Bolsonaro em guerra, tenta subjugar o STF nomeando aliados e afrontando ministros

Charge postada por Rogéria, primeira mulher de Bolsonaro

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

Toda vez que o presidente José Sarney viajava para o exterior, o então senador Fernando Henrique Cardoso dizia, maledicente: “A crise viajou”. Mais tarde, viria a exercer dois mandatos na Presidência, passando também por seus dissabores. Hoje, os ex-presidentes têm bom relacionamento, mas jamais se tornaram amigos.

O presidente Jair Bolsonaro, porém, viaja muito pouco para o exterior. Ninguém o convida para compromissos bilaterais, e sua ida aos foros internacionais são puro desgaste, pela péssima imagem que tem no exterior. Com ele, a crise não viaja.

EXEMPLO DE JÂNIO – Políticas interna e externa não são assimétricas; quando isso ocorre, pode terminar muito mal, como no caso do governo de Jânio Quadros, cujo cavalo de pau no Itamaraty, ao condecorar Che Guevara em plena Guerra Fria, deixou-o em rota de colisão com os aliados, principalmente Carlos Lacerda, então governador da antiga Guanabara. Essa crise resultou na sua inopinada renúncia.

A longo prazo, os eixos duradouros da política externa são as relações comerciais e a identidade nacional, muito mais do que a momentânea orientação política de governo.

Hoje, a divisão internacional do trabalho nos reserva papel estratégico como produtor agrícola e de minérios e faz da China nosso principal parceiro comercial; em contrapartida, do ponto de vista identitário, o americanismo se amalgama à herança cultura ibérica, o que nos afasta do velho nacionalismo latino-americano.

PONTO FORA DA CURVA – Entretanto, politicamente, vivemos um ponto fora da curva no governo Bolsonaro. O presidente da República atua para nos colocar no eixo de países cujos governantes foram eleitos em pleitos manipulados, seja pelas regras do jogo, seja pelo controle dos meios de comunicação e/ou pela intimidação da oposição.

Como o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que ao assumir não tinha uma estratégia, Bolsonaro se movimenta exclusivamente para continuar no poder, com a diferença de que o líder russo sempre manteve alta popularidade, enquanto a sua derrete.

Controle das Forças Armadas, dos serviços de segurança, do Ministério Público, do Judiciário; aliança com oligarcas amigos e com a Igreja Ortodoxa Russa garantem a longa permanência de Putin no poder.

VIA DE PASSAGEM – Controlar o Judiciário é uma via de passagem para o autoritarismo. Na Hungria de János Áder, no poder desde 2012, juízes foram forçados a renunciar, e o regime fez 1.284 nomeações políticas. Os que sobraram perderam autonomia. Aqueles que permaneceram em suas funções tiveram sua autonomia confrontada. Na Turquia, 4,5 mil juízes foram presos e espoliados, nos últimos cinco anos, pelo governo de Tayyip Erdogan. Centenas continuam presos.

O atual presidente da Polônia, Andrzej Duda, do Partido Lei e Justiça, para se reeleger, gastou 40 milhões de euros com uma rede de fake news contra o Judiciário, com apoio do Ministério da Justiça e do Ministério Público.

Essas denúncias são do presidente da Associação Europeia de Juízes, José Igreja Matos, desembargador na cidade do Porto, em palestra virtual para magistrados brasileiros, segundo nos relata a jornalista Maria Cristina Fernandes, em sua coluna de ontem, no Valor Econômico.

NA EXTREMA DIREITA – Esse é o eixo de extrema-direita ao qual pertence Bolsonaro, depois da derrota do ex-presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em Israel. Com nenhum desses países, inclusive a Rússia, o Brasil tem relações comerciais robustas para sustentar essa política externa. Mas o que importa é o modelo. Bolsonaro está em guerra com o Judiciário, que pretende subjugar.

Primeiro, nomeando aliados para cargos estratégicos, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, que pretende reconduzir, e o ex-advogado-geral da União e pastor evangélico André Luiz de Almeida Mendonça, indicado para a vaga do ex-ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Ambos serão sabatinados no Senado, que pode homologar ou não seus nomes. É do jogo.

Segundo, pelo confronto com o STF, que pretende intimidar com a ameaça de um golpe de Estado. Não é do jogo.

TRAUMA NO SUPREMO – A cassação de Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal pelo regime militar, que provocou a renúncia dos ministros Antônio Carlos Lafayette de Andrada e Antônio Gonçalves de Oliveira, é um trauma no Supremo até hoje.

Em 1971, o ministro Adaucto Lúcio Cardoso abandonou o plenário ao ser o único contrário à lei da censura prévia, editada pelo governo Médici. A regra permitia que censores ocupassem as redações dos jornais e vetassem a publicação de textos. Votou contra, despiu a toga e renunciou ao cargo.

9 thoughts on “Bolsonaro em guerra, tenta subjugar o STF nomeando aliados e afrontando ministros

  1. Nem tudo é como parece, o artigo de Jamil Chade escrito em Genebra e publicado no El País de Espanha, ajuda a entender como o que parece uma aventura paranoica do Mito, poderia ser manobra teleguiada e orientada por interesses neonazistas desde o exterior. o que poderia caracterizar submissão dos interesses nacionais a objetivos de organizações e nações estrangeiras, tipificando o crime de alta traição.

    https://elpais.com/internacional/2021-08-01/bolsonaro-toma-el-relevo-de-trump-como-adalid-de-la-extrema-derecha-en-el-mundo.html

  2. Estou impressionado como o ódio a Bolsonaro (justificável ou não) cegou completamente a imprensa em geral. O STF vem agindo de forma absolutamente ilegal a tempos, seus ministros criam processos ilegais, mandam prender sem apresentar acusação, criam tipos penais inexistentes, julgam processos em que são parte, atropelam o PGR, legislam descaradamente, dão entrevistas sobre os processos em julgamento, se reúnem com políticos para estabelecer agendas, etc.
    o STF quer governar e age como um partido de oposição ao governo, tudo feito sob o aplauso entusiasmo da mídia em geral.

  3. Aqui vai um palpite que contraria a opinião do Velho na janela: o que alimenta o ódio da turma do Bozo é um plano bem bolado pela turma do Putin para destruir as nossas democracias, especialmente a americana e a brasileira aqui em nosso continente.
    Os comportamentos dos idiotas são muito parecidos, especialmente no tocante ás teorias conspiratorias e a insistência em negar a ciência no caso da pandemia (o Bolsonaro imitou totalmente o Trump nesse aspecto).
    É só um palpite, mas que o Bozo é doido não tenho dúvida. Doido e burro.

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