Castro agride a liberdade e desfecha bofetada política em Bento XVI

Pedro do Coutto

O governo Raul Castro, ao prender arbitrariamente setenta dissidentes que protestavam nas ruas contra a ditadura, exatamente na véspera da chegada do Papa Bento XVI, agrediu mais uma vez a liberdade de pensamento e manifestação, além de desfechar uma bofetada política, não apenas no Vaticano, mas em todas as correntes democráticas que existem no mundo.

Lance estúpido e proposital ou propositalmente estúpido? O reflexo não poderia ser pior. O momento era o oposto da atitude. A repercussão destacará o reacionarismo comunista de Havana, exatamente o contrário que Ratzinger visava com sua visita.

Tinha, é claro, como objetivo a distensão. Raul, provavelmente impulsionado por Fidel, conduziu o encontro diplomático no sentido da tensão. Excelente reportagem de Flávia Marreiro, enviada especial da Folha de São Paulo, publicada a 26, focalizou o triste episódio. A bela foto das damas de branco, flores na mão nas ruas de havana, pedindo o direito de pensar e de exprimir o sentimento, é de Jorge Silva. Entre os setenta presos na véspera do desembarque do Sumo Pontífice, vinte e cinco são ativistas do movimento feminino pela liberdade. E, pior, acrescenta a repórter: boa parte das prisões foi efetuada na cidade de Santiago de Cuba, onde o Papa desembarcou.

Incrível. Nada como o tempo e o poder para mudar e revelar as pessoas. Em 59, portanto há 53 anos, como repórter do Correio da Manhã, estive no Cuba Libre, coquetel oferecido por Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, na embaixada da Rua Djalma Ulrich, Copacabana, quando os principais líderes da revolução armada que derrubou o ditador Fulgêncio Batista anunciaram a libertação da ilha, a Pérola das Antilhas.

O ideal de liberdade e democracia foi lançado ao sótão do esquecimento enquanto os porões do regime estão repletos de presos políticos. Sem processo, sem julgamento, sem culpa. Como se a acusação de dissidentes representasse uma prévia em si. E qual a duração da pena absurda e desumana? Não existe. Depende do arbítrio supremo dos irmãos Castro.

O clima é de permanente apreensão. Pois à medida em que Raul desenvolve passos no sentido da abertura do sistema, a impressão que tenho é a de que Fidel surge das sombras para ordenar o retrocesso no mesmo ritmo na direção oposta. Mas esta não é a questão essencial.

A questão essencial é a falta absoluta de liberdade. Não se trata de haver alguma tolerância para com as damas de branco, como revela a matéria da Folha de São Paulo. Na democracia não pode existir somente alguma tolerância. E as ameaças que estão recebendo as pessoas que se dispõem a ir às ruas apenas pedir o direito elementar de poder acentuar em palavras e gestos o que há na alma do povo. Povo sufocado pelo terror estatal do comunismo de Havana, como no passado milhões de alemães e de países invadidos sofreram com o nazismo de Hitler. E de Stálin na antiga União Soviética.

Hitler e Stálin, os dois maiores assassinos da história que, pela vontade do destino, se defrontaram na segunda guerra mundial. Esta imagem pertence ao passado. Terrível que se repita no presente.

Há cerca de três semanas, neste site, o intelectual Humberto Braga publicou um artigo muito importante: Direita e Esquerda, o título. Nele, traçou os limites entre reacionarismo, conservadorismo e reformismo. Conservador o próprio nome define. Reacionário é o que deseja voltar ao passado. Reformista é quem se empenha pela mudança. Perfeito. Os fatos na Ilha revelam que ser comunista não representa posição de vanguarda. No exemplo cubano, significa retorno ao passado. É, portanto, mais reacionário do que os reacionários que existem hoje no mundo.

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