Candidato a presidente, mas cassado às vésperas de ser eleito deputado federal

José Luiz:
“Acho que desde a década de 50, você vota em branco ou anula o voto para presidente. Só votaria em alguém se o candidato fosse você mesmo. Até concordo, porque eu também só votaria em mim mesmo”.

Comentário de Helio Fernandes:
Desculpe, José Luiz, você não está inventando ou adivinhando nada, apenas recordando, 44 anos depois, um fato público, mas que você não conhecia.

É o seguinte: em 1965, resolvi me candidatar em 1966 a deputado federal. Como existiam apenas dois partidos, o MDB e a Arena, nenhuma dúvida, só podia me inscrever no MDB. Apesar de dominado por Chagas Freitas, que foi duas vezes “governador”, lógico, entre aspas.

(Ele era tão corrupto que enganou e atraiçoou até o grande amigo Ademar de Barros. Em 1956, Ademar foi condenado pelo que se chamou de roubo da “urna marajoara”. Ademar havia dado a Chagas, 5 por cento das ações de sua empresa proprietária do jornal ” A Notícia”.

5 por cento representavam pouco, mas como Ademar teve que fugir para o Paraguai, Chagas foi aumentando periódica e sistematicamente o capital da empresa, só o próprio Chagas subscrevia. Quando Ademar voltou, tinha menos de 4 por cento das ações. Chagas havia lançado o jornal “O Dia”, popularesco, Ademar entrou na Justiça, perdeu em todas as instâncias, (até no Supremo) Chagas ROUBARA o amigo, rigorosamente dentro da lei.

(Conto isso para mostrar quem era o “dono” do MDB, majoritário na Guanabara. Mas eu não podia concorrer pela Arena. Agora, o fato e “a candidatura”  Helio Fernandes.

Comecei a campanha, e a repercussão foi imediata. Conhecendo o Rio como conhecia, a Guanabara, sucessora do Distrito Federal, era rigorosamente oposicionista. (O que levou o “presidente” Geisel a praticar o retrocesso da fusão com o Estado do Rio, um desastre para o Rio, a já Guanabara, um alivio para a ditadura.

Tudo era praticamente pessoal, a TV Tupi já existia, a TV Rio, a Record, mas com pouca audiência e até sem aparelhos. Visitava-se bairro, conversava-se muito. E importante naquela época, era o que se chamava de “comício em casa”. Pessoas reuniam em casa ou no apartamento, 30, 50, às vezes mais de 100 pessoas, dependendo do tamanho. Era apenas um candidato de cada vez, se submetia  a toda e qualquer pergunta.

Essa forma foi se multiplicando, em alguns dias aconteciam vários desses “comícios” diretos, que davam ou tiravam votos. E a repercussão, contra e a favor dos candidatos, enorme. Participantes contavam para outros, insistiam, reproduziam,  convidavam candidatos do MDB e da Arena.

A expectativa a respeito da minha votação cresceu de tal maneira, para alguns surpreendente. O que ocorria: minha forma de expressar era a palavra escrita, mas também a palavra falada. Eu fazia coluna e artigos diários desde 1956 (Diário de Notícias, depois Tribuna), e respondia, não refugava nada.

Era assíduo nesses “comícios” e me entrega inteiramente ao jornal e à campanha. Daí o crescimento da presumível votação. Que seria o mais votado do MDB, certo e garantido. A chapa do MDB era ótima, mas os próprios Institutos de Pesquisa registravam os sinais de extraordinária votação.

O candidato a senador (apenas uma vaga) era Mario Martins, grande figura. Antecipando, foi eleito facilmente, adiantou pouco, cassado no AI-5 de 1968. Invariavelmente, me perguntavam em todos lugares: “Por que o senhor, destacado jornalista, quer ser deputado?”

Respondia, também invariavelmente: “Eu não quero ser deputado. Se tiver a votação que esperam ou admitem, em 1970 serei candidato a governador, em 1975, a presidente”. (Naquela época, o mandato do presidente, estipulado pela Constituição de 1946, era de 5 anos, e o de governador da Guanabara, também de 5).

Mas o governo se assustou com a repercussão da candidatura, o “general” Golbery foi “encarregado de resolver o problema. Só que dentro do “problema tinha outro problema”, eu não falava com ninguém.

Fez contatos com amigos, a todos se comprometia: “O presidente (Castelo) não quer cassar o jornalista, mas não admite que ele seja deputado”. A um compadre (padrinho de um de meus filhos), Procurador da República, disse textualmente:

“Doutor, o senhor nem imagina. Com um jornal só, o jornalista nos dá tanto trabalho. Jornalista e parlamentar, isso nao podemos suportar”. E fez a proposta indecente: “Ele é moço, basta desistir agora, surgirão outras oportunidades”.

Nem admiti. O que iria dizer à minha mulher e meus filhos, aos amigos? Para encurtar: a eleição seria no dia 15 de novembro, fui cassado no dia 11. No dia 12, meus advogados entraram com Habeas Corpus no Supremo. O relator foi o Ministro Eloy José da Rocha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, independente, que mandou o TRE registrar minha candidatura, o governo nem levou em consideração.

Na mesma noite do dia 11 me telefonou Mario Martins. Como o comício de encerramento estava marcado para as 9 horas da manhã do dia seguinte, na PUC, Mario queria que eu estivesse presente e discursasse. Fui, lógico, como ia desatender amigos candidatos?

Na porta da PUC me esperava o Reitor, Padre Laércio. Me disse logo. Lá dentro estão dois coronéis que disseram que o senhor está cassado, não pode falar. Mas não recebo ordens do Exército e sim da Cúria, que me deu total liberdade para decidir. Assim, se o senhor quiser falar, está inteiramente à vontade”.

Apertei a mão do Padre Laércio, respondi: “Se o senhor me garante o direito de falar, já devíamos estar no palanque, perdemos tempo aqui”. No interesse da campanha, fui o único orador, fiz o discurso mais violento, exaltado e revoltado da minha vida.

***

PS – Fui preso no mesmo dia, proibido de dirigir jornal, proibido de escrever com meu nome. Fiquei preso três ou quatro meses, o que fazer comigo?

PS2 – Entrei com uma ação na Justiça, exigindo o meu direito de trabalhar. Enquanto isso, escrevia com pseudônimo de João da Silva, o nome de um pracinha morto na Itália.

PS3 – Como João da Silva, usava as mesmas palavras, o mesmo formato, a mesma independência, ficaram esperando. Não demorou muito, o juiz Hamilton Leal, brilhante, bravo e lúcido, devolveu meu direito de escrever. Voltou a assinatura Helio Fernandes.

PS4 – Não quiseram criar atritos, violentando meu direito de escrever. Logo depois começa a fase dos sequestros, desterros, sempre num crescente. E acabou meu projeto de chegar a presidente.

PS5 – Para cumprir esse projeto, aceitei mais tarde (10 anos, inicialmente) a substituição por Juscelino, Carlos Lacerda, Leonel Brizola. O primeiro me decepcionou, os outros dois não chegaram, uma tristeza.

PS6 – Você acertou num fato, Luiz: eu tinha realmente total confiança no meu projeto, sem falhas, não queria nada. Errou em outro, Luiz. Consegui aceitar os projetos Lacerda e Brizola, aos quais me incorporei com entusiasmo.

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