Caso Palocci: Lula esquece que o poder não se transfere

Pedro do Coutto

Analisando sob sua ótica o panorama político, e sentindo a necessidade aparente de apoiar a presidente Dilma Rousseff quanto aos desdobramentos do caso Palocci, o ex-presidente Lula saiu em socorro de sua sucessora e entrou em campo com um time de senadores do PT pensando neutralizar as reações da opinião pública e as investidas do bloco parlamentar oposicionista. Tarefa triplamente difícil, senão impossível.

Em primeiro lugar, porque cabe exclusivamente ao chefe da Casa Civil defender a si mesmo e responder às perguntas do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel. Isso antes de mais nada. Em segundo lugar, porque, durante sua administração, Lula demitiu Palocci do Ministério da Fazenda no episódio do caseiro Francenildo. A contradição está colocada. Se Lula considerava Palocci e o presidente da Caixa Econômica da época, Jorge Matoso, inocentes, então cometeu um erro ao demiti-los. Este precedente é importante.

Mas o problema não termina aí. Ao contrário. Começa a ganhar dimensão maior exatamente a partir do instante em que Lula saiu com destaque em foto posada ao lado dos correligionários visivelmente para transmitir um sentido de unidade. As fotos foram parar no alto das primeiras páginas de O Globo e de O Estado de São Paulo. A Folha de São Paulo publicou por dentro. Em O Globo a reportagem é assinada por Maria Lima, em O Estado de São Paulo por Vera Rose, na FSP sem assinatura.

Não esqueci o terceiro ponto, vértice do triângulo como poderia parecer pela distância em que ele vai estar no texto em relação ao segundo. É o seguinte: o poder não se transfere. Dessa forma, ao tentar deslocar sobre si as luzes da ribalta, o grande eleitor do país tenta assumir um espaço que não é seu. Com isso, contraditoriamente, revela, por ação tácita, que Dilma Rousseff necessita de seu apoio. E que, por reflexo, não seria capaz de enfrentar a tempestade sozinha. Negativo isso. Ao invés de fortalecer a sucessora, no fundo a enfraquece. Sucessora?  Não vou passar da política para a literatura, mas não resisto a enfocar o título e o acontecimento do final da década de 30 para o início de 40.

A escritora Carolina Nabuco, de família aristocrata tradicional, escreveu o romance “A Sucessora”. Mantinha correspondência com a autora francesa Daphne Du Maurier. Convidou-a a visitar o Brasil e a hospedou em seu palacete no Rio. Mostrou a ela seu livro. Daphne voltou para a França. Poucos meses depois lança Rebeca, obra de grande sucesso, filme também, aliás o primeiro que Hitchcock dirigiu quando trocou Londres por Los Angeles. A vida tem dessas coisas.

Mas o título do artigo é o poder não se transfere. Foi exatamente esta frase que, repórter do Correio da manhã, ouvi de um diálogo que JK mantinha com Rômulo de Almeida, quando em 58, este rompeu com João Goulart e resolveu candidatar-se a vice-governador da Bahia.
Rômulo – já falecido – era um economista de alto nível, chefiou a Assessoria Econômica de Vargas na elaboração do projeto que levou à criação da Petrobrás. Era uma reserva do PTB dentro do acordo com PSD.

Rômulo Almeida, em 57, fora nomeado vice-presidente da Rede Ferroviária Federal. Na tentativa de demovê-lo e resolver o impasse, Juscelino  chamou-o ao Catete. Trabalhando no Correio da Manhã, eu estava entre os repórteres.

JK falou abertamente: estou convidando você para ministro do Trabalho. Se você tem vocação política, aceite. JK já havia falado com Jango, pois o cargo, na aliança, era do PTB. Rômulo, educadamente agradeceu, mas não aceitou. Disse que se fosse eleito vice de Juraci Magalhães, administraria a parte econômica. Juscelino disse apenas: Rômulo, o poder não se divide, nem se transfere. Rômulo perdeu a eleição.

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