Cabritos na sucessão

Carlos Chagas

É conhecida a história daquele caboclo que, estando o fazendeiro de viagem, botou um cabrito nos ombros e ia atravessando a porteira, já pensando no lauto jantar, quando viu-se surpreendido pelo dono da terra. Interpelado sobre o óbvio roubo do animal, respondeu angelicalmente: “Cabrito? Que cabrito? Sai daí bicho safado!”

No Brasil, hoje, tem gente demais carregando cabritos. O governador Eduardo Campos, depois de novo encontro com a presidente Dilma, declarou aos jornalistas que nem de longe cuidaram da sucessão de 2014 e que ele não será candidato, por apoiar a reeleição da presidente. Ela, em entrevista no final do ano, perguntada sobre seus planos para um segundo mandato, cortou a conversa dizendo nem cogitar do assunto. Já o ex-presidente Lula rebate a questão como zagueiro de time de várzea, acentuando que a vez é de Dilma. Michel Temer, vice-presidente, renova juras de amor ao PT e prepara seu partido, o PMDB, para as eleições de 2018.

Do outro lado, Aécio Neves desconversa e adia seu périplo pelo país para mais tarde. Geraldo Alckmin sustenta que é cedo para definições. A própria Marina Silva fala em montar um partido, primeiro.

Aqui para nós, estão todos com cabritos no ombro, já tendo atravessado a porteira faz tempo. O fazendeiro, no caso, somos todos nós, que ao cobrarmos o domínio do fato, ouvimos palavras de surpresa, até de indignação. Só que os cabritos estão sendo levados, indagando-se apenas qual deles dará o melhor jantar.

À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Um psiquiatra que estivesse sem clientes faria a festa e a féria caso montasse seu consultório na Esplanada dos Ministérios. Porque muitos ministros encontram-se à beira de um ataque de nervos. Abusam do Lexotan aqueles sorteados para despachar com a presidente Dilma ao longo desta semana. Da próxima e das seguintes, também. O apelo que fazem aos céus é para não ser sorteados com a convocação. Porque mesmo sem haver dado o menor sinal de que promoverá reajustamentos na sua equipe, a presidente resolveu iniciar o ano cobrando tarefas e missões dadas a seus ministros ano passado e até agora não cumpridas a contento.

Junto com cada admoestação e reprimenda, fluem não apenas as recomendações para este ano ser diferente. Fica, solta no ar, a dúvida sobre se serão substituídos. Estando ou não na marca do pênalti, prevalece em muitos o sentimento de culpa. Especialmente naqueles que planejam candidatar-se ao Congresso ou aos governos estaduais, em 2014. Sabem que se defenestrados agora, dificilmente manterão condições para sustentar o objetivo.

O VALOR DA EXPERIÊNCIA

Quem acaba de quebrar um respeitável e respeitado silêncio de muitos anos é o jornalista Pedro Gomes, um dos mais perfeitos textos do jornalismo brasileiro. Posto em sossego por impedimentos naturais à idade, nem por isso ele deixa de acompanhar todos os lances da política nacional. Agora, muito justificadamente, não se conteve. Diante do vexame que ia sendo a votação em bloco, no Congresso, de mais três mil vetos presidenciais a projetos legislativos, esse eterno príncipe das palavras bem urdidas clama por uma solução definitiva, capaz de evitar a repetição da lambança.

Sugere que as principais lideranças parlamentares votem de imediato emenda constitucional determinando que os vetos presidenciais, obrigatoriamente, sejam apreciados por deputados e senadores num prazo fatal de 90 ou 180 dias. Se não forem, como aconteceu com mais de três mil, serão considerados definitivos e incorporados à legislação, sem poder ser derrubados nunca mais. Simples, não é? Mais ou menos como o raciocínio linear e a experiência salutar do mestre Pedro Gomes.

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