Cabral viajou à Bahia no jatinho de Eike Batista? Há controvérsias, porque ainda pairam muitas dúvidas sobre o acidente que vitimou sete pessoas no trágico fim de semana.

Carlos Newton

Inicialmente, deve-se destacar que os editores de O Globo demonstraram muita coragem e independência editorial, ao publicar na terça-feira uma extensa matéria sobre as “relações delicadas” entre o governador Sergio Cabral Filho e um grupo de empresários de má fama, inclusive um doleiro que teve de fugir do país para não ser preso pela Polícia Federal. Embora o governo do Estado do Rio seja hoje um dos maiores anunciantes da Organização Globo, os editores do jornal realmente não tiveram dúvidas em acompanhar a denúncia do blog da Tribuna, feita um dia antes, na segunda-feira, às 5h10m.

É importante a entrada de O Globo nesse trabalho de jornalismo investigativo, porque ainda há muita coisa a ser revelada, não apenas sobre as relações entre o governador e esses empresários, mas também quanto à própria viagem de Sergio Cabral e sua comitiva à Bahia, a pretexto de comemorar o aniversário de Fernando Cavendish, dono da Delta Construções.

Dotado de uma grande equipe e contando com recursos abundantes, O Globo tem todas as condições para apurar melhor os fatos e dirimir as dúvidas deixadas por seu próprio noticiário, porque muita coisa decididamente não se encaixa.

Na edição de terça-feira, por exemplo, O Globo publica sem qualquer contestação a notícia de que o governador Sergio Cabral, o filho e a namorada teriam viajado para a Bahia junto com a família Cavendish, no final da tarde de sexta-feira, num jatinho Legacy de Eike Batista, que teria decolado do Santos Dumont às 17 horas, segundo informação oficial da assessoria do governador.

Acontece que na extensa reportagem anterior, publicada no domingo, o próprio O Globo noticiava que Sergio Cabral estava em Porto Seguro desde a sexta-feira de manhã, pelo menos, segundo relato do  prefeito Gilberto Pereira Abade, que encontrou o governador passeando pela cidade, segundo declarações publicadas pelo maior jornal baiano, A Tarde.

E mais: a reportagem de O Globo também divulgava que “o acidente aconteceu após um almoço do grupo no Villa Vignoble Terravista Resort, em Trancoso. De lá, os convidados começaram a ser levados para o Jacumã Ocean Resort, a uma distância de 15 km. Como eram várias pessoas, foi preciso fazer várias viagens”.

Como se vê, a “informação oficial” da assessoria do governador desmente e desmoraliza a matéria de O Globo, como se os repórteres tivessem inventado não somente a realização de um almoço em Trancoso, mas também desmentem o fato de o prefeito de Porto Seguro ter se encontrado com Cabral na sexta-feira de manhã.

Mas ao que parece a versão de O Globo é muito mais factível do que a informação divulgada pela assessoria do governador. Vamos conferir os fatos:

1) A viagem Rio-Porto Seguro, em boas condições meteorológicas, dura bem mais de uma hora, porque a distância é de 400 milhas náuticas (740 km) e a velocidade máxima do Legacy é de pouco mais de 800 km/h.

2) Contando o tempo perdido em decolagem, aterrissagem e outros procedimentos, a viagem teria durado bem mais de um hora, porque o tempo estava ruim.

3) Assim, se o jatinho de Eike decolou do Rio às 17 horas, a que horas chegou a Porto Seguro?

4) Como foi amplamente divulgado, o helicóptero levava 10 minutos no percurso Porto Seguro-Jacumã. A decolagem fatídica do helicóptero ocorreu às 18h31m, segundo O Globo. Como antes, ele já havia feito uma viagem, conduzindo o governador e a esposa do piloto, e depois voltando a Porto Seguro, o tempo vai ficando cada vez mais escasso para confirmar a versão da assessoria de Cabral, de que o jatinho decolou às 17 horas.

5) Ou seja, para confirmar a versão “oficial”, o jatinho teria chegado a Porto Seguro no máximo às 18 horas. Para então o grupo desembarcar, malas inclusive, dirigir-se correndo ao heliporto, que fica em outra parte do aeroporto, para embarcar com a máxima pressa.

Esses horários superapertados significam que a versão da assessoria do governador pode estar toda furada e ser tão mentirosa quanto a primeira versão impingida a O Globo, dando conta de que Cabral teria viajado para a Bahia depois do acidente, para acompanhar as buscas, conforme o jornal publicou na matéria de sábado, em 3ª edição.

Para dirimir as dúvidas, modestamente o blog da Tribuna sugere à reportagem de O Globo três pautas (se ainda não tiverem sido feitas, pois escrevo este texto por volta das 20 horas de terça-feira):

1) apurar no Santos Dumont a que horas realmente decolou o jatinho de Eike, na sexta-feira e se Cabral estava nele, porque o blog da Tribuna tem informação confiável de que Cabral veio de Miami direto para Porto Seguro;

2) entrevistar o prefeito de Porto Seguro para que confirme ou não se encontrou Cabral passeando na cidade sexta-feira de manhã;

3) apurar no Villa Vignoble Terravista Resort, em Trancoso, se o governador almoçou ou não lá na sexta-feira com o grupo, ou se almoçaram sem a presença dele.

Aí seriam afastadas todas as dúvidas sobre o trágico acidente. Quanto às relações fraternas do governo Sergio Cabral com empresários de péssima categoria, o Globo nem precisa perder tempo dos repórteres, porque os fatos já falam por si. não existe a menor dúvida desse envolvimento mais do que suspeito.

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