Braslia no viu JK chorar

Carlos Chagas

Em janeiro de 1972, recm-chegado a Braslia, sado de O Globo, do Rio, para assumir a direo da sucursal de O Estado de S. Paulo, na capital federal, busquei identificar-me com seus personagens e seu ritmo de vida. Eram os tempos bicudos do regime militar, sob a presidncia do general Garrastazu Mdici.

Senti, nos primeiros dias, haver um denominador comum entre os jornalistas de Braslia, mesmo aqueles que se dedicavam a bajular o governo. Pairava sobre todos a aura de Juscelino Kubitschek, criador da cidade, naqueles idos perseguido e abominado pelos donos do poder, bem como ignorado pela maioria de quantos haviam sido seus seguidores no passado.

Raros eram os polticos que admitiam fidelidade ao ex-presidente, como Israel Pinheiro, Tancredo Neves, Ulysses Guimares e mais uns poucos. A maior parte optava por esquec-lo, mesmo sabendo que se instalara no Planalto Central, numa fazendinha em Luziania, a poucos quilmetros de Braslia, para onde vinha todos os meses, na infrutfera tentativa de tornar-se fazendeiro. No conseguia, era um ser poltico por excelncia.

Todo mundo sabia que estava proibido de entrar na capital, sequer de chegar pelo aeroporto. De Belo Horizonte, vinha num teo-teco que aterrissava em Formosa, do outro lado do Distrito Federal, obrigando-o a contornar sua criao para chegar s terras onde inutilmente tentava cultivar batatas, tomates e verduras.

Uma amiga, a escritora e empresria Vera Brandt, comentava de quando em quando haver visitado o presidente, voltando sempre com sentimentos de tristeza, dado o abandono de JK.

L para maro daquele meu primeiro ano na capital, Vera contou-me um segredo. Juscelino havia entrado escondido em Braslia, no resistindo tentao de treze anos depois de cassado, ver os resultados de sua criao.

Mesmo tendo comeado a trabalhar num jornal conservador, ferrenho adversrio de JK nos tempos da democracia, animei-me a procur-lo. Tinha seu telefone no Rio, onde ele passava parte do tempo. J o conhecia, como reprter, dos tempos mais amenos antes de golpe militar. E, mesmo depois, quando de passagem por Lisboa, fui visit-lo num de seus exlios.

Atendeu-me com alegria. Indaguei se havia mesmo descumprido as ordens da ditadura e entrado em Braslia. Relatou com emoo a aventura, desde a tempestade violenta que caa sobre a capital, levando-o a insistir com o amigo que dirigia o pequeno caminho, para que entrassem. Entrou e concedeu-me a oportunidade de escrever um dos mais sinceros artigos que j escrevi, e que o Estado publicou, ainda que nas pginas internas. Reproduzido em seguida pela maior parte da imprensa nacional. Marcou o incio de uma convivncia que muito me honrou.

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