?
Me parece promissor, e falo como opositor, a ideia de impor o capitalismo aos capitalistas. Nem de longe é condição suficiente para o modelo de desenvolvimento que precisamos, mas é condição preliminar. A radicalização da concorrência, quebra dos cartéis, a destruição dos favores dados aos graúdos pelos bancos públicos. E de oferecer aos emergentes um projeto político que responde às aspirações deles. Considero que a resposta é tosca e que irá frustrar parte da população. Mas é melhor do que nada. O que era intolerável no nosso país é que o agente social mais importante estivesse alienado da política e não se sentisse representado.

Bolsonaro não é o experimentalismo radical?
Não. Não é a ideia de que existe a forma simplista de acabar com a bagunça. A ordem na sala de aula, a força contra crime, é o presidente não comprar os partidos. Não é acabar com a bagunça, é transformá-la numa anarquia criadora. Não vamos impor ao país uma camisa de força. A severidade moralizante, a fórmula pronta, o revólver, a ordem patriarcal. Tudo isso é uma fantasia arcaica, de que há um atalho, uma maneira simples de encontrar esse futuro que queremos. O Brasil vai descobrir que esse atalho não funciona, mesmo assim eu julgo que essa primeira onda será útil ao país e talvez, retrospectivamente, venhamos a pensar que ela foi necessária.

Bolsonaro é uma ameaça à democracia?
Não vejo qualquer indício concreto de ameaça direta à democracia. Em Harvard, meus colegas me abraçam em solidariedade porque passa por lá que Mussolini assumiu o poder. Não é nada disso. O risco que nos ronda não é a ditadura fascista, é a perpetuação da mediocridade. O risco à democracia pode haver depois, por sucessivas frustrações dessas aspirações dos emergentes, de empoderamento.

Como vê Sérgio Moro no Ministério da Justiça?
Outro aspecto positivo de Bolsonaro é a desorganização dos acertos entre oligarquia do poder e oligarquia do dinheiro. Moro pode ser útil nisso. Muito bom para o país. Desde que não caiamos sob o governo dos juízes, que não têm eficácia ou legitimidade para governar. Eles são úteis ao país para abrir o espaço cívico e impedir que ele seja corrompido, mas não para ocupá-lo.

O que acha da política externa de Bolsonaro?
Há duas vozes dominantes na política exterior brasileira. A primeira é a da política exterior como sucursal da UNE. É retórica, nunca foi real. Por exemplo, nos assuntos da Defesa, o Brasil é um protetorado dos EUA e o PT nunca levantou um dedo para mudar isso. A outra voz é a política exterior como sucursal da Fiesp. É um bazar para vender os nossos produtos. O que eu temo é que a política exterior do governo Bolsonaro venha a ser a continuação da mesma coisa, a justaposição dos dois erros. É o simbólico com sinal trocado, em vez de anti-imperialismo é antiglobalismo. Um tão ruim quanto o outro. Justaposto ao pequeno mercantilismo. É um bazar permanente.

E a relação com os EUA?
De um lado, dizemos “vamos ser como eles”. Eles buscam grandeza, nós vamos buscar grandeza. E qual a fórmula da grandeza? É nos subordinar a eles. Isso é algo que não passa, justificado por essa retórica confusa do antiglobalismo. É a ambiguidade do discurso do Bolsonaro. Não está só trocando o sinal, passando de uma política ideológica para outra e não concebendo a política exterior como política de estado. Estão usando a política exterior como se fosse o reino do simbólico. Os astrólogos escolherem chanceleres. Isso só aconteceu na Babilônia há três mil anos.

24 thoughts on ““Bolsonaro é resposta tosca, mas não ameaça a democracia”, diz Mangabeira

  1. É preciso ter muito saco para aguentar “intelectuais” como esse aí de cima.
    Sem uma mínima percepção dos fenômenos que nos causam, os equívocos dessa gente são visíveis até por um cego.
    Por isso e mais algumas se deixam contaminar por ideais que, com eles, sem perceber vão se desconectando da realidade , chamando de toscos aqueles que ainda têm com ela alguma conexão.

  2. Sr.Mangabeira,externou sua avaliação,tbem tarde de mais.

    Ficou claro, faltou planejamento e estratégia de campanha.
    Ficou a reboque do PT.

    Agora,falar depois do acontecido, é barbada.
    Deveria ter lido os nossos comentários aqui Tl.

    Agora,tbem não disse que Ciro deve fazer.

    Digo Eu,ser comentárista aqui Tl,Rede Tv,Band,etc…
    Fazer palestras pelo Brasil a fora.

    Por,derradeiro as “premissas”,do Bolsonaro/posto Ipiranga, não são nada promissoras.

    Tbem,foi aludido por nós no período eleitoral.

    É o que é.!!!!

  3. Mário Jr, bom dia,

    O Sr., pelos seus comentários, é um crítico persistente ao nosso sistema econômico, que foi, é e será o capitalismo, ainda bem.

    E diz que governos anteriores eram socialstas, e chegando a dizer comunista.

    Então me diga um ATO dos governos anteriores, que tanto criticas, que nós podemos chamá-los de socialistas.

        • Socialismo é os EUA salvarem a GM com mais de 30 bilhões de dólares.

          Socialismo é a Dinamarca pagar 500 dólares ao filho que completa 30 anos de idade para sair de casa.

          Socialismo é o governo Francês pagar 100 euros para empregados da iniciativa privada que ganha até um salário mínimo.

          Socialismo são os países Encandinavos.

          Socialismo é quando na Alemanha uma seguradora tem lucro acima do normal e devolver dinheiro para os segurados.

          Você viu o filme UMA MENINA DE OURO?
          Uma boxeadora ganhou muito dinheiro e foi visitar a mãe para dar-lhe uma casa e a mãe botou a filha para correr dizendo que se ganhasse a casa perderia a casa e a pensão que o governo americano lhe dava.

          Vá se informar.

          Ps. Nos EUA tem muitas estatais

          • Discordo.
            Governos tem somente que não atrapalhar a produção que é o que emprega.
            Não deve se meter na vida pessoal e nem obrigar o cidadão a nada como agora o Supremo dos EUA proibiu o obama-care por isso.
            O estado é para servir o cidadão e não este servi-lo.
            E o melhor que o estado deve fazer é facilitar ao máximo a instalação de empresas no país, independentes de quem sejam seus donos: o capital não tem pátria e é ele é melhora a sociedade. O resto é ideologia.

  4. Adoro velhos intelectuais como este, tem certeza absoluta que são demais, donos da verdade inteira e, que sem eles viveríamos mergulhados no caos. Outro como ele é o FHC, o imprescindível. Gente assim só se cura com terra de cemitério antes disto continua doente.

  5. Esse sinhozinho daria para um bom comentarista econômico dos botecos à beira-mar, principalmente depois da décima cachaça. Nem precisa de comediante. Melhor ainda se ele trouxer o doido varrido Ciro Gomes. O pessoal vai dar mais risada deles do que daria se levassem o elenco de “A Praça é Nossa”. E o sinhozinho tem um perfil de humorista, é baixinho, cara engraçada e vozinha de locutor de enterro.

  6. Não sei que tanto falam desta tal democracia, que facilita os poderes constituídos explorar e roubar o povo e país descaradamente;

    Muito menos sei que idiotice é esta democracia, que se torna insensível aos clamores de mais de 55 milhões de pobres e miseráveis;

    Não entendo que democracia é esta, onde o ser humano não está sendo mais prioridade, objetivo que ser de qualquer governo, porém mero protagonista de uma nação sem comando porque suas autoridades não têm moral alguma para governar;

    Não quero também tomar conhecimento desta democracia, arrotada e vomitada por intelectuais, cuja imaginação sobra a situação do Brasil é tão caótica, que ignoram nossas extremas dificuldades humanas, e se deliciam em apresentar suas teses absurdas,enquanto milhares morrem através da violência exacerbada, saúde pública deteriorada, e infraestrutura inexistente!

    Mal comparando, se temos Leonardo Boff e sua Teologia da Libertação de um lado, do outro, a figura deste filósofo que não distingue a realidade da ficção.

  7. Só para lembrar o saudoso Agildo Barata Ribeiro: “Eu posso explicar ?”. Então explicarei. Tudo farinha do mesmo saco, direita, esquerda e centro (ou serão saco$ da mesma farinha ?). Tudo mais dos me$mo$, perda de tempo versus tempo perdido. Entre os bolsonarianos então, se juntarmos todos não dão meio que preste para ajudar na construção do novo de verdade que se faz necessário, há muito tempo. Quanto ao Mangabeira, às vezes Mangabesteira, é outro que fala, fala, fala, até pelos cotovelos , mas tb não diz nada de novo de verdade, à moda FHC, Ciro e CIA, se alinham entre aqueles que ouviram o Leão do Novo de Verdade rugir, sabem onde ele está, reconhecem as dimensões dos seus rugidos, mas não têm desprendimento, dignidade e, sobretudo, humildade para dizer onde está o Leão e nem o nome do milagre da multiplicação dos pães, dos peixes e das oportunidades, e ficam ai na cara dura tentando se impor ou impor os seus bondes velhos, de direita, de centro e de esquerda, todos com prazo de validade vencido, no lugar do Leão e do Novo Trem da História, e daí, como castigo, talvez de Deus por omitirem o Leão, dá nessas coisa$ e coiso$ horroroso$ que ai estão, à moda charlatões políticos temporais, zerando as chances do Brasil e do povo brasileiro de se libertarem dos me$mo$, 171uns, que ai estão há 129 anos, fardados e à paisana, impedindo que o Brasil de fato bote pra quebrar com a Revolução Pacífica do Leão, a RPL-PNBC-DD-ME, o projeto novo e alternativo de política e de nação, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, por que evoluir é preciso. E tenho dito. Vão encarar ?

  8. A solução seria Circo Gomes, aquele que quer herdar os pobres brasileiros do Nordeste que ainda acreditam no Pai Lula que quase destruiu o país. Mangabeira, a solução é o Coroné e seu cangaceiros. Tá legal filósofo, é admirável as suas palavras sem sentido. Não é a toa que meu professor de filosofia na Universidade era um paranoico que mal conseguia proferir uma palavra, quanto mais ministrar uma aula. Que Deus nos ajude a nos livrar destes imbecis que lutam apenas pelos seus interesses.

  9. ENGANAM-SE OS QUE PENSAM QUE FOI FÁCIL PARA A CHINA FAZER A TRAVESSIA QUE ESTÁ FAZENDO. Assim como a União Europeia e a própria Rússia, a China tb se reinventou, encontrou o seu próprio caminho, ou pelo menos o mais adequado às suas condições e demandas, fincou raízes fundas e fortes com paciência, à moda bambu, e, por conta do seu próprio pulo do gato, conduzido por Estadistas, cresce vertiginosamente, e, prestes a assumir a hegemonia econômica mundial, leva os EUA à loucura, levando o topete do Trump ao delírio. E o Brasil ? Pobre Brasil. Capturado e entregue à lógica e ao espírito dos ratos, lobos, baratas, hienas, carrapatos, cupins e afin$, delirantes, não tem condições de chegar a lugar algum senão ao seu próprio ocaso, à sua própria tragédia. E não é por falta de projeto novo e alternativo de política e de nação não, até porque, agora, há cerca de 20 anos, dois mil anos Depois de Cristo, temos nas redes sociais da Internet a RPL-PNBC-DD-ME, a Revolução Pacífica e Redentora da política, da nação e da população, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, pedindo encarecidamente ao sistema político apodrecido, com prazo de validade vencido há muito tempo, que, pacificamente, abram alas para a passagem do novo de verdade que à moda Pulo de Leão do Brasil adiante dos EUA, dos Tigres Asiáticos e da própria Europa-mãe, urge estabelecer-se no lugar do velho que já morreu, para que o Brasil passe a ter presente e futuro alvissareiros, baseado na rendição do velho que já morreu ao novo que precisa se estabelecer, com paz, amor, perdão, conciliação, união e mobilização em prol da Mega-Solução, tal seja o novo caminho para o novo Brasil de verdade, porque evoluir é preciso, não obstante o tempo já perdido, antes tarde do que nunca. https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/377781/Comércio-exterior-chinês-cresce-apesar-das-restrições-dos-EUA.htm?

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