Como o patriarcado se impôs ao matriarcado há mais de 10 mil anos

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10 mil, 12 mil anos. Mas foram deixados rastros dessa luta de gêneros. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler e Françoise Gange.

Segundo elas, se realizou um processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal. Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

PECADO ORIGINAL – O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.
O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16), que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre, como a pele da serpente. Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

E em quarto lugar, destruiu-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

UMA INVERSÃO – Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará” (Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição: “multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3,16). A inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal: “porei inimizade entre ti e a mulher… tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

PERIGO MORTAL – A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito (Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: “entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou uma desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens, que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

No início, o mundo era feminino: a sexualidade o tornou diferente

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

O presente texto quer ser uma contribuição ao debate sobre o feminino, tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Várias são as etapas. A vida existe na Terra há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi, provavelmente, uma bactéria unicelular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna.

Há 2 bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares.

ENCONTRO DE CÉLULAS – Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas células diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos –, que, junto com a seleção natural, representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que, no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido, podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar foi surgindo o pênis, algo masculino que, tocando a célula, passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

OS VERTEBRADOS – Com o aparecimento dos vertebrados há 370 milhões de anos, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com os mamíferos, há cerca de 125 milhões de anos, surgiu a sexualidade, definida como macho e fêmea. Aí emergem o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos, apareceu nosso ancestral mamífero, que vivia nas copas das árvores, nutrindo-se de brotos e flores. Com o desaparecimento dos dinossauros, há 67 milhões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver, chegando aos dias de hoje.

Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra, e pelo hipotálamo, que é sexuado. Essas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio.

ASSEXUADO – Importa ainda dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. O ser humano não possui sexo. Ele é assexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade, o mundo era dos mesmos e dos idênticos.

Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar.

Mas retenhamos: o feminino vem primeiro e é básico.

As novas formas de coabitação na atual perspectiva ética e espiritual

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Hoje, tornou-se comum haver dois pais ou duas mães

Leonardo Boff
O Tempo

Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitações e uniões livres), que se formam consensualmente fora do marco tradicional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal. Crescem no Brasil e no mundo todo as uniões entre homoafetivos, que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Não é lícito emitir um juízo ético sobre essas formas de coabitação sem antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando nos dias atuais?

CONJUNTO DE PESSOAS – Marco Antônio Fetter, criador da Universidade da Família, assim a define: “A família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”.

Transformação maior ocorreu na família com a introdução dos preservativos e dos anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, ajudando a evitar as doenças sexualmente transmissíveis. Com isso, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade, bem como o matrimônio, é vista como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar, fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos são queridos e decididos de comum acordo.

UNIÕES LIVRES – A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são estritamente matrimoniais. Expressão disso são as uniões consensuais e livres, sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4 – 12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações. Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus.

Se as pessoas comprometidas assim o fizerem e assumirem a relação com responsabilidade, não se pode negar a ela relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda a superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a estabilidade, diminuindo os preconceitos sociais.

PROCRIAÇÃO SEM SEXO – Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo com a procriação in vitro, a inseminação artificial e o “útero de aluguel”. A questão é polêmica em termos éticos e espirituais, e sobre isso parece não haver consenso. A posição oficial católica tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual dos esposos. O ser humano tem direito de nascer humanamente de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se, por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o reto propósito ético.

O filho que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica. É importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai de forma bem-sucedida. Assim se evitam danos psicológicos.

Deve-se sempre entender a vida como a culminância da cosmogênese é o maior dom do Criador.

As novas formas de coabitação numa perspectiva ética e espiritual

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Charge reproduzida do Arquivo Google

Leonardo Boff
O Tempo

Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitações e uniões livres), que se formam consensualmente fora do marco tradicional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal. Crescem no Brasil e no mundo todo as uniões entre homoafetivos, que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Não é lícito emitir um juízo ético sobre essas formas de coabitação sem antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando nos dias atuais?

A FAMÍLIA – Marco Antônio Fetter, criador da Universidade da Família, assim a define: “a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”.

Transformação maior ocorreu na família com a introdução dos preservativos e dos anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, ajudando a evitar as doenças sexualmente transmissíveis. Com isso, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade, bem como o matrimônio, é vista como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar, fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos são queridos e decididos de comum acordo.

COABITAÇÃO – A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são estritamente matrimoniais. Expressão disso são as uniões consensuais e livres, sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4 – 12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações.

Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus. Se as pessoas comprometidas assim o fizerem e assumirem a relação com responsabilidade, não se pode negar a ela relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda a superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a estabilidade, diminuindo os preconceitos sociais.

INSEMINAÇÃO – Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo com a procriação in vitro, a inseminação artificial e o “útero de aluguel”. A questão é polêmica em termos éticos e espirituais, e sobre isso parece não haver consenso.

A posição oficial católica tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual dos esposos. O ser humano tem direito de nascer humanamente de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se, por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o reto propósito ético.

O filho que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica. É importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai de forma bem-sucedida. Assim se evitam danos psicológicos.

Deve-se sempre entender a vida como a culminância da cosmogênese e o maior dom do Criador.

A solução para a crise da Terra não vem do céu, mas depende de nós todos

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O que vou escrever aqui será de difícil aceitação pela maioria dos leitores. Embora o que diga seja fundado nas melhores cabeças científicas, a situação do planeta Terra e seu eventual colapso, ou um salto quântico para outro nível de realização, não penetraram, no entanto, na consciência coletiva nem nos grandes centros acadêmicos. Continua imperando o velho paradigma, surgido no século XVI com Newton, Francis Bacon e Kepler, atomístico, mecanicista e determinístico, como se não tivessem existido Einstein, Hubble, Planck, Swimme, Capra e outros que elaboraram a nova visão do universo e da Terra.

Para iniciar, cito as palavras do Prêmio Nobel de Biologia de 1974, Christian de Duve: “A evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grave instabilidade. Nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por grandes extinções em massa”.

GEOCIDA – Desta vez ela não vem de algum meteoro rasante, mas do próprio ser humano, que pode ser não só suicida e homicida, mas também ecocida, biocida e, por fim, geocida. Ele pode pôr fim à vida em nosso planeta, deixando apenas os micro-organismos, que se contam em quatrilhões de quatrilhões de bactérias, fungos e vírus.

Em razão dessa ameaça da máquina de morte fabricada pela irracionalidade da modernidade, se introduziu a expressão “Antropoceno”, uma espécie de nova era geológica na qual a devastação deriva do próprio ser humano (antropos). Ele intervém de forma tão profunda nos ritmos da natureza e da Terra que está afetando as bases ecológicas que as sustenta. Segundo os biólogos Wilson e Ehrlich, desaparecem entre 70 mil e 100 mil espécies de seres vivos por ano devido à relação hostil que o ser humano mantém com a natureza. A consequência é clara: a Terra perdeu seu equilíbrio, e os eventos extremos o mostram irrefutavelmente. Só ignorantes como Trump negam as evidências empíricas.

ECOCENO – Em contrapartida, o cosmólogo Brian Swimme e uma dezena de cientistas que na Califórnia estudam a história do universo se esforçam para apresentar uma saída salvadora. Eles criaram a expressão “era Ecozoica” ou “Ecoceno”, uma quarta era Biológica, Sucedendo ao Paleozoico, ao Mesozoico e ao nosso Neozoico.

A era Ecozoica parte de uma visão do universo em cosmogênese. Sua característica é não a permanência, mas a evolução, a expansão e a autocriação de emergências cada vez mais complexas que permitem o surgimento de novas galáxias, estrelas e formas de vida na Terra. Essa era Ecozoica representa uma restauração do planeta mediante uma relação de cuidado, respeito e reverência. A economia é não a da acumulação, mas a do suficiente para todos, de modo que a Terra refaça seus nutrientes. O futuro da Terra não cairá do céu, mas das decisões que tomarmos.

BEM-ESTAR – Cito Swimme: “O futuro será determinado entre aqueles comprometidos com o Tecnozoico, um futuro de exploração crescente da Terra como recurso, tudo para o benefício dos humanos, e aqueles comprometidos com o Ecozoico, um novo modo de relação com a Terra; em que o bem-estar de toda a comunidade terrestre é o principal interesse”.

Se este não predominar, conheceremos possivelmente uma catástrofe, desta vez efetuada pela própria Terra, para se livrar de uma de suas criaturas, que ocupou todos os espaços de forma violenta e ameaçadora às demais espécies, que têm a mesma origem e o mesmo código genético e são seus irmãos e irmãs. Temos que merecer subsistir neste planeta. Mas isso depende de uma relação amigável com a natureza e a vida e uma profunda transformação nas formas de viver.

Esta é a encruzilhada de nosso tempo: ou mudar, ou desaparecer.

Neste momento da história, o centro de tudo está numa mulher, Maria de Nazaré

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A festa do Natal está toda concentrada na figura da criança Jesus, o Filho de Deus, que decidiu morar entre nós. A celebração do Natal vai além desse fato. Restringindo-se somente a ele, caímos no erro teológico do cristomonismo (só Cristo conta), olvidando que existem ainda o Espírito e o Pai, que sempre atuam conjuntamente.

Cabe realçar a figura de Sua Mãe, Maria de Nazaré. Se ela não tivesse dito o “sim”, Jesus não teria nascido. E não haveria o Natal.

PATRIARCADO – Como ainda somos reféns da era do patriarcado, este nos impede de comprender e valorizar o que diz o Evangelho de Lucas a respeito de Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a energia do Altíssimo armará sua tenda sobre ti e é por isso que o Santo gerado será chamado Filho de Deus”(Lc 1,35).

As traduções comuns, dependentes de uma leitura “masculinista”, dizem: “a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”. O original grego afirma: “a energia do Altíssimo armará sua tenda sobre ti”. Trata-se de um modismo linguístico hebraico para significar “morar não passageira, mas definitivamente”, sobre Maria. Como afirma o texto, a partir de agora, Maria de Nazaré será a portadora permanente do Espírito. Ela foi “espiritualizada”, quer dizer, o Espírito faz parte dela.

Curiosamente, a mesma palavra “tenda” são João aplica à encarnação do Verbo: “E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”, quer dizer, morou definitivamente entre nós.

ESPÍRITO SANTO – Qual a conclusão que tiramos? Que a primeira pessoa divina enviada ao mundo não foi o Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Foi o Espírito Santo. Quem é o terceiro na Trindade é o primeiro na ordem da criação, isto é, o Espírito Santo. O receptáculo dessa vinda foi uma mulher do povo, simples como todas as mulheres camponesas da Galileia, de nome Miriam, ou Maria.

Ao acolher a vinda do Espírito, ela foi elevada à altura da divindade. Por isso, diz: “o Santo gerado será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). Somente alguém que está na altura de Deus pode gerar um Filho de Deus. Maria, por essa razão, será divinizada, semelhantemente ao homem Jesus de Nazaré. É o Filho eterno encarnado em nossa realidade humana que celebramos no Natal.

MARIA DE NAZARÉ – Eis que, num momento da história, o centro é ocupado por uma mulher, Maria de Nazaré. Nela estão presentes duas pessoas divinas: o Espírito Santo e o Filho do Pai.

Nossa Senhora de Guadalupe, com traços mestiços, tão venerada pelo povo mexicano, aparece como uma mulher grávida, com todos os símbolos da gravidez da cultura dos astecas. Sempre que vou ao México, visito a bela imagem de pano de Guadalupe. Vestido de frade, várias vezes perguntei a um peregrino anônimo: “Hermanito, tu adoras a la Virgen de Guadalupe?” E recebia sempre a mesma resposta: “Si, frailecido, como no voy adorar a la Virgen de Guadalupe? Si que la adoro”.

Pois nessa mulher se escondem as duas pessoas divinas, o Filho que crescia em suas entranhas pela energia do Espírito que morava nela. E ambas, sendo Deus, podem e devem ser adoradas. Daí nasceu a inspiração para o meu livro “O Rosto Materno de Deus”.

PORÇÃO DIVINA – Sempre lamentei que a maioria das mulheres, mesmo teólogas, não tenha assumido ainda sua porção divina, presente em Maria, por obra do Espírito Santo. Ficam só com o Cristo, o homem divinizado.

O Natal será mais completo se, junto ao Menino que tirita de frio na manjedoura, incluirmos sua Mãe, que o acalenta amparada por seu esposo, José. Ele também mereceria uma reflexão especial: sua relação com o Pai Celeste.

No meio da crise de nosso país, há ainda uma estrela como a de Belém a nos dar esperança.

O intento de recolonizar o Brasil assumido pelo atual governo

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Charge do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A colonização e, especialmente, a escravidão não constituem apenas etapas passadas da história. Suas consequências perduram até hoje. A prova clara é a dominação e a marginalização das populações um dia colonizadas e escravizadas com base na dialética da superioridade-inferioridade, nas discriminações por causa da cor da pele, no desprezo e até no ódio ao pobre.

Não basta a descolonização política. A recolonização ressurge na forma do capitalismo econômico, liderado por capitalistas neoliberais nacionais, articulados com os transnacionais. A lógica que rege a recolonização é tirar o máximo proveito do extrativismo dos bens e serviços naturais e da exploração da força de trabalho, malpaga e, quando possível, pela redução de seus direitos individuais e sociais.

DESCOLONIZAÇÃO – Os primeiros a verem claro a recolonização foram Frantz Fanon, da Argélia, e Aimé Césaire, do Haiti. Propuseram um corajoso processo de descolonização para liberar a “história que foi roubada” pelos dominadores e que agora pode ser recontada e reconstruída pelo próprio povo.

No entanto, trava-se um duro embate por parte daqueles que querem prolongar a colonização e a escravidão, criando obstáculos para aqueles que buscam fazer uma história soberana baseada em seus valores culturais e suas identidades étnicas.

Césaire cunhou a palavra “negritude” para expressar duas dimensões: uma, da continuada opressão contra os negros, e outra, da resistência persistente e da luta obstinada contra todo tipo de discriminação. A “negritude” é a palavra-força que inspira a luta pelo resgate da própria identidade e pelo direito às diferenças. Césaire criticou duramente a civilização europeia por sua cobiça, invadindo, ocupando e roubando as riquezas dos outros países, atitude espiritualmente indefensável por ter difundido a discriminação e o ódio raciais.

COLONIALIDADE – Paralelamente ao conceito de “negritude”, criou-se o de “colonialidade” pelo cientista social peruano Anibal Quitano (1992). Por ela quer-se expressar os padrões que os países centrais e o próprio capitalismo globalizado impõem aos países periféricos: o mesmo tipo de relação predatória da natureza, as formas de acumulação e de consumo, os estilos de vida e os mesmos imaginários produzidos pela máquina midiática. Dessa forma, continuam a lógica do encobrimento do outro, o roubo de sua história e a destruição das bases para a criação de um processo nacional soberano. O Norte global está impondo a colonialidade em todos os países.

O neoliberalismo radical que está imperando na América Latina e de forma cruel no Brasil é a concretização da colonialidade. O poder mundial, seja dos Estados hegemônicos, seja das grandes corporações, quer reconduzir a América Latina à situação de colônia. É a recolonização como projeto da nova geopolítica mundial.

ENTREGUISMO – O golpe que foi dado no Brasil em 2016 se situa exatamente nesse contexto: trata-se de solapar um caminho autônomo e entregar a riqueza social e natural às grandes corporações. Isso se faz pelas privatizações de nossos bens. Freia-se o processo de industrialização para dependermos das tecnologias vindas de fora. A função que nos é imposta é a de sermos grandes exportadores de commodities.

Nomes notáveis da ecologia nos alertam que o sistema Terra chegou a seu limite e não suporta um projeto com tal nível de agressão social e ecológica. Ora, esse modelo, para nossa desgraça, é assumido pelo atual governo, corrupto e totalmente descolado do povo, praticante de um neoliberalismo radical que implica o desmonte da nação. Daí o dever cívico e patriótico de derrotarmos as elites do atraso, antipovo e antinacionais. Tudo tem limites. Há de surgir uma consciência patriótica na forma de uma generalizada rejeição social.

 

A concepção do ser humano nos limites de uma ecologia integral

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Em sua encíclica “Sobre o Cuidado da Casa Comum”, o papa Francisco submeteu a uma rigorosa crítica o clássico antropocentrismo de nossa cultura a partir da visão de uma ecologia integral, cosmocentrada, dentro da qual o ser humano comparece como parte do Todo e da natureza. Isso nos convida a revisar nossa compreensão do ser humano nos limites dessa ecologia integral.

Perguntamo-nos, não sem certa perplexidade: quem somos, afinal, enquanto humanos? Tentando responder: o ser humano é uma manifestação da energia de fundo, de onde tudo provém (vácuo quântico ou fonte originária de todo ser); um ser cósmico, parte de um universo, possivelmente entre outros paralelos, articulado em 11 dimensões (teoria das cordas); formado pelos mesmos elementos físico-químicos e pelas mesmas energias que compõem todos os seres; somos habitantes de uma galáxia média e circulamos ao redor do Sol, estrela de quinta magnitude, uma entre outras 300 bilhões, situada a 27 mil anos-luz do centro da Via Láctea, no braço interior do espiral de Órion; morando num planeta minúsculo, a Terra, tida como um superorganismo vivo, que funciona como um sistema que se autorregula, chamado Gaia.

ELO DA CORRENTE – Somos um elo da corrente da vida; um animal, portador da psique ordenada por emoções e pela estrutura do desejo, de arquétipos ancestrais e coroada pelo espírito que é aquele momento da consciência pelo qual se sente parte de um Todo maior, que o faz sempre aberto ao outro e ao infinito; capaz de intervir na natureza e, assim, de fazer cultura, de criar e captar significados e valores e se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo e da Terra, hoje em sua fase planetária, rumo à noosfera, pela qual mentes e corações convergirão numa humanidade unificada.

E somos mortais. Custa-nos acolher a morte dentro da vida e a dramaticidade do destino humano. Pelo amor, pela arte e pela fé pressentimos que nos transfiguramos através da morte. E suspeitamos que, no balanço final das coisas, um pequeno gesto de amor verdadeiro e incondicional vale mais que toda a matéria e a energia do universo juntas. Por isso, só vale falar, crer e esperar em Deus se Ele for sentido como prolongamento do amor, na forma do infinito.

PRESENÇA DE DEUS – Pertence à singularidade do ser humano não apenas apreender uma presença, Deus, perpassando todos os seres, senão entreter com ele um diálogo de amizade e de amor. Intuir que Ele seja o correspondente ao infinito desejo que sente, infinito que lhe é adequado e no qual pode repousar.

Esse Deus não é um objeto entre outros, nem uma energia entre outras. Se assim fosse, poderia ser detectado pela ciência. Comparece como aquele suporte, cuja natureza é mistério, que tudo sustenta, alimenta e mantém na existência. Sem Ele, tudo voltaria ao nada ou ao vácuo quântico de onde cada ser irrompeu. Ele é a força pela qual o pensamento pensa, mas que não pode ser pensado. O olho que tudo vê, mas que não pode ser visto. Ele é o mistério sempre conhecido e sempre por conhecer, indefinidamente. Ele perpassa e penetra até as entranhas de cada ser humano e do universo.

UMA EQUAÇÃO – Podemos pensar, meditar e interiorizar essa complexa realidade, feita de realidades. Mas é nessa direção que deve ser concebido o ser humano. Quem ele é e qual é seu destino derradeiro se perde no incognoscível, sempre de alguma forma cognoscível, que é o espaço do mistério de Deus ou do Deus do mistério. Somos seres sendo sem parar. Por isso, é uma equação que nunca se fecha e que permanece sempre em aberto. Quem revelará quem somos?

O sentido da vida não se perde por causa da desordem da corrupção

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quem olha o panorama brasileiro sob a ótica da ética não deixa de ficar desolado e entristecido. Um presidente não é apenas portador do poder supremo de um país. O cargo possui uma carga ética. Ele deve testemunhar os valores que quer que seu povo viva. Aqui temos o contrário: um presidente tido por corrupto não só por acusação de políticos, mas por investigação séria da Polícia Federal e de outros órgãos, como o Ministério Público.

Mas, devido à desmesurada vaidade do cargo e à total falta de respeito ao país, ele se mantém à base de corrupção feita à luz do dia, comprando votos de deputados e oferecendo outras benesses. E os deputados, gaiamente, se deixam corromper, aproveitando a ocasião para conquistar funções e outros benefícios. A República apodreceu de vez. Temos que refundar o Brasil sobre outras bases.

HÁ ESPERANÇA – A despeito disso tudo, não deixamos a esperança morrer, embora, nesse momento, no dizer de Rubem Alves, trate-se de uma “esperança agonizante”. Mas ela ressuscitará dessa agonia e nos resgatará um sentido de viver. Se perdermos o sentido da vida, o próximo passo poderá ser o completo cinismo e, no termo, o suicídio.

A despeito da desesperança e da existência do absurdo diante do qual a própria razão se rende, acreditamos ainda na bondade fundamental da vida. O homem comum se levanta, perde precioso tempo de vida nos ônibus superlotados, vai ao trabalho, luta pela família, se preocupa com a educação de seus filhos, sonha com um Brasil melhor, é capaz de gestos generosos e, em casos extremos, arrisca a vida para salvar um inocente. O que se esconde atrás desses gestos cotidianos e banais? Esconde-se a confiança de que, apesar de tudo, vale a pena viver porque a vida, em sua profundidade, é boa e foi feita para ser levada com coragem, a qual produz autoestima e sentido de valor.

UMA VIDA ÉTICA – Há aqui uma sacralidade que não vem sob o signo religioso, mas sob a perspectiva do ético, do viver corretamente. O sociólogo austríaco-norte-americano Peter Berger escreveu um livro brilhante, relativizando a tese de Max Weber sobre a secularização completa da vida moderna, com o título “Um Rumor de Anjos: A Sociedade Moderna e a Redescoberta do Sobrenatural” (Vozes, 1973). Aí descreve inúmeros sinais que mostram o sagrado da vida e o sentido que ela sempre guarda, a despeito de todo caos e dos contrassensos históricos.

Trabalho apenas um exemplo que me vem à mente, banal e entendido por todas as mães que acalentam seus filhos. Um deles acorda sobressaltado: teve um pesadelo, percebe a escuridão, sente-se só e é tomado pelo medo. Grita pela mãe. Esta se levanta, toma o filho no colo e, no gesto primordial da magna mater, cerca-o de carinho e de beijos, fala-lhe coisas doces e sussurra:

“Meu filhinho, não tenhas medo; sua mãe está aqui. Está tudo bem e está tudo em ordem, meu querido”. O menino deixa de soluçar. Reconquista a confiança da noite e um pouco mais e mais um pouco, adormece.

EXISTE ORDEM – Essa cena tão comum esconde algo radical que se manifesta na pergunta: será que a mãe não está enganando a criança? O mundo não está em ordem, nem tudo está bem. Contudo, estamos certos: a mãe não está enganando seu filhinho. Seu gesto revela que, não obstante a desordem, impera uma ordem mais fundamental. O conhecido pensador Eric Voegelin, em “Order and History” (1956), mostrou magistralmente que todo ser humano possui uma tendência essencial para a ordem.

A tendência para a ordem implica a convicção de que a vida possui sentido. Que, no fundo da realidade, não vigora a mentira, mas a confiança, o consolo e o derradeiro aconchego.

Assim, cremos que, acabado o tempo da grande desolação por causa da corrupção que destrói a ordem, voltaremos a celebrar e desfrutar o sentido bom da existência.

A representação, na Teologia da Libertação, da força dos pequenos

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Sempre que se celebra um Fórum Social Mundial, três dias antes, acontece também um Fórum Mundial da Teologia da Libertação. Participam mais de 2.000 pessoas de todos os continentes que praticam em seus trabalhos esse tipo de teologia. Ela implica ter um pé na realidade da pobreza e da miséria e outro na reflexão teológica e pastoral. Sem esse casamento não existe Teologia da Libertação que mereça esse nome.

De tempos em tempos, fazemos nossas avaliações. A pergunta primeira é: como está o Reino de Deus aqui, em nossa realidade contraditória? Onde estão os sinais do Reino em nosso continente, mas também na China, na África, no meio dos pequenos de nossos países? Perguntar pelo Reino não é perguntar como está a Igreja, mas como vai o sonho de Jesus, feito de amor incondicional, solidariedade, compaixão, justiça social, abertura ao sagrado, e que centralidade confere aos oprimidos. Esses e outros valores constituem o conteúdo do Reino de Deus, a mensagem central de Jesus. O nome é religioso, mas seu conteúdo é humanístico e universal. Ele veio nos ensinar a viver esses valores, e não transmitir as doutrinas sobre eles.

OS EXCLUÍDOS – Igualmente, quando se pergunta como está a Teologia da Libertação, a resposta está contida nesta pergunta: como estão sendo tratados os pobres e os oprimidos, as mulheres, os desempregados, os povos originários, os afrodescendentes e outros excluídos? Como entram na prática libertadora dos cristãos? Releva enfatizar que o importante não é a Teologia da Libertação, mas o fato da libertação concreta dos oprimidos. Esta é uma presença do Reino, e não a reflexão que se faz.

Entre os dias 12 e 14 de outubro, em Puebla, no México, ocorreu um encontro de teólogos da América Latina. Foi organizado por Ameríndia, que é uma rede de organizações e pessoas comprometidas com a transformação e libertação de nossos povos. A diligência analisa o momento histórico numa perspectiva holística, enfatizando os conteúdos místicos/proféticos e metodológicos da Teologia da Libertação.

Ali estavam alguns dos “pais fundadores” dessa teologia de começos dos anos 70, todos entre 75 e 85 anos, que se encontraram com a nova geração de jovens teólogos (indígenas entre eles) e teólogas (algumas negras e indígenas).

IDENTIFICAÇÃO – Queríamos identificar novas sensibilidades, enfoques e maneiras de processar esse tipo de teologia: que dignidade atribuímos aos que não contam e são feitos invisíveis em nossa sociedade neoliberal e capitalista?

Em vez de palestras, preferiu-se trabalhar em mesas-redondas. Dessa forma, todos podiam participar. Havia os que trabalhavam no meio de indígenas, outros nas periferias das cidades, outros a questão de gênero, outros eram professores e pesquisadores vinculados aos movimentos sociais. Todos vinham de experiências fortes e até perigosas, especialmente na América Central. Pela internet, houve milhares de seguidores em todo o continente.

Ficou claro que há várias formas de entender a realidade (epistemologias). Para todos era evidente que não se pode resolver o problema dos pobres sem a participação dos próprios pobres.

LEMBRANDO NERUDA – A Teologia da Libertação dos “velhos” e dos novos é como uma semente que representa a “força dos pequenos”. Essa semente continuará viva enquanto houver um único ser humano que grite por libertação.

Recordamos o poema de Pablo Neruda: “Como sabem as raízes que devem subir à luz e saudar o ar com flores e cores?” Com Dostoiévski e com o papa Francisco, também cremos que, no fundo, é a beleza que salvará o mundo.

A tentativa de condenação de um homem justo chamado Gilberto Carvalho

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Carvalho é acusado de “negociar” MPs com Lula

Leonardo Boff
O Tempo

No dia 19 de setembro, o juiz Vallisney Oliveira acatou a denúncia do Ministério Público Federal contra o ex-presidente Lula e Gilberto Carvalho por ver indícios de corrupção passiva na alegação de que teriam recebido uma propina de R$ 6 milhões para o PT com a reedição da Medida Provisória 471, de 2009, que estendia benefícios fiscais a montadoras do setor automobilístico no Centro-Oeste e no Nordeste.

Curiosamente, essa medida provisória tem como autor o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela foi aprovada por todos os partidos. O sentido dela era descentralizar a produção de automóveis e criar um grande número de empregos. Efetivamente, em 2002 e 2013, o número de postos de trabalho passou de 291.244 para 532.364.

CONTINUIDADE – A prorrogação da MP 471 por Lula tinha o sentido de garantir a continuidade dos empreendimentos que beneficiavam tantos trabalhadores. Nada foi pedido e dado em troca. A acusação do MPF de propina não apresentou provas, apenas indícios e ilações.

Não tomo a defesa do ex-presidente Lula porque advogados competentes o farão. Restrinjo-me a um testemunho de Gilberto Carvalho. Conhecemo-nos há muitos anos, no trabalho com as comunidades de base na Pastoral Operária, nos estudos de teologia em Curitiba, e nos encontros de fé e política. Morou numa favela muito pobre da cidade, trabalhou depois numa fábrica de plástico e numa metalúrgica. Há cerca de 30 anos, firmou com Lula uma amizade de irmãos. Ajudou a fundar o PT. Eleito presidente, Lula o fez, nos dois mandatos, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República.

INTERLOCUTOR – No cargo, sempre mostrou discrição e grande sentido de equidade. Notabilizou-se por ser o interlocutor mais bem aceito pelos movimentos sociais, com a Igreja Católica e com outros segmentos religiosos. Carinho especial dedicava aos catadores de material reciclável e aos indígenas.

– Todos o conhecem por sua serenidade e incansável capacidade de escutar e de buscar, junto com outros, os caminhos mais viáveis. Nós, que o conhecemos de perto, testemunhamos com sinceridade o alto apreço que confere ao mundo espiritual. Sempre foi um homem pobre. Comprou um pequeno sítio perto de Brasília com o resultado da venda de um apartamento que possuía em São Paulo. Nunca se aproveitou do alto cargo de ocupou na República.

INDIGNAÇÃO – Por isso, entendemos sua “revolta e indignação” contra a absurda denúncia feita pelo MPF e acatada pelo juiz federal Vallisney Oliveira, de Brasília. Em sua nota de 19 de setembro, Carvalho escreveu: “É importante grifar que não existe nenhuma base de provas, e sim ilações e interpretações forçadas de fatos… Nem o presidente Lula nem eu tivemos qualquer aproximação com este tipo de má conduta com a qual querem nos estigmatizar”.

Talvez o tópico final de sua nota diga muito de sua personalidade, na qual vemos sinais de virtudes humanas em grau eminente: “Recebo esta denúncia no exato momento em que fui obrigado a vender o apartamento em que vivia, que recentemente havia adquirido, por não conseguir pagar o financiamento. Desde então, passo a morar em casa alugada. Portanto, não são acusações dessa natureza que vão tirar minha honra e dignidade de uma consciência serena e sem medos”.

As Escrituras, com frequência, invectivam juízes que, açodadamente, levantam suspeitas sobre os justos, quando não os condenam. Em Brasília, se elabora uma tentativa malévola de condenar um homem justo.

 

Ensino religioso (ou das religiões) deveria ter iniciação à espiritualidade

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Correu no STF uma discussão sobre o ensino religioso nas escolas. A expressão “ensino religioso” leva a equívocos por sua conotação confessional. Num Estado laico que acolhe e respeita todas as religiões, o correto seria dizer “ensino das religiões”. Pertence à cultura geral que os estudantes tenham noções básicas das religiões praticadas na humanidade. Tal estudo possui o mesmo direito de cidadania que o da história universal ou das ciências e das artes.

O mais importante seria iniciar os estudantes na espiritualidade como é entendida pelos estudiosos. Não se trata de uma derivação da religião. A espiritualidade é um dado antropológico de base, como é a inteligência, a vontade e a libido.

O ser humano, além de possuir uma exterioridade (corpo) e uma interioridade (psiquê), possui também uma profundidade (espírito). O espírito é aquele momento da consciência em que cada um capta a si mesmo como parte de um todo.

VIDA DO ESPÍRITO – Talvez melhor que um filósofo, um escritor nos possa esclarecer o que sejam o espírito e a vida do espírito. Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”, deixou uma carta póstuma em 1943 e somente publicada em 1956. Intitulava-se “Carta ao General X”. Aí escreveu: “Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano” (“Dare un Senso alla Vita”, Macondo Libri, 2015, p. 31).

Para ele, a vida do espírito ou a espiritualidade é feita de amor, de solidariedade, de compaixão, de companheirismo e de sentido poético da vida. Pelo fato de a vida do espírito vir coberta por um manto de cinzas de egoísmo, indiferença, cinismo e ódio é que as sociedades se tornaram desumanas. Saint-Exupéry chega a dizer: “Temos necessidade de um deus” (pág. 36).

DEUS INTERIOR – Esse Deus não vem de fora. Ele é o que os cosmólogos chamam de “energia de fundo do universo”, inominável e misteriosa, da qual saíram todos os seres. Cosmólogos como Brian Swimme e Freeman Dyson chamam de “abismo alimentador de tudo” ou de “fonte originária de todos os seres”.

Deter-se sobre essa realidade e entrar em diálogo com ela nos torna mais humanos, menos violentos e agressivos. Danah Zohar, física quântica, e seu marido, o psiquiatra Ian Marshall, escreveram um convincente livro sobre o “ponto Deus no cérebro”, denominando-o de “inteligência espiritual” (Record, Rio, 2000). Assim, somos dotados de três tipos de inteligência: a intelectual, a emocional e a espiritual. Cumpre articular as três para sermos mais plenamente humanos.

Estimo que as escolas, além de fornecer um ensino das religiões, ganhariam enormemente se iniciassem os estudantes na vida do espírito.

E OS MESTRES? – Quem estaria apto a orientar essa prática? Professores de psicologia, de pedagogia, de filosofia e de história. A aula poderia ser dividida em duas partes: nos primeiros 20 minutos, pequenos grupos discutiriam um tópico de algum mestre do espírito de distintas procedências. Procurariam internalizar tais conteúdos. Os outros 20 minutos seriam para colocar em comum o que refletiram e fazer um debate aberto.

Como alternativa, pode-se também reservar um tempo para cada estudante se recolher, auscultar sua profundidade e ver o que daí sai: bons e maus sentimentos, conhecendo-se a si mesmo e propondo-se a fortalecer os bons e colocar os maus sob controle. Assim sentiria a vida do espírito, consciente e pessoal.

Temos como matar a fome de pão. Precisamos matar a fome de vida espiritual, que se nota por todos os lados. Ela “seria a única a satisfazer o ser humano”.

A era geológica do Antropoceno e a ameaça que representa à biosfera

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O primeiro a elaborar uma ecologia da Terra como um todo foi o geoquímico russo Vladimir Ivanovich Vernadsky. Ele conferiu caráter científico à expressão “biosfera”, criada em 1875 pelo geólogo austríaco Eduard Suess. Nos anos 70, com James Lovelock, desenvolveu-se a Teoria de Gaia, a Terra que se comporta como um superorganismo vivo que produz e reproduz vida. Gaia, nome grego para a Terra viva, não é tema da New Age, mas o resultado de minuciosa observação científica.

A compreensão da Terra como Gaia oferece a base para políticas globais, como o controle do aquecimento da Terra. Se a temperatura aumentar mais 2°C, milhares de espécies não conseguirão se adaptar e vão desaparecer.

ANTROPOCENO – Vários cientistas se deram conta, já no ano 2000, das mudanças profundas ocorridas na base físico-química da Terra e cunharam a expressão “Antropoceno”. A partir de 2011, o termo já ocupava páginas nos jornais.

Com o Antropoceno, pretende-se sinalizar o fato de que a grande ameaça à biosfera é a agressão sistemática dos seres humanos sobre todos os ecossistemas. O Antropoceno é uma espécie de bomba-relógio sendo montada, que, se explodir, pode pôr em risco todo o sistema vida, a vida humana e nossa civilização. Coloca-se a pergunta: o que fazemos, coletivamente, para desarmá-la?

UMA ERA TRÁGICA – Aqui é importante identificar o que fizemos para que se constituísse essa nova era geológica. Alguns a atribuem à introdução da agricultura, há 10 mil anos, quando começamos a interferir no solo e no ar. Outros acham que ela começou no século XVIII, quando se iniciou o processo industrialista que implicou uma sistemática intervenção nos ritmos da natureza, com a ejeção de poluentes no solo, nas águas e no ar. Outros colocam a data em 1945, com a explosão de duas bombas atômicas sobre o Japão e os posteriores experimentos atômicos que espalharam radioatividade pela atmosfera.

Nos últimos anos, as novas tecnologias tomaram conta da Terra, exaurindo seus bens e serviços naturais e causando o lançamento de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera e bilhões de litros de fertilizantes químicos no solo.

MUDANÇA DE HÁBITOS – O imperativo categórico é que urge mudar nossa relação com a Terra. Não dá mais para considerá-la um balcão de recursos de que podemos dispor a nosso bel-prazer. A Terra é pequena, e seus bens e serviços, limitados. Cumpre produzir tudo o que precisamos, não para um consumo desmedido, mas com uma sobriedade compartida, respeitando os limites da Terra e pensando nas demandas dos que virão depois de nós.

Para preservar a vida, a tecnociência é importante, mas igualmente o é a razão cordial e sensível. Nela encontra-se a sede da ética, da compaixão, da espiritualidade e do cuidado com a vida. Essa ética do cuidado, imbuída de uma espiritualidade, nos comprometerá com a vida, contra o Antropoceno. Portanto, faz-se mister construir uma nova ótica que nos abra para uma nova ética, colocando sobre nossos olhos uma nova lente para fazer nascer uma nova mente.

IMPACTO PROFUNDO – Há 65 milhões de anos, um meteoro de 9,6 km de extensão caiu na península de Yucatán, no México. Seu impacto foi o equivalente a 2 milhões de vezes a força da uma bomba nuclear. Três quartos das espécies vivas desapareceram e, junto com elas, todos os dinossauros, depois de terem vivido por 133 milhões de anos sobre a face da Terra. Nosso ancestral mamífero sobreviveu.

Oxalá, desta vez, o meteoro rasante não sejamos nós, sem responsabilidade coletiva e sem o cuidado essencial que protege e salva a vida.

Que governo poderá cortar os quatro nós górdios do Brasil?

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O Brasil está amarrado a quatro nós górdios que ninguém conseguiu ainda desatar e assim libertá-lo para construir um país livre e soberano.O nó górdio vem de uma lenda da Frígia, para onde eram levados os políticos corruptos e, na Era Cristã, os hereges. Era uma espécie de Sibéria, lugar de punição a opositores e defensores de doutrinas heterodoxas.

A lenda diz que, tendo ficado vacante o trono, foi escolhido como rei um camponês de nome Górdio. Veio com seu carro de bois. E, para honrar Zeus e mostrar a humildade de sua origem, colocou a carroça dentro do templo. Amarrou-a com corda com infindáveis nós, de sorte que ninguém conseguia desatá-os. E assim ficou por muito tempo. Até que, no ano 334 a. C., passou por lá Alexandre, o Grande. Curioso, foi ver os nós. Teve uma iluminação. Desembainhou a espada. Num golpe, cortou a corda. Daí derivou a conclusão de que uma ideia fora dos quadros convencionais pode facilmente desatar os nós e resolver o problema.

AINDA AMARRADO – O Brasil está amarrado a quatro nós górdios, sem que chegue alguém que liberte o país deles. Mas um dia isso irromperá.

O primeiro é o etnocídio indígena. Eram cerca de 4 milhões. O extermínio os reduziu a 800 mil hoje. O extermínio mais vergonhoso foi a decisão de dom João VI, em 1808, de declarar uma guerra contra os Krenak (botocudos) do Vale do Rio Doce. Eram tidos como indomesticáveis. Quase foram exterminados. Alguns fugiram, e hoje Ailton Krenak é um dos líderes maiores dos povos sobreviventes. Esses povos originários são tratados como inferiores até hoje, suas terras não são demarcadas, e muitos deles são ainda assassinados.

PASSADO COLONIAL – O segundo nó górdio é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento: implica invadir terras, impor a língua, a política e a religião e desestruturar a cultura dos colonizados. A Colônia criou duas instituições que se transformaram em estruturas mentais: a casa-grande do senhor, que tem o poder de vida e morte sobre os subordinados, e a senzala, onde vivem os escravos, sem qualquer direito.

Sempre dependemos de fora, considerando o que é estrangeiro melhor do que nosso próprio produto. Deixamos surgir o sentimento de “vira-lata” sem autovalorização.

ESCRAVIDÃO – O terceiro nó górdio foi a escravidão. Quatro e meio milhões de africanos foram trazidos como escravos. Eram postos no pelourinho para serem vendidos como trabalhadores no engenho ou como serviçais nas cidades. Eram proibidos de constituir família.

Os filhos eram vendidos para longe, rompendo o laço de afeto com a mãe. Eram tratados como animais. Daí resultam a falta de respeito, a discriminação e o ódio contra os negros e seus descendentes. Isso perdura até os dias de hoje.

PATRIMONIALISMO – O quarto nó górdio que obnubila a realidade brasileira é o patrimonialismo associado à corrupção. As oligarquias consideram privado o bem público, ocupando altos postos no aparelho do Estado. Controlam as políticas públicas. Aliam-se a empresas privadas para realizar projetos do Estado, ganhando propinas pela mediação ou superfaturando as obras. A corrupção foi naturalizada. Somente agora os donos de grandes empresas e políticos dos mais altos escalões foram desmascarados pela Lava Jato, e muitos deles, postos na prisão. Esse nó górdio é o mais difícil de ser desatado.

Se o Brasil quiser construir seu próprio caminho, ganhar autonomia e contribuir para o devenir da nova fase planetária da Terra, deverá cortar esses quatro nós górdios. Um governo com liderança e coragem, e com sentido de nacionalidade, poderá fazer isso. Não percamos a esperança de que esse dia chegará.

A cidadania e o projeto de deixar de ser massa e passar a ser povo

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Entendemos por cidadania o processo histórico-social que capacita a massa humana a forjar condições de consciência, de organização e de elaboração de um projeto no sentido de deixar de ser massa e de passar a ser povo. O grande desafio histórico é certamente este: como fazer das massas anônimas, deserdadas e manipuláveis, um povo brasileiro de cidadãos conscientes e organizados. E como situar-se hoje diante do projeto dos golpistas de 2016? Vejo seis dimensões de uma cidadania plena.

1) A dimensão econômico-produtiva: a pobreza material e política é produzida e cultivada pelas oligarquias, pois assim podem explorar melhor as massas. Isso é profundamente injusto. O pobre que não tiver consciência das causas de sua pobreza pela exploração não terá condições de realizar sua emancipação.

2) A dimensão político-participativa: se as pessoas não lutarem por sua autonomia e participação social, nunca serão cidadãos plenos.

3) A dimensão popular: o tipo de cidadania vigente é de corte liberal-burguês, por isso inclui os que têm uma inserção no sistema produtivo e marginaliza os demais. É uma cidadania reduzida. Não se reconhece ainda o caráter incondicional dos direitos. A construção da cidadania deve começar lá embaixo e estar aberta a todos. Ela já é exercida nos inúmeros movimentos sociais e associações comunitárias nas quais os excluídos constroem um novo tipo de cidadania.

4) A dimensão de concidadania: a cidadania não define apenas a posição do cidadão face ao Estado, como sujeito de direitos. A concidadania define o cidadão face a outro cidadão pela solidariedade e pela cooperação, como foi mostrado na Campanha contra a Fome, a Miséria e em favor da Vida, herança imorredoura de Betinho.

5) A cidadania ecológica: cada cidadão tem o direito de gozar de qualidade de vida. Isso só será possível se houver uma relação de cuidado e de respeito com a natureza. E se mostra pelo cuidado com o ar, as águas, os solos. Cada cidadão deve se conscientizar para garantir um futuro à Casa Comum e deixá-la habitável para as gerações futuras.

6) A cidadania terrenal: a concidadania se abre hoje à dimensão planetária, incorporando cuidados com a única Casa Comum e com bens e serviços limitados. Importa viver os vários erres do pensamento ecológico: reduzir, reusar, reciclar, rearborizar, rejeitar a propaganda enganosa, respeitar todos os seres etc.

PROJETOS ANTAGÔNICOS – Após o golpe jurídico-parlamentar de 2016, a cidadania é desafiada a confrontar-se com dois projetos antagônicos, disputando a hegemonia. O primeiro é o projeto dos endinheirados, articulados com as corporações transnacionais, que querem um Brasil menor, de no máximo 120 milhões de pessoas, pois assim acreditam que daria para administrá-lo sem preocupações.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo e soberano face às pressões das potências militaristas, que visam estabelecer um império e viver da rapinagem das riquezas de outros países. Estes se associam com as elites nacionais, que estão por trás do golpe de 2016.

FORÇAS DESIGUAIS – A correlação de forças é muito desigual e corre em favor das oligarquias. Mas estas não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros, especialmente para os pobres, senão mais empobrecimento. Essas elites não são portadoras de esperança e, por isso, estão condenadas a viver sob o medo permanente de que, um dia, a situação possa se reverter e acabar com sua opulência e privilégio. Esse dia chegará.

O futuro pertence especialmente aos humilhados e ofendidos de nossa história, que herdarão as bondades que a Mãe Terra Brasil reservou a todos. Valeram a pena sua resistência, a indignação e a coragem de mudar em direção a um Brasil do qual possamos nos orgulhar.

Betinho foi um homem de grandes sonhos e de muitas realizações

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Em agosto ocorreram várias homenagens nos 20 anos da morte do sociólogo e ativista social Herbert de Souza, conhecido como Betinho. Há mortos que recordamos com saudade, mas há também mortos que celebramos com júbilo. Estes não estão ausentes, são apenas invisíveis. É o caso de Betinho. Em suas próprias palavras, sua vida foi uma sucessão infinita de sortes: hemofílico, sobreviveu à tuberculose e, por fim, confrontou-se corajosamente com a Aids. Militou na esquerda católica contra a ditadura militar, viveu no exílio no Chile, no Canadá e no México. Regressou em 1979, recebido por uma multidão, reconhecido como o irmão de Henfil, genial cartunista. Aldir Blanc e João Bosco imortalizaram Betinho com a canção sempre cantada “O Bêbado e a Equilibrista” sobre “a volta do irmão do Henfil”.

Betinho foi um homem de grandes sonhos e de não menores realizações: a fundação da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida; o Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (Coep); em colaboração com o engenheiro de Furnas André Spitz, com o Coppe e o Coep ajudou a formar o Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome, Comitês da Cidadania pelo Brasil afora, o Natal sem Fome e a Abia, para o estudo da Aids, entre outras.

COMBATE À FOME – Entre 1993 e 2005 a Ação da Cidadania distribuiu 30.351 toneladas de alimentos, beneficiando cerca de 3 milhões de famílias.

Sua prioridade absoluta, verdadeira obsessão humanitária, era o combate à fome. Costumava responder aos que o acusavam de certo assistencialismo que “a fome tem pressa”, não permite esperar a grande revolução. Com razão dizia Gandhi que a fome é “a forma de violência mais assassina que existe”. Isso Betinho queria evitar a todo custo.

Dar de comer nunca pode ser um gesto apenas assistencialista, mas de um humanismo em grau zero. Juntos repetíamos com frequência: “O pão que tenho em minhas mãos é material; mas o pão que entrego ao faminto é espiritual, pois vai carregado de amor, de compaixão e de humanidade e salva a vida”.

OPÇÃO SOCIAL – Ao regressar ao país, optou pela sociedade civil, e não pelos partidos e pela participação no Estado. Na sociedade civil via a presença de potencial de solidariedade e de criatividade que poderia ser mobilizado em favor das grandes causas nacionais: cobrar ética na política, reconstruir a democracia pela base, participativa e popular, promover a urgência da reforma agrária em terras do campo e da cidade, combater a fome, incentivar a educação na linha de Paulo Freire.

Betinho era um indignado com a antirrealidade brasileira dos milhões de marginalizados, castigados pela fome e pelas doenças. Mas não era um resignado. Logo lançava projetos para pô-los em prática, sempre com um sentido de trabalho coletivo e solidário.

NOS DIAS DE HOJE – Se vivesse hoje com a desordem social provocada pelo infame golpe parlamentar, jurídico e midiático, atrás do qual se escondem as classes oligárquicas, que Darcy Ribeiro considerava as mais insensíveis e reacionárias do mundo, o que vem sendo repetido por Jessé Souza, Betinho estaria seguramente na rua mobilizando o povo, os movimentos, os que ainda acreditam no Brasil, para defender nossa frágil democracia e salvar os direitos sonegados aos trabalhadores e aos futuros aposentados, defender as terras indígenas e impedir a venda de terras nacionais a estrangeiros.

Os escândalos da corrupção milionária, atingindo a maioria dos partidos e as grandes empresas, seguramente levariam a retomar com vigor o tema sobre o qual tanto se debatia: a ética na política e a transparência em todas as coisas. Que falta nos faz Betinho.

Solidariedade, a condição humana que está sendo esquecida nos tempos atuais

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há falta clamorosa de solidariedade no momento atual. Neste exato momento, 20 milhões de pessoas estão ameaçadas de morrer, literalmente, de fome no Iêmen, na Somália, no Sudão do Sul e na Nigéria. O grito dos famélicos dirige-se ao céu e a todas as direções, e quem os escuta? Um pouco a ONU e só algumas corajosas agências humanitárias.

Por causa dos ajustes promovidos pelos atuais governantes, que deram um golpe parlamentar visando impor sua agenda neoliberal, há pelo menos 500 mil famílias que perderam o Bolsa Família. Pobres estão caindo na miséria da qual haviam saído, e miseráveis estão tornando-se indigentes.

COOPERAÇÃO – É urgente resgatarmos o significado antropológico fundamental da solidariedade. Ela é antissistêmica, pois o capitalismo é individualista e rege-se pela concorrência, não pela solidariedade e pela cooperação. Isso vai contra o sentido da natureza.

Dizem-nos os etnoantropólogos que foi a solidariedade que nos fez passar da ordem dos primatas para a ordem dos humanos. Quando nossos ancestrais antropóides saíam para buscar seus alimentos não os comiam individualmente. Traziam-nos ao grupo para, juntos, comerem. Viviam a comensalidade, própria dos humanos. A solidariedade está na raiz da hominização.

O filósofo Pierre Leroux, em meados do século XIX, ao surgirem as primeiras associações de trabalhadores contra a selvageria do mercado, resgatou politicamente essa categoria. Era cristão, mas disse: “Devemos entender a caridade cristã hoje como solidariedade mútua entre os seres humanos”.

RECIPROCIDADE – A solidariedade implica reciprocidade entre todos como fato social elementar. Daí nasceu a economia do dom mútuo, tão bem analisada por Marcel Mauss. Se bem repararmos, a natureza não criou um ser para si mesmo, mas todos os seres uns para os outros. Estabeleceu entre eles laços de mutualidade e redes de relações solidárias. A solidariedade originária nos faz a todos irmãos e irmãs dentro da mesma espécie.

Se não houvesse solidariedade, nem teríamos condições de sobreviver. Não possuímos nenhum órgão especializado (Mangelwesen de A. Gehlen) que garanta nossa subsistência. Para sobreviver, dependemos do cuidado e da solidariedade dos outros. Esse é um fato inegável, outrora e ainda hoje.

Mas precisamos ser realistas, adverte-nos E. Morin. Somos simultaneamente sapiens e demens, não como decadência da realidade, mas como expressão de nossa condição humana.

AMBIGUIDADE – Podemos ser sapientes e solidários e criar laços de humanização. Mas podemos também ser dementes e destruir a solidariedade.

Foi por causa desse momento demente que Hobbes e Rousseau viram a necessidade de um contrato social que nos permitisse conviver e evitasse que nos devorássemos. O contrato social não nos dispensa de resgatar continuamente a solidariedade que nos humaniza, sem a qual o lado demente predominaria sobre o sapiente.

É o que estamos vivendo nos níveis mundial e nacional, pois pouquíssimos controlam as finanças e o acesso aos bens e aos serviços naturais, deixando mais da metade da humanidade na indigência. Bem diz o papa Francisco: o sistema imperante é assassino e antivida.

Entre nós, as atuais políticas de ajustes fiscais estão onerando especialmente os pobres e beneficiando aqueles poucos que controlam os fluxos financeiros. O Estado, enfraquecido pela corrupção, não consegue frear a voracidade da acumulação ilimitada das oligarquias. É urgente resgatarmos o paradigma básico de nossa humanidade tão olvidado: a solidariedade essencial. Fora dela, desvirtuaremos nossa humanidade e a dos outros.

A democracia está sob ataque em todo o mundo, inclusive no Brasil

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Charge sem autoria (blog Boca Maldita)

Leonardo Boff
O Tempo

O pressuposto básico de toda democracia é: o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja direta, seja indiretamente, por representantes. Como se depreende, democracia não convive com a exclusão e a desigualdade. Verdadeiro é o juízo de Pedro Demo, brilhante sociólogo da Universidade de Brasília, em sua “Introdução à Sociologia”: “Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis ‘bonitas’, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”.

Não obstante, não desistimos de querer gestar uma democracia enriquecida, especialmente a partir dos movimentos sociais de base, proclamando o ideal de uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluída.

O REGIME IDEAL – Será uma democracia sem fim, conforme Boaventura de Souza Santos, cotidiana, vivida em todos os relacionamentos: na família, na escola, na comunidade, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos e, evidentemente, na organização do Estado democrático de direito. Portanto, pretende-se uma democracia mais que delegatícia, que não comece e termine no voto, mas uma democracia como modo de relação social inclusiva, como valor universal (vide Norberto Bobbio) e que incorpore os direitos da natureza e da Mãe Terra – uma democracia ecológico-social.

Esse último aspecto nos obriga a superar um limite interno do discurso corrente da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos seres humanos e na sociedade. O antropocentrismo e o sociocentrismo representam um reducionismo. Pois o ser humano não é o centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres não entrassem em nossa existência, não tivessem valor em si mesmos e somente ganhassem sentido e valor enquanto ordenados ao ser humano e à sociedade.

CORRENTE DA VIDA – Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio ambiente e com as precondições físico-químicas, não existe nem subsiste. Na era da nascente geossociedade e da conscientização ecológica e planetária, a natureza, o ser humano e a sociedade estão indissoluvelmente relacionados: possuem um mesmo destino comum, como bem dizem a encíclica do papa Francisco “Cuidando da Casa Comum” e a “Carta da Terra”.

A perspectiva ecológico-social tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da terra e da vida que a lei básica que subjaz à cosmogênese e a todos os ecossistemas é a cooperação de todos com todos, a sinergia, a simbiose e a inter-relação entre todos, e não a vitória do mais forte.

IDEAL BUSCADO – A democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adéqua à natureza humana cooperativa e societária. Realizar a democracia significa avançar mais e mais no reino do especificamente humano. Significa religar-se também mais profundamente com a Terra e com o Todo.

É o ideal buscado. No entanto, o que estamos vendo nos dias atuais é o contrário: um ataque à democracia em níveis mundial e nacional. O avanço do neoliberalismo ultrarradical, que concentra poder em pouquíssimos grupos, radicaliza o consumismo individualista e alinha os países à lógica do império norte-americano, solapa as bases da democracia. O golpe parlamentar dado no Brasil se inscreve dentro desse ideário.

Crítica aos fundadores da fissura entre o ser humano e a natureza

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quero apresentar um livro que, brevemente, sairá traduzido no Brasil: “A Pachamama e o Ser Humano”, de Eugenio Raúl Zaffaroni, bem conhecido no Brasil nos meios jurídicos. É um reconhecido magistrado argentino, ministro da Suprema Corte de 2003 a 2014 e professor emérito da Universidade de Buenos Aires.

O presente livro se inscreve entre as melhores contribuições de ordem ecológica e filosófica que se tem escrito ultimamente. Ele se situa na esteira da encíclica do Papa Francisco “Laudato Si” sobre o cuidado da Casa Comum. Zaffaroni aborda a questão da ecologia integral, em especial da violência social, e particularmente contra os animais, exibindo uma informação admirável de ordem científica e filosófica.

UM CORTE LETAL – O mais importante do livro é a crítica ao paradigma dominante, surgido com os pais fundadores da modernidade dos séculos XVI e XVII, que, ex abrupto, introduziram uma profunda fissura entre o ser humano e a natureza. O contrato natural, presente nas culturas desde tempos imemoriais, do Ocidente e do Oriente, sofreu um corte fatal e letal.

A Terra deixou de ser a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos contemporâneos, portanto algo vivo e gerador de vida, para ser transformada numa coisa inerte (“res extensa” de Descartes), num balcão de recursos colocados à disposição da voracidade ilimitada dos seres humanos. Clássica é a formulação de René Descartes: o ser humano é o “maître et possesseur” da natureza, vale dizer, é o senhor e dono da natureza. Ele pode fazer dela o que bem entender. E o fez.

A cultura moderna se construiu sobre a compreensão do ser humano como “dominus”, como senhor e dono de todas as coisas. Estas não possuem valor intrínseco, como vão afirmar mais tarde a Carta da Terra e, com grande vigor, a encíclica papal. Seu valor reside apenas em poder estar a serviço do ser humano.

A DOMINAÇÃO – O projeto é o do poder entendido como capacidade de dominação sobre tudo e sobre todos, a partir de quem mais poder possui. No caso, os europeus, que realizaram a aventura do submetimento da natureza, da conquista do mundo, da colonização de nações inteiras, do genocídio, do ecocídio e da destruição de culturas ancestrais. E o fizeram usando a força brutal das armas, da espada e também da cruz. Hoje em dia, com armas capazes de extinguir a espécie humana.

Zaffaroni rastreia o surgimento desse projeto civilizatório e o faz com grande riqueza bibliográfica. Enfrenta com coragem e com grande liberdade crítica os presumidos corifeus do pensamento moderno, como Hegel, Spencer, Darwin e Heidegger. Hegel tornou-se o expoente maior do etnocentrismo. Spencer, com seu biologismo, estabeleceu a raça branca como superior, o que acabou por legitimar o colonialismo.

PREDADORES HUMANOS – Zaffaroni aborda a questão do animal visto como sujeito de direitos. O autor é duro na constatação “de que nos convertemos nos campeões biológicos da destruição intraespécie e nos depredadores máximos extraespécie”.

A América Latina foi a primeira a inaugurar um constitucionalismo ecológico, inserindo nas Constituições do Equador e da Bolívia os direitos da natureza e da Mãe Terra. Anteriormente, e também por primeiro, foi o México a introduzir em sua Constituição de 1917 os direitos sociais.

Zaffaroni nos traz uma brilhante e convincente perspectiva, crítica severa por um lado, mas cheia de esperança por outro. Vale lê-lo, estudá-lo e incorporar em nossa compreensão sua visão de uma ecologia holística e profundamente integradora de todos os elementos da natureza e do universo.

A consciência persegue o corrupto mesmo que ninguém o condene

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma voz dentro de nós que nunca conseguimos fazer calar. É a voz da consciência. Ela está acima da ordem estabelecida e das leis vigentes. Há fatos criminosos como roubar o dinheiro destinado à saúde e à educação, praticar verdadeira pilhagem de milhões de reais que eram para a infraestrutura e outros crimes, e pode o criminoso acostumar-se a tais práticas a ponto de criar uma segunda natureza e pensar: “Como a coisa é de todos, portanto não é de ninguém, posso me apropriar dela”. Se ocupa um cargo público, “quem se enriquece nessa posição é esperto, quem não o faz é bobo”. A corrupção, endêmica no Brasil, se rege por tal sofisma.

Mas ninguém pode livrar-se da voz interior, da natureza primeira, que inapelavelmente o acusa e pede punição. Pode fugir como Caim, mas ela continua, como um tímpano, a vibrar dentro dele. O corrupto foge mesmo que a Justiça não o persiga. Quem é esse que vê dentro do coração e para o qual não existem segredos e câmaras secretas? Novamente, a consciência: ela julga, admoesta, corrói por dentro, aplaude e condena.

DEUS EM NÓS – Os homens do espírito de ontem e de hoje testemunham: é Deus dentro de nós. Pouco importa o nome que lhe dermos. Mas tem a ver com uma instância que é mais alta que nós, cuja voz não consegue ser abafada pelo vozerio humano por mais forte que seja. Com acerto escreveu Sêneca: “A consciência é Deus dentro de ti, junto de ti e contigo”.

Abundam exemplos. No ano 310, Maximiliano mandou dizimar uma unidade de soldados cristãos porque se negaram a matar. Escreveram: “Somos teus soldados, imperador, mas antes somos servos de Deus. A ti fizemos o juramento imperial, mas a Deus prometemos não praticar nenhum mal. Preferimos morrer a matar. Preferimos ser mortos como inocentes a viver com a consciência acusando-nos”.

Em 1944, escreveu a seus pais um soldado alemão e cristão: “Fui condenado à morte porque me neguei a fuzilar prisioneiros russos indefesos. Prefiro morrer a levar pela vida afora a consciência carregada com o sangue de inocentes. Foi a senhora, querida mãe, que me ensinou sempre a seguir a consciência. Chegou a hora de viver essa verdade”.

VOZ DA CONSCIÊNCIA – Que força é essa que encheu de coragem os soldados romanos e o soldado alemão para poderem agir assim? É a voz da consciência. Nós não a criamos, por isso não podemos destruí-la. Podemos desobedecê-la. Negá-la. Recalcá-la. Mas fazê-la silenciar, isso não podemos.

A consciência é intocável e suprema. O respeito a ela é tão grande que até a consciência errônea deve ser ouvida e seguida. Por isso, os bispos reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) deixaram escrito: “A consciência, mesmo quando erra, não perde sua dignidade”.

Está em consciência invencivelmente errônea a pessoa que empenha todos os esforços para buscar sinceramente a verdade, perguntando, estudando, deixando-se aconselhar por outros e questionando a si mesmo e, mesmo assim, erra.

ERRAR E CORRIGIR – Todo homem pode errar com a melhor das boas vontades. Por isso, deve sempre interrogar-se como está escutando ou não a voz interior. Albert Camus, referindo-se à moral da obediência cega, escreveu: “A boa vontade pode causar tanto mal quanto a má, quando não for suficientemente bem-informada”, quer dizer, quando não escutar a voz da consciência, chamando-o para a boa ação.

Escrevemos isso pensando na vergonhosa corrupção que contaminou nossa sociedade, especialmente os donos de empresas e políticos, até o desastrado presidente da República. São moucos face a sua consciência que os incrimina.