A morte de Dona Marisa tirou a máscara dos que odeiam Lula e o PT

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O Tempo

Dona Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula, morreu num contexto político conturbado. Nas palavras do próprio Lula, “morreu triste” e também traumatizada.

Diz-se que todas as instituições funcionam. Mas funcionam mal. Em outras palavras, não funcionam. Se tomarmos como referência a mais alta Corte da nação, o Supremo Tribunal Federal, fica claro que as instituições estão corrompidas, incluindo a Polícia Federal e o Ministério Público. Especialmente o STF é atravessado por interesses políticos. Essa situação é um sinal inequívoco de que estamos numa derrocada política, ética e institucional. O Brasil vai de mal a pior, pois todos os itens sociais e políticos se deterioram. E havia senadores e deputados que propalavam que, com a derrubada do PT, o Brasil entraria em uma nova primavera de progresso.

O que nos parece mais grave é o fato de que se instaurou um real Estado de sítio judicial. A Lava Jato mostrou juízes justiceiros, que usam o direito como instrumento de perseguição. A Polícia Federal entrou casa adentro da família Lula da Silva, carregou o que pôde e levou sob vara, quer dizer, coercitivamente, o ex-presidente Lula para interrogatório numa delegacia do aeroporto.

TRAUMA FAMILIAR – Tal ato de violência física e simbólica traumatizou a ex-primeira-dama. Maior foi o trauma quando foi indiciada como criminosa na operação Lava Jato, junto com o marido. Isso a encheu de medo e alterou seu estado de saúde.

Faço minhas as palavra de Hildegard Angel, pois representam o que posso testemunhar em mais de 30 anos de amizade entranhável com Dona Marisa e Lula: “Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram”.

SENTIDO ESTÉTICO – Criticam-na porque, como primeira- dama, não assumiu funções públicas. Mas poucos sabem que restituiu a forma original do palácio do Planalto, resgatando móveis e tapetes que haviam sido doados a ministros e a outros departamentos. Ela possuía elevado sentido estético.

Finalmente, foi ela que introduziu no Torto as festas da cultura popular e a celebração de seus santos de devoção, que são da maioria do povo brasileiro, santo Antônio e são João, para escândalo da burguesia descolada de nossas raízes e envergonhada de nossas tradições.

Ela sofreu um AVC fatal. Visitei-a na UTI, falei-lhe ao ouvido palavras de confiança e de entrega a Deus. Ele a estava esperando para que caísse em seu seio para ser feliz eternamente.

PALAVRAS DE ÓDIO – Ao lado de tanta dor, na internet, houve palavras de ódio e maledicência. Felizes porque ela morria daquele jeito. Aí me dei conta de que não temos apenas pedófilos, mas também necrófilos, aqueles que amam e celebram a morte dos outros. Pertinente é a frase atribuída ao papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”.

Diante da morte, o momento derradeiro para cada ser humano, devemos nos calar reverentes. Ou proferimos palavras de conforto e solidariedade ou emudecemos respeitosamente.

SEM PIEDADE – Como podemos ser cruéis e sem piedade diante da morte dolorosa de uma pessoa extremamente bondosa, arraigada aos mais pobres, lutadora dos direitos dos trabalhadores e das mulheres e com grande amor ao Brasil? Ao ódio ela respondeu doando generosamente os próprios órgãos para que outros pudessem viver.

Lamentavelmente, o golpe perpetrado contra o povo impôs uma radical agenda que, segundo o jornalista Elio Gaspari, “é uma grande máscara, atrás da qual se escondem os velhos e bons oligarcas. Estes odeiam os pobres como odeiam o PT e Lula e odiaram Dona Marisa Letícia”. Mas a verdade e a justiça possuem uma força intrínseca. A luz brilhará e contemplaremos uma estrela no céu da política brasileira: Dona Marisa Letícia Lula da Silva.

Donald Trump abre uma nova etapa da história da humanidade?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há anos que já se notava a ascensão de um pensamento conservador e de movimentos que se definiam como de direita. Com isso, sinalizava-se um tipo de sociedade na qual a ordem prevalecia sobre a liberdade, os valores tradicionais se impunham aos modernos e a supremacia da autoridade se sobrepunha à liberdade democrática. Esse fenômeno deriva de muitos fatores, mas, principalmente, da erosão das referências de valor que conferiam coesão a uma sociedade e forneciam um sentido coletivo de convivência.

O predomínio da cultura do capital, com seus propósitos ligados ao individualismo, à acumulação ilimitada de bens materiais e, principalmente, à competição, deixando pequeno o espaço para a cooperação, contaminou praticamente toda a humanidade, gerando confusão ético-espiritual e perda de pertença a uma única humanidade habitando uma casa comum.

NADA É SÓLIDO – Emergiu a sociedade líquida, na linguagem de Bauman, na qual nada é sólido. Face a essa diluição, surgiu seu oposto dialético: a busca de segurança, ordem, autoridade, normas claras e caminhos bem-definidos. Na base do conservadorismo e da direita em política, em ética e em religião, se encontra esse tipo de visão das coisas. Ela está a um passo do fascismo, como se verificou na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

Na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, essas tendências foram ganhando força social e política. No Brasil, foi esse espírito conservador, direitista, que moldou o golpe de classe jurídico-parlamentar que destituiu a então presidente Dilma Rousseff. O que se seguiu foi a implantação de políticas claramente de direita, negadoras de direitos sociais e retrógradas em termos culturais.

Mas essa tendência conservadora alcançou sua dimensão mais expressiva na potência central do sistema-mundo, os Estados Unidos, confirmada pela eleição de Donald Trump à Presidência daquele país.

CONQUISTAS DE OBAMA – Trump, em seus primeiros atos, começou a desmontar as conquistas sociais alcançadas por Barack Obama. Nacionalismo, patriotismo, conservadorismo e isolacionismo são suas características mais claras.

Seu discurso inaugural é aterrador: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra. A partir deste momento, só os Estados Unidos serão o primeiro”. O “primeiro” aqui deve ser entendido como “só os EUA vão contar”.

Subjacente a essas palavras, funciona a ideologia do “destino manifesto”, da excepcionalidade dos EUA, sempre presente nos presidentes anteriores, inclusive em Obama. Quer dizer, os EUA possuem uma missão única e divina no mundo: a de levar seus valores de direitos, da propriedade privada e da democracia liberal para o resto da humanidade. Para ele, o mundo não existe. E, se existe, é visto de forma negativa.

PODE-SE ESPERAR TUDO – Da personalidade de Trump se pode esperar tudo. Habituado a negócios tenebrosos como são, de modo geral, os empreendimentos imobiliários nova-iorquinos, sem qualquer experiência política, pode deslanchar crises altamente ameaçadoras para o resto da humanidade, como, por exemplo, uma eventual guerra contra a China ou a Coreia do Norte, onde não se exclui a utilização de armas nucleares.

A frase que nos assusta é esta: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra”. Não sei se está pensando apenas nos EUA ou no planeta Terra. Provavelmente, as duas coisas para ele se identificam. Se for verdade, teremos que rezar para que o pior não aconteça para o futuro da civilização.

Governo está secando a seiva da vida intelectual e artística

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Charge do Bruno Galvão (chargesbruno.blogspot.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Já se disse quase tudo e se fez de tudo em termos de crítica e de manifestações de professores, alunos, artistas e intelectuais no sentido de salvar um dos patrimônios culturais mais caros à cidade do Rio de Janeiro: a Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), fundada em 1950. Quero ater-me a um testemunho pessoal dos anos em que fui professor de ética e de filosofia da religião nessa universidade. Mas antes vale recordar uma política exemplar vinda de Cuba.

À dissolução política da União Soviética, que apoiava economicamente Cuba nos quadros de uma política de solidariedade internacional, seguiu-se formidável crise generalizada, pois a nova Rússia não tinha mais condições de ajudar o país. Entregou-o à própria sorte. Tudo foi duramente reduzido e reajustado. Entretanto, dois campos ficaram intocáveis: a saúde e a educação. Ali se mantiveram todos os investimentos necessários. É conhecido o alto nível da educação e da saúde de Cuba. A razão era óbvia: um povo doente e ignorante nunca poderia levar avante qualquer projeto nacional.

Pois não é isso que ocorre no Brasil. Cortou-se na saúde e na educação. Parece que a falta de educação e de saúde obedece à lógica da dominação das classes endinheiradas e do Estado refém de suas estratégias. É mais fácil explorar um povo ignorante e doente que um sadio e educado.

SEM HORIZONTE – Assistir à derrocada da UERJ, uma das melhores universidades do país, é aceitar que se mate a seiva da criatividade e se feche o horizonte de um futuro da atual geração de estudantes e professores. Bem dizia Celso Furtado em seu “O Longo Amanhecer”:

“Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade de improvisar, de ter ou não acesso à criatividade: eis a questão” (1999, p. 67). O que caracterizava a UERJ era, e continua sendo, sua criatividade, sua abertura a fronteiras novas, sejam ligadas à pesquisa de ponta em várias áreas técnicas e na saúde, seja sua articulação com as bases populares, com cursos de extensão em formação de lideranças, direito social e educação em direitos humanos em vários municípios, sua atuação corajosa nos conflitos de terras.

Aceitei ser professor nessa universidade sob a condição de que minhas aulas fossem abertas a quem quisesse das comunidades e a outros interessados.

TESES BRILHANTES – Minha preocupação em filosofia era levar os estudantes a pensar com suas próprias cabeças e tomar como temas de tese a realidade brasileira. Não basta saber o que Aristóteles, Heidegger, Habermas, Bergson, Deleuze ou Guatarri sabiam. Importa pensar o que sabemos. Daí nasceram teses brilhantes, como, por exemplo, uma sobre o profeta Gentileza, outra sobre espiritualidade nos tempos modernos no diálogo com a psicologia analítica de C.G. Jung.

Contudo, o que mais me impressionou nessa universidade – da qual trago as melhores lembranças e cujo nome levei a todos os países nos quais dei palestras e cursos, na Rússia, na China e até entre os samis (esquimós), perto do Polo Norte –, foi o ambiente de abertura e de representação do que é o Brasil real, com a presença de estudantes vindos das classes populares da Baixada Fluminense, a coexistência sem qualquer discriminação entre negros e brancos, a orientação social de todo o ensino da instituição, com forte acento na construção de uma nação livre, criativa, soberana e insubmissa às lógicas da dominação. Há que recordar a resistência da UERJ à ditadura militar, com a morte de um estudante pelos órgãos de repressão.

O lema das manifestações é “luto e luta”: luto pela agonia desse centro de excelência e luta para garantir sua existência contra o sucateamento e sua eventual privatização. Salvar a UERJ é garantir a seiva da vida intelectual e artística da cidade e permitir que o Brasil inteiro se beneficie com seus serviços sérios e excelentes.

O Deus que dizem ser brasileiro é um Moloc que devora seus filhos

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Charge do Will (willtirando.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Diz-se que Deus é brasileiro, não o Deus da ternura dos humildes, mas o Moloc dos amonitas que devora seus filhos. Somos um dos países mais desiguais e violentos do mundo. Teologicamente, vivemos numa situação de pecado social e estrutural, em contradição com o projeto de Deus. Basta considerar o que ocorreu nos presídios de Manaus, Rondônia e Roraima. Pura barbárie!

Estamos assentados sobre estruturas histórico-sociais violentas, oriundas do genocídio indígena, do colonialismo humilhante e do escravagismo desumano. Não há como superar essas estruturas sem antes superar essa tradição nefasta.

Entretanto, esse é um desafio que demanda uma transformação de nossas relações sociais. Vejo ser possível a condição de seguirmos dois caminhos: a gestação de um povo e a instauração de uma democracia social de base popular.

NÃO ERA UMA NAÇÃO – A gestação de um povo: os que nos colonizaram não vinham para criar uma nação, mas para fundar uma empresa comercial e regressar a Portugal para desfrutar da riqueza acumulada. Submeteram primeiro os índios e, depois, introduziram os negros africanos como mão de obra escrava. Criou-se aqui uma massa humana dominada pelas elites, humilhada e desprezada até os dias atuais.

Abstraindo as revoltas anteriores, a partir dos anos 30 houve uma virada histórica. Surgiram os sindicatos e os mais variados movimentos sociais. Em seu seio, foram surgindo atores sociais conscientes e dotados de vontade para modificar a realidade social. A articulação dessas associações gerou o movimento popular brasileiro.

A criação de uma democracia social, de base popular: possuímos uma democracia representativa de baixíssima intensidade, cheia de vícios políticos e corrupta, com representantes eleitos, em geral, pelas grandes empresas, cujos interesses representam. Em contrapartida, como fruto da organização popular, se produziram partidos populares ou segmentos de partidos progressistas e até liberal-burgueses ou tradicionalmente de esquerda.

QUATRO PÉS – Essa democracia participativa se baseia, fundamentalmente, em quatro pés, como os de uma mesa: a participação mais ampla possível de todos; a igualdade, que resulta dos graus de participação; o respeito às diferenças de toda ordem; e a valorização da subjetividade humana.

Essa mesa, entretanto, está assentada sobre uma base sem a qual ela não se sustenta: uma nova relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum, como enfatiza a encíclica ecológica do papa Francisco. Em outras palavras, essa democracia deverá incorporar o momento ecológico, fundado num outro paradigma.

O vigente, centrado no poder e na dominação em função da acumulação ilimitada, encontrou uma fronteira insuperável: os limites da Terra e seus bens e serviços não renováveis. Uma Terra limitada não suporta um projeto ilimitado de crescimento. Por forçar esses limites, assistimos ao aquecimento global e aos eventos extremos vividos neste ano de 2017, com neves em toda a Europa que não ocorriam havia cem anos.

NOVO PARADIGMA – Essa consciência dos limites, que cresce mais e mais, nos obriga a pensar num novo paradigma de produção, de consumo e de repartição dos recursos escassos entre os humanos e também com a comunidade de vida. Aqui entram os valores do cuidado, da corresponsabilidade e da solidariedade de todos com todos, sem os quais o projeto jamais prosperará.

A partir dessas premissas podemos pensar na superação de nossas estruturas sociais violentas. O resto é tapeação de mudança para que nada mude.

O golpe parlamentar como assalto ao bem comum dos brasileiros

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Leonardo Boff
O Tempo

Um dos efeitos mais perversos do golpe parlamentar foi impor um projeto econômico-social de ajustes e de modificações legais que significam um assalto ao já combalido bem comum. O golpe foi promovido pelas oligarquias endinheiradas e antinacionais, que usaram um Parlamento de fazer vergonha por sua ausência de ética e de sentido nacional.

Está em curso um desmonte da nação. Isso significa a implantação de um neoliberalismo ultraconservador e predatório que praticamente anula as conquistas sociais em favor de milhões de pobres e miseráveis, tirando-lhes direitos com referência a salário, regime de trabalho e aposentadorias, além de reduzir e até liquidar projetos fundamentais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Fies e outros institutos que permitiam o acesso dos filhos e das filhas da pobreza ao estudo técnico ou superior.

Mais que tudo, começou-se a leiloar bens coletivos como partes da Petrobras e colocar à venda terras nacionais. A privatização significa sempre uma diminuição do bem de interesse geral, que passa às mãos do interesse particular. Ataca-se o que se chama hoje de “direitos de solidariedade”, que submetem os interesses particulares aos interesses coletivos e comuns.

DUAS PILASTRAS – Estão sendo erodidas as duas pilastras fundamentais que, historicamente, construíram o bem comum: a participação dos cidadãos e a cooperação de todos. Em seu lugar, a atual ordem imposta pelos que perpetraram o golpe enfatiza as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competitividade.

O propósito dos atuais gestores, já reconhecidos como incompetentes, alguns até imbecilizados, é: o mercado tem que ganhar, e a sociedade deve perder. Ingenuamente, creem ainda que é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é, por que vamos construir o bem comum?

Mas esclareçamos o conceito de bem comum. No plano infraestrutural, o bem comum é o acesso justo de todos aos bens comuns básicos, como à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à comunicação. No plano social, é a possibilidade de levar uma vida material e humana satisfatória na dignidade e na liberdade num ambiente de convivência pacífica.

BEM COMUM – Pelo fato de estar sendo desmantelado pela atual ordem injusta, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação, e não à competição, e articular todas as forças comprometidas com o interesse geral a resistir, a pressionar e a ganhar as ruas.

Por outro lado, o bem comum não pode ser concebido antropocentricamente. Hoje, desenvolveu-se a consciência da interdependência de todos os seres com todos e com o meio no qual vivemos. Não podemos vender nossas terras nem deixar de delimitar os territórios indígenas, os donos originários de nosso país, nem descuidar do desmatamento desenfreado da Amazônia, como está ocorrendo agora.

Nós possuímos os mesmos constituintes físico-químicos com os quais se constrói o código genético de todo vivente. Daí deriva-se um parentesco objetivo entre todos os seres vivos, como tem enfatizado o papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral. Por isso, cuidar e defender a natureza é cuidar e defender a nós mesmos, pois somos parte dela.

Cooperação se reforça com mais cooperação, pois aqui reside a seiva secreta que alimenta e revigora permanentemente o bem comum, atacado pelas forças que ocuparam o Estado e seus aparelhos no interesse de poucos contra o bem comum de todos os demais.

O ano de 2016 foi quando se tentou matar a esperança

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja de políticos que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpetrado contra a presidente Dilma.

Obviamente, há políticos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração progressistas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à política e um sentido social ao Estado vigente.

Ao se referir à corrupção, todos pensam logo na Lava Jato e na Petrobras, mas esquecem ou lhes é negada a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal. Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que, nos últimos 13 anos, esquemas de corrupção, fraudes e desvios de recursos da União repassados a Estados, municípios e ONGs podem superar 1 milhão de vezes o rombo na Petrobras.

ASSASSINATO DA ESPERANÇA – “A gente chama isso de ‘assassinato da esperança’. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município em médio e em longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”, disse o secretário. A nação precisa saber dessa matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são antissistêmicas.

Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

Para entender a esperança, precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana.

GRITO DA TERRA – Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker, fundador de uma sociedade que me honrou, no final de novembro, em Berlim, com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre: “Não anuncio otimismo, mas esperança”.

Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e, especialmente, no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas penalizam principalmente as grandes maiorias, que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

Aqui nos socorre o filósofo alemão Ernst Bloch, que introduziu o “princípio esperança”. Esta é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para a frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

SAIR ÀS RUAS – Essa esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resistir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

Como a maioria é cristã, valem as palavras do sábio Riobaldo, de Guimarães Rosa: “Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve… Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está a nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

 O lado humano de Fidel que tive a oportunidade de conhecer

 

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O Tempo

Cada ponto de vista é a vista de um ponto. Cada pessoa ocupa um ponto neste planeta e na sociedade na qual está inserido. A partir desse ponto, vê-se a realidade que ele permite ver. Por isso, não podemos absolutizar nenhum ponto de vista como se fosse o único. É o que dá origem aos fundamentalismos e às discriminações. Tal pensamento vale aos muitos pontos de vista que se estão fazendo da saga de Fidel Castro. Nenhum ponto pode cobrir todas as vistas.

LUZ E SOMBRA – Há outro elemento a ser considerado. Cada ser humano tem sua porção de luz e sua porção de sombra. Vale dizer, cada ser humano é portador de inteligência e de um sentido de vida. Isso não é um defeito de nossa construção. É um dado objetivo de nossa realidade humana que deve sempre ser tomada em conta. Também vale quando ajuizamos a figura complexa de Fidel Castro: suas luzes e suas sombras.

Quero me referir a alguns pontos a partir dos quais se me permitiu uma vista singular de Fidel Castro. O primeiro deles é a negação do sistema imperante de viés capitalista, que diz: “Não há alternativa a ele”. Ele representa a culminância das sociedades humanas. Fidel Castro mostrou que, com o socialismo, pode haver uma alternativa diferente daquela capitalista, hoje em radical crise de autorreprodução.

REAÇÃO DOS EUA – A fúria dos Estados Unidos contra Cuba e Fidel, de tentar destruir o socialismo cubano, era para mostrar que não pode haver uma alternativa. Bem ou mal, com os defeitos que conhecemos, o socialismo se apresenta como outra forma possível de organizar a sociedade.

Um segundo ponto a ressaltar foi seu interesse pela Teologia da Libertação. Chegou a confessar que, se em seu tempo houvesse a Teologia da Libertação (só começou partir de 1970), teria assumido essa leitura para montar a sociedade cubana. Sob pressão da Guerra Fria, foi obrigado a ficar do lado da URSS e daí teve que assumir o marxismo.

Outro ponto relevante foi o convite que me fez, durante o tempo do “silêncio obsequioso” que me foi imposto em 1984 pelo ex-Santo Ofício: passar as férias com ele na ilha para aprofundar as questões da religião, da América Latina e do mundo. Efetivamente visitamos toda a ilha em conversações que iam noite adentro. Anotei quase tudo, pois queria transformar o material em um livro. Dias após minha volta de Cuba, deixei os escritos no bagageiro do carro, que foi arrombado num momento em que me distanciei por alguns minutos. Não levaram nada, apenas as anotações. Minha suspeita é que órgãos de segurança daqui ou de fora sequestraram o material.

O CASO DE LOLA – Há outro dado que mostra a dimensão de ternura de Fidel Castro, coisa que muitos testemunham. Tenho uma sobrinha com um tipo de reumatismo que nenhum médico conseguia tratar. Falei com Fidel se era possível tratá-la em Cuba. Pediu-me todos os laudos médicos daqui. Ele mesmo se encarregou de falar com os médicos cubanos. Efetivamente, não havia cura. Cada vez que me encontrava, a primeira coisa que perguntava era: “Como vai a Lola, sua sobrinha?”.

Essa memória carinhosa e terna não é frequente em chefes de Estado. Geralmente, onde predomina o poder, não vigora o amor nem floresce a ternura. Com Fidel era diferente. Alegrou-se enormemente quando lhe contei que um médico brasileiro inventou uma vacina cujo efeito colateral era curar esse tipo de reumatismo.

DIMENSÕES PROFUNDAS – São pequenos gestos que mostram que o poder não precisa fatalmente obscurecer essas dimensões tão profundas que são o enternecimento e a preocupação pelo destino do outro. O legado de sua pessoa carismática permanecerá como referência para aqueles que se recusam a reproduzir a cultura do capital e as injustiças que a acompanham, de ordem social e ecológica.

Papa Francisco deu outro sentido à Igreja, num reino de Justiça e Amor

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O Tempo

O papa Francisco tem um mérito inegável: tirou a Igreja Católica de uma profunda desmoralização por causa dos crimes de pedofilia. Em seguida, desmascarou os crimes financeiros do Banco do Vaticano. Mas mais que tudo, deu outro sentido à Igreja. Os dados revelam que o Cristianismo é hoje uma religião de terceiro e quarto mundos: 25% dos católicos vivem na Europa, 52% nas Américas, e os demais, no restante do mundo. Isso significa que o Cristianismo viverá, em sua fase planetária, uma presença mais densa nas partes do planeta que hoje são consideradas periféricas.

Ele só terá um significado universal sob duas condições: na primeira, se todas as igrejas se entenderem como o movimento de Jesus e se reconhecerem reciprocamente como portadoras de sua mensagem. A segunda condição é de o Cristianismo relativizar suas instituições de caráter ocidental e ousar se reinventar a partir da vida e da prática do Jesus histórico com sua mensagem de um reino de justiça e de amor.

NO PAI-NOSSO – Segundo a melhor exegese contemporânea, o projeto original de Jesus se resume no Pai-Nosso. Aí se afirmam as duas fomes do ser humano: a fome de Deus e a fome de pão. O Pai-Nosso enfatiza impulso para o alto. E o Pão-Nosso, seu enraizamento no mundo. Somente unindo Pai-Nosso com Pão-Nosso se pode dizer “amém” e sentir-se na tradição do Jesus histórico.

Isso implica para o Cristianismo, corajosamente, se desocidentalizar, se desmachicizar, se despatriarcalizar e se organizar em redes de comunidades que se acolhem reciprocamente e se encarnam em culturas locais, formando juntas o grande caminho espiritual cristão, que se soma aos demais caminhos espirituais e religiosos da humanidade.

OS DESAFIOS – Realizados esses pressupostos, apresentam-se atualmente às igrejas ou ao Cristianismo quatro desafios fundamentais. O primeiro deles é a salvaguarda da Casa Comum e do sistema vida, ameaçados pela crise ecológica generalizada e pelo aquecimento global.

O segundo desafio é como manter a humanidade unida. Os níveis de acumulação de bens materiais em pouquíssimas mãos poderão cindir a humanidade em duas porções: os que gozam de todos os benefícios da tecnociência e os condenados à exclusão, sem expectativas de vida ou até de serem considerados humanos.

O terceiro é a promoção da cultura da paz. Os conflitos bélicos, os fundamentalismos políticos e a intolerância face às diferenças culturais e religiosas podem levar a humanidade a níveis de violência altamente destrutiva.

O quarto desafio concerne à América Latina: a encarnação nas culturas indígenas e afro-americanas. Depois de ter-se quase exterminado as grandes culturas originárias, e de se terem escravizado milhões de africanos, impõe-se a tarefa de ajudá-los a se refazerem biologicamente e resgatarem sua sabedoria ancestral, vendo reconhecidas suas religiões como formas de comunicação com Deus.

ALIMENTAR A CHAMA – A missão das igrejas, das religiões e dos caminhos espirituais consiste em alimentar a chama interior da presença do sagrado e do divino no coração de cada pessoa. O Cristianismo, na fase planetária da Terra, possivelmente se constituirá em uma imensa rede de comunidades, encarnadas nas diferentes culturas, testemunhando a alegria do evangelho, que promove já, neste mundo, uma vida justa e solidária.

No presente, cabe-nos viver a comensalidade entre todos, símbolo antecipador da humanidade reconciliada, celebrando os bons frutos da Mãe Terra. Não era essa a metáfora de Jesus, quando falava do reino de vida, de justiça e de amor?

Os estudantes querem outro Brasil e outro tipo de política

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Seria ingênuo pensar que o movimento dos estudantes ocupando escolas e universidades se esgota na crítica ao projeto da reforma do ensino médio ou no protesto contra a PEC 55. O que se esconde atrás das críticas é algo mais profundo: a rejeição ao tipo de Brasil que até agora construímos e à política corrupta praticada por parlamentares em proveito próprio. Junto, vem o lado mais positivo: a demanda por outra forma de construir o Brasil e de reinventar a democracia.

Desde as manifestações de 2013, três autores continuam a nos inspirar, pois sempre lutaram por outro Brasil e sempre foram derrotados. O primeiro é Darcy Ribeiro, que disse: “Nós, brasileiros, surgimos de um empreendimento colonial que não tinha nenhum propósito de fundar um povo. Queria tão somente gerar lucros empresariais exportáveis com pródigo desgaste de gentes”.

O segundo é Luiz Gonzaga de Souza Lima na mais recente e criativa interpretação do Brasil, o livro “A Refundação do Brasil: Rumo à Sociedade Biocentrada”, em que afirmou: “Quando se chega ao fim, lá onde acabam os caminhos, é porque chegou a hora de inventar outros rumos; é hora de outra procura; é hora de o Brasil se refundar; a refundação é o caminho novo e, de todos os possíveis, é aquele que mais vale a pena, já que é próprio do ser humano não economizar sonhos e esperanças; o Brasil foi fundado como empresa. É hora de se refundar como sociedade”. Essa hora chegou.

O terceiro é um escritor francês, François-René de Chateaubriand (1768-1848), que disse: “Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização”. Tudo indica que esse momento de realização está a caminho.

A HORA DOS JOVENS – Os jovens que estão ocupando os lugares de ensino estão revelando mais inteligência do que a maioria de nossos representantes sentados em nossas Casas parlamentares. Sem definição partidária, com seus cartazes incisivos, os estudantes querem nos dizer: “Estamos cansados do tipo de Brasil que vocês nos apresentam, com democracia de baixa intensidade que faz políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres”.

Efetivamente, até hoje, o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertos, continuamos sendo recolonizados, pois as potências centrais, antes colonizadoras, nos querem manter colonizados, condenando-nos a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities: grãos, carnes, minérios. Dessa forma, nos impedem de realizar nosso projeto de nação independente, soberana e altiva.

Caio Prado Júnior, em seu “A Revolução Brasileira”, escreveu: “O Brasil se encontra em um daqueles momentos em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas e com as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas”.

UM OUTRO BRASIL – A maioria desses intérpretes clássicos olhou para trás e tentou mostrar como se construiu o Brasil que temos. Especialmente Souza Lima, como os jovens de hoje, olha para a frente e tenta mostrar como podemos refundar um Brasil na nova fase planetária, a ecozoica, rumo ao que ele chama “uma sociedade biocentrada”.

Ou um Brasil diferente nascerá desses jovens estudantes, ou corremos o risco de perder novamente o carro da história. Eles podem ser os protagonistas daquilo que deve nascer.

O golpe da reconquista do poder pelas oligarquias e o movimento social

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O golpe de classe via Parlamento é um processo que gerou uma cadeia de outros golpes, com especial atropelo da ordem jurídica e constitucional. Os golpes são contra a diversidade social e de gênero, na cultura, na saúde, nos direitos sociais, nas aposentadorias. É um golpe judicial e nas eleições.

Esses golpes têm por trás as oligarquias, que utilizaram uma sagaz estratégia de conquistar setores do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e do corpo de procuradores para conseguir seus fins. Encontraram um testa de ferro para desempenhar essa nova tipologia de golpe: um justiceiro de primeira instância, Sergio Moro, e sua equipe de jovens procuradores, infantilmente exibicionistas. Imbuídos de convicções messiânicas de limpar o país da corrupção – o que é louvável –, direcionam as investigações unicamente a um partido, o PT. Desprezando as demais agremiações, com não menos atos de corrupção, concentram o foco nas figuras referenciais, como o ex-presidente Lula e vários ex-ministros.

A novidade desse teatro político é a desfaçatez do juiz e dos policiais de passar por cima de direitos consagrados na Constituição e em todo o mundo, como a presunção de inocência. Pareceria que o juiz Moro tanto estudou a máfia italiana que se tornou ele mesmo um mafioso da Justiça. Confessou que pratica uma justiça de exceção, coisa que soa a fascismo.

ÓDIO E RECONQUISTA – Entre muitas razões subjacentes a esse golpe de classe, enfatizo apenas duas: o ódio que a classe dominante tem e sempre teve da população pobre e negra. Ocorre que um representante desses desprezados chegou a ser presidente e transformou profundamente a vida de milhões de pobres. Isso é intolerável para as oligarquias, habituadas a ocupar o Estado e seus aparatos não em vista do bem de todos, mas de seus interesses corporativistas Lula e seus assemelhados são odiados por isso.

Nunca apreciaram a democracia, mas regimes fortes e ditatoriais que lhes facilitam a acumulação, uma das mais altas do mundo. Jamais entenderam o poder como expressão jurídico-política da soberania de um povo, mas como dominação em função do enriquecimento. Sergio Moro forneceu o enquadramento jurídico canhestro para dar vazão a esse ódio de classe.

O segundo fator que cabe ser ressaltado é a estratégia de reconquista por parte das oligarquias, aquele punhado de famílias de super-ricos que controlam grande parte da renda nacional e que possuem imenso poder econômico, político e midiático. Visam voltar ao lugar que ocuparam por séculos, mas ao qual agora, com a situação histórica mudada, jamais chegariam por via democrática, expressa pelo voto popular. Mas o fazem com a trama de um golpe parlamentar vergonhoso.

SEM SOLIDARIEDADE – Essas oligarquias representam a ordem e a cultura do capital, cruel e desumano, e nunca mostraram solidariedade para com as grandes maiorias sofredoras. Praticam uma economia altamente concentradora e predatória de bens e serviços naturais, produzindo externalidades que são injustiças sociais graves e ambientais altamente danosas, das quais se eximem de responsabilidade, jogando ao Estado o ônus de sua reparação.

Elas agora voltaram para realizar a sonhada reconquista, só possível à revelia da Constituição. Aplicam medidas neoliberais das mais deslavadas, atropelando conquistas históricas dos trabalhadores e enxovalhando a inteligência brasileira. E o fazem com furor, respaldadas por um tribunal de exceção.

Esperamos a rejeição dessa reconquista pelos movimentos sociais, quiçá os únicos, nas ruas e nas praças de todo o país, capazes de inviabilizar esse retrocesso histórico infame.

A desordem mundial e o espectro da dominação total

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O Tempo

O título é do último livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), nosso mais respeitado analista de política internacional. O autor teve acesso às mais seguras fontes de informação e a múltiplos arquivos, aliando tudo a um vasto conhecimento histórico. Moniz Bandeira é, antes de mais nada, um minucioso pesquisador e, ao mesmo tempo, um militante contra o imperialismo estadunidense, cujas entranhas corta com um bisturi de cirurgião. Os materiais de que dispõe lhe permitem denunciar a lógica imperial presente no subtítulo: “Guerras por Procuração, Terror, Caos e Catástrofes Humanitárias”. Quem ainda nutre admiração pela democracia norte-americana e procura se alinhar aos desígnios imperiais (como fazem neoliberais brasileiros) encontrará vasto material para reflexão crítica e dados para uma leitura do mundo mais diferenciada.

Dois motes orientam o centro do poder do Estado norte-americano com seus inumeráveis órgãos de segurança: “um mundo e um só império”, ou “um só projeto e o espectro da total dominação”. Quer dizer, a política externa norte-americana se inspira no (ilusório) “excepcionalismo” do velho “destino manifesto”, uma variante do “povo eleito por Deus, de raça superior”, chamada a difundir no mundo todo a democracia, a liberdade e os direitos e se considerar “a nação indispensável e necessária”.

MONARCAS – No século XVIII, Edmund Burke (1729-1797) e, no século XIX, o francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) pressentiram que o presidente norte-americano detinha mais poderes que um monarca absolutista. Efetivamente, sob George W. Bush – por ocasião dos atentados às Torres Gêmeas –, se instaurou a verdadeira democracia militar, com a declaração da “guerra contra o terror” e a publicação do “Patriotic Act”, que suspendeu os direitos civis básicos, como o habeas corpus, e instaurou a permissão de torturas. Na verdade, isso configura um Estado terrorista.

Como vários cientistas norte-americanos citados por Moniz Bandeira afirmaram: “Não há mais uma democracia, mas uma dominação da elite econômica à qual se deve submeter o presidente”. As decisões são tomadas pelo complexo industrial-militar, por Wall Street, por ponderosas organizações de negócios e por um pequeno número de norte-americanos muito influentes.

Para garantir o espectro da total dominação, são mantidas 800 instalações militares pelo mundo afora e 16 agências de segurança, com 107.035 civis e militares. De 1776 a 2015, portanto, em 239 anos de existência dos EUA, 218 foram anos de guerra e apenas 21 anos de paz.

OBAMA NADA FEZ – Esperava-se que Barack Obama desse outro rumo a essa história violenta. Ilusão. Trocou apenas os nomes, mas manteve todo o espírito excepcionalista e as torturas em Guantánamo e em outros lugares fora dos Estados Unidos, como no tempo de Bush. Com certa decepção, constatou Bill Clinton, “desde 1945 os EUA não venceram nenhuma guerra”. Do Iraque fugiram em sigilo e na calada da noite.

O livro de Moniz Bandeira entra em detalhes sobre a guerra na Ucrânia, na Crimeia e contra o Estado Islâmico na Síria, dando nomes aos principais atores e datas. A conclusão é avassaladora: “Onde quer que os EUA intervieram, com o específico objetivo de ‘espalhar’ a democracia, constitui-se de bombardeios, destruição, terror, massacres, caos e catástrofes humanitárias… Entraram para defender suas necessidades e seus interesses econômicos e geopolíticos, seus interesses imperiais”.

A mola de informações arroladas sustenta essa afirmação, não obstante as limitações que sempre poderão ser apontadas.

Por que Deus não usou seu poder e acalmou o furacão Matthew?

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Furacão agrava a miséria que assola a a população do Haiti

Leonardo Boff
O Tempo

Quando vemos nas primeiras páginas dos jornais a devastação que o furacão Matthew provocou agora em outubro, nos perguntamos angustiados: “Deus, onde estavas naquele momento em que a fúria assassina do furacão Matthew se abateu sobre o Haiti e os Estados Unidos? Por que não usaste teu poder para amainar a virulência destruidora daqueles ventos e daquelas águas inimigas da vida? Por que não intervieste se podias fazê-lo?”

“Nem sequer permitiste aos haitianos tempo suficiente para se recuperarem da devastação que significou o terremoto de 2010. Por que agora enviaste outro látego para açoitar e matar?”

“Tu bem sabes, Senhor: o povo haitiano é um dos mais pobres do mundo. Negros, conheceram todo tipo de discriminação. Foram oprimidos por ditadores ferozes. Tudo sofreram, tudo suportaram. Não desistiram. E eis que, de novo, foram açoitados pela natureza rebelada. Onde está tua piedade?”

DESÍGNIOS DE DEUS – Não entendemos os desígnios dAquele que se revelou como Pai de infinita bondade. Ele pode ser Pai de uma forma misteriosa que não conseguimos compreender. Muito menos pretendemos ser juízes de Deus. Mas podemos, sim, gritar como Jó, Jeremias e Jesus, que clamou: “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34).

Nossos lamentos não são blasfêmias, mas um grito humilde e insistente a Deus: “Desperta! Não te esqueças da paixão daqueles que atualizam a Paixão de teu Filho bem-amado”.

Seguramente, as invectivas de Jó contra Deus por causa do sofrimento incompreensível, e as lamentações de Jeremias vendo Jerusalém conquistada, foram incluídas no rol das escrituras judaico-cristãs para que nos servissem de exemplo.

A MORTE NA CRUZ – Podemos gritar como Jó e nos lamentar como Jeremias. Mais ainda, podemos, no limite do desespero, bradar como Jesus na cruz, experimentando o inferno da ausência do Deus que sempre o chamava de “Abba”, “meu querido paizinho”. E Ele silenciou e não o livrou da morte na cruz.

Semelhante lamentação como a nossa expressou de forma comovente o papa Bento XVI quando visitou o campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau, onde mais de 1 milhão de judeus e outros seres humanos foram enviados às câmaras de gás: “Quantas perguntas surgem neste lugar. Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar esse excesso de destruição, esse triunfo do mal?” Como nunca antes, o papa Bento XVI se mostrou um finíssimo teólogo que, como homem de fé sensível, ousou queixar-se diante de Deus.

NOBRE SILÊNCIO – Embora guardemos um nobre silêncio diante de tamanha dor, perseveramos na fé como Jó, Jeremias e Jesus. Jó chegou a dizer: “Mesmo que me mates, Senhor, ainda assim continuo a confiar em Ti. Antes Te conhecia só por ouvir dizer, mas agora viram-Te meus olhos (42,5)”.

As últimas palavras de Jesus foram: “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46). E Deus o ressuscitou para mostrar que a dor, mesmo misteriosa, não escreve o último capítulo da história, mas a vida em seu esplendor.

Na esperança ansiamos por aquele dia em que “Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos e a morte não existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Apocalipse 21,4).

E nunca mais haverá tsunamis, nem Katrinas, nem Matthews, porque surgirá uma nova Terra, onde o ser humano terá aprendido a cuidar da natureza, e esta nunca mais se rebelará contra ele.

A política como mediação para realizar o bem comum

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Passaram-se as eleições municipais dentro de um contexto político dramático: o governo federal tem baixa credibilidade e legitimidade discutível. Grande parte dos políticos visa chegar ao poder por interesse e, uma vez nele, busca promover sua reeleição. Muitos deles não vivem para a política, mas da política. Deforma-se assim a natureza da política como busca do bem comum. Pior, o político interesseiro se coloca acima do bem e do mal. Só faz o bem quando possível e o mal sempre que necessário.

Mas importa denunciar: trata-se do exercício perverso do poder político. Max Weber, em famoso texto de 1919 aos estudantes da Universidade de Munique, desanimados com as condições humilhantes impostas pelas potências que venceram a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, já havia advertido em “A Política como Vocação”: “Quem faz política busca o poder. Poder, ou como meio a serviço de outros fins, ou poder por causa dele mesmo, para desfrutar do prestígio que ele confere”.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por grande parte de nossas elites, esquecendo o sujeito e o destinatário de todo o poder, que é o povo.

SOBERANIA POPULAR – Precisamos resgatar o poder como expressão político-jurídica da soberania popular e como meio a serviço de objetivos sociais coletivos. Só este é moral e ético. É imperativo, pois, contar com políticos que não façam do poder um fim em si e para seu proveito, mas uma mediação necessária para realizar o bem comum, a partir de baixo, dos excluídos e marginalizados.

É nesse contexto que queremos recuperar esta figura ímpar de político dos tempos modernos: Mahatma Gandhi. Para ele, a política “é um gesto amoroso para com o povo”, que se traduz pelo “cuidado com o bem-estar de todos a partir dos pobres”. O mesmo se poderia dizer de outra figura exemplar: Nelson Mandela.

Nestes tempos de desesperança política, por causa do ódio que grassa na sociedade, e também por aquilo que não poucos denunciam como um golpe parlamentar-judiciário contra uma presidente consagrada por uma eleição majoritária, precisamos reforçar os governantes que se propõem cuidar do povo e fazer com que o cuidado se constitua na marca da condução da vida social no município, no Estado e na Federação.

CUIDAR DOS POBRES – Na verdade, o Brasil precisa urgentemente de quem cuide dos pobres e marginalizados. Lula e Dilma se propuseram cuidar, e não administrar o povo, mediante políticas sociais de resgate de sua vida e dignidade. Atualmente, predomina uma política que cuida menos do povo e mais dos ajustes severos na economia. Tudo é feito sem escutar o povo e até contra direitos sociais conquistados a duras penas.

Que não se diga que tal diligência representa já cuidado para com o povo. Cuidado meticuloso e até materno há, sim, para com as elites dominantes, para com os bancos e o sistema financeiro nacional e internacional.

Em lugar de cuidado, há administração das demandas populares, atendidas de forma paliativa, mais para abafar a inquietação e afogar a revolta justa do que para atacar as causas de seu sofrimento.

ESCUTAR O POVO – O cuidado para com o povo exige conhecer suas entranhas por experiência, sentir seus apelos, compadecer-se de sua miséria, encher-se de iracúndia sagrada e escutar, escutar e escutar. Deveria haver um Ministério da Escuta, como existe em Cuba. Escutar a saga do povo, seus padecimentos e suas esperanças, o Brasil que sonha. O que ele mais quer é dignidade e ser reconhecido como gente e ser respeitado.

O povo merece esse cuidado, essa relação amorosa que espanta a insegurança, confere confiança e realiza o sentido mais alto da política.

A persistência do bullying sobre o Partido dos Trabalhadores e Dilma

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É notório o bullying político e social sofrido persistentemente pelo PT e por Dilma Rousseff. Uma coisa é reconhecer que houve corrupção e erros políticos do PT, e outra coisa é tributar quase exclusivamente tais fatos e a crise atual ao PT e à ex-presidente.

Para entender esse penoso fenômeno, socorre-nos um dos maiores pensadores da atualidade que dedicou grande parte de sua obra a decifrar o que seja a agressividade humana e seus disfarces: René Girard (1923-2015), francês, professor de letras e antropólogo, que viveu nos Estados Unidos.

Constata Girard que todos os grupos, e mesmo as sociedades conhecidas, vêm atravessados por tensões e conflitos. O processo civilizatório, a educação, as leis e as religiões propõem um ponto de equilíbrio que permita uma convivência minimamente pacífica ou que impeça que os conflitos não sejam destrutivos.

SEM EQUILÍBRIO – Mas pode chegar um momento em que os conflitos perdem as rédeas e as forças do negativo vão se acumulando, rompendo o referido equilíbrio. Começam os processos de ruptura nas relações sociais e até nas famílias e entre amigos. O instrumento mais usado é a mídia.

Lentamente, emerge o sentimento de que, assim como se encontra, a sociedade não pode continuar. Ela tem que encontrar um novo equilíbrio. Uma das formas, a mais equivocada e persistente, é a criação de um bode expiatório, que varia consoante as circunstâncias históricas: podem ser os comunistas, os sem-terra, os pobres que ascenderam socialmente, os terroristas, os muçulmanos, as esquerdas e outros.

Em nosso caso, o bode expiatório escolhido foi e continua sendo o PT e a ex-presidente Dilma Rousseff. Toda a raiva e o ódio acumulados são lançados sobre o bode expiatório. Ele carrega todas as maldades e é feito responsável por todos os desmandos ocorridos e pela crise econômico-financeira. Esquecidos ficam, consciente ou inconscientemente, todos os acertos, em especial a maior transformação social pacífica feita em nosso país, que implicou a diminuição de nossa maior vergonha, a desigualdade social e, positivamente, a integração de cerca de 40 milhões de pessoas, sempre consideradas peso morto da história.

Mas há outra função, a de ocultar. Ao colocarem toda culpa e todos os males sobre o PT e a ex-presidente, os grupos dominantes ocultam sua própria perversidade e culpa. Apresentam-se, farisaicamente, como paladinos da moralidade e tomados de indignação contra a corrupção. No entanto, exatamente dentro desses grupos dominantes se encontram os maiores corruptos, corruptores e sonegadores de impostos.

BODE EXPIATÓRIO – A Bíblia conhece também a figura do bode expiatório, sobre o qual a comunidade colocava todas as ofensas a Javé e o levava para o deserto para lá morrer. O mesmo faziam os gregos, chamando o bode expiatório de “phármacon”, que, como um remédio farmacêutico, purificava a sociedade de seus desacertos. O cristianismo o vê na figura do cordeiro imolado. O efeito é sempre o mesmo: aplacar a sociedade para que, refeita, possa equilibrar seus conflitos, até que estes se agravem novamente e acabem por criar algum outro bode expiatório.

Assim funciona canhestramente nossa história sacrificialista. Girard vê uma saída sensata: na coordenação dos interesses ao redor do bem comum, na total transparência e na inclusão de todos, sem sacrificar ninguém. Mas reconhece que esse não é o caminho seguido pela maioria das sociedades conhecidas. O mais fácil é criar bodes expiatórios, como se pratica atualmente no Brasil. Para a infelicidade geral.

Madre Teresa de Calcutá, uma santa que não acreditava em Deus

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O Tempo

Deixemos, por um momento, as questões políticas de lado e ocupemo-nos com um tema de grande relevância existencial e espiritual. Trata-se da noite escura que a recém-canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até sua morte, em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk, no livro “Come Be My Light” (“Venha Ser Minha Luz”, em tradução livre).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não foi nossa surpresa quando viemos a saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente?! Essa paixão dolorosa durou quase 50 anos.

OBSCURIDADE – Sabemos que muitos místicos testemunham essa experiência de obscuridade. Constatamo-lo em são João da Cruz, em santa Teresa d’Ávila, em santa Teresa de Lisieux, entre outros. Conhecida é a noite escura de são João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito, “oscura y terrible”, na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

A modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro do imenso aparato tecnológico que criou, vive também essa ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então não seria Deus, mas nós o matamos; ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

VIVENDO NO AMOR -Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou essa experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse”. Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial.

Suspeitamos que Jesus tenha conhecido essa noite terrível. No Jardim das Oliveiras, sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu: “Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus.

UM MODO DE SER – Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou a um dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser; é aderir a uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem” (Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível.

Simone Weil, a judia que, na Segunda Guerra Mundial, se converteu ao cristianismo, mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão: “Se quiseres saber se alguém crê em Deus, não repare em como fala de Deus, mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora desses valores.

Madre Teresa de Calcutá, no amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora, que já se transfigurou, viverá a presença de Deus face a face no amor e na comunhão.

Nos golpes de 1964 e 2016, a mesma violência de classe

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Leonardo Boff
O Tempo

Entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016 há uma conaturalidade estrutural. Ambos são golpes de classe, dos donos do dinheiro e do poder: o primeiro usa os militares, o outro, o Parlamento. Os meios são diferentes, mas o resultado é o mesmo: um golpe com a ruptura democrática e a violação da soberania popular.  Vejamos o golpe de 1964. René Armand Dreifuss, em “1964: A Conquista do Estado, Ação Política, Poder e Golpe de Classe”, deixou claro: “O que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”.

O assalto ao poder de Estado foi tramado pelo general Golbery de Couto e Silva utilizando-se de quatro instituições: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), o Grupo de Levantamento de Conjuntura e a Escola Superior de Guerra (ESG). O objetivo era “readequar e reformular o Estado” para que fosse funcional aos interesses do capital nacional e transnacional. Eis o caráter de classe do golpe.

O assalto ao Estado se deu em 1964 e em 1968, com repressão, tortura e assassinatos. O regime de segurança nacional passou a ser o regime de segurança do capital.

RADIOGRAFIA – Para o golpe de 2016 temos uma minuciosa investigação do sociólogo e ex-presidente do Ipea Jessé Souza, “A Radiografia do Golpe”. Jessé desvela os mecanismos que permitiram à elite do dinheiro ser a “mandante” do golpe realizado em seu nome pelo Parlamento. Portanto, trata-se de um golpe de classe parlamentar.

Jessé enfatiza que “todos os golpes, inclusive o atual, são uma fraude bem-perpetrada dos donos do dinheiro, que são os reais ‘donos do poder’”. Quem compõe essa elite? É a elite financeira, que comanda os grandes bancos e fundos de investimento e que lidera outras facções de endinheirados, como a do agronegócio, a da indústria (Fiesp) e a do comércio, secundada pelos meios de divulgação que distorcem e fraudam sistematicamente a realidade social como se fosse “terra arrasada e país falido” (é exagero), escondendo os interesses corporativos por trás da fraude golpista.

O motor do processo, reafirma Jessé, é a voracidade da elite do dinheiro de se apropriar da riqueza coletiva com outros sócios, como a mídia ultraconservadora, o complexo jurídico-policial do Estado e parcela do STF (pense-se em Gilmar Mendes).

NO SENADO – O processo de impeachment foi parar no Senado. Este promoveu a destituição da presidente por crime de responsabilidade fiscal. Juristas e economistas, além de testemunhas, negaram a existência de irresponsabilidade. A maioria dos senadores já havia tomado previamente a decisão de depor a presidente.

A conversa entre Romero Jucá, então ministro do Planejamento, e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado, que foi vazada, revelou a tramoia: “Um grande acordo nacional com o Supremo para estancar a sangria da Lava Jato”, livrando do braço da Justiça 49 de 81 senadores indiciados ou metidos em corrupção. Dessa forma, com exceção dos defensores de Dilma, decidiram depor uma mulher honesta e inocente.

UM GOLPE – Condenar sem crime é golpe. Golpe de classe e parlamentar. Golpe significa violar a Constituição e trair a soberania popular por força da qual Dilma Rousseff se elegeu com 54 milhões de votos.

Ontem, em 1964, e hoje, em 2016, seja por via militar, seja por via parlamentar, funciona a mesma lógica: as elites econômico-financeiras e a casta política conservadora praticam a rapinagem de grande parte da renda nacional, contra a vida e o bem-estar da maior parte do povo, submetido à pobreza.

 

‘El día triste’ do Brasil: o golpe parlamentar foi consumado

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Leonardo Boff
O Tempo

E aconteceu que, naqueles dias, sicários se travestiram de senadores, em grande número, não todos, e decidiram atacar uma dama honrada e incorruptível, que lhes cortava o atalho para chegarem ao poder de Estado. A partir do Estado iriam fazer o que sempre fizeram: aproveitar-se dos bens públicos para autoenriquecimento, escapar desesperadamente do braço da Justiça e levar avante sua situação de privilégio, sempre à custa do povo pobre que eles querem manter longe, nas periferias, um exército de reserva, útil para seus serviços quase à moda de escravos.

Sangraram a dama incorruptível e honrada sob o pretexto de que práticas fiscais suas eram crime, coisa que os maiores especialistas em direito e economia, bem como instâncias oficiais, negaram. Criaram uma farsa e rasgaram a Constituição. Cassar uma presidente sem crime comprovado é um golpe. “Golpe parlamentar”, esse é o termo certo que tem que ser usado.

Eles se mostravam faceiros, farisaicamente dizendo que se sentiam mal, mas falando que inauguravam “uma era, uma nova primavera, o começo de um novo Brasil próspero e justo”. Mentira!

PONTE PARA O ATRASO – O plano “Uma ponte para o futuro”, na verdade, é uma ponte para o atraso porque tenta desmontar os avanços que os trabalhadores, as mulheres, os negros, os povos indígenas, a população LGBT, os pobres e feitos invisíveis alcançaram, pela primeira vez em nossa história, no âmbito da inclusão social, dos salários, da saúde, da educação, das leis trabalhistas, das aposentadorias e de acesso ao ensino técnico e superior. E o mais grave: querem mantê-los no analfabetismo porque assim ficam silenciados e incapazes de reclamar direitos e dignidade.

Agora é o mercado que conta. Quem quer saúde, que vá ao mercado e pague. Quem quer estudar na universidade, que vá ao mercado e pague. Todas as coisas virarão mercadoria a serem vendidas e compradas. Compra-se dignidade? Compra-se solidariedade? Paga-se pelo amor? Não importa. São coisas que para eles não entram na contabilidade. Mas alguém pode viver e ser feliz sem tudo isso?

“LA NOCHE TRISTE” – Houve, nos primórdios da conquista e dominação do México, em 1520, “la noche triste”, quando grande parte do exército espanhol foi dizimada. Hoje, em 2016, temos “el día triste”, no qual uma presidente foi injustamente apeada do poder conquistado pelas urnas.

Pelos espaços do Senado e nos corredores há sangue derramado. Uma “noche política triste” caiu sobre o Brasil, tirando a esperança dos que saíram da miséria e que correm o risco de novamente cair nela.

E todos os que lutaram para que se consolidasse a democracia de cunho social e que se respeitasse a vontade popular, expressa nas urnas, foram novamente traídos. Este dia é o dia dos “longos punhais” que sangraram a dama honrada e feriram gravemente a soberania popular.

DIA DA TRISTEZA – O dia 31 de agosto é o dia da tristeza. Os que tramaram esse teatro e os senadores-sicários levarão a pecha de golpistas e farsantes pela vida afora. A consciência os perseguirá, e sua memória será pulverizada. A vontade de condenar não substitui a razão que se orienta pela verdade. Eles atropelaram a verdade sob o manto da injustiça. Estarão numa sinistra companhia, a daqueles que, anos atrás, assaltaram o Estado, oprimiram o povo, torturaram, como fizeram com a presidente Dilma, e assassinaram tantos que buscavam a restauração da democracia.

E, no entardecer da vida, enfrentarão um Juiz maior que desvelará toda a injustiça que conscientemente cometeram.

Dez lições pós-impeachment que podem conduzir ao ecossocialismo

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Seguramente, é cedo ainda para tirar lições do questionável impeachment que inaugurou uma nova tipologia de golpe de classe via Parlamento. Essas primeiras lições poderão servir ao PT, a aliados e aos que amam a democracia e respeitam a soberania popular, expressa por eleições livres.

1) Alimentar a resiliência, vale dizer, resistir, aprender com os erros e derrotas e dar a volta por cima. Isso implica severa autocrítica, nunca feita com rigor pelo PT. Precisa-se ter claro qual projeto de país se quer implementar.

2) Reafirmar a democracia, aquela que ganha as ruas e praças, contrariamente à democracia de baixa intensidade, cujos representantes, com exceções, são comprados pelos poderosos para defender seus interesses corporativos.

3) Convencer-se de que um presidencialismo de coalizão é um logro, pois desfigura o projeto e induz à corrupção. A alternativa é uma coalização dos governantes com os movimentos sociais e setores dos partidos populares e, a partir deles, pressionar os parlamentares.

4) Convencer-se de que o capitalismo neoliberal, na atual fase de altíssima concentração de riqueza, está dilacerando as sociedades centrais e destruindo as nossas. O neoliberalismo atenuado, praticado nos últimos 13 anos pelo PT e por aliados, permitiu fazer a maior transformação social na história do Brasil, com a melhoria de vida de quase 40 milhões de pessoas. O grande erro do PT foi nunca ter explicado que aquelas ações sociais eram fruto de uma política de Estado. Por isso, criou antes consumidores que cidadãos conscientes. No atual governo pós-golpe, a radicalizada política econômica neoliberal de ajustes severos, recessiva e lesiva aos direitos sociais, seguramente vai devolver a fome e a miséria aos que dela foram tirados.

5) É urgente dar centralidade à educação e à saúde. Os governos Lula e Dilma avançaram na criação de universidades e escolas técnicas, mas cuidaram pouco da qualidade, seja da educação, seja da saúde. Um povo doente e ignorante nunca dará um salto de qualidade rumo a uma prosperidade sustentável.

6) Colocar-se corajosamente ao lado das vítimas da voracidade neoliberal.

7) Colocar sob suspeita tudo o que vem de cima, geralmente fruto de políticas de conciliação de classes, feitas de costas e à custa do povo. Essas políticas vêm sob o signo do mais do mesmo. Preferem manter o povo na ignorância para facilitar a dominação e combatem qualquer espírito crítico.

8) É urgente a projeção de uma utopia de outro Brasil, sobre outras bases, a principal delas, a originalidade e a força de nossa cultura, dando centralidade à vida da natureza, à vida humana e à vida da Mãe Terra, base de uma biocivilização. O desenvolvimento/crescimento é necessário para atender não os desejos, mas as necessidades humanas; deve estar a serviço não do mercado, mas da vida e da salvaguarda de nossa riqueza ecológica.

9) Para implementar essa utopia, faz-se indispensável uma coligação de forças políticas e sociais interessadas em inaugurar o novo viável que dê corpo à utopia de outro tipo de Brasil.

10) Esse novo viável tem um nome: ecossocialismo. Não aquele totalitário da Rússia e o desfigurado da China, que, na verdade, negam a natureza do projeto socialista. Mas o ecossocialismo que visa realizar potencialmente o nobre sonho de cada um dar o que pode e de receber o que precisa, inserindo a todos, a natureza incluída.

Esse projeto deve ser implementado já. A atual crise nos oferece especial oportunidade, que não deverá ser desperdiçada. Ela é dada poucas vezes na história.

Uma receita para enfrentar o fundamentalismo no mundo

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Ilustração do Duke (O Tempo),

Leonardo Boff
O Tempo

Atualmente, em todo o mundo, se verifica aumento do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam por homofobia, xenofobia, antifeminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que sua verdade é a única e que todos os demais são ou desviantes, ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores políticos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religiosos e políticos. O fascismo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

RELATIVISMO –Este conceito deve ser pensado em duas direções. Em primeiro lugar, o relativo quer expressar o fato de que todos estão, de alguma forma, relacionados. Na esteira da física quântica, insiste a encíclica do papa Francisco sobre como cuidar da Casa Comum: “Tudo está intimamente relacionado; todas as criaturas existem na dependência umas das outras”. Por essa interrelação, todos são portadores da mesma humanidade. Somos uma espécie entre tantas, uma família.

Em segundo lugar, importa compreender que cada um é diferente e tem um valor em si mesmo. Mas está sempre em relação com outros e seus modos de ser. Daí ser importante relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar aí, goza de direito de existir e de coexistir.

Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos ianomâmis do Brasil, até chegarmos aos moradores das comunidades da periferia e aos de sofisticados Alphavilles. O mesmo vale para as diferenças de cultura, língua, religião, ética e lazer. Todas essas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas são um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto.

VALE TUDO? – Então, não há verdade absoluta? Vale o “everything goes” de alguns pós-modernos? Traduzindo: “vale tudo”? Não há o vale-tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em suas diferenças, e não prejudicando-os.

Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia, nem um partido político, nem uma ciência. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: “Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a”. Se a buscarmos juntos e no diálogo, então mais e mais desaparece minha verdade para dar lugar a nossa verdade. A ilusão do Ocidente é imaginar que a única janela que dá acesso à verdade e ao saber crítico é seu modo de ver e de viver.

Pensando assim, condena-se a um fundamentalismo visceral responsável por massacres ao se impor sua religião na América Latina e na África. Hoje se fazem guerras com milhares de vítimas civis para impor a democracia no Iraque, no Afeganistão, na Síria e em todo o Norte da África. Aqui se dá também o fundamentalismo ocidental. Devemos fazer o bom uso do relativismo.

Os Jogos Olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada

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Ilustração do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

As Olimpíadas de 2016 deixarão um legado inesquecível para a população carioca por causa da implantação de uma imensa infraestrutura de arenas, estádios, novas avenidas e túneis. Tradicionalmente, a abertura e o encerramento constituem ocasiões de grandes celebrações, nas quais o país-hóspede tenta mostrar o melhor de sua arte e singularidade. A abertura foi de um esplendor inigualável. O ponto alto foi o desfile das delegações de 206 países, número maior que os representados na ONU, que são 193. Cada delegação desfilou em trajes típicos.

Sabemos que em todas as relações sociais subjazem interesses de poder. Nos Jogos Olímpicos, se existiram, ficaram praticamente invisíveis. Predominou o espírito esportivo e olímpico acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas. Até um grupo de refugiados desfilou.

Talvez esse evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente, porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

Esta seja talvez a mensagem simbólica mais importante que um evento como este envia para todos. Para além dos conflitos, diferenças e problemas, podemos viver antecipadamente e, por um momento, a humanidade que se humanizou e encontrou seu ritmo em consonância com o ritmo do próprio universo.

REFLEXÕES – Os Jogos Olímpicos nos dão o ensejo de refletirmos sobre a importância antropológica e social do jogo. Não penso no jogo que virou profissão e grande comércio internacional. O jogo, como dimensão humana, se revela melhor nos meios populares, nas peladas de rua ou na praia, em algum espaço gramado ou arenoso. Esse tipo de jogo não tem finalidade prática nenhuma. Em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de divertir-se juntos.

Nas Olimpíadas impera outra lógica, diferente daquela cotidiana de nossa cultura capitalista, cujo eixo articulador é a competição excludente: o mais forte triunfa e, no mercado, se puder, engole seu concorrente. Aqui há competição, mas ela é includente, pois todos participam. A competição é para o melhor, apreciando e respeitando as qualidades e virtuosidades do outro.

JOGO DE DEUS – A tradição cristã desenvolveu toda uma reflexão sobre o significado transcendente do jogo. Sobre ela quero me concentrar um pouco. As duas igrejas irmãs, a latina e a grega, se referem ao “Deus ludens”, ao “homo ludens” e até à “ecclesia ludens” (o Deus, o homem e a igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado, jogou as estrelas, para outro, o sol, mais abaixo jogou os planetas e, com carinho, jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação expressa a alegria transbordante de Deus, uma espécie de teatro no qual todos os seres desfilam e mostram sua beleza. Falava-se, então, da criação como um “theatrum gloriae Dei” (um teatro da glória de Deus).

Não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo, mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé, mais que aderir a um feixe de verdades, é poder dizer, na esteira de Nietzsche, “sim e amém a toda a realidade”. Em seu profundo, ela não é traiçoeira e má, mas boa e bela, alegre, acolhedora. Alegrar-se por participar dela o expressamos pelo jogo e, de forma universal, pelos Jogos Olímpicos.