Brasília em Minas

Sebastião Nery

Nos debates da Constituinte de 1946, Israel Pinheiro, do PSD de Minas, apresentou emenda constitucional determinando que Brasília, a futura capital, fosse construída entre Minas e Goiás, no Triângulo Mineiro, perto de Cachoeira Dourada.

Israel justificava dizendo que o local reunia as duas condições preliminares básicas: acesso e energia elétrica fáceis, porque era perto de Uberlândia. Os paulistas logo começaram a apoiar a emenda de Israel Pinheiro, porque o Triângulo Mineiro é meio mineiro, meio paulista.

Mas os que não queriam a capital fora do Rio ou a queriam em outros lugares, manobraram. Puseram a votação para uma segunda-feira à tarde, quando os paulistas e mineiros estavam em sua maioria ausentes, pois costumavam chegar ao Rio segunda à noite ou terça cedo.

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ISRAEL

Mesmo assim, a emenda quase foi aprovada. Perdeu por cinco votos. Quando Israel desceu da tribuna, depois de longa exposição sobre a necessidade de levar a capital para o interior e a conveniência de fixá-la no Triângulo Mineiro, centro geográfico do País, o deputado Sousa Costa, antigo ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, chamou Israel a um canto:

– Seus argumentos são perfeitos, mas vou votar contra. Se sua emenda passar, a mudança vem logo.

– Mas é para fazer a nova capital mesmo, e logo.

– Pois é, Israel. Eu prefiro ser diretor de alfândega no Rio a ser ministro da Fazenda em Brasília.

O que Israel não disse a Sousa Costa é que escolheu o Triângulo Mineiro porque Dutra, eleito presidente, lhe disse que se o local escolhido fosse o Triângulo, ele começaria imediatamente a construção de Brasília.

Perdeu o monumento para JK.

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DUTRA

O presidente Dutra, em 1948, chamou o marechal José Pessoa, irmão de Epitácio Pessoa, tio de João Pessoa, já com 87 anos e enviou para o Planalto com o auxiliar coronel Ernesto Silva, primeiro pioneiro, historiador de Brasília. Os dois merecem estátuas.

Dutra, marechal e presidente, cumpridor do que mandava “o Livrinho”, a Constituição, mandou o marechal José Pessoa começar os estudos para escolher o local onde instalar a nova capital.

Sai Dutra, entra Getúlio e mantém o marechal Pessoa e o coronel Ernesto Silva, que veem que o lugar mais alto de toda a região era o sítio Castanho, localizado na Fazenda Bananal, uma sesmaria de um espanhol chamado Pelez, mais tarde sogro do governador Joaquim Roriz.

No centro do sítio, perto do Memorial JK e do Palácio Buriti, José Pessoa e Ernesto Silva fincaram a primeira cruz e a pedra fundamental. O marechal queria o nome de Vera Cruz.

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JOSÉ PESSOA

Morreu Getúlio, entrou Café Filho, o marechal foi ao presidente com um mapa na mão:

“O senhor vai decretar como de utilidade pública essa região aqui para evitar exploração e invasão, pois já se sabe que aqui será a nova capital”.

Mas a UDN, que era dona do governo de Café Filho, não deixou Café assinar. A UDN sempre foi um partido à beira-mar, aristocrata e cosmopolita.

Mas o velho paraibano tinhoso passou a perna neles.

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LUDOVICO

O marechal pegou um avião, já com 94 anos, desceu em Goiânia, foi ao governador José Ludovico de Almeida, sobrinho do senador Pedro Ludovico, fundador de Goiânia, e lhe disse:

– “O presidente não quer assinar o decreto da desapropriação”.

O governador José Ludovico fez a desapropriação.

E para tomar posse da terra construiu, perto do cruzeiro e da pedra fundamental, antes da eleição de Juscelino, um aeroporto de 2.700 m, onde hoje é a rodoferroviária. Só depois Juscelino construiu o aeroporto pequeno, de 800 m, ao lado do Catetinho, onde várias vezes desci.

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JORNALISTAS

Um mês antes de, no histórico comício de Jataí, em Goiás (4 de abril de 55), Juscelino ser interpelado pelo vereador Toninho se ia cumprir a Constituição e construir a nova capital, e haver respondido que ia fazer de Brasília “a meta síntese” de seu governo, nós, jornalistas de todo o País, realizamos um congresso nacional em Goiânia.

O líder da delegação de Minas era José Aparecido de Oliveira, presidente da Associação Mineira de Imprensa, editor de política do jornal Correio do Dia, da UDN. Eu fui pelo sindicato. Apareceu no congresso o ex-governador e senador de Goiás Coimbra Bueno, também da UDN, que fez uma surpreendente palestra sobre a necessidade da nova capital. E propôs que, a partir daquela data, todos os papéis da Federação Nacional de Jornalistas e dos nossos sindicatos trouxessem escrito em cima: “Capital do Brasil no Planalto Central”. Aprovado por unanimidade. Brasília já era uma reivindicação nacional, acima dos partidos.  E no mês seguinte, depois de Jataí, Juscelino confirmou Brasília como meta de campanha.

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