Brasil não precisa optar por China ou EUA na Rede 5G, mas seguir sua tradição de permanecer independente

Rede 5G: O que há de novidade? | futurecom.com

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Alexander Busch
Agência DW

Poucos assuntos têm sido tão debatidos nos meios da política e economia brasileiras quanto a concorrência para a rede 5G, a quinta geração do padrão de telefonia móvel. No país, como em outros tantos por todo o mundo, o que está em jogo é se a operadora chinesa Huawei deve ser admitida ou não como fornecedora das multinacionais de telecomunicações.

Os Estados Unidos pressionam todos os seus aliados ocidentais – portanto, também o Brasil – contra a participação da Huawei, sob a alegação de que a China empregaria a tecnologia da firma para fins de espionagem.

FALSO DILEMA – No entanto, a decisão pró ou contra Pequim ou Washington é um falso dilema. O Brasil deveria seguir dialogando com ambos. Em sua história, o país provou repetidamente que também é capaz disso sob pressão, e na maioria dos casos se saiu bem.

Esse foi o caso antes da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil conseguiu se manter neutro entre os Aliados e as potências do Eixo. Seus parceiros industriais importantes foram, sucessivamente, os EUA (indústria de base), depois a Europa (automóveis) e, em seguida, Japão (mineração), sem que, apesar da competição ferrenha, eles entrassem em atrito no país.

Na década de 70, os militares, apesar de próximos aos EUA, entregaram à Alemanha o contrato para a usina atômica de Angra dos Reis – uma afronta a Washington. O alcance dessa decisão na época é, em parte, comparável ao atual, entre a Huawei e as operadoras ocidentais.

CONTROLE DO PADRÃO – Também na época estava em jogo o estabelecimento de padrões internacionais e, portanto, da predominância industrial. Quem quer que controle o padrão global para novas tecnologias tem, a seguir, uma enorme vantagem estratégica em diversos setores, possivelmente por décadas.

Assim foi, na época, com a usina nuclear. Hoje, com o 5G, a coisa é ainda mais dramática, pois a rede será a base para o desenvolvimento de novas tecnologias. Tão mais importante, portanto, é o Brasil defender seus interesses perante os EUA e a China. Pois o país é capaz disso, já que, diferente de outros, joga numa categoria própria:

* O Brasil está entre as 12 maiores economias mundiais. Em superfície e população, ocupa o quinto e sexto lugares.

* É um dos poucos Estados que têm um grande superávit da balança comercial com a China. Isso o fortalece e torna menos chantageável.

* Também os EUA são um importante investidor e parceiro comercial e tecnológico do Brasil. Num mundo polarizado entre chineses e americanos, um Brasil neutro ganha automaticamente mais peso.

* O Brasil é um mercado-chave para a 5G. A concorrência para a rede de telefonia móvel será uma das maiores entre os mercados emergentes. Desde já, o país possui uma densidade de conexões de banda larga maior do que a maioria das economias fora dos EUA e Europa.

RESUMINDO – A neutralidade brasileira estabeleceria um sinal geopolítico. Não é de espantar que Pequim e Washington adotem a política de “cenoura e pau” perante o governo e autoridades do país: por um lado, atraem com financiamentos e parcerias estratégicas; por outro, ameaçam com a suspensão dos investimentos.

Isso é normal, e o Brasil não deve se deixar impressionar. Até porque é ingênuo crer que operadoras ocidentais automaticamente reduziriam o risco de espionagem ou hackeamento. Afinal, os serviços secretos dos EUA monitoraram tanto a presidente Dilma Rousseff quanto a Petrobras.

Além disso, de 30% a 40% do equipamento da rede móvel brasileira já se compõe de peças da Huawei. A eliminação destas e exclusão do conglomerado chinês atrasaria em anos o urgentemente necessário impulso de produtividade com a implementação da rede 5G. Uma competição acirrada entre os fornecedores, por outro lado, possivelmente tornaria mais fácil controlar as redes.

PROCURAR PARCEIROS – O Brasil deve tentar procurar parceiros por todo o mundo – na Ásia, América Latina, mas, acima de tudo, na Europa – que igualmente se vejam diante de um falso dilema e se preocupem com a polarização crescente.

Contudo, resistir à pressão e encontrar um caminho do meio é trabalho árduo, sobretudo para os diplomatas brasileiros. “O Brasil vai ter que usar na diplomacia algo que não está acostumado a fazer de uns tempos para cá”, comenta Marcos Azambuja, ex-embaixador e decano dos diplomatas do Brasil: “A cabeça…”

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Artigo excelente enviado por Mathias Eartmann. O autor, Alexander Busch, é um dos jornalistas internacionais que mais conhecem o Brasil, onde trabalha há 25 anos, E tudo o que ele afirma é rigorosamente verdadeiro. (C.N.)

12 thoughts on “Brasil não precisa optar por China ou EUA na Rede 5G, mas seguir sua tradição de permanecer independente

      • Até o momento, os Estados Unidos não ofereceram 5G ao Brasil, mas prometeram financiar a tecnologia, desde que não seja da China.

        • Os Estados Unidos ofereceram sim 5G para o Brasil, e como sempre não fará acordos de transferência de tecnologia!

          Aliás, a maioria dos acordos que o Brasil faz com os Estados Unidos na área de tecnologia, os norte-americanos RARAMENTE repassam tecnologia.

          Já passou da hora do Brasil mandar os norte-americanos para o quinto dos infernos!

  1. O Brasil tem tido boas opções na escolha de tecnologias. Na década de 70 escolhemos o PAL-M ao invés do NTSC. E recentemente apesar da campanha contra feita pela GLOBO (que só agora está sendo chamada de lixo) o Brasil implantou a TV digital.

  2. Desde os seus primórdios, o mundo tecnológico sempre foi pontilhado por obsolescências e inovações, a quebra abrupta desses dois estágios chama-se disruptura, embora o que foi tornado obsoleto sempre guarde o seu substrato, no novo que o substituiu e assim sucessivamente.
    O motor a óleo não é tão diferente da máquina a vapor. A mesma semelhança se verifica na eletrônica analógica para a digital; e assim será desta, em relação à eletrônica quântica. Se eu falasse com um míssil Tomahawk, diria a ele: não se meta a besta; sua linhagem eu conheço, a catapulta foi a sua precursora!
    Como bem praguejou este axioma, o qual seria de autoria do Jonh Lennon: “Futuramente, ninguém conseguirá ser ídolo por mais de um minuto”. Lato sensu, dentro da sociedade competitiva; o tempo que mede as novidades urge. Bem como, a cada dia, é mais célere a alternância entre EX e sucessor, como se tudo estivesse marchando, descontroladamente, nos ditames da Entropia.
    Quando foi manipulada e vivificada a Ovelha Dolly, o mundo ficou estarrecido: uns louvavam o prodígio científico; enquanto outros, os neofóbos ou misoneístas (aversos às coisas novas) temiam que isso fosse o primeiro passo para a coisificação do ser humano. E não deu outra: hoje, “crianças “fabricadas”, já se processam em escala industrial.
    Remover um sistema sedimentado, que já estabeleceu padrões e, por conseguinte, dependência de uso e consumo, não é tarefa fácil. O “velho” resiste em prolongar sua vigência a torto e a direito: forma lobbies e cartéis, sabota e demoniza o intruso, apela para antipropaganda e demarketing …. Tai a telefonia G5, cuja água de proa já tem causado tsunamis, ninguém melhor do que ela para corroborar o bombardeio por que passam as inovações para desbancarem o caduco.
    A concorrência comercial e também pela supremacia mundial tem sido terrível para com esse CONCEITO de telefonia que se apresenta. Antes mesmo de ser concebido, já teria aumentado a incidência de cânceres, seria o responsável pelo deslocamento rápido do pólo magnético da terra, com ele os níveis de radiação se amplificarão e outras falácias. Só o tempo de uso dirá o que possa mudar pra pior: a história está aí para provar: nenhuma força ou preconceito aguenta o arrasto do progresso!

  3. A Rede 5G de Telecomunicações Rádio vai aumentar a velocidade e capacidade de operações em média 15 vezes mais do que a atual 4G.

    O Mercado Brasileiro de telecomunicações rádio é composto por 4 gigantescas Operadoras ( VIVO, CLARO, TIM e OI). Para sustentar esses Serviços há uma Rede de Equipamentos Tecnológicos fornecidos no Mundo por apenas 3 Grandes Empresas ( e suas subsidiárias) a Sueca ERICCSON, a Finlandesa NOKIA e a Chinesa HUAWEI.
    Hoje o Brasil conta com Equipamentos Tecnológicos das 3 Fabricantes, optando as Empresas pelo menor Custo.

    Por motivos de Guerra Comercial e Segurança dos EUA, os EUA pressionam o Mundo, entre os quais o BRASIL de “banir os Equipamentos Tecnológicos da HUAWEI da nova Rede 5G”.

    A pressão dos EUA é grande, e potentes Países como o próprio EUA, Reino Unido, Japão, Itália, França, Republica Tcheca, Polônia, Estônia, Romênia, Dinamarca, Letônia, Grécia, Austrália, Nova Zelândia, etc. A grande Índia e a Alemanha também estão quase alinhadas com os EUA, e a Suécia decidiu a pouco também banir a HUAWEI.

    Vai ser necessário “Sabedoria de um Rei SALOMÃO, para acharmos o melhor caminho para NÓS.

  4. Será que o boçal ou o seu ministro das Comunicações leram este excelente texto? Seria bom que lessem, ele é muito elucidativo, mostra que não precisamos beijar a mão dos americanos e muito menos nos abaixarmos para os chineses.

  5. Bortolloto;
    Você foi mais realista que o articulista. Alexander cita que o Brasil conseguiu se manter neutro entre as Potências do Eixo e os Aliados ( na década de 40). Não foi assim. Por pressão americana, éramos um grande fornecedor dos EUA. Por isto tivemos navios afundados no nosso litoral.

  6. Os chineses são um povo igual a qualquer outro. O que está fazendo esse fuxico todo chama-se dinheiro. Deixemos os EEUU e a China se desentendendo e vivamos em paz. Nós não temos nada a ver com isso.

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