Brasil não pode embarcar na onda contra o islamismo

Paulo Solon

No momento em que a Inglaterra tenta atrair para sua panelinha colonialista países que nada têm a ver com os problemas que ela cria no exterior, gostei de ver a atitude da presidente da Argentina, Sra. Cristina Fernandes de Kirchner (não sei se é parente do sempre lembrado e nunca assaz louvado mestre Helio Fernandes). Dona Cristina acaba de anunciar que a Argentina concluiu acordo com o Irã para estabelecer uma comissão conjunta para investigar a explosão, em Buenos Aires, de um centro comunitário judaico em 1994.

Varias hipóteses disparatadas, sem qualquer fundamento real, tentam envolver Teerã como patrona do episódio. Graças à atuação diplomática de dona Cristina, o Irã permitirá agora o interrogatório de alguns suspeitos em Teerã.

A Inglaterra e a Argentina são países adversários por causa da ocupação das ilhas Malvinas. Dona Cristina sabe que a Inglaterra já não vai sozinha. Em abril de 1982, por ocasião da guerra das Malvinas (eu estava em Londres), a Inglaterra com sua “dama de ferro” foi instada pelo presidente americano Ronald Reagan a colocar o Brasil como mediador na disputa.

Dona Thatcher resistiu, empacou, fincou os pesinhos. Mas não foi sozinha enfrentar a Argentina. Tal como Churchill fez na Segunda Guerra, implorando ajuda de Stalin e de Roosevelt, essa figura feudal chamada Margaret Thatcher implorou ajuda ao presidente Reagan para guerrear contra a Argentina.

ESTRATAGEMA

Agora a Inglaterra tenta o mesmo estratagema. Aquela Inglaterra valente que assassinou nosso estudante brasileiro no subway de Londres, dizendo que ela era terrorista, está agora temerosa. Com medo dos militantes islamistas. Citando uma “ameaça específica aos ocidentais”, querendo com isso arrastar outros países, o governo britânico divulgou uma advertência no dia 27 de janeiro, para que todo cidadão britânico vivendo na Somaliland (parte da Somália que se separou há 20 anos) deixe o país imediatamente.

Fala em militância islâmica no norte da África contra os ocidentais envolvendo Mali e Argélia. Mas não menciona que os noruegueses foram à Argélia meter o bedelho com sua estatal petrolífera Statoil, recebendo a devida repulsa argelina. Usa eufemismo como “metástese do islamismo”, esquecendo-se de citar a sangrenta “metástese” do protestantismo, do anglicanismo e também do catolicismo no tempo da rainha Blood Mary (Maria Sanguinária), filha de Henrique VIII.

Uai! agora os ingleses querem sair correndo imediatamente? Declaram que a ameaça não é contra eles, “but to us” (mas contra nós), querendo incluir o resto da Europa e os Estados Unidos.

FORA DESSA…

E o que é que o Brasil tem a ver com isso? Nem Brasil, nem Argentina vão entrar nessa cruzada contra o islamismo. Cada país tem seus interesses e suas preferências. O Irã é forte consumidor de produtos argentinos, o que é de grande interesse para ambos os países. O comércio do Irã com a Argentina cresceu de 200 por cento nos últimos anos, para mais de US$ 1,2 bilhão.

Conforme sabemos em relação ao nosso próprio país, o Irã tem todo o interesse em se relacionar também com outras nações da América do Sul, como Venezuela, Bolívia e Equador.

A supracitada comissão conjunta anunciada por dona Cristina Fernandes de Kirchner mostra que a Argentina está legitimando o estilo iraniano de governo.

Simples assim.

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