Brasil perde mais um gigante: Millôr Fernandes

Carlos Newton

Jornalista, mestre do humor, da charge e da caricatura, teatrólogo, pintor, escritor, tradutor – Millôr Fernandes foi um intelectual multifacetado, nacionalista e idealista, que nos deixa um legado extraordinário.

Millôr se vai depois de passar por um calvário silencioso, junto a dois sobrinhos queridos, os jornalistas Helinho e Rodolfo Fernandes, que durante meses estiveram internados junto a ele na mesma clínica, no mesmo andar, e acabaram indo antes do tio genial.

Os jornais apenas noticiavam que ele estava internado, sem maiores detalhes, até mesmo porque sua doença jamais foi diagnosticada. Primeiro, perdeu os movimentos das pernas, mas continuou trabalhando normalmente. Depois seu estado de saúde se agravou, Millôr entrou em coma, passou quase um ano  assim e jamais despertou.

“Millôr foi embora” – nos disse há pouco Helio Fernandes, que graças a Deus consegue resistir a tudo, é um gigante indomável que nos ensina a suportar tudo e a viver melhor.

Fique agora com Millôr por ele mesmo, nessa enlouquecida e genial biografia que ele escreveu ao lançar sua coluna no jornal carioca O Dia, há alguns anos.

“Millôr Fernandes nasceu. Todo o seu aprendizado, desde a mais remota infância. Só aos 13 anos de idade, partindo de onde estava. E também mais tarde, já homem formado. No jornalismo e nas artes gráficas, especialmente. Sempre, porém, recusou-se, ou como se diz por aí. Contudo, no campo teatral, tanto então quanto agora. Sem a menor sombra de dúvida. Em todos seus livros publicados vê-se a mesma tendência. Nunca, porém diante de reprimidos. De 78 a 89, janeiro a fevereiro. De frente ou de perfil, como percebeu assim que terminou seu curso secundário. Quando o conheceu em Lisboa, o ditador Salazar, o que não significa absolutamente nada. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi exatamente o contrário. Amigos e mesmo pessoas remotamente interessadas – sem temor nenhum. Onde e como, mas talvez, talvez — Millôr, porém, nunca. Isso para não falar em termos públicos. Mas, ao ser premiado, disse logo bem alto – e realmente não falou em vão. Entre todos os tradutores brasileiros. Como ninguém ignora. De resto, sempre, até o Dia a Dia”.

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UM GRANDE BRASILEIRO

Millôr Viola Fernandes, cartunista, jornalista, cronista, dramaturgo, roteirista, tradutor e poeta brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1923, filho do engenheiro Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes.

Seu nome era Milton, tendo sido registrado, graças a uma caligrafia duvidosa, como Millôr, o que ele só veio a saber na adolescência. Órfão de pai aos dois anos e de mãe aos 11, desde muito cedo começa a trabalhar. Aos 15 anos entra para a revista O Cruzeiro. Aos 16 anos, convidado para colaborar na revista A Cigarra, cria o pseudônimo Vão Gôgo. Em 1943 volta para a revista O Cruzeiro, que passa, ao longo dos anos, de 11 mil exemplares para 750 mil exemplares semanais.

Em 1946, faz sua estréia literária com o livro Eva sem Costela – um livro em defesa do homem, e sete anos depois é montada sua primeira peça de teatro, Uma Mulher em Três Atos. Em 1964 edita a revista humorística O Pif-Paf, considerada uma das pioneiras da imprensa alternativa, e quatro anos depois participa da fundação do jornal O Pasquim.

Colaborou nos principais órgãos da imprensa brasileira. Como cronista, teve mais de 40 títulos publicados; dramaturgo, alcançou sucessos como Liberdade, Liberdade (em parceria com Flávio Rangel), Computa, computador, computa e É… Como artista gráfico, teve trabalhos expostos em várias galerias de arte do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ.

Fez roteiros de filmes, programas de televisão, shows e musicais e foi um dos mais solicitados tradutores de teatro do país. Irônico, polêmico, com seus textos (aforismos, epigramas, ironia, duplos sentidos e trocadilhos) e seus desenhos constrói a crônica dos costumes brasileiros dos últimos sessenta anos.

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FRASES E PENSAMENTOS

A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades.

As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.

Viver é desenhar sem borracha.

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

Capitalismo é a exploração do homem pelo homem; comunismo é o contrário.

Jornalista tem de estar sempre na oposição.

Xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez.

A maior vantagem da comida macrobiótica é que, por mais que você coma, por mais que encha o estômago, está sempre perfeitamente subalimentado.

A triste certeza / De que hoje estou de posse / É que a minha calvície / Nem ao menos é precoce.

De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.

Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos.

Jamais diga uma mentira que não possa provar.

Machão não come mel – come abelha.

Não devemos resisitir às tentações: elas podem não voltar.

Ninguém sabe o que você ouve, mas todo mundo ouve muito bem o que você fala.

Nós, os humoristas, temos bastante importância para ser presos e nenhuma importância para ser soltos.

Numa vida média de 50 anos, 80 a 100 dias são empregados pelos homens só no ato de fazer a barba. Ignora-se o que as mulheres fazem com esse tempo.

O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.

O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.

O pior casamento é o que dá certo.

O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor.

Ontem hoje / E amanhã / O homem o cabelo parte / Parte o cabelo com arte / Até que o cabelo parte.

Quando um chato diz: “Eu vou embora”, que presença de espírito.

Quem mata o tempo não é assassino mas sim um suicida.

Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal.

Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada.

Esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar.

Olha, entre um pingo e outro, a chuva não molha.

Nos dias cotidianos é que se passam os anos

Viva o Brasil, onde o ano inteiro é  primeiro de abril

Nunca esqueça: a vida também perde a cabeça

As nuvens, meu irmão, são leviandades da criação

Toda regra tem exceção. E se toda regra tem exceção, então, esta regra também tem exceção e deve haver, perdida por aí, uma regra absolutamente sem exceção.

Quando todo mundo quer saber é porque ninguém tem nada com isso.

Goze.  Quem sabe essa é a última dose?

Pais e filhos não foram feitos para ser amigos. Foram feitos para ser pais e filhos.

Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância.

Com pó e mistério, a mulher ao espelho retoca o adultério

Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte.

Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono.

A capacidade é saber cada vez mais sobre cada vez menos, até saber tudo sobre nada.

O velho coelho só se reproduz no espelho

Na poça da rua o vira-lata lambe a lua

Em geral, quando a gente encontra um espírito aberto, entra e verifica que está é vazio.

O dinheiro não é só facilmente dobrável como dobra facilmente qualquer um.

Há colcha mais dura que a lousa da sepultura?

O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.

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