Candidatura de Ciro Gomes: Shakespeare no PSB

Pedro do Coutto

Reportagem – muito boa – de Márcio Falcão, na Folha de S. Paulo de 16 de abril, reproduziu declarações de Ciro Gomes, queixando-se do isolamento político a que está sendo submetido no seu partido, o PSB, que não consegue decidir sobre seu destino. O vice-presidente nacional da legenda, ex-ministro Roberto Amaral, contestou a afirmação, dizendo que foi ele, o próprio Ciro, que se isolou afastando-se da direção partidária. A respeito de uma possível candidatura do ex-governador do Ceará a presidente da República, deixou no ar uma dúvida hamletiana: ser ou não ser. Portanto, Shakespeare no Partido Socialista Brasileiro.

A diferença entre aquela obra de arte e o enigma exposto, é que, primeiro, não estamos no Reino da Dinamarca; segundo, tanto o PSB quanto Ciro ainda não se fixaram numa direção comum. A dúvida do Hamlet 2010, quatrocentos anos depois da peça, projeta-se também no interesse da legenda. Uma corrente, segundo Roberto Amaral, deseja apoiar Dilma Roussef, diretamente e deixar Ciro Gomes em segundo plano. Outra, entretanto, defende a candidatura de Ciro Gomes, não porque veja nele perspectiva de vitória, mas sim porque considera que sua presença na sucessão retira votos de Serra e dessa forma soma mais para a ex-chefe de Casa Civil.

Sob qualquer um desses ângulos, verifica-se que a imagem de Ciro não se fixa nele próprio, mas pelo que soma mais ou soma menos para Dilma Roussef. Ser ou não ser candidato, relativamente a Ciro, virou uma dúvida que a direção do PSB, em reunião da executiva nacional, assegura que vai resolver no próximo dia 27.
A presença de Ciro Gomes no quadro sucessório evidentemente partiu de um lance engendrado pelo presidente Lula. Acenou com a hipótese de que disputasse o governo de São Paulo, Ciro acreditou e por isso transferiu seu domicílio eleitoral. Mas a reação do PT paulista foi fortemente contrária e ele ficou sem espaço para atuar. Sequer foi cogitado como candidato ao governo estadual, nem mesmo como segundo nome ao Senado, já que este ano são duas as vagas em disputa, a primeira assegurada a Marta Suplicy. Ciro poderia ficar como segunda opção. Mas quem garante que o eleitorado petista votaria nele conjuntamente com Marta? Deputado federal, creio, só como última alternativa. Inclusive porque na entrevista a Márcio Falcão, ele afirmou estar disposto a disputar a presidência, frisando que a legenda, em todo o país só teria a ganhar com isso.

Mas Roberto Amaral e o senador Renato Casagrande têm dúvida. Consideram que, em vez de acrescentar ao partido, a candidatura própria à presidência poderá de outro lado, bloquear coligações estaduais. Neste mar de incertezas, um aspecto, entretanto, está sendo esquecido pela direção do PSB: o apoio de Ciro Gomes a Dilma Roussef no segundo turno, desfecho natural e esperado das urnas de outubro.

Importante este apoio, que pode se tornar decisivo até, sobretudo porque Marina Silva, magoada com o governo por sua demissão do Ministério do Meio Ambiente, seguramente tentará transferir os votos que receber no primeiro para José Serra no segundo turno. De qualquer forma, portanto, permanece a importância de Ciro Gomes na sucessão, em qualquer das hipóteses.

Um outro assunto. Serra voltou a elogiar Lula, matéria publicada também na Folha de sexta-feira. Mas fez uma comparação errada: referindo-se ao apoio de Maluf a Celso Pitta, disse que nem sempre o sucessor repete a boa atuação do antecessor. Enganou-se. Paulo Maluf, de fato, apoiou Pitta. Mas o destino os colocou em igualdade: ambos foram presos por corrupção. Celso Pitta morreu. Maluf continua com a prisão decretada em 181 países. Só pode ficar solto no Brasil. Situação curiosa esta.

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