Bolsonaro lamenta os 98 mil mortos pela pandemia no país, mas diz que é preciso “tocar a vida”

Sem argumentos, Bolsonaro só sabe repetir que solução é a cloroquina

Ingrid Soares
Correio Braziliense

O presidente Jair Bolsonaro lamentou, durante transmissão de live nesta quinta-feira, dia 6, o número de mortos por conta da covid- 19. No entanto, segundo o chefe do Executivo, é preciso “tocar a vida”.

“A gente lamenta todas as mortes. Tá chegando no número de 100 mil talvez hoje. É isso? Esta semana… Mas vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, declarou. Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registra 98.493 óbitos, sendo 1.237 deles registrados nas últimas 24 horas.

CLOROQUINA – Bolsonaro ainda voltou a defender o uso da hidroxicloroquina, mostrando mais uma vez uma causa do remédio, que, segundo diversos estudos, não possui eficácia contra a doença.“Se, porventura, isso daqui [hidroxicloroquina] se comprovar mais tarde, […] essas pessoas têm que responder: ‘Por quê você proibiu? Baseado em que comprovação científica você proibiu? Pode ser também que, mais tarde, se comprove que isso aqui não tenha sido tão eficaz assim ou até ineficaz. Paciência. Acontece”.

O presidente disse ainda que não quiser tomar, não deve atrapalhar quem deseja fazer o tratamento. “Quem não quer tomar cloroquina não tente proibir, impedir quem queira tomar, afinal de contas, ainda não temos uma vacina e não temos um remédio comprovado cientificamente. Muitas doenças ainda estariam sem cura se o médico não tivesse a liberdade de trabalhar fora da bula”, justificou, concluindo que quem deve decidir pelo uso ou não, são os médicos e não prefeitos e governadores.

DESEMPREGO – Bolsonaro lembrou que o Brasil teve nove milhões de desempregos no último trimestre — durante a pandemia do coronavírus — e culpou “parte” dos governadores e prefeitos. Para o chefe do Executivo, os políticos que decidiram apoiar o fechamento do comércio e o isolamento social nos respectivos municípios e estados têm responsabilidade nos números.

“Quase nove milhões perderam empregos no segundo trimestre no pico da pandemia. Eu já vinha falando lá atrás que tinha no mínimo duas ondas. A questão da vida, tem que se preocupar com ela, sim. Depois a questão da recessão, que, muita gente diz, eu também digo, que esse efeito colateral é mais grave que aquele do próprio vírus. Alguns falando lá atrás: ‘economia se recupera, saúde, não’. Eu sei disso. Tem que fazer uma conta de chegada. Não pode ser ‘fecha tudo'”, disse Bolsonaro também citou o STF (Supremo Tribunal Federal) em sua colocação sobre o tema.

“O Supremo Tribunal Federal decidiu que as medidas restritivas eram de competência exclusiva de governadores e prefeitos. Então, desemprego, em grande parte, alguns governadores e prefeitos têm essa responsabilidade”, opinou.

PESQUISA – Segundo pesquisa do IBGE, 8,9 milhões de pessoas perderam o emprego no segundo trimestre deste ano. O número de pessoas ocupadas caiu 9,6% no período, em relação ao trimestre anterior, o que representa 8,876 milhões a menos trabalhando. É a maior redução desde o início da série histórica, em 2012. Em relação ao segundo trimestre de 2019, o recuo foi de 10,7% (10 milhões de pessoas a menos), também um recorde.

Com isso, a taxa de desemprego no país chegou a 13,3%, a maior em três anos, atingindo 12,8 milhões de pessoas. O resultado representa alta em relação ao primeiro trimestre (12,2%) e ao mesmo trimestre do ano anterior (12%). 

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Bolsonaro mescla ingenuidade, ignorância e insensibilidade para tratar de assuntos delicados e polêmicos. Ao vivo, demonstra que sequer acompanha ou se prepara para tocar em questões de repercussão mundial, e que envolvem vidas que se foram, vítimas da pandemia. Sem argumentos, repete seu único discurso em defesa da cloroquina. Sua apatia é assustadora. (Marcelo Copelli)

15 thoughts on “Bolsonaro lamenta os 98 mil mortos pela pandemia no país, mas diz que é preciso “tocar a vida”

  1. Economia é com o Posto Ipiranga, Meio Ambiente é com o Salles, Saúde é com o Pazuello, Weintraub, Aras e os outros que se resolvam. Temos um presidente que não arbitra nada. Um mero observador dos fatos e curtindo no ego o poder, fico pensando se não é a estratégia do que se deu ruim não fui eu que fiz. Essa postura de Pilatus será que vai funcionar em 2022?

  2. Sr. Marcelo Copelli,
    A sua NR é quase irretocável.
    Quase… porque a palavra ingenuidade, não deveria estar presente na sua excelente nota.
    Onde o Sr. vê ingenuidade neste ser desprezível?
    Onde, Sr. Marcelo?

    Deixo um cordial abraço.
    JL

  3. MANUAL DE COMUNICAÇÃO POLÍTICA DIGITAL DO BOLSONARISMO
    “1. Um dos piores vícios do nascente movimento conservador brasileiro é o excesso de atenção dada à política. Há poucas pessoas em nosso meio que se dedicam a temas alheios, ou mesmo paralelos, à política. Todo conservador, hoje, almeja fazer análise ou militância política.
    2. Com isso, além da proliferação de análises de péssima qualidade, indignas do nome, há um enorme desperdício de talentos. Gente que poderia estar falando sobre literatura, música, cinema, games, ciência, etc e causando um impacto muito maior acaba perdendo tempo com política.
    3. Aqueles que tentam se dedicar a outros temas acabam não recebendo a atenção que deveriam receber. Preferimos promover cem indivíduos falando as mesmas coisas ou noticiando as mesmas notícias do que diversificar e promover quem tem potencial para furar as nossas bolhas.
    4. Além disso, há, em nosso meio, um verdadeiro vício em rótulos explícitos: não basta ser músico, tem que ser “músico de direita”; não basta ser comediante, tem que ser “comediante de direita”; não basta ser gamer, tem que ser “gamer de direita”. Isso tira todo o nosso apelo.
    5. Se posso lhe oferecer uma sugestão, eu sugeriria não focar apenas no nicho conservador e, sim, em públicos maiores; em quem é conservador mas está cansado de falar de política; em quem é conservador mas ainda não sabe; em quem até gosta de política, mas prefere outros temas.
    6. Diversifique os temas de que você trata. Volte a dedicar mais tempo a outros assuntos. Fale, escreva, grave vídeos sobre Religião, Filosofia, Arte, História, Ciência, Entretenimento… Produza coisas que os outros queiram compartilhar mesmo discordando politicamente de você.
    7. Muitos dos nossos adversários não se tornaram eficientes “mensageiros políticos” por falar de política o tempo todo. Pelo contrário, eles alcançaram essa eficiência justamente por falar sobre outros assuntos e tratar de política apenas ocasionalmente, quando necessário.
    8. Em um momento em que nossos adversários tentam nos destruir justamente por meio da ideia mentirosa de que não há, em nosso meio, jornalistas, escritores, acadêmicos, artistas, etc., mas apenas “militantes”, seria uma estupidez enorme não mostrar o quanto eles estão errados.
    9. Também pare com essa bobagem de exigir pureza de aliados e aliados em potencial. Você já notou o quanto o Presidente valoriza o apoio de atletas e artistas que mal falam sobre política, e que talvez não entendam uma fração do que entendemos, mas são simpáticos a ele?
    10. Isso ocorre porque, mesmo quando essa simpatia vem acompanhada de ressalvas e críticas pontuais, ela produz efeitos fora do campo estreito da política e alcança pessoas que não estão, necessariamente, prestando atenção em Brasília ou nas disputas políticas do dia a dia.
    11. É por isso que alguém que mantenha um bom canal sobre carros, sobre esportes, sobre cinema ou sobre qualquer outra coisa no Youtube pode ajudar até mais do que alguém que só fala sobre política, a menos que esta pessoa seja realmente vocacionada e tenha talento para isso.”
    12. Falar apenas para convertidos, dedicar-se a brigas intermináveis que não fazem nenhum sentido para quem olha de fora, ou tratar de assuntos óbvios com perspectivas mais óbvias ainda é uma perda de tempo. Pare de agir assim e ajude a expandir nossa tenda.
    13. Note que não falo aqui da politização de todas as esferas da vida, problema ainda mais grave, e que não estou dizendo para deixarmos de falar sobre política; digo apenas para fazermos isso de modo mais inteligente, e não de modo óbvio, como cada vez mais estamos fazendo.”

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