A desordem mundial e o espectro da dominação total

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O Tempo

O título é do último livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), nosso mais respeitado analista de política internacional. O autor teve acesso às mais seguras fontes de informação e a múltiplos arquivos, aliando tudo a um vasto conhecimento histórico. Moniz Bandeira é, antes de mais nada, um minucioso pesquisador e, ao mesmo tempo, um militante contra o imperialismo estadunidense, cujas entranhas corta com um bisturi de cirurgião. Os materiais de que dispõe lhe permitem denunciar a lógica imperial presente no subtítulo: “Guerras por Procuração, Terror, Caos e Catástrofes Humanitárias”. Quem ainda nutre admiração pela democracia norte-americana e procura se alinhar aos desígnios imperiais (como fazem neoliberais brasileiros) encontrará vasto material para reflexão crítica e dados para uma leitura do mundo mais diferenciada.

Dois motes orientam o centro do poder do Estado norte-americano com seus inumeráveis órgãos de segurança: “um mundo e um só império”, ou “um só projeto e o espectro da total dominação”. Quer dizer, a política externa norte-americana se inspira no (ilusório) “excepcionalismo” do velho “destino manifesto”, uma variante do “povo eleito por Deus, de raça superior”, chamada a difundir no mundo todo a democracia, a liberdade e os direitos e se considerar “a nação indispensável e necessária”.

MONARCAS – No século XVIII, Edmund Burke (1729-1797) e, no século XIX, o francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) pressentiram que o presidente norte-americano detinha mais poderes que um monarca absolutista. Efetivamente, sob George W. Bush – por ocasião dos atentados às Torres Gêmeas –, se instaurou a verdadeira democracia militar, com a declaração da “guerra contra o terror” e a publicação do “Patriotic Act”, que suspendeu os direitos civis básicos, como o habeas corpus, e instaurou a permissão de torturas. Na verdade, isso configura um Estado terrorista.

Como vários cientistas norte-americanos citados por Moniz Bandeira afirmaram: “Não há mais uma democracia, mas uma dominação da elite econômica à qual se deve submeter o presidente”. As decisões são tomadas pelo complexo industrial-militar, por Wall Street, por ponderosas organizações de negócios e por um pequeno número de norte-americanos muito influentes.

Para garantir o espectro da total dominação, são mantidas 800 instalações militares pelo mundo afora e 16 agências de segurança, com 107.035 civis e militares. De 1776 a 2015, portanto, em 239 anos de existência dos EUA, 218 foram anos de guerra e apenas 21 anos de paz.

OBAMA NADA FEZ – Esperava-se que Barack Obama desse outro rumo a essa história violenta. Ilusão. Trocou apenas os nomes, mas manteve todo o espírito excepcionalista e as torturas em Guantánamo e em outros lugares fora dos Estados Unidos, como no tempo de Bush. Com certa decepção, constatou Bill Clinton, “desde 1945 os EUA não venceram nenhuma guerra”. Do Iraque fugiram em sigilo e na calada da noite.

O livro de Moniz Bandeira entra em detalhes sobre a guerra na Ucrânia, na Crimeia e contra o Estado Islâmico na Síria, dando nomes aos principais atores e datas. A conclusão é avassaladora: “Onde quer que os EUA intervieram, com o específico objetivo de ‘espalhar’ a democracia, constitui-se de bombardeios, destruição, terror, massacres, caos e catástrofes humanitárias… Entraram para defender suas necessidades e seus interesses econômicos e geopolíticos, seus interesses imperiais”.

A mola de informações arroladas sustenta essa afirmação, não obstante as limitações que sempre poderão ser apontadas.

Por que Deus não usou seu poder e acalmou o furacão Matthew?

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Furacão agrava a miséria que assola a a população do Haiti

Leonardo Boff
O Tempo

Quando vemos nas primeiras páginas dos jornais a devastação que o furacão Matthew provocou agora em outubro, nos perguntamos angustiados: “Deus, onde estavas naquele momento em que a fúria assassina do furacão Matthew se abateu sobre o Haiti e os Estados Unidos? Por que não usaste teu poder para amainar a virulência destruidora daqueles ventos e daquelas águas inimigas da vida? Por que não intervieste se podias fazê-lo?”

“Nem sequer permitiste aos haitianos tempo suficiente para se recuperarem da devastação que significou o terremoto de 2010. Por que agora enviaste outro látego para açoitar e matar?”

“Tu bem sabes, Senhor: o povo haitiano é um dos mais pobres do mundo. Negros, conheceram todo tipo de discriminação. Foram oprimidos por ditadores ferozes. Tudo sofreram, tudo suportaram. Não desistiram. E eis que, de novo, foram açoitados pela natureza rebelada. Onde está tua piedade?”

DESÍGNIOS DE DEUS – Não entendemos os desígnios dAquele que se revelou como Pai de infinita bondade. Ele pode ser Pai de uma forma misteriosa que não conseguimos compreender. Muito menos pretendemos ser juízes de Deus. Mas podemos, sim, gritar como Jó, Jeremias e Jesus, que clamou: “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34).

Nossos lamentos não são blasfêmias, mas um grito humilde e insistente a Deus: “Desperta! Não te esqueças da paixão daqueles que atualizam a Paixão de teu Filho bem-amado”.

Seguramente, as invectivas de Jó contra Deus por causa do sofrimento incompreensível, e as lamentações de Jeremias vendo Jerusalém conquistada, foram incluídas no rol das escrituras judaico-cristãs para que nos servissem de exemplo.

A MORTE NA CRUZ – Podemos gritar como Jó e nos lamentar como Jeremias. Mais ainda, podemos, no limite do desespero, bradar como Jesus na cruz, experimentando o inferno da ausência do Deus que sempre o chamava de “Abba”, “meu querido paizinho”. E Ele silenciou e não o livrou da morte na cruz.

Semelhante lamentação como a nossa expressou de forma comovente o papa Bento XVI quando visitou o campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau, onde mais de 1 milhão de judeus e outros seres humanos foram enviados às câmaras de gás: “Quantas perguntas surgem neste lugar. Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar esse excesso de destruição, esse triunfo do mal?” Como nunca antes, o papa Bento XVI se mostrou um finíssimo teólogo que, como homem de fé sensível, ousou queixar-se diante de Deus.

NOBRE SILÊNCIO – Embora guardemos um nobre silêncio diante de tamanha dor, perseveramos na fé como Jó, Jeremias e Jesus. Jó chegou a dizer: “Mesmo que me mates, Senhor, ainda assim continuo a confiar em Ti. Antes Te conhecia só por ouvir dizer, mas agora viram-Te meus olhos (42,5)”.

As últimas palavras de Jesus foram: “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46). E Deus o ressuscitou para mostrar que a dor, mesmo misteriosa, não escreve o último capítulo da história, mas a vida em seu esplendor.

Na esperança ansiamos por aquele dia em que “Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos e a morte não existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Apocalipse 21,4).

E nunca mais haverá tsunamis, nem Katrinas, nem Matthews, porque surgirá uma nova Terra, onde o ser humano terá aprendido a cuidar da natureza, e esta nunca mais se rebelará contra ele.

A política como mediação para realizar o bem comum

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Passaram-se as eleições municipais dentro de um contexto político dramático: o governo federal tem baixa credibilidade e legitimidade discutível. Grande parte dos políticos visa chegar ao poder por interesse e, uma vez nele, busca promover sua reeleição. Muitos deles não vivem para a política, mas da política. Deforma-se assim a natureza da política como busca do bem comum. Pior, o político interesseiro se coloca acima do bem e do mal. Só faz o bem quando possível e o mal sempre que necessário.

Mas importa denunciar: trata-se do exercício perverso do poder político. Max Weber, em famoso texto de 1919 aos estudantes da Universidade de Munique, desanimados com as condições humilhantes impostas pelas potências que venceram a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, já havia advertido em “A Política como Vocação”: “Quem faz política busca o poder. Poder, ou como meio a serviço de outros fins, ou poder por causa dele mesmo, para desfrutar do prestígio que ele confere”.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por grande parte de nossas elites, esquecendo o sujeito e o destinatário de todo o poder, que é o povo.

SOBERANIA POPULAR – Precisamos resgatar o poder como expressão político-jurídica da soberania popular e como meio a serviço de objetivos sociais coletivos. Só este é moral e ético. É imperativo, pois, contar com políticos que não façam do poder um fim em si e para seu proveito, mas uma mediação necessária para realizar o bem comum, a partir de baixo, dos excluídos e marginalizados.

É nesse contexto que queremos recuperar esta figura ímpar de político dos tempos modernos: Mahatma Gandhi. Para ele, a política “é um gesto amoroso para com o povo”, que se traduz pelo “cuidado com o bem-estar de todos a partir dos pobres”. O mesmo se poderia dizer de outra figura exemplar: Nelson Mandela.

Nestes tempos de desesperança política, por causa do ódio que grassa na sociedade, e também por aquilo que não poucos denunciam como um golpe parlamentar-judiciário contra uma presidente consagrada por uma eleição majoritária, precisamos reforçar os governantes que se propõem cuidar do povo e fazer com que o cuidado se constitua na marca da condução da vida social no município, no Estado e na Federação.

CUIDAR DOS POBRES – Na verdade, o Brasil precisa urgentemente de quem cuide dos pobres e marginalizados. Lula e Dilma se propuseram cuidar, e não administrar o povo, mediante políticas sociais de resgate de sua vida e dignidade. Atualmente, predomina uma política que cuida menos do povo e mais dos ajustes severos na economia. Tudo é feito sem escutar o povo e até contra direitos sociais conquistados a duras penas.

Que não se diga que tal diligência representa já cuidado para com o povo. Cuidado meticuloso e até materno há, sim, para com as elites dominantes, para com os bancos e o sistema financeiro nacional e internacional.

Em lugar de cuidado, há administração das demandas populares, atendidas de forma paliativa, mais para abafar a inquietação e afogar a revolta justa do que para atacar as causas de seu sofrimento.

ESCUTAR O POVO – O cuidado para com o povo exige conhecer suas entranhas por experiência, sentir seus apelos, compadecer-se de sua miséria, encher-se de iracúndia sagrada e escutar, escutar e escutar. Deveria haver um Ministério da Escuta, como existe em Cuba. Escutar a saga do povo, seus padecimentos e suas esperanças, o Brasil que sonha. O que ele mais quer é dignidade e ser reconhecido como gente e ser respeitado.

O povo merece esse cuidado, essa relação amorosa que espanta a insegurança, confere confiança e realiza o sentido mais alto da política.

A persistência do bullying sobre o Partido dos Trabalhadores e Dilma

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É notório o bullying político e social sofrido persistentemente pelo PT e por Dilma Rousseff. Uma coisa é reconhecer que houve corrupção e erros políticos do PT, e outra coisa é tributar quase exclusivamente tais fatos e a crise atual ao PT e à ex-presidente.

Para entender esse penoso fenômeno, socorre-nos um dos maiores pensadores da atualidade que dedicou grande parte de sua obra a decifrar o que seja a agressividade humana e seus disfarces: René Girard (1923-2015), francês, professor de letras e antropólogo, que viveu nos Estados Unidos.

Constata Girard que todos os grupos, e mesmo as sociedades conhecidas, vêm atravessados por tensões e conflitos. O processo civilizatório, a educação, as leis e as religiões propõem um ponto de equilíbrio que permita uma convivência minimamente pacífica ou que impeça que os conflitos não sejam destrutivos.

SEM EQUILÍBRIO – Mas pode chegar um momento em que os conflitos perdem as rédeas e as forças do negativo vão se acumulando, rompendo o referido equilíbrio. Começam os processos de ruptura nas relações sociais e até nas famílias e entre amigos. O instrumento mais usado é a mídia.

Lentamente, emerge o sentimento de que, assim como se encontra, a sociedade não pode continuar. Ela tem que encontrar um novo equilíbrio. Uma das formas, a mais equivocada e persistente, é a criação de um bode expiatório, que varia consoante as circunstâncias históricas: podem ser os comunistas, os sem-terra, os pobres que ascenderam socialmente, os terroristas, os muçulmanos, as esquerdas e outros.

Em nosso caso, o bode expiatório escolhido foi e continua sendo o PT e a ex-presidente Dilma Rousseff. Toda a raiva e o ódio acumulados são lançados sobre o bode expiatório. Ele carrega todas as maldades e é feito responsável por todos os desmandos ocorridos e pela crise econômico-financeira. Esquecidos ficam, consciente ou inconscientemente, todos os acertos, em especial a maior transformação social pacífica feita em nosso país, que implicou a diminuição de nossa maior vergonha, a desigualdade social e, positivamente, a integração de cerca de 40 milhões de pessoas, sempre consideradas peso morto da história.

Mas há outra função, a de ocultar. Ao colocarem toda culpa e todos os males sobre o PT e a ex-presidente, os grupos dominantes ocultam sua própria perversidade e culpa. Apresentam-se, farisaicamente, como paladinos da moralidade e tomados de indignação contra a corrupção. No entanto, exatamente dentro desses grupos dominantes se encontram os maiores corruptos, corruptores e sonegadores de impostos.

BODE EXPIATÓRIO – A Bíblia conhece também a figura do bode expiatório, sobre o qual a comunidade colocava todas as ofensas a Javé e o levava para o deserto para lá morrer. O mesmo faziam os gregos, chamando o bode expiatório de “phármacon”, que, como um remédio farmacêutico, purificava a sociedade de seus desacertos. O cristianismo o vê na figura do cordeiro imolado. O efeito é sempre o mesmo: aplacar a sociedade para que, refeita, possa equilibrar seus conflitos, até que estes se agravem novamente e acabem por criar algum outro bode expiatório.

Assim funciona canhestramente nossa história sacrificialista. Girard vê uma saída sensata: na coordenação dos interesses ao redor do bem comum, na total transparência e na inclusão de todos, sem sacrificar ninguém. Mas reconhece que esse não é o caminho seguido pela maioria das sociedades conhecidas. O mais fácil é criar bodes expiatórios, como se pratica atualmente no Brasil. Para a infelicidade geral.

Madre Teresa de Calcutá, uma santa que não acreditava em Deus

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O Tempo

Deixemos, por um momento, as questões políticas de lado e ocupemo-nos com um tema de grande relevância existencial e espiritual. Trata-se da noite escura que a recém-canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até sua morte, em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk, no livro “Come Be My Light” (“Venha Ser Minha Luz”, em tradução livre).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não foi nossa surpresa quando viemos a saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente?! Essa paixão dolorosa durou quase 50 anos.

OBSCURIDADE – Sabemos que muitos místicos testemunham essa experiência de obscuridade. Constatamo-lo em são João da Cruz, em santa Teresa d’Ávila, em santa Teresa de Lisieux, entre outros. Conhecida é a noite escura de são João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito, “oscura y terrible”, na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

A modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro do imenso aparato tecnológico que criou, vive também essa ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então não seria Deus, mas nós o matamos; ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

VIVENDO NO AMOR -Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou essa experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse”. Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial.

Suspeitamos que Jesus tenha conhecido essa noite terrível. No Jardim das Oliveiras, sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu: “Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus.

UM MODO DE SER – Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou a um dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser; é aderir a uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem” (Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível.

Simone Weil, a judia que, na Segunda Guerra Mundial, se converteu ao cristianismo, mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão: “Se quiseres saber se alguém crê em Deus, não repare em como fala de Deus, mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora desses valores.

Madre Teresa de Calcutá, no amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora, que já se transfigurou, viverá a presença de Deus face a face no amor e na comunhão.

Nos golpes de 1964 e 2016, a mesma violência de classe

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Ilustração do Duke ( O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016 há uma conaturalidade estrutural. Ambos são golpes de classe, dos donos do dinheiro e do poder: o primeiro usa os militares, o outro, o Parlamento. Os meios são diferentes, mas o resultado é o mesmo: um golpe com a ruptura democrática e a violação da soberania popular.  Vejamos o golpe de 1964. René Armand Dreifuss, em “1964: A Conquista do Estado, Ação Política, Poder e Golpe de Classe”, deixou claro: “O que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”.

O assalto ao poder de Estado foi tramado pelo general Golbery de Couto e Silva utilizando-se de quatro instituições: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), o Grupo de Levantamento de Conjuntura e a Escola Superior de Guerra (ESG). O objetivo era “readequar e reformular o Estado” para que fosse funcional aos interesses do capital nacional e transnacional. Eis o caráter de classe do golpe.

O assalto ao Estado se deu em 1964 e em 1968, com repressão, tortura e assassinatos. O regime de segurança nacional passou a ser o regime de segurança do capital.

RADIOGRAFIA – Para o golpe de 2016 temos uma minuciosa investigação do sociólogo e ex-presidente do Ipea Jessé Souza, “A Radiografia do Golpe”. Jessé desvela os mecanismos que permitiram à elite do dinheiro ser a “mandante” do golpe realizado em seu nome pelo Parlamento. Portanto, trata-se de um golpe de classe parlamentar.

Jessé enfatiza que “todos os golpes, inclusive o atual, são uma fraude bem-perpetrada dos donos do dinheiro, que são os reais ‘donos do poder’”. Quem compõe essa elite? É a elite financeira, que comanda os grandes bancos e fundos de investimento e que lidera outras facções de endinheirados, como a do agronegócio, a da indústria (Fiesp) e a do comércio, secundada pelos meios de divulgação que distorcem e fraudam sistematicamente a realidade social como se fosse “terra arrasada e país falido” (é exagero), escondendo os interesses corporativos por trás da fraude golpista.

O motor do processo, reafirma Jessé, é a voracidade da elite do dinheiro de se apropriar da riqueza coletiva com outros sócios, como a mídia ultraconservadora, o complexo jurídico-policial do Estado e parcela do STF (pense-se em Gilmar Mendes).

NO SENADO – O processo de impeachment foi parar no Senado. Este promoveu a destituição da presidente por crime de responsabilidade fiscal. Juristas e economistas, além de testemunhas, negaram a existência de irresponsabilidade. A maioria dos senadores já havia tomado previamente a decisão de depor a presidente.

A conversa entre Romero Jucá, então ministro do Planejamento, e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado, que foi vazada, revelou a tramoia: “Um grande acordo nacional com o Supremo para estancar a sangria da Lava Jato”, livrando do braço da Justiça 49 de 81 senadores indiciados ou metidos em corrupção. Dessa forma, com exceção dos defensores de Dilma, decidiram depor uma mulher honesta e inocente.

UM GOLPE – Condenar sem crime é golpe. Golpe de classe e parlamentar. Golpe significa violar a Constituição e trair a soberania popular por força da qual Dilma Rousseff se elegeu com 54 milhões de votos.

Ontem, em 1964, e hoje, em 2016, seja por via militar, seja por via parlamentar, funciona a mesma lógica: as elites econômico-financeiras e a casta política conservadora praticam a rapinagem de grande parte da renda nacional, contra a vida e o bem-estar da maior parte do povo, submetido à pobreza.

 

‘El día triste’ do Brasil: o golpe parlamentar foi consumado

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

E aconteceu que, naqueles dias, sicários se travestiram de senadores, em grande número, não todos, e decidiram atacar uma dama honrada e incorruptível, que lhes cortava o atalho para chegarem ao poder de Estado. A partir do Estado iriam fazer o que sempre fizeram: aproveitar-se dos bens públicos para autoenriquecimento, escapar desesperadamente do braço da Justiça e levar avante sua situação de privilégio, sempre à custa do povo pobre que eles querem manter longe, nas periferias, um exército de reserva, útil para seus serviços quase à moda de escravos.

Sangraram a dama incorruptível e honrada sob o pretexto de que práticas fiscais suas eram crime, coisa que os maiores especialistas em direito e economia, bem como instâncias oficiais, negaram. Criaram uma farsa e rasgaram a Constituição. Cassar uma presidente sem crime comprovado é um golpe. “Golpe parlamentar”, esse é o termo certo que tem que ser usado.

Eles se mostravam faceiros, farisaicamente dizendo que se sentiam mal, mas falando que inauguravam “uma era, uma nova primavera, o começo de um novo Brasil próspero e justo”. Mentira!

PONTE PARA O ATRASO – O plano “Uma ponte para o futuro”, na verdade, é uma ponte para o atraso porque tenta desmontar os avanços que os trabalhadores, as mulheres, os negros, os povos indígenas, a população LGBT, os pobres e feitos invisíveis alcançaram, pela primeira vez em nossa história, no âmbito da inclusão social, dos salários, da saúde, da educação, das leis trabalhistas, das aposentadorias e de acesso ao ensino técnico e superior. E o mais grave: querem mantê-los no analfabetismo porque assim ficam silenciados e incapazes de reclamar direitos e dignidade.

Agora é o mercado que conta. Quem quer saúde, que vá ao mercado e pague. Quem quer estudar na universidade, que vá ao mercado e pague. Todas as coisas virarão mercadoria a serem vendidas e compradas. Compra-se dignidade? Compra-se solidariedade? Paga-se pelo amor? Não importa. São coisas que para eles não entram na contabilidade. Mas alguém pode viver e ser feliz sem tudo isso?

“LA NOCHE TRISTE” – Houve, nos primórdios da conquista e dominação do México, em 1520, “la noche triste”, quando grande parte do exército espanhol foi dizimada. Hoje, em 2016, temos “el día triste”, no qual uma presidente foi injustamente apeada do poder conquistado pelas urnas.

Pelos espaços do Senado e nos corredores há sangue derramado. Uma “noche política triste” caiu sobre o Brasil, tirando a esperança dos que saíram da miséria e que correm o risco de novamente cair nela.

E todos os que lutaram para que se consolidasse a democracia de cunho social e que se respeitasse a vontade popular, expressa nas urnas, foram novamente traídos. Este dia é o dia dos “longos punhais” que sangraram a dama honrada e feriram gravemente a soberania popular.

DIA DA TRISTEZA – O dia 31 de agosto é o dia da tristeza. Os que tramaram esse teatro e os senadores-sicários levarão a pecha de golpistas e farsantes pela vida afora. A consciência os perseguirá, e sua memória será pulverizada. A vontade de condenar não substitui a razão que se orienta pela verdade. Eles atropelaram a verdade sob o manto da injustiça. Estarão numa sinistra companhia, a daqueles que, anos atrás, assaltaram o Estado, oprimiram o povo, torturaram, como fizeram com a presidente Dilma, e assassinaram tantos que buscavam a restauração da democracia.

E, no entardecer da vida, enfrentarão um Juiz maior que desvelará toda a injustiça que conscientemente cometeram.

Dez lições pós-impeachment que podem conduzir ao ecossocialismo

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Seguramente, é cedo ainda para tirar lições do questionável impeachment que inaugurou uma nova tipologia de golpe de classe via Parlamento. Essas primeiras lições poderão servir ao PT, a aliados e aos que amam a democracia e respeitam a soberania popular, expressa por eleições livres.

1) Alimentar a resiliência, vale dizer, resistir, aprender com os erros e derrotas e dar a volta por cima. Isso implica severa autocrítica, nunca feita com rigor pelo PT. Precisa-se ter claro qual projeto de país se quer implementar.

2) Reafirmar a democracia, aquela que ganha as ruas e praças, contrariamente à democracia de baixa intensidade, cujos representantes, com exceções, são comprados pelos poderosos para defender seus interesses corporativos.

3) Convencer-se de que um presidencialismo de coalizão é um logro, pois desfigura o projeto e induz à corrupção. A alternativa é uma coalização dos governantes com os movimentos sociais e setores dos partidos populares e, a partir deles, pressionar os parlamentares.

4) Convencer-se de que o capitalismo neoliberal, na atual fase de altíssima concentração de riqueza, está dilacerando as sociedades centrais e destruindo as nossas. O neoliberalismo atenuado, praticado nos últimos 13 anos pelo PT e por aliados, permitiu fazer a maior transformação social na história do Brasil, com a melhoria de vida de quase 40 milhões de pessoas. O grande erro do PT foi nunca ter explicado que aquelas ações sociais eram fruto de uma política de Estado. Por isso, criou antes consumidores que cidadãos conscientes. No atual governo pós-golpe, a radicalizada política econômica neoliberal de ajustes severos, recessiva e lesiva aos direitos sociais, seguramente vai devolver a fome e a miséria aos que dela foram tirados.

5) É urgente dar centralidade à educação e à saúde. Os governos Lula e Dilma avançaram na criação de universidades e escolas técnicas, mas cuidaram pouco da qualidade, seja da educação, seja da saúde. Um povo doente e ignorante nunca dará um salto de qualidade rumo a uma prosperidade sustentável.

6) Colocar-se corajosamente ao lado das vítimas da voracidade neoliberal.

7) Colocar sob suspeita tudo o que vem de cima, geralmente fruto de políticas de conciliação de classes, feitas de costas e à custa do povo. Essas políticas vêm sob o signo do mais do mesmo. Preferem manter o povo na ignorância para facilitar a dominação e combatem qualquer espírito crítico.

8) É urgente a projeção de uma utopia de outro Brasil, sobre outras bases, a principal delas, a originalidade e a força de nossa cultura, dando centralidade à vida da natureza, à vida humana e à vida da Mãe Terra, base de uma biocivilização. O desenvolvimento/crescimento é necessário para atender não os desejos, mas as necessidades humanas; deve estar a serviço não do mercado, mas da vida e da salvaguarda de nossa riqueza ecológica.

9) Para implementar essa utopia, faz-se indispensável uma coligação de forças políticas e sociais interessadas em inaugurar o novo viável que dê corpo à utopia de outro tipo de Brasil.

10) Esse novo viável tem um nome: ecossocialismo. Não aquele totalitário da Rússia e o desfigurado da China, que, na verdade, negam a natureza do projeto socialista. Mas o ecossocialismo que visa realizar potencialmente o nobre sonho de cada um dar o que pode e de receber o que precisa, inserindo a todos, a natureza incluída.

Esse projeto deve ser implementado já. A atual crise nos oferece especial oportunidade, que não deverá ser desperdiçada. Ela é dada poucas vezes na história.

Uma receita para enfrentar o fundamentalismo no mundo

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Ilustração do Duke (O Tempo),

Leonardo Boff
O Tempo

Atualmente, em todo o mundo, se verifica aumento do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam por homofobia, xenofobia, antifeminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que sua verdade é a única e que todos os demais são ou desviantes, ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores políticos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religiosos e políticos. O fascismo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

RELATIVISMO –Este conceito deve ser pensado em duas direções. Em primeiro lugar, o relativo quer expressar o fato de que todos estão, de alguma forma, relacionados. Na esteira da física quântica, insiste a encíclica do papa Francisco sobre como cuidar da Casa Comum: “Tudo está intimamente relacionado; todas as criaturas existem na dependência umas das outras”. Por essa interrelação, todos são portadores da mesma humanidade. Somos uma espécie entre tantas, uma família.

Em segundo lugar, importa compreender que cada um é diferente e tem um valor em si mesmo. Mas está sempre em relação com outros e seus modos de ser. Daí ser importante relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar aí, goza de direito de existir e de coexistir.

Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos ianomâmis do Brasil, até chegarmos aos moradores das comunidades da periferia e aos de sofisticados Alphavilles. O mesmo vale para as diferenças de cultura, língua, religião, ética e lazer. Todas essas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas são um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto.

VALE TUDO? – Então, não há verdade absoluta? Vale o “everything goes” de alguns pós-modernos? Traduzindo: “vale tudo”? Não há o vale-tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em suas diferenças, e não prejudicando-os.

Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia, nem um partido político, nem uma ciência. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: “Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a”. Se a buscarmos juntos e no diálogo, então mais e mais desaparece minha verdade para dar lugar a nossa verdade. A ilusão do Ocidente é imaginar que a única janela que dá acesso à verdade e ao saber crítico é seu modo de ver e de viver.

Pensando assim, condena-se a um fundamentalismo visceral responsável por massacres ao se impor sua religião na América Latina e na África. Hoje se fazem guerras com milhares de vítimas civis para impor a democracia no Iraque, no Afeganistão, na Síria e em todo o Norte da África. Aqui se dá também o fundamentalismo ocidental. Devemos fazer o bom uso do relativismo.

Os Jogos Olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada

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Ilustração do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

As Olimpíadas de 2016 deixarão um legado inesquecível para a população carioca por causa da implantação de uma imensa infraestrutura de arenas, estádios, novas avenidas e túneis. Tradicionalmente, a abertura e o encerramento constituem ocasiões de grandes celebrações, nas quais o país-hóspede tenta mostrar o melhor de sua arte e singularidade. A abertura foi de um esplendor inigualável. O ponto alto foi o desfile das delegações de 206 países, número maior que os representados na ONU, que são 193. Cada delegação desfilou em trajes típicos.

Sabemos que em todas as relações sociais subjazem interesses de poder. Nos Jogos Olímpicos, se existiram, ficaram praticamente invisíveis. Predominou o espírito esportivo e olímpico acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas. Até um grupo de refugiados desfilou.

Talvez esse evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente, porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

Esta seja talvez a mensagem simbólica mais importante que um evento como este envia para todos. Para além dos conflitos, diferenças e problemas, podemos viver antecipadamente e, por um momento, a humanidade que se humanizou e encontrou seu ritmo em consonância com o ritmo do próprio universo.

REFLEXÕES – Os Jogos Olímpicos nos dão o ensejo de refletirmos sobre a importância antropológica e social do jogo. Não penso no jogo que virou profissão e grande comércio internacional. O jogo, como dimensão humana, se revela melhor nos meios populares, nas peladas de rua ou na praia, em algum espaço gramado ou arenoso. Esse tipo de jogo não tem finalidade prática nenhuma. Em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de divertir-se juntos.

Nas Olimpíadas impera outra lógica, diferente daquela cotidiana de nossa cultura capitalista, cujo eixo articulador é a competição excludente: o mais forte triunfa e, no mercado, se puder, engole seu concorrente. Aqui há competição, mas ela é includente, pois todos participam. A competição é para o melhor, apreciando e respeitando as qualidades e virtuosidades do outro.

JOGO DE DEUS – A tradição cristã desenvolveu toda uma reflexão sobre o significado transcendente do jogo. Sobre ela quero me concentrar um pouco. As duas igrejas irmãs, a latina e a grega, se referem ao “Deus ludens”, ao “homo ludens” e até à “ecclesia ludens” (o Deus, o homem e a igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado, jogou as estrelas, para outro, o sol, mais abaixo jogou os planetas e, com carinho, jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação expressa a alegria transbordante de Deus, uma espécie de teatro no qual todos os seres desfilam e mostram sua beleza. Falava-se, então, da criação como um “theatrum gloriae Dei” (um teatro da glória de Deus).

Não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo, mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé, mais que aderir a um feixe de verdades, é poder dizer, na esteira de Nietzsche, “sim e amém a toda a realidade”. Em seu profundo, ela não é traiçoeira e má, mas boa e bela, alegre, acolhedora. Alegrar-se por participar dela o expressamos pelo jogo e, de forma universal, pelos Jogos Olímpicos.

Leonardo Boff alerta sobre o projeto de bases militares dos EUA na Argentina

Boff diz que os EUA querem recolonizar a América Latina

O Tempo
(Agência France-Presse)

O ex-padre brasileiro Leonardo Boff, um dos fundadores da Teologia da Libertação, alertou para a possível instalação de duas bases militares americanas na Argentina e denunciou “um projeto para recolonizar a América Latina”, em uma entrevista publicada nesta segunda-feira (15).

“Assusta-nos muito que os Estados Unidos negociem com (o presidente da Argentina) Mauricio Macri duas bases militares, uma na Patagônia e outra na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, perto do maior aquífero do mundo”, declarou Boff ao jornal Página/12.

Em maio passado, o presidente Mauricio Macri enviou uma missão do ministério da Defesa para Washington para retomar o diálogo bilateral na área militar, virtualmente paralisado durante o governo de Cristina Kirchner (2007/2015). Na ocasião, o vice-ministro da Defesa, Angel Tello, admitiu o interesse que a cidade de Ushuaia (3.200 km ao sul de Buenos Aires) “se torne uma base logística para apoiar o trabalho científico na Antártida”, disse ele.

DENÚNCIA – Na semana passada, a deputada de oposição Alcira Argumendo (Projeto Sul, centro-esquerda) denunciou o plano de instalar as bases militares dos Estados Unidos em Misiones, nordeste da Argentina, na chamada Tríplice Fronteira, e Ushuaia, no extremo sul do país. “Não é por acaso que se pretende instalar uma base militar no norte, onde está o aquífero subterrâneo Guarani, a terceira maior reserva de água doce do mundo, e no sul é uma maneira de controlar a Antártida, porque existe outra grande reserva de água doce, mas congelada”, disse a legisladora.

Leonardo Boff, que foi padre franciscano até 1992, disse que “há um projeto para recolonizar a América Latina a fazer dela uma zona de exportação de commodities sem produtos de valor agregado. A América Latina forneceria os bens que não há em outros lugares”, acrescentou.

A questão das bases militares não foi abordada durante a recente visita a Buenos Aires do secretário de Estado americano, John Kerry, indicaram, sem excluir a existência do projeto, diplomatas de ambos os países consultados pela AFP.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGOs Estados Unidos já têm bases na Colômbia. Agora, querem instalar novas unidades na Argentina, inclusive na chamada tríplice fronteira (Brasil-Argentina- Paraguai).  Uma jogada muito esquisita, no mínimo, que merece repúdio total. (C.N.)

De tempos em tempos a plutocracia brasileira tenta um golpe

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A plutocracia brasileira (os 71.440 miliardários, segundo o Ipea) possui pouca fantasia. Usa os mesmos métodos, a mesma linguagem, o mesmo recurso farisaico do moralismo e do combate à corrupção para ocultar a própria corrupção e dar um golpe na democracia e, assim, salvaguardar seus privilégios. Sempre que emerge uma democracia com abertura ao social, enchem-se de medo. Organizam um conluio de forças que envolve setores da política, do Judiciário, do MPF, da PF e, principalmente, da imprensa conservadora e até reacionária. Assim fizeram com Vargas, com Jango e, agora, com Lula e Dilma. A sessão de 4.8.2016 no Senado mostrou a farsa montada pela oligarquia, que usou os senadores como os soldados civis previamente bem-instruídos, para aplicar um funesto golpe contra a razão sensata.

Numa entrevista à “Folha de S.Paulo” (24.4.2016) escreveu acertadamente Jessé Souza, autor de um livro que merece ser lido, também com certa crítica, “A Tolice da Inteligência Brasileira”: “Nossa elite do dinheiro nunca sentiu compromisso com os destinos do país. O Brasil é palco de uma disputa entre estes dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia”. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites.

No atual processo de impeachment de Dilma contam com um aliado poderoso: o complexo jurídico-policial do Estado, que substitui as baionetas. O vice-presidente usurpou o título de presidente e montou um ministério com vários ministros corruptos reduzindo pastas.

PAPA E SABATELLA – Por trás do golpe parlamentar estão as forças citadas por Jessé Souza. Bem disse o papa Francisco a Letícia Sabatella, com quem, junto com uma famosa jurista, teve, há dois meses, um encontro em Roma, relatando a ameaça que corre a democracia brasileira. O papa comentou: “Esse golpe vem dos capitalistas”.

Ninguém sabe para onde estamos indo. Algo parece ficar claro: o design social, montado a partir do colonialismo com as castas de endinheirados que se firmaram no poder, está chegando a seu fim.

Em momentos de obscuridade como os atuais, precisamos de uma grelha teórica mínima que nos traga luz e esperança. Para mim serve como orientação Arnold Toynbee, último historiador inglês a escrever dez volumes sobre a história das civilizações. Para explicar o nascimento, o desenvolvimento, a maturação e a decadência de uma civilização, usa uma chave extremamente simples, mas esclarecedora: “o desafio e a resposta” (“challenge and response”).

DESAFIOS E RESPOSTAS – Diz Toynbee: sempre há crises fundamentais no interior das civilizações. São desafios que exigem resposta. Se o desafio for maior do que a capacidade de resposta, a civilização entra num processo de colapso. Se a resposta é excessiva face ao desafio, surgem a arrogância e o uso abusivo do poder. O ideal é encontrar uma equação de equilíbrio entre o desafio e a resposta de forma que a sociedade mantenha sua coesão, enfrente novos desafios e prospere.

Voltando ao caso do Brasil: os grupos do dinheiro e do poder não conseguem dar uma resposta ao desafio que vem das bases, que cresceram enormemente em consciência e em reclamos de direitos. Por mais que manipulem dados, eles sabem que dificilmente voltarão ao poder pela via da eleição. Daí a razão do golpe. Desmoralizados, não têm nada a oferecer ao novo Brasil.

Uma saída viável para a crise mundial: a renda mínima cidadã

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ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A crise econômico-financeira de 2007/2008 estremeceu os fundamentos da economia capitalista e do neoliberalismo. A tese básica era dar primazia ao mercado, à livre iniciativa, à acumulação privada, à lógica da competição em detrimento da lógica da cooperação e a um Estado mínimo. Quem olha numa perspectiva minimamente ética já poderia saber que um sistema montado sobre um vício (a cobiça), e não sobre uma virtude (o bem comum), jamais poderia dar certo.

A implosão começou com a falência de um dos maiores bancos norte-americanos, o Lehman Brothers, levando todo o sistema bancário e financeiro a uma incomensurável crise. Em poucos dias, pulverizaram-se trilhões de dólares.

Curiosamente, os que desprezavam o Estado, reduzindo-o ao mínimo, tiveram que recorrer a ele, de joelhos e mãos juntas. Os bancos centrais dos Estados tiveram que despejar trilhões de dólares para salvar as instituições financeiras falidas. A máquina de fazer dinheiro rodava em máxima velocidade.

MUITAS FALÊNCIAS – Houve como consequência da crise, até hoje ainda não superada também entre nós, a quebra de milhares de empresas e até de países, como a Grécia, com altíssimo grau de desemprego. Destruíram-se fortunas, mas, mais que tudo, criou-se um mar de sofrimento humano.

Piamente se acredita ainda que esse sistema continua bom e válido, a despeito da devastação ecológica que produz, pondo em risco as bases que sustentam a vida. Ele é bom e válido para os especuladores que estão acumulando uma riqueza absurda.

A despeito de todas as reuniões para buscar alternativas, a política econômico-financeira continua a mesma: fazer mais do mesmo. Isso está desestruturando os países e poderá levar a uma revolta popular mundial, com consequências funestas.

INJEÇÃO DE RECURSOS – Duas estratégias foram usadas. A primeira foi a injeção de trilhões de dólares por parte dos Estados para impedir a falência total do sistema. Ocorre que esse dinheiro novo, em vez de ser investido na produção e na criação de empregos, foi jogado na corrente especulativa das finanças mundiais, na qual se ganha muito mais rapidamente do que num investimento produtivo. Dessa forma, os ganhos vão para os já bilionários, sem solucionar a crise, ao contrário, agravando-a.

O outro expediente foram as políticas de ajustes, vindas sob o nome de “austeridade”. Para garantir os ganhos dos capitais, organizou-se um ataque sistemático aos direitos sociais, aos serviços públicos de saúde e de educação, ao sistema de previdência e às aposentadorias. Isso se inaugurou primeiro na zona do euro e agora, na mesma lógica, no Brasil. Fragilizou-se a já frágil democracia, e a diminuição do gasto público está provocando recessão e desemprego.

UMA ALTERNATIVA – Se tivesse havido pensamento e um mínimo de senso humanitário, uma possível saída poderia ter sido aquilo que incansavelmente vem propondo há muitos anos o ex-senador Eduardo Suplicy: a renda mínima cidadã. Pelo fato de alguém ser humano, tem direito a uma renda cidadã que lhe garanta uma vida digna, embora frugal. Esse dinheiro circularia no consumo, nos benefícios públicos e superaria o grave padecimento humano pelo desemprego e pela fome.

Essa seria uma solução viável, mais ética e mais humana. Ela pode ser ainda realizada. Quem sabe, com o agravamento da crise mundial, não seremos obrigados a essa solução verdadeiramente salvadora.

A falta de vergonha e a ausência de culpa na corrupção brasileira

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Ilustração do Duke, reprodução de O Tempo

Leonardo Boff
O Tempo

Depois que surgiram a psicanálise e o estruturalismo, não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há universos pré-consciente, subconsciente e inconsciente (pessoal e coletivo), subjacentes a nossas práticas, a serem considerados. Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos. São legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem em nosso inconsciente coletivo e nos ajudam a entender fenômenos atuais, como a corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: as culturas grega e judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é o de herói. Ter vergonha, para os gregos, consistia em se frustrar em qualquer empreendimento, como na guerra e na convivência social. Triunfar e ser bem-sucedido preenchia os requisitos do herói.

Hoje, essa categoria está presente em nossa sociedade. É um herói o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de nossa predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7 a 1 na Copa do Mundo. A vergonha tem a ver com a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se envergonharem.

A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente, colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio, é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez, é por culpa de um dos parceiros. A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercussão não é tanto diante dos outros, que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência, que nos remete logo a Deus.

JUSTO E RETO – O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa” (santa) no sentido bíblico. Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constitui as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta.

Qual é nosso problema concernente à escandalosa corrupção ativa e passiva no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos. Mesmo surpreendidos no ato de corrupção, ouvimos sempre: “Não sou culpado de nada”. E trata-se de pessoas notória e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma importância à vergonha pública de seus atos.

Raramente, ouve-se a indignação ética da sociedade: os corruptos nem se incomodam e continuam em seu desfrute.

VERGONHA E RUBOR – Aristóteles estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciência ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente sem-vergonha, mau-caráter, sem sentido dos valores. Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós, no Brasil, numa espécie de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo vírus da corrupção. Ela chegou nos dias atuais a níveis tão escandalosos que não podem mais ser tolerados.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

A escandalosa falta de ética de hoje remonta à era da escravidão

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Ilustração do Duke, reprodução de O Tempo

Leonardo Boff
O Tempo

O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por uma espantosa falta de ética. O bem só é bom quando é um bem para mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido, mas o que predomina é a esperteza, o jeitinho e a Lei de Gérson. Os vários escândalos que se deram a conhecer revelam uma falta de consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social brasileiro está de tal maneira putrefato que, onde quer que aconteça um pequeno arranhão, já mostra sua purulência.

A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o suborno de agentes da polícia quando alguém é surpreendido numa infração de trânsito e até em fazer pipi na rua.

Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história. É uma consequência perversa da colonização. Ela impôs ao colonizado a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar da punição, se obriga a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso leva à corrupção da mente. A submissão e o medo levam fatalmente a uma ruptura com a ética.

A VONTADE DO SENHOR – O colonizado se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um jeitinho de burlar a vontade do senhor. A casa-grande e a senzala são um nicho produtor de falta de ética pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente antiético: ele pode dispor do outro como quiser, abusar sexualmente das escravas e vender filhos pequenos delas para que não tivessem apego a eles. Esse tipo de ética desumana cria hábitos e práticas que, de uma forma ou de outra, continuam no inconsciente coletivo de nossa sociedade.

A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética inimaginável: deu-se liberdade aos escravos, mas sem fornecer-lhes um pedaço de terra, uma casa e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente na favela. E hoje, por causa de sua cor e de sua pobreza, são discriminados, humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.

NADA MUDOU – A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de grandes fazendas e capitães da indústria.

As relações de produção capitalista que se introduziram no Brasil pelo processo de industrialização e modernização foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado: guardou sua voracidade de acumulação como em suas origens nos séculos XVIII e XIX.

Para superarmos a crise da ética, não bastam apelos, mas uma transformação da sociedade. Antes de ser ética, a questão é política, pois esta é estruturada em relações profundamente antiéticas.

FORMAR A FAMÍLIA – Tudo deve começar na família. Criar caráter nos filhos, formá-los na busca do bem e da verdade, não se deixar seduzir pela Lei de Gérson e evitar, sistematicamente, o jeitinho. Princípio básico: tratar sempre humanamente o outro. Oriente-se pelos dez mandamentos, que são universais. Traduzidos para hoje: o “não matar” significa venere a vida, cultive uma cultura da não violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se, respeitem-se e obriguem-se a uma cultura da igualdade e parceria entre o homem e a mulher.

Isso é o mínimo que podemos fazer para arejar a atmosfera ética de nosso país. Repetindo o grande Aristóteles: “Não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos pessoas éticas”.

Afinal, que país e que democracia desejam os brasileiros?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quando há uma crise generalizada, como a que estamos vivendo, não temos alternativa senão voltar à fonte do poder político, expressão da soberania de um povo. Temos que resgatar todo o valor do primeiro artigo da Constituição, parágrafo único: “Todo poder emana do povo”. O povo é, pois, o sujeito último do poder. Em momentos em que uma nação se encontra num voo cego e perdeu o rumo de seu destino, esse povo deve ser convocado para dizer que tipo de país quer e que tipo de democracia deseja.

Urge avançar mais: precisamos dar forma política ao nível de consciência que cresceu em todos os estratos sociais, mostrando vontade de participação nos destinos do país. No fundo, volta a questão básica: vamos nos alinhar aos que detêm o poder mundial ou vamos construir nosso caminho autônomo, soberano e aberto à nova fase planetizada da humanidade?

SUBALTERNOS – O primeiro projeto prolonga a história ocorrida até os dias de hoje: desde a Colônia, passando pelo Império e pela República, sempre fomos mantidos subalternos. Os ibéricos não vieram para fundar aqui uma sociedade, mas para montar uma grande empresa internacional privada. Essa lógica perdura até os dias atuais: tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado.

Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities, com parca ou nenhuma tecnologia e valor agregado, num processo de recolonização. Lamentavelmente, esse é o intento do atual governo interino.

POTÊNCIA TROPICAL – O projeto alternativo finca suas raízes na cultura brasileira e no aproveitamento de nossa imensa riqueza, que nos pode sustentar como nação independente, soberana e aberta a todos os demais países. Seríamos uma grande potência, não militarista, nos trópicos, com uma economia entre as maiores do mundo.

Curiosamente, as jornadas de junho de 2013 e posteriores mostraram que o povo percebeu os limites da formação social para os negócios. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil. Tal propósito implica refundar o Brasil sobre outras bases. Mas quem escutou o clamor das ruas, especialmente dos jovens? Efetivamente, ninguém, pois tudo ficou como antes.

O que, na verdade, faltou em nossa história foi uma verdadeira revolução, como houve na França, na Itália e em outros países. A história nunca é uma continuidade. Ela é feita de descontinuidades e rupturas radicais, que derrubam uma ordem e instauram uma nova. No Brasil, nunca tivemos essa ruptura. O que predominou em todo o tempo é a política de conciliação entre os poderosos. O povo sempre ficou de fora, como sujeito incômodo, dos acertos feitos por cima e contra ele.

IMPEACHMENT – O que está ocorrendo agora com a tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita, é dar continuidade a essa política de conciliação das elites, do capital rentista e financeiro, daqueles 10%, segundo o IBGE de 2013, que controlam 42% da renda nacional. Jessé Souza, do Ipea, os enumera: são 71.440 super-ricos que manejam o Estado e os rumos da economia. Não lhes importa a perversa desigualdade social, uma das maiores do mundo, que se traduz em favelização de nossas cidades, violência absurda, geração de humilhação, preconceito e degradação social por falta de infraestrutura, saúde, escola e transporte.

Se o Brasil foi fundado como empresa, é hora de se refundar como sociedade de cidadãos criativos e conscientes de seus valores.

Meu sonho é que a atual crise não seja em vão. Que se busque viabilizar o que prescreve a Constituição em seu terceiro artigo: “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Os impasses da atual crise e de onde poderá vir uma saída

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Charge do Duke (dukechargista. com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

A atual crise brasileira, talvez a mais profunda de nossa história, está pondo em xeque o sentido de nosso futuro e o tipo de Brasil que queremos construir. Efetivamente, aqui se formou um bloco coeso, fortemente solidificado, constituído por um capitalismo que nunca foi civilizado (manteve a voracidade manchesteriana das origens), financeiro e rentista, associado ao empresariado conservador e antissocial e ao latifúndio voraz que não teme avançar sobre as terras dos donos originários de nosso país, os indígenas, e, de acréscimo, dos quilombolas.

Eles sempre frustraram qualquer reforma política e agrária, de sorte que, hoje, 83% da população vive nas cidades (bem dizendo, nas periferias miseráveis), pois sentia-se deslocada e expulsa do campo. E essas elites altamente endinheiradas se associaram a poucas famílias que controlam os meios de comunicação ou são donos deles.

Esse bloco histórico será difícil de ser desmontado, uma vez que o tempo das revoluções já passou. As poucas mudanças de orientação popular e social introduzidas pelos governos do PT estão sendo bombardeadas com os canhões mais poderosos.

CASA-GRANDE – Os herdeiros da casa-grande e o grupo do privilégio estão voltando e impondo seu projeto de Brasil. Para sermos sucintos e irmos logo ao ponto central, trata-se do enfrentamento de duas visões de Brasil.

A primeira: nos submetemos à lógica imperial, que nos quer sócios incorporados e subalternos, numa espécie de intencionada recolonização, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura que eles pouco possuem e dos quais precisam urgentemente.

A segunda: continuamos teimosamente com a vontade de reinventar o Brasil com um projeto sobre bases novas, sustentado por nossa rica cultura e nossas riquezas naturais, capaz de aportar elementos importantes para o devenir futuro da humanidade globalizada.

UM SONHO MAIOR – Essa segunda alternativa realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente. A primeira opção, que agora volta triunfante sob o presidente interino Michel Temer e seu ministro das Relações Exteriores, José Serra, prevê um Brasil que se rende resignadamente ao mais forte, bem dentro da lógica hegeliana do senhor e do servo. Em troca, recebe imensas vantagens, beneficiando especialmente os endinheirados e seus controlados.

Estes nunca se interessaram pelas grandes maiorias de negros e pobres que eles desprezam, considerando-os peso morto de nossa história. Nunca apoiaram seus movimentos. E, quando podem, os rebaixam, difamam suas práticas e, com o apoio do Estado elitista por eles controlado, os criminalizam.

Eles contam com o apoio dos Estados Unidos, como nosso maior analista de política internacional, Moniz Bandeira, em sucessivas entrevistas, tem chamado a atenção, pois não aceitam a emergência de uma potência nos trópicos.

E A SAÍDA? – De onde nos poderá vir uma saída? De cima não poderá vir nada verdadeiramente transformador. Estou convencido de que ela só poderá vir de baixo, dos movimentos sociais articulados, de outros movimentos interessados em mudanças estruturais, de setores de partidos vinculados à causa popular. O dia em que as comunidades favelizadas se conscientizarem e projetarem outro destino para si e para o Brasil, haverá a grande transformação, palavra que hoje substitui “revolução”. As cidades estremecerão.

Aí, sim, poderão os poderosos ser alijados de seus tronos, como dizem as Escrituras, o povo ganhará centralidade e o Brasil terá sua merecida independência.

O Brasil tem jeito? Para cada problema, sempre há uma solução.

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quem olha a cena político-social-econômica atual se pergunta sinceramente: o Brasil tem jeito? Um bando de ladrões, travestidos de senadores-juízes, tenta, contra todos os argumentos em contrário, condenar uma mulher inocente, a presidente Dilma Rousseff, contra a qual não há nenhuma acusação de apropriação de bem público ou de corrupção pessoal.

Com as recentes delações premiadas, ficou claro que o problema não é a presidente, é a Lava Jato, que, para além das acusações seletivas contra o PT, está chegando à maioria dos líderes da oposição. Todos, de uma forma ou outra, se beneficiaram das propinas da Petrobras.

Ninguém aliena nada de seus bens para financiar uma campanha. Nem precisa: existe a mina do caixa 2, abastecida pelas empresas corruptoras, que cria corruptos a troco de vantagens posteriores em termos de grandes projetos, geralmente superfaturados.

VOO CEGO – Estamos efetivamente num voo cego. Ninguém sabe para onde vai esta nação, a sétima economia do mundo, com jazidas de petróleo e gás das maiores do mundo e com uma riqueza ecológica sem comparação, base da futura economia. Assim como se delineia a correlação de forças, não vamos a lugar nenhum, senão a um eventual conflito social.

O pobre, a maioria da população, se acostumou a sofrer e a encontrar saídas como pode. Mas chega um ponto em que o sofrimento se torna insuportável. Então, diz: “Assim não pode ser; temos que nos rebelar”.

Isso me faz lembrar um bispo franciscano do século XIII, da Escócia, que, recusando os altos impostos cobrados pelo papa, respondeu: “Não aceito, me recuso e me rebelo”. E o pontífice retrocedeu. Não poderá ocorrer algo semelhante entre nós?

REALIDADE PÉSSIMA – Quando, nas palestras, fazendo um esforço imenso para deixar um laivo de esperança, me dizem que sou pessimista, respondo com Saramago: “Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”. Efetivamente, a realidade está sendo péssima para todos, menos para as elites endinheiradas.

O grave é que estamos faltos de lideranças. Abstraindo o ex-presidente Lula, cujo carisma é inconteste, apontam dois, Ciro Gomes e Roberto Requião, para mim as únicas lideranças fortes que têm a coragem de dizer a verdade e pensam no Brasil mais do que nas disputas partidárias.

Essa crise tem um pano de fundo nunca resolvido em nossa história. Somos herdeiros de séculos de colonialismo, que nos deixou a marca de “vira-latas”, sempre dependendo dos outros. Pior ainda é a herança secular do escravismo, que fez com que os herdeiros da casa-grande se sintam senhores da vida e da morte dos negros e pobres. Não basta lançá-los nas periferias; há que desprezá-los e humilhá-los. E a classe média, que imita os de cima, tolamente se deixa manipular e inocentemente se faz cúmplice da horrorosa desigualdade social.

GOLPISTAS E REACIONÁRIOS – Essas elites conquistaram os meios de comunicação de massa golpistas e reacionários, que funcionam como azeite para sua maquinaria de dominação. Essas elites nunca quiseram a democracia, apenas aquela de baixíssima intensidade, que podem comprar e manipular; preferem os golpes e a ditadura. Hoje, já não é mais possível pelas baionetas. Excogitou-se outro expediente: o golpe vem por uma artificiosa articulação entre políticos corruptos, o Judiciário politizado e a repressão policial.

Direi como Martin Heidegger: “Só um Deus nos poderá salvar?” Marx talvez seja mais modesto e verdadeiro: “Para cada problema, há sempre uma solução”. Deverá surgir uma para nós.

A bomba atômica de Hiroshima e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

No dia 6 de agosto de 2016, às 20h, se inaugurarão os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo dia será recordada em Hiroshima, no Japão, a nefasta data do lançamento da bomba atômica sobre a cidade que vitimou 242.437 pessoas. O imperador Hirohito reconheceu, no texto de rendição, publicado em 14 de agosto de 1945, que se tratava de “uma arma que levaria à total extinção da civilização humana”. Dias após, ao aduzir, numa declaração ao povo, as razões da rendição, a principal delas era que a bomba atômica “provocaria a morte de todo o povo japonês”. Em sua sabedoria ancestral, tinha razão.

A humanidade estremeceu. De repente deu-se conta de que criamos para nós próprios o princípio de autodestruição. Mas, com efeito, de pouco valeu o estarrecimento, pois continuaram a desenvolver armas nucleares mais potentes ainda, capazes de erradicar toda a vida do planeta e pôr um fim à espécie humana.

POTÊNCIAS NUCLEARES – Atualmente, há nove países detentores de armas nucleares que, conjuntamente, somam mais ou menos 17 mil unidades. E sabemos que nenhuma segurança é total. Os desastres de Tree Islands, nos Estados Unidos, de Chernobyl, na Ucrânia, e de Fukushima, no Japão, nos dão uma amostra convincente.

Há dias, pela primeira vez, um presidente norte-americano visitou Hiroshima. Obama apenas lamentou o fato e disse: “A morte caiu do céu, e o mundo mudou. Começou nosso despertar moral”. Mas não teve a coragem de pedir perdão ao povo japonês pelas cenas apocalípticas que lá ocorreram.

Vigora uma vasta discussão mundial sobre como avaliar tal gesto bélico. Muitos, pragmaticamente, afirmam que foi a forma encontrada de levar o Japão à rendição e poupar milhares de vidas de ambos os lados. Outros consideram o uso dessa arma letal, na versão oficial japonesa, como “um ato ilegal de hostilidade consoante às regras do direito internacional”. Outros vão mais longe e afirmam tratar-se de um “crime de guerra” e até de “um terrorismo de Estado”.

ATO ANTIVIDA – Hoje, estamos inclinados a dizer que foi um ato criminoso antivida, de nenhuma forma justificável, pois, pensando em termos ecológicos, a bomba matou, muito mais do que pessoas, todas as formas de vida vegetal, animal e orgânica, além de bens culturais. Tratou-se de uma “totaler krieg” (guerra total) no estilo nazista de matar tudo o que se move e dizimar as bases físico-químicas que sustentam a vida.

Ao lado de outras ameaças letais que pesam sobre o sistema vida e o sistema Terra, a nuclear continua sendo uma das mais amedrontadoras, verdadeira espada de Dâmocles colocada sobre a cabeça da humanidade. Quem poderá conter a irracionalidade da Coreia do Norte de deslanchar um ataque nuclear avassalador?

NA OLIMPÍADA – Há uma proposta profundamente humanitária que nos vem da Associação dos Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, de São Paulo, animada pelo militante contra a energia nuclear Chico Whitaker: que no dia 6 de agosto, no momento da abertura da Rio-16, faça-se um minuto de silêncio pensando nas vítimas de Hiroshima. Mas não só, mas também voltando nossas mentes para a violência contra mulheres, refugiados, negros e pobres, enfim, todas as vítimas da voracidade de nosso sistema de acumulação.

O prefeito de Hiroshima, nesse sentido, já encaminhou carta ao Comitê Organizador dos Jogos no Rio de Janeiro. Esperamos que este se sensibilize e promova esse grito silencioso contra as guerras de todo tipo e pela paz entre todos os povos.

A corrupção no Brasil: naturalizada e, finalmente, agora desmascarada

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

É estarrecedora a corrupção que se constatou no Brasil nos últimos tempos, especialmente aquela do petrolão. Os números são sempre pelos milhões de dólares – escandalizam e vão além de qualquer bom senso. Os organismos norte-americanos de vigilância que espionaram a presidente Dilma Rousseff o fizeram também com a Petrobras, devido ao fato de deter uma das maiores jazidas de gás e petróleo do mundo, o pré-sal.

Encontraram uma teia imensa de corruptores e corruptos que envolvia grandes empreiteiras, altos funcionários da Petrobras, gente do próprio governo, doleiros e não ausentes setores do Judiciário. Beneficiados foram, especialmente, políticos de quase todos os partidos, que financiavam suas custosas campanhas eleitorais com esse dinheiro da corrupção, sob a forma de propinas milionárias.

INVESTIGAÇÕES VICIADAS

Desde o início, as investigações que envolveram os principais órgãos da Justiça e da polícia foram viciadas por um componente político. Os vazamentos, problemáticos em termos legais, praticamente se concentraram no PT, relevando e até ocultando o envolvimento de outros partidos, máxime da oposição.

A partir daí se criou praticamente uma generalização de que corrupção era coisa do PT. Importa reconhecer que o partido se beneficiou dos esquemas de corrupção e até foi um dos principais articuladores, mas seria injusto considerar que detinha o monopólio da corrupção. Essa é endêmica na vida política e social do país, perpassa partidos e empresas e inclui muitíssimos cidadãos ricos.

EMPREITEIROS PRESOS

Raramente, em nossa história recente, temos assistido a grandes empresários sendo presos, interrogados, condenados e encarcerados. A corrupção, que se havia naturalizado nos mais altos estratos dos negócios e na política, começou a ser desmascarada e posta sob os rigores da lei. Tal fato constitui um dado de altíssima relevância e um avanço no sentido da moralidade pública.

Não se pode ocultar o fato de que o sistema do capital, com sua cultura, é, em sua lógica, também corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, gerando riqueza sob a forma de exploração do trabalhador e devastação dos escassos bens e serviços da natureza. Produz uma dupla injustiça, social e ecológica.

RAÍZES HISTÓRICAS

Nossas formas de corrupção têm raízes históricas no colonialismo e no escravagismo. Há também uma base política no arraigado patrimonialismo, que não distingue o público do privado e leva as elites a tratar a coisa pública como se fosse sua e a montar um tipo de Estado que lhes garante privilégios. Tudo isso gerou uma cultura da corrupção, como algo natural e intrínseco à vida social e política. Os corruptos são vistos como espertos, e não como criminosos, o que de fato são.

Filosoficamente pensando, qual é a raiz última da corrupção? Talvez o católico Lord Acton (1843-1902), que era historiador e pensador, nos ajude. Diz ele:

“A corrupção reside fundamentalmente no poder. A tradição filosófica e psicanalítica nos tem persuadido de que, em todos os seres humanos, há sede de poder e que o poder não se garante senão buscando ainda mais poder. E o poder se materializa no dinheiro. Para consegui-lo, não vale só o trabalho honesto, mas perversamente todas as formas que permitem multiplicar o dinheiro”.

PRETENSÃO ILUSÓRIA

A história mostra a ilusão dessa pretensão. De repente, pode-se perder tudo e ficar na miséria. Se não tivermos controlado nossa sede de poder e de acumulação, nos sentiremos perdidos. O antídoto a essa sede de poder e de dinheiro é a honestidade, a transparência e a salvaguarda do valor sagrado da autodignidade.

Será que saberemos tirar essas lições da corrupção naturalizada no Brasil, que, finalmente, foi desmascarada?