Cartões de crédito (já são 628 milhões), a nova moeda do país

Pedro do Coutto

Reportagem excelente de Gabriel Baldochi, Folha de São Paulo de sábado, com base em informações do diretor da Associação Brasileira de Cartões de Crédito, José Renato Hopf, e também do vice presidente de marketing da Cielo, Dílson Ribeiro, revela que o número de cartões de crédito em uso no país atinge nada menos que 628 milhões de unidades. Média praticamente de 3,5 cédulas por pessoa, respondendo por 24% do consumo nacional. Como o consumo nacional  – me informa o economista Gilberto Paim – gira em torno de 1 trilhão e 400 bilhões de reais, vê-se que os cartões promovem uma comercialização anual de 350 bilhões.

A meta espacial é subir até alcançar a emissão de 909 milhões de unidades até 2015. Nos Estados Unidos, 44% do consumo procedem do uso dos cartões mágicos. Isso num país cujo PIB é de 15 trilhões de dólares. E o consumo interno na escala de 10 trilhões, calculo eu, porque lá a massa salarial representa 60% do PIB. No Brasil, encontra-se em torno de 40%. Algo em torno de 1 trilhão e 400 bilhões.

Um aspecto importante é que o nível de consumo brasileiro ultrapassa o volume da massa salarial. Esta situa-se numa faixa de 1 trilhão de reais, reunindo empregados particulares e servidores públicos. As nossas compras internas, portanto superam em 40% os nossos rendimentos do trabalho. É verdade que 17 bilhões de dólares – publicou há poucos dias o Banco Central – são gastos por ano no exterior. Os cartões entram em ação. Eles são, de fato, a nova moeda escritural do país. Até quando?

Não se sabe, mas tem-se a impressão que o futuro é bastante elástico e flexível. A inadimplência sobe, parece que está na escala de 14%, pois os juros das compras financiadas são altíssimos. Chegam a 14%. Ao mês. Uma loucura, porém o balé das cédulas de plástico inclui lances ousados e arrojados. Outro dia na fila do supermercado Zona  Sul, em Ipanema, observei que muitas pessoas de aparente pequena renda mensal passavam seus cartões para efetuar compras de valores bem simples. É o giro da moeda escritural. No fundo, o saque para o amanhã. Jeito bem brasileiro do depois eu resolvo. Está errado? Por certo, mas existe na prática em larga quantidade. Aproveito para me dirigir aos leitores.

Quando se escreve alguma coisa a respeito de qualquer tema, não quer dizer que nós, jornalistas, estejamos concordando com o exposto. Estamos somente relatando e tentando ampliar a lente coletiva para a informação. Como sustento sempre, a imprensa, a televisão, o rádio não criam fatos. Apenas os refletem. Quando o ditador da Líbia, Muamar Kadafi, manda bombardear os civis que protestam nas ruas de Trípoli, não estamos concordando com tal assassinato coletivo. Estamos informando.

Porque sem imprensa o exercício da percepção humana cai verticalmente. Sobretudo porque perde sua fonte essencial de percepção. Sem informação, o raciocínio congela no cérebro. O coração bate mais fraco. A emoção desaparece.

A emoção, no que se refere ao mercado comercial, está nos cartões de crédito. Eles possuem magia própria, na medida em que fornecem a sensação de acesso aos bens que nos seduzem. E não é a toa que o comércio baseia-se intensamente na mulher e no seu corpo. Sedução é uma palavra ao mesmo tempo doce e forte.

Os cartões também.

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