Caso Gabriel Paulino: foi imunda a atuação da saúde pública do RJ

Pedro do Coutto

O título acima diz quase tudo e exprime o sentimento de revolta: foi de fato imunda, não há outra palavra, a atuação do sistema de saúde pública do Rio de Janeiro no caso do jovem Gabriel Paulino dos Santos Silva, acidentado em sua residência em Caxias e que percorreu uma via dolorosa de 88 km, seis hospitais, sete horas de sofrimento e angústia, para finalmente ser internado no Hospital Salgado Filho, no Meier. Incrível.

Depois de tal périplo dramático, encontra-se entre a vida e a morte. Inadmissível que o Secretário de Saúde, Sérgio Cortes, não tenha pedido demissão. Ou tenha sido demitido pelo governador Sérgio Cabral, cuja imagem, por omissão, foi atingida no episódio. Os principais jornais do país, como não podia deixar de ser, publicaram matérias denunciando a insensibilidade da administração pública estadual.

A reportagem mais completa de todas, entretanto, foi a do Extra, assinada por Priscila Souza. Manchete principal da edição de quarta-feira, extremamente impressionista e realista, destacou os estágios da dor do acidentado e da angústia de seus pais: percurso de 88 km, passagem por seis hospitais, sete horas de viagens intercaladas sem sucesso, culminando com o índice zero em matéria de respeito ao ser humano. Onde estavam durante a sinistra maratona o governador Sérgio Cabral e o secretário de Saúde? Na véspera, trágica ironia do destino, Sérgio Cabral publicava no Diário Oficial a lei que autoriza a contratação das Organizações Sociais de Saúde.

O sistema social do RJ faliu. Não pode haver a menor dúvida. O caso Gabriel Paulino é emblemático e fica na história do Rio. Ao consertar a antena de onde reside, perdeu o equilíbrio e caiu de uma altura de cinco metros, revela o Extra. Sofreu várias fraturas e traumatismo craniano. Ficou entre a vida e a morte. Necessitava de atendimento urgente. Mas não encontrou. Era direito seu, paga impostos diretos e indiretos para isso. Não estava pedindo favor, mas começava a percorrer a estrada da dúvida e do infortúnio.

Primeiro – revela Priscila de Souza – tentou o posto de Saúde de Caxias. Dali foi encaminhado para o hospital Adão Pereira Nunes em Saracuruna. Nada feito. Não havia tomógrafo funcionando. Omissão. Em seguida, bateu às portas do Hospital Getúlio Vargas. Nada feito. Oscilando entre a vida e a morte, buscou o Souza Aguiar, um dos maiores do pais. Não havia centro cirúrgico disponível. Da Praça da República, partiu para – vejam só –  Marechal Hermes, unidade Carlos Chagas, grande médico brasileiro. Porém o destino lhe reservava mais uma estação como as do Inferno de Dante. Finalmente foi internado no Salgado Filho, no Meier, nome do primeiro ministro da Aeronáutica do Brasil, quando a pasta foi criada por Vargas em 1941. Aí finalmente o jovem de 21 anos foi acolhido e atendido na sua luta surda para sobreviver.

Foram essas as estações da omissão e da insensibilidade. Características do egoísmo social e da desigualdade, pois se o acidentado fosse parente de personagens da sociedade, o tratamento seria diametralmente diverso. Não haveria necessidade de se consagrar privilégios: bastaria a Secretaria de Saúde recorrer à lei federal que rege o exercício da medicina: em caso de sofrimento intenso e risco de vida, qualquer unidade, pública ou particular, pode ser acionada sem ônus. Isso porque este princípio rege a profissão cujo desempenho desenrola-se na linha que divide a existência e a eternidade.

Não havia lugar na rede pública de Caxias? O Secretário Sérgio Cortes, que deve ser o responsável pela Saúde, deveria ser informado e determinar o atendimento em qualquer hospital particular mais próximo. Por que não foi adotado tal procedimento? Esta a pergunta que todos fazem e aguardam uma resposta. Não basta abrir inquérito para não se apurar nada de concreto. Palavras não são suficientes. Ações concretas, sim. Mas estas faltam no mar de interesses no qual submergem os direitos humanos e a responsabilidade social da administração pública.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *