Carlos Minc: omissão, tragédia e demissão

Pedro do Coutto

A manchete principal da Folha de São Paulo de sábado, reportagem de Evandro Spinelli, acrescentou uma informação fundamental que explica a tragédia que desabou sobre as cidades de Teresópolis, Petrópolis e Friburgo deixando centenas de mortos e milhares de desabrigados em seu rastro sinistro.

O governo do estado do Rio de janeiro estava de posse de estudo da UFRJ, coordenado pela geógrafa Ana Luiza Coelho Neto, apontando a vulnerabilidade das três cidades serranas às chuvas fortes e inundações. Nada fez de concreto para prevenir. Ao contrário.

O Secretário de Meio Ambiente, Carlos Minc, de grande presença na mídia, afirmou que “faltou apenas retirar os moradores”. Quer dizer: faltou tudo. Carlos Minc não tem desculpa. Nesse meio tempo, já de posse do levantamento, foi ministro do Meio Ambiente e indicou sua sucessora na área estadual. Que fez da pesquisa articulada por Ana Luiza? Nada.

Pior, acrescenta outra matéria, esta assinada por Hudson Correa, que também integra o bloco da manchete do jornal: assistiu a Prefeitura de Teresópolis autorizar construções irregulares em áreas de risco. Não só a de Teresópolis, mas igualmente a de Petrópolis na estrada que liga o município a Itaipava. A foto estampada na FSP não deixa dúvida da precariedade da decisão. Há áreas de sombra incluindo também Friburgo.

A omissão levou a uma tragédia de raras proporções no Brasil e no mundo. Carlos Minc, que tanto se expõe ao noticiário, nada disse até agora. Preferiu o silêncio que marcou seu comportamento da omissão à demissão, passando pela tragédia coletiva. É importante que o governador Sergio Cabral o exonere. Mas, se não fizer, ele, Minc, terá demitido a si mesmo do plano da responsabilidade.

Não revelou  a sensibilidade necessária para, nas ocasiões difíceis, desempenhar a função pública. Eu me lembro que, em 58, era repórter do Correio da Manhã, quando ocorreram dois desastres de grande porte na Central do Brasil, Paciência e Mangueira, nas linhas suburbanas do Rio. O presidente Juscelino foi aos locais. Em Mangueira, no engavetamento de trens, o diretor da EFCB, Luiz Alberto Wahtely, virou-se para ele e disse: não se preocupe presidente, estes vagões transportam no máximo 120 pessoas. JK respondeu: o senhor está demitido.

Se cada vagão só transportava, no máximo, 120 pessoas, o diretor demitido os  considerava instrumentos de uma senzala social. Claro. Porque o importante não é ver só o fato, mas sobretudo ver a atitude que está contida no fato.

O descaso do governo do RJ não causou somente milhares de vítimas mas  uma situação de risco enorme, não somente para a região serrana atingida, mas para todo o estado, além de, pela proximidade, para Minas Gerais e São Paulo.

O risco de uma epidemia decorrente da omissão e da morte está presente nos próximos dias com outra alta perspectiva de risco. O sepultamento às pressas, feito como era inevitável, de forma desordenada, amplia a possibilidade de contaminação pela água e até pela atmosfera. Será necessário um programa de vacinação em massa e a fixação de um cordão sanitário, como já foi feito em outros países em situações semelhantes.

Por falar em cordão sanitário, onde está o Secretário de Saúde, Sergio Cortes, também coordenador de defesa civil estadual? Não entrou em cena até o momento. Mais um omisso numa cadeia de ausências na hora do perigo. Mas é nestes momentos que se conhece os homens públicos e sua verdadeira vocação. O governo Sergio Cabral falhou enormemente. Não levou em conta sequer os precedentes de Angra dos Reis e de Niterói. Um desastre.

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