Brasil deveria imitar o Chile no corte dos salários, mas fazendo o serviço completo

Charge reproduzida do Arquivo Google

Carlos Newton

A Câmara dos Deputados do Chile aprovou nesta quarta-feira (dia 27), por unanimidade, a redução de 50% do salário das autoridades mais importantes do país, incluindo presidente, ministros, subsecretários, governadores e os próprios parlamentares. Para entrar em vigor, o projeto deve passar pelo Senado. Um parlamentar chileno ganha cerca de nove milhões de pesos chilenos, equivalente a R$ 48 mil mensais.

Essa diminuição dos salários foi uma das desesperadas promessas do presidente Sebastián Piñera, que tenta conter as manifestações que ocorrem no Chile há mais de um mês.

É SÓ FINGIMENTO – A decisão não é para valer, porque a medida tem caráter transitório e não cortará os benefícios extras dos parlamentares. Além disso, ficou pela metade e não vale para prefeitos, juízes e integrantes do Ministério Público.

Se o Chile caminhasse para uma solução concreta, que atingisse todos os altos salários de autoridades, seria o primeiro país a iniciar a solução do principal problema que causa essa crise – a desigualdade social.

Na visão dos economistas de maior destaque da atualidade, o francês Thomas Piketty e o indiano Raghuram Rajan, o maior desafio é realmente a desigualdade social, que está causando essa onda de protestos em diversos países, simultaneamente.

CURRÍCULOS – Piketty, ex-diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e da Escola de Economia de Paris, é autor de dois importantíssimos livros de análise do Capitalismo Moderno, enquanto Rajan é ex-diretor do Banco Central da Índia, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), escreveu “The Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind” (“O Terceiro Pilar: Como os Mercados e o Estado Deixam a Comunidade Para Trás”), em que adverte sobre as deficiências do capitalismo. e atualmente é professor da Universidade de Chicago.

Rajan se tornou famoso ao prever a grande crise de 2008. Desde 2005, o economista indiano vem advertindo para a necessidade de ser reduzida a desigualdade social, que é também a tese de Piketty e aqui no Brasil é partilhada por Armínio Fraga, ex-diretor do Banco Central.

Em recente entrevista de uma hora na GloboNews, Armínio Fraga disse que reduzir a desigualdade social deveria ser a prioridade número um do Brasil, sob argumento de que “a desigualdade impede o crescimento”. Espantada, a jornalista Miriam Leitão lhe perguntou: “O senhor é de esquerda”? Fraga nem respondeu, apenas disse ter estudado a questão e concluído que, sem diminuir a desigualdade, não há como crescer. “E a desigualdade sequer está na pauta do governo”, lamentou.

ESTADO FORTE – Em tradução simultânea, não se trata de enfraquecer o Estado, porque não existe país que tenha se desenvolvido sem uma máquina estatal robusta. O que não se pode admitir – na visão de Piketty, Rajan e Fraga – é que servidores públicos recebam salários superiores aos da iniciativa privada e trabalhem pouco.

Um grande exemplo no Brasil é o funcionamento do Judiciário. Os magistrados, além de terem duas férias anuais, trabalham quando bem entendem e geralmente chegam ao Fórum depois do almoço. A sexta-feira, por exemplo, já virou “day off”, nenhum juiz trabalha nesse dia, e estamos conversados.  Além disso, os juízes não obedecem a prazos processuais, não estão nem aí, quem deve respeitar são os advogados e os integrantes do Ministério, que muitas vezes nem o fazem, e fica tudo por isso mesmo.

O Código do Código de Processo Civil determina que o juiz deve proferir seus despachos no prazo de dois dias e suas decisões em dez dias. Se isso não acontecer, de acordo com a legislação, tanto os juízes como os membros do Ministério Público “perderão tantos dias de vencimentos quantos forem os excedidos”. Além disso, “na contagem do tempo de serviço, para promoção e aposentadoria, a perda será o dobro dos dias excedidos” Mas é claro que se trata de uma “lei vacina”, do tipo que “não pegou”, pois nenhum juiz é punido.

GUEDES ESQUECEU – O fato concreto é que o ministro da Economia, Paulo Guedes, até agora só abriu seu baú de maldades contra cidadãos da classe média para baixo. Os privilegiados integrantes da nomenklatura cabocla continuam inatingíveis, é como se vivessem em outro país, ou na Ilha da Fantasia, que é o apelido de Brasília.

Guedes merece apoio total por ter levado os juros oficiais da Selic a seu patamar mais baixo, porém não fez o dever de casa direito, excluiu os militares da reforma inicial da Previdência e não tocou nos privilégios da nomenclatura. Ou seja, agiu como os deputados chilenos, que deixaram a solução pela metade.

Desse jeito, nem Chile nem Brasil vão resolver seus problemas políticos e econômicos, porque a desigualdade parece que só vai aumentar.

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P.S. –
Essa situação mal resolvida nos faz lembrar o genial francês Montesquieu, que em “O Espírito das Leis” (1748) afirmou: “O peso dos encargos produz, primeiro o trabalho; o trabalho produz o cansaço; o cansaço produz o espírito de preguiça”. E faz lembrar também o historiador cearense Capistrano de Abreu (1853-1927), que bolou a Constituição de dois artigos: 1) “Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara“; 2) “Revogam-se as disposições em contrário”. (C.N.)

18 thoughts on “Brasil deveria imitar o Chile no corte dos salários, mas fazendo o serviço completo

  1. Esse tal de Guedes é igual ao patrão dele: analfabeto. O fato de ter estudado em Chicago não significa nada. A verdade é que o povo continua na miséria enquanto parlamentares, juízes, desembargadores e similares ganham muito além do necessário a uma vida nababesca, Esse país não tem jeito.

    • Antônio, é verdade, Bolsonaro nomeia os iguais a ele: despreparados e alienados.
      É verdade também que a cúpula dos três poderes ganham salários altamente absurdos, enquanto os servidores do judiciário do andar de baixo ganham um salário razoável, dão duro e não podem faltar ao trabalho. É assim que funciona aqui no judiciário do Rio de Janeiro.
      É como você disse: ganham muito os parlamentares, juízes, desembargadores e similares.

  2. Povo chileno >>>>>>>>>>> Povo brasileiro

    Os episódios recentes envolvendo a soltura de Lula e a vitória de um clube carioca mostraram a diferença de consideração do povo com os dois eventos. Enquanto a soltura do Lula foi recebida com silêncio absoluto, a conquista dos títulos pelo clube era saudada com gritos e vibração por parte de seus adeptos. No dia do julgamento do STF ocorria um jogo do clube carioca. Enquanto a prisão em segunda instância era derrubada, os gols do jogo eram saudados com gritos entusiasmados. O engraçado eram alguns comentários por aqui dizendo que se isso ocorresse, “o povo faria uma revolução”, “o povo faria uma guerra civil”, “o povo invadiria o STF”, “o povo quebraria tudo”. A verdade é que o brasileiro é um povo de frouxos e bundões. Quando Lula foi solto, não teve cabo nem soldado fechando o STF, não teve guerra civil, não teve invasão, nem revolução, não teve nada. Mas quando o clube carioca voltou de Lima campeão, o povo lotou a Avenida Presidente Vargas……..kkkkkkkkkk xD

    Aqueles quadrúpedes que diziam que o povo ia reagir com violência à soltura de Lula estão em silêncio sepulcral, porque agora a preocupação deles é inventar novas desculpas e narrativas para a ausência de reação diante da soltura do Lula: “Aiinnn, tá solto mas agora trate de se comportar, senão ele vai ver só uma coisa!!!!!!!!!”

    Quadrúpedes desse tipo parecem aqueles pseudo-machos que, diante de um um antagonista que já xingou sua mãe, já cuspiu em sua cara, já lhe deu tapa na cara, já passou a mão no seu traseiro, ainda tem a cara de pau de falar pro outro (sem corar o rosto): “Ò, se você não pegar leve, a gente vai ter problema daqui a trezentos anos, viu? Não me afronte que eu vô ficar bravo, tá bom?”

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk xD

    Brasileiro é típico frouxo que adora afetar macheza quando está em uma distância segura do confronto real ….Quando finalmente aparece a situação em que ele tem que ser posto a prova e mostrar sua macheza, acontece como agora: um silêncio mais eloquente que uma bomba de 10 mil megatons…..

    O Brasil é um país de frouxos e bundões……….

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk xD

    • EM TEMPO 2:

      Um povo que demonstra mais paixão diante de um resultado futebolístico do que diante de uma questão jurídico-política de tanta relevância como daquele julgamento do STF revela seu caráter de merda e seu atraso. O Brasil é um fracasso como nação e como povo.

        • Prezado Colega Sr. ROBERTO MARQUES,

          O Brasil não é um fracasso como NAÇÃO e POVO.
          Está ainda num certo estágio de evolução INSTRUTIVA meio baixo, eis que recém estamos saindo do analfabetismo. Só agora conseguimos colocar TODAS nossas CRIANÇAS na Escola.

          A Gente não pode sair do Regime de ESCRAVIDÃO teórica em 1888, prática até a II Guerra Mundial, e querer nos comparar aos HEBREUS que eliminaram o analfabetismo há quase 6.000 Anos.

          Estamos evoluindo, devagar é verdade, mas estamos evoluindo.

          Temos é que fazer de tudo para dar uma ESCOLA de melhor qualidade para nossas CRIANÇAS, principalmente as mais POBRES.
          Depois é INDUSTRIALIZAR o máximo o País, criando condições de se gerar muita RIQUEZA e Todos prosperarem.

  3. Excelente Artigo no qual nosso Editor-Moderador, o grande e experiente Jornalista Sr. CARLOS NEWTON examina as Medidas do Governo do Chile após os violentos distúrbios sociais nos quais na primeira semana morreram +- 20 Pessoas e que continuam.
    Promete o Governo PIÑERA ( Centro-Direita) aumentar o Teto Mínimo das Aposentadorias e Pensões em 50%, Cortar 50% dos Salários dos Políticos Federais, aumentar imediatamente Salário Mínimo em 30%, etc, e principalmente refazer a Constituição Federal do Chile.

    O Chile que é o País mais alfabetizado e organizado da América Latina segue desde 1980 uma Ortodoxa Política Econômica Liberal Laissez-Faire que gera uma boa Renda perCapita de US$ 18.000, ( Argentina US$ 14,000; Brasil US$ 12.000), excelentes números Macro-Econômicos ( Inflação 2%aa, Tx Básica de Juros 2,5%aa, Desemprego +- 6,5%, crescimento Econômico médio de 4%aa, Deficit Público Federal praticamente Zero e Endividamento Público 25% do PIB, Reservas BC US$ 50 Bi. Isso tudo para 19 Milhões de Chilenos e um PIB de +- US$ 310 Bi.

    Número de Chilenos abaixo da Linha de Pobreza ( 3 Cestas Básicas para Família de 4 Pessoas) +- 8%, sendo que em 1980 era de +- 20%.

    Como pode um País assim, entrar em forte convulsão social?

    A única explicação racional é que o Modelo Liberal Laissez-Faire que não incentiva/induz a INDUSTRIALIZAÇÃO do País, gera uma Economia de relativos baixos Salários Médios e produz grande prosperidade para os 10% mais Ricos, especialmente os famosos 1%, deixando quase 90% ESTAGNADOS.
    Essa estagnação de Padrão de Vida das Classes Médias e Pobres gera um grande DESÂNIMO e MAL-ESTAR, combustível farto para Convulsão Social.

    Serve de lição para Nós que tendemos a seguir a Política Econômica Chilena com o Governo BOLSONARO/MOURÃO, e que se não RE-INDUSTRIALIZARMOS o Brasil tenderemos para o caminho do Chile de Convulsão Social.

  4. O artigo do CN e do Bortolotto esclarecem diversos pontos importantes da situação sócio-econômico do Brasil, que a mídia não comenta com profundidade e o faz sempre com viés ideológico. Excelentes artigo e comentário.
    Porém gostaria que me explicassem como um Ministro qualquer, seja da economia ou outra pasta, ou o Presidente do país, podem baixar o salário de deputados, juízes, etc.
    Se até a nomeação de alguém para uma fundação, ou a extinção de um DPVAT, são impedidas na justiça, que devaneio é este em achar que se corta salários da corte por decreto?

  5. Aranha,

    Justamente por isso que venho clamando pelo fechamento do Legislativo:
    de modo que soluções desse tipo para um país que gasta 50 bilhões por ano com os parlamentos municipais, estaduais e federal, possam ser feitas, e as novas eleições convocadas sejam sob as regras novas e limitações outras.

    Caso contrário, a “democracia” brasileira sempre impedirá QUE O POVO, em tese quem manda, jamais seja atendido nas suas reclamações, protestos e denúncias.

    Digo mais:
    Daqui para pior!

    • Mas o grande dilema é como e quem fará esse corte? É por demais claro que a desigualdade social nunca vai diminuir se continuarmos com uma parte dos salários do serviço público muito maiores do que a mesma função no resto da sociedade.
      Além dos indecentes salários do legislativo, Judiciário e outros órgãos.
      Todo este aumento, tanto no número de funcionários como no valor, ocorreram nos anos do PT. O Lula ganhava em 2006 R$ 8.885,48. Em 2014 dilma recebia R$ 30,9 mil. Aumento de 250%!
      Já o salario mínimo em 2006 era de R$ 350,00 e em 2014 de R$ 724,00. Aumento de pouco mais de 100%!
      São dados consolidados, números, ciência exata.
      Ficam arrotando que subiram o mínimo mas “eles” ficaram muito mais ricos subindo os próprios salários.
      Sem um freio de arrumação o ônibus vai despencar no barranco.

  6. Prezado Colega Sr. JOSÉ AUGUSTO ARANHA,

    O corte dos altos Salários da Nomenklatura Brasileira será feito pela pressão da Opinião Pública.

    Já aconteceu isso no passado e eles sabem disso.

    Eu não sou tão velho que não me lembre que Vereadores de Cidades de menos de 100.000 Habitantes não faziam jus a Salário, eram Cargos Honorários.

    Pode voltar esse tempo, logicamente com as devidas adaptações. E não está muito longe.

    Abração.

  7. É óbvio que todos deveriam ser iguais, inclusive o funcionário público que deveria estar no teto da previdência. Não deveria ser mantido o salário da ativa, que quisesse manter o salário da ativa que continuasse a trabalhar, simples.

  8. O presidente do Chile e mais um dissimulado, não são salários recebidos o problema da América Latina e sim a extrema concentração de renda e a submissão ao mercadado financeiro, podem todos ficarem recebendo 1 real, nada sera resolvido, a luta é contra o capitalismo.

  9. Em Janeiro de 1976, um Juiz de Direito (no Paraná) ganhava 6,1 vezes mais que um Pedreiro.
    Em 2019 esta diferença é de 15 vezes.
    Concluo que Geisel era muito mais socialista que Ulisses,FHC e Lula.

    ** Um Coronel da Aeronáutica, em Janeiro de 1976, ganhava o mesmo salário de um Juiz de Direito

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