Carta de um comentarista a seu filho, que lhe faz muita falta

José Reis Barata 

Newton, procurei um cantinho para incluir uma carta que gostaria de ter remetido para meu filho, que não vejo há mais de dez anos (RJ). Deixei no mural do abandonado facebook dele.

“À François A. C. Barata, meu Filho,
18/10/2011

Fica difícil dizer algo quando completas mas um ano de vida; não muitos, nem tantos quantos desejo que Deus te conceda o privilégio de viver.
A vida é bela. Por isto é que devemos insistir em vivê-la em todos os seus momentos, contornos, retornos, humores, odores, amores e contradições. É, ela é assim e nós somos assim, roseiras.
Dizer palavras não por dizer, e sim para acrescentar e palavras quando muito multiplicam ou dividem o que existe.
O que existe entre nós, ninguém, nem o tempo, nem a distância alterou. São nossas indevassáveis solidões que precisam ser respeitadas e vividas em suas felicidades interiores. Ficou e ficarão como nossas vivências, experiências que cada um de nós a cada lembrança, a cada recordação, a cada saudade, a cada lágrima, a cada solitário e silencioso apelo deve tentar tirar o melhor proveito esquecendo os defeitos.
Tijolos defeituosos não constroem um bom muro; uma boa relação, uma relação fraternal e amiga; uma vida feliz. Só o amor e com amor se constrói. Portanto, desprezemo-los.
Pouco convivi com meu pai, sabes disto. Criança, não muito diferente de ti, passou a me guardar e proteger de longe, sem retorno. Mas, ainda estou aqui, numa distância facilmente superável…
És, filho, um felizardo. Eu já não posso sequer dividir a brancura de meus cabelos com os de tua avó: educadora, trabalhadora, sofredora, mãe, santa. Nem por isto a deixo em paz com minhas súplicas. Filho – terás os teus – é isto, é solicitação contínua, eterna; mas é apego, é respeito, é presença, é carinho, é amor, é felicidade muito mais do que qualquer outro vínculo físico, material.
E pai? Bem, pai, pai é a mais árdua e difícil tarefa que se impõe sobre os ombros de um homem – de que se deve poupar as mães: é uma arte, arte de saber dizer não para um filho.
Nenhum fracasso ou sucesso me tirou a fé, a fé no amanhã de manhã; nenhum sonho deixei de sonhar. Contudo e sobretudo não fiquei no sonho; não permaneci dormindo; não permiti que se transformassem em pesadelos, mesmo nos mais terríveis quando teu irmão partiu,…foi e deve estar lá. Deus sabe o quê, como, quando e por que faz. Fez.
Sim, Deus, acredita, tem a fé nele que eu gostaria de ter e tanto preciso, peço e imploro. Se me deu tanto, por que me nega uma fé mais consistente, vigorosa, menos negociada, humana?
Pronto, minha bênção.
Multipliquei para ti o que eu fui e sou; só, teu pai, uma barata. Infelizmente, um flamenguista que gostaria, para teu gáudio, de ser botafoguense.
Beijo carinhoso, extensivo a teu e tua n ‘amor’ ada.
Aracaju, SE”

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