Brasília pede socorro

Carlos Chagas

As eleições de domingo revelaram que o povo de Brasília rejeitou o terrorista, no caso, com todo o respeito, Joaquim Roriz, mas que nem por isso o chefe do esquadrão antibomba, Agnelo Queirós, conseguirá desarmar o petardo prestes a explodir na capital federal.

Explica-se a imagem: Brasília foi construída para trazer o desenvolvimento ao Centro-Oeste, o que foi conseguido, mas não para constituir-se no formigueiro em que se transformou. Idealizada para centro administrativo e político do país, era para chegar aos 500 mil habitantes na virada do século XXI. A vida distorceu o sonho de JK quando se atenta para o fato de que só o Distrito Federal já hospeda 2,5 milhões de habitantes, sendo que,  reunido o entorno, chegamos a 4,5 milhões de cidadãos. Joaquim Roriz, no caso, foi o responsável por essa expansão, depois de quatro governos distribuindo lotes e  convocando o Brasil subdesenvolvido a auferir das benesses  de uma fantasia. Coisa que, se porventura eleito, ou sua mulher, seria elevada à última potência.

Basta lembrar que São Paulo levou 400 anos para chegar aos 2 milhões de habitantes, ficando claro que a velocidade do crescimento de Brasília desfez qualquer projeto de criação de um centro ordenado de progresso e de  comando nacional. A cidade e a região transformaram-se num buraco  negro capaz de sugar luz, matéria e energia do universo brasileiro.  Porque aqui, apesar de lastimáveis, as condições de vida são superiores às do Norte, Nordeste e adjacências. Se os hospitais tornaram-se um inferno, as escolas, sucursais do purgatório, a segurança,  um perigo constante, e até o trânsito, um caos, a verdade é que a  capital federal ainda é a solução para legiões de miseráveis e impossibilitados de sobreviver ao seu redor.  Basta lembrar que prefeitos de  Goiás, Tocantins,  Bahia,  Piauí, Maranhão, Minas e outros estados, em vez de investirem em  meros  postos de saúde em seus  municípios,  preferem adquirir ambulâncias para transferir seus doentes para Brasília. E estimulando seus habitantes menos favorecidos a tomarem o rumo da capital federal, onde até lotes são entregues aos recém-chegados.

O resultado é que até  agora as sucessivas administrações locais não deram conta de implantar serviços públicos bastantes para a legião dos desesperançados que aqui chegam com a esperança de vida melhor. Mesmo sem emprego, ainda conseguem evitar a morte dos filhos enfrentando filas monstruosas nos hospitais, ou inscrevê-los em lamentáveis escolas públicas.

Quem mais contribuiu para esse horror foi Joaquim Roriz, cuja mulher, felizmente derrotada nas eleições, prometia dobrar o bolsa-família, perdoar dívidas no banco oficial e nas multas de trânsito e sustentar os desempregados por tempo indefinido. Fazer o quê diante da realidade? Expulsar e mandar embora  irmãos nossos seria inominável. Fechar as barreiras do Distrito Federal, pior ainda. Mas continuar construindo pontes, viadutos, escolas e hospitais insuficientes para a demanda,  adiantaria muito pouco.

Esse o drama de Agnelo Queirós: realizar o milagre impossível da multiplicação de uma cidade numa megalópole que nem o Padre Eterno conseguiria administrar.

Sendo assim, só lhe resta uma saída: aproveitar a íntima ligação com Dilma Rousseff e apelar para que o governo federal adote políticas de fixação dos cidadãos  em suas origens, seja através da reforma agrária, da criação de condições de educação, saúde e segurança em suas próprias regiões, de ampliação do desenvolvimento no interior e  de métodos de governo planejados a longo prazo. Porque pouco adiantará ao governo federal despejar verbas em Brasília para fazer daqui a Ilha da Fantasia se em volta os vulcões continuarem a vomitar tragédias inomináveis.

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