Nada mudou

Carlos Chagas

Já se vão  21  anos da pedrada que acertou a testa do jornalista Cláudio Humberto, então assessor de imprensa do candidato Fernando Collor, a quem o arremesso se dirigia.  Foi em Niterói, no final de um comício, sendo aquele ato de violência atribuído a  um grupo de partidários da candidatura de Leonel Brizola. O ex-governador do Rio reagiu com veemência, denunciando que a pedra partira de adeptos do Lula, disfarçados de brizolistas. Nada foi apurado como devia e o episódio não durou mais do que as 24 horas regulamentares.

O tempo passou e a moda, agora, mantido como palco  um subúrbio do Rio,  parece de  acertar candidatos com rolos de adesivos. O alvo foi a careca de José Serra, mas, desta vez, nem sangue correu. Por via das dúvidas o tucano procurou um hospital, constatando-se nenhuma sequela.

Dada a amplíssima cobertura jornalística que cerca a campanha eleitoral, dúvidas inexistem de ter sido a militância do PT responsável pela agressão, ainda que a sessão fluminense do partido tenha desmentido, em nota oficial. Registraram-se sucessivas  imagens do entrevero entre os companheiros e a segurança de José Serra.

Mudou alguma coisa, de 1989 para 2010? Desafortunadamente, não. Porque de hoje até o dia 31 mais se acirrarão as campanhas, seus exageros e suas baixarias.  Reflui ao patamar do subdesenvolvimento o Brasil que em matéria de  técnica eleitoral dá lições até aos Estados Unidos. Podemos ser os mais rápidos do mundo em termos de apuração de votos, mas na briga pela sua conquista, igualamo-nos a certas repúblicas africanas e asiáticas. A imagem que correu os cinco continentes, ontem, foi a de José Serra cobrindo a careca com as  mãos.  Há 21 anos, foi do Cláudio Humberto com razoável curativo na testa…

DEUS NÃO TEM PARTIDO

Houve tempo, nas décadas de quarenta, cinquenta e sessenta, em  que a Igreja Católica participava ativamente do processo eleitoral. Bispos e até cardeais divulgavam  listas de candidatos nos quais os fiéis estavam proibidos de votar, sob pena de excomunhão. Nos sermões de domingo, não apenas os filiados ao Partido Comunista eram proscritos. Também os desquitados e os que viviam um segundo casamento. Ameaçava-se com o fogo do inferno quantos descumprissem as diretrizes eclesiásticas.

A própria Igreja encarregou-se de corrigir aqueles excessos, entendendo que a opção político-partidária nada tem a ver com o dogma ou   a liturgia. E até  desestimulando padres de concorrer a postos eletivos.

O diabo (com perdão do substantivo mal-empregado) é que outras igrejas proliferaram e se transformaram em agentes político-partidários. Apresentam candidatos em proporção muito maior do que os católicos apresentavam antes, bem como se arvoram em árbitros eleitorais. Exigem dos  candidatos compromissos  formais com suas doutrinas, intimidando-os e levando-os a perigosas omissões por conta da ameaça de colocá-los num index redivivo.

Seria bom  o poder público prestar atenção nos possíveis desdobramentos desse fenômeno. Afinal, as igrejas não pagam imposto…

NÃO PODEM MAIS ERRAR

Depois do vexame de suas previsões no primeiro turno das eleições, encontram-se os institutos de pesquisa numa cruel encruzilhada. Não podem simplesmente escafeder-se, renunciando às suas  próprias finalidades, mas, no reverso da medalha, estão proibidos de errar. Chegaram a alardear a vitória no primeiro turno de um candidato, depois da adversária dele.  Pisaram feio na bola quando examinaram as sucessões estaduais e a composição do  Senado e  da Câmara. Agora, diante do segundo turno das eleições presidenciais e de alguns governos estaduais, sabem da inocuidade de afirmar que o eleitorado mudou, da noite para o dia. Os números precisarão, no mínimo, seguir  as tendências majoritárias. Este alerta explica as pesquisas do fim de semana.

DEBATES

Mais um debate vem centralizando a atenção  dos candidatos e de suas respectivas assessorias.  Será na TV-Record, dia 25, segunda-feira. O horário não favorecerá a audiência: 11 horas da noite. Depois, ficará faltando o último encontro entre Dilma Rousseff  e José Serra, na sexta-feira, 29, na Rede Globo.

O problema é que nem os privilegiados cérebros  dos principais comandantes das campanhas  conseguem mais produzir novas idéias e diferentes propostas para os candidatos sustentarem.  Ainda mais dentro  das  rígidas regras impostas pelas  emissoras.  Obrigados a resumir em no máximo dois  minutos qualquer programa ou diretriz de governo, Serra e Dilma obrigam-se a repetir os mesmos chavões diante das mesmas indagações.

Ainda bem que dia 31 termina tudo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *