Caso Silvio Santos lembra a Última Hora, de Wainer

Pedro do Coutto 

Com base na excelente reportagem de Bruno Villas Boas, Aguinaldo Novo e Patrícia Duarte, edição de 10 de novembro de O Globo, a respeito do repasse de 2,5 bilhões de reais do Banco Central ao Banco Panamericano, no sentido de evitar sua insolvência, identifico forte semelhança econômica (não política) entre o episódio  de agora e o que marcou o governo Vargas, em 53, com o apoio do Banco do Brasil ao Jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Sentindo-se isolado na imprensa, Getúlio Vargas determinou ao presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet, que apoiasse financeiramente o projeto daquele repórter de fundar um jornal que se tornasse aliado do governo. Assim foi feito. O jornal começou a circular em 52 e a crise explodiu em 53, atingindo o ponto máximo com a instalação de uma CPI da Câmara dos Deputados, consequência das denúncias de Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa. Lacerda era então só jornalista, diretor do jornal. Elegeu-se deputado federal no ano seguinte. Todos os grandes jornais da época, Correio da Manhã, O Globo, Diário de Notícias, O Jornal, Diário carioca, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, ampliaram os ataques a Vargas, consequência do privilégio.

Agora panorama parecido com aquele do passado deve se repetir. Acentuo, sem a conotação política que causou a atmosfera crítica de 53 e terminou levando ao desfecho de 54. É porque, como é lógico, o suporte do Banco Central ao grupo Silvio Santos colide frontalmente com os interesses da rede Globo e da Rede Record, principalmente estas duas, e mais a Band, todas contrariadas com o apoio governamental a um concorrente, o SBT. Isso de um lado. De outro colide diretamente com todos os bancos que operam na linha de financiamento de veículos e bens duráveis.

É claro que o Itaú e Bradesco são contrários à injeção extraordinária de recursos para manter o Panamericano de pé. E certamente, nos bastidores vão fazer sentir a reação.

Tornam-se portanto convergentes duas reações. Uma das empresas de televisão. Outra dos bancos. Dose para dinossauro a soma de ambas. Basta dizer que a carteira de crédito do Panamericano, no mês de junho, segundo a reportagem, estava na escala de 9,1 bilhões de reais, incluindo ativos nominais de 38% na linha de automóveis, 22% no setor de cartões e 14 na faixa do crédito consignado. Um mercado nada desprezível cuja substituição pelos bancos de primeira linha (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil) seria inevitável não fosse o Banco Central.

O grupo Silvio Santos deu todos os seus bens em garantia. A quebra do Panamericano, entretanto, atingiria a Caixa Econômica Federal que possui 490% de suas ações com direito a voto e 36,6% do capital geral. Deste capital, Silvio Santos possui apenas, concretamente, 37,6%. O ativo é de 12,5 bilhões incluindo os créditos a seu favor, mas o patrimônio é de somente 1 bilhão e 370 milhões de reais, pouco acima da metade da injeção de créditos que recebeu. Pagar em dez anos com 3 de carência. Quer dizer: o resgate só vai começar em novembro de 2013. Algo de pai para filho.

O grupo Silvio Santos está sendo afetado pela perda do segundo lugar do SBT na audiência, superado pela Record, inclusive nas tardes de domingo. E também pela desativação do Carnê do Baú. Este tinha seu destino ligado à inflação alta. Com inflação baixa não dava resultado. Roberto Marinho, interessado em fulminar o concorrente, não percebeu. Por quê? Porque SS recebia as mensalidades, realizava sorteios, e, no final dos prazos, os que não foram sorteados recebiam os valores de volta, em mercadorias. Só que a devolução não incluía correção monetária. A fonte do sucesso era esta. A diferença entre uma coisa e outra. Desapareceu a taxa inflacionária expressiva, afundou o BAÚ.

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