Carmem Miranda, como se pode fraudar uma história

Pedro do Coutto

O filme que o produtor americano Buddy Bregman, de 80 anos , pretende realizar sobre a vida e a carreira brilhante da cantora e atriz Carmem Miranda – objeto de reportagem publicada pela Folha de São Paulo , na edição de 15 de julho – é mais uma prova, entre muitas, de como se pode fraudar uma história ou se montar uma farsa. Sem a menor preocupação com os direitos de imagem dos personagens (no caso da personagem) e sem levar em conta a propriedade alheia. Sim. Porque o uso da imagem é propriedade dos herdeiros e herdeiras. E também sem observar os limites legais da obra do jornalista Ruy Castro que levou cinco anos para escrever uma biografia excelente e exemplar. Uma obra literária importante num gênero extremamente expressivo. Afinal a história se escreve assim. Nos jornais, nos livros, nas biografias, agora também na internet.

A reportagem da Folha de São Paulo foi feita por Denise Menchen, no Rio, e Fernanda Ezabela, correspondente em Los Angeles. Focaliza a controvérsia que oportunamente explodiu, antes que fosse tarde, em torno da Carmem Miranda. O panorama é confuso e apresenta mais uma divisão. Primeiro, Bregman é contestado pela produtora Paula Lavigne que, em 98, adquiriu os direitos de realizar um filme sobre a pequena notável, como Carmen era chamada pelo rádio da época.

Segundo, Bregman é rechaçado pela família da cantora que vai a justiça contra o americano. A novela não termina aí. Os herdeiros da estrela do Cassino da Urca, da Fox e da Metro, vão ajuizar ação contra a mesma Paula Lavigne que deseja processar Buddy Bregman. Paula Lavigne está demorando demais para fazer o trabalho. Este é o fim do primeiro ato. Descem as cortinas.

Abrem-se para o segundo ato e entra em cena o escritor Ruy Castro que, em declarações à FSP afirma-se ameaçado de roubo. Isso no caso provável de o produtor norteamericano ter recorrido a seu texto para reproduzir uma história diversa do relato original. Ruy Castro, a meu ver, tem razão. Maracas nada tem a ver com Carmen Miranda que em todas as suas interpretações nunca usou nada nas mãos. Até porque as movimentava livremente para obter efeitos cênicos.

Bregman nega que seja um ladrão de textos. Defende-se recorrendo à língua inglesa e sustentando não ter escrito uma história de Carmen Miranda, mas sim uma estória. Em inglês history é a história que se presume sobre a verdade de algum acontecimento ou a respeito de alguma pessoa. Story é a história sobre um fato ou uma pessoa, na visão de quem a redige. Mas terá sido isso mesmo que Bregman praticou? Só a comparação entre suas páginas e as de Ruy Castro poderá definir, feita a tradução correta. Não é difícil chegar a uma conclusão.

Mas os argumentos de Bregman não são bons. Entrevistado por Fernanda Ezabela, em Los Angeles, foi extremamente agressivo. Disse não estar ligando para os herdeiros da imagem e muito menos para Paula Lavigne que, a seu ver, deveria mergulhar no oceano. Por que tais afirmativas? Não há motivo. Revelam uma reação de quem foi apanhado em falha ética. Bregman acentua ter escrito o roteiro baseado em jornais (não diz quais) e no arquivo de uma biblioteca: não diz qual. Como se observa, há sombras na estrada da autoria. Ruy Castro ficou indignado com as maracas. Ele e todos os que assistiram Carmen Miranda. Os herdeiros indignaram-se com o abuso cometido pelo produtor em matéria que não lhe pertence.

Tudo isso revela, que se os detentores de direitos não se resguardarem, qualquer um pode mudar a história de qualquer pessoa. Mas ao contrário do que se costuma dizer, a versão não é mais importante do que o fato.

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *