Pedido de demissão do ministro livrou Temer de ser alvo de impeachment

Dirigentes e servidores da extinga CGU estão revoltados com Temer

Jorge Béja

Um artigo, necessariamente, não precisa ser longo para se tornar útil e informativo. Em certos casos, numa só linha, ou em duas, três e outras poucas mais, é o suficiente para se dar o recado. E aqui vai um, para o conhecimento e meditação dos leitores da Tribuna da Internet. Se o advogado Fabiano Silveira não tivesse pedido demissão do Ministério da Transparência e Fiscalização e Controle, agora à noite, o presidente Michel Temer poderia se tornar alvo de um processo de impeachment da parte de qualquer cidadão brasileiro.

Isto porque Temer é o presidente do Brasil. Interino, mas é. E presidente da República que atente com a probidade na administração pode e deve sofrer o impeachment. É o que está previsto no artigo 4º, item V, da Lei nº 1079 de 1950.

“São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente contra (…) V – a probidade na administração”.

ERRO DE TEMER

Temer atentou contra a probidade na administração ao nomear para ser ministro uma pessoa que não desfruta da idoneidade que o cargo exige. Todos os diretores e funcionários da antiga Controladoria-Geral da União não queriam Fabiano Silveira como ministro da pasta e estão exigindo o restabelecimento da CGU, que Temer acabou com ela para criar este novo ministério.  Até a entidade Transparência Internacional pedia o afastamento de Fabiano.

Temer precisava agir rápido e exonerar Fabiano Silveira, mas não o fez. Se um pedido de impeachment de Temer, por esta desastrada nomeação, chegasse logo  às mãos do presidente da Câmara e este decidisse pelo recebimento da denúncia, aí não adiantaria Temer exonerar Fabiano. Seria tarde demais.

Isto porque teria exonerado depois que o pedido de impechment deu entrada no protocolo da Câmara dos Deputados, e seus efeitos são “ex tunc”. Ou seja, retroagem para alcançar o ato de improbidade que persiste, mesmo depois da exoneração.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
No jornalismo, antigamente chamávamos de “suelto” esses pequenos artigos mencionados por Jorge Béja, que é incontestavelmente um dos maiores juristas brasileiros. Tudo o que ele escreve, até mesmo uma pequena nota, é sempre de grande importância. Devo até desculpas a Béja, porque outro dia ele escreveu um artigo e eu, ao fazer a revisão, notei que o programa do computador assinara erro numa mesóclise por ele introduzida no texto, e na pressa eu atendi ao computador e tentei corrigir o texto do verbo. Depois, ao reler no dia seguinte, percebi que o computador errara, porque não entende que o idioma é dinâmico e vive em constante evolução. Como sempre, Béja estava certo, e o computador e eu estávamos errados. E com a elegância de sempre, Béja fingiu que não percebeu a nossa mancada. (C.N.)

Quadro golpista preparou a volta da classe do privilégio

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Ilustração de Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

O principal problema brasileiro que atravessa toda nossa história é a monumental desigualdade social que reduz grande parte da população à condição de ralé. Os dados são estarrecedores. Segundo Marcio Pochman e Jessé Souza, que substituiu o primeiro na presidência do Ipea, são apenas 71 mil pessoas (ou 1% da população) os multibilionários brasileiros que controlam nossas riquezas, nossas finanças e o jogo político. Essa classe dos endinheirados, que Jessé Souza chama de “classe do privilégio”, além de perversa socialmente, é extremamente hábil, pois se articula nacional e internacionalmente de tal forma que sempre consegue manobrar o poder do Estado em seu benefício.

Seu maior feito atual foi vergar a orientação da política dos governos Lula-Dilma na direção de seus interesses econômicos e sociais, apesar das intenções originais do governo de praticar uma política alternativa, própria de um filho da pobreza e do caos social.

A pretexto de garantir a governabilidade e de evitar o caos sistêmico, essa classe do privilégio conseguiu impor o que a interessava: a manutenção inalterável da lógica acumuladora do capital. Os projetos sociais do governo não a obrigavam a renunciar a nada; antes, eram funcionais aos propósitos dela.

DÍVIDA PÚBLICA

Essa classe de endinheirados coagia o governo a pagar a dívida pública antes de atender as demandas históricas da população. Assim quitava-se a dívida monetária com sacrifício da dívida social, que era o preço para poder fazer as políticas sociais. Essas, nunca havidas antes, foram robustas e incluíram cerca de 40 milhões de pobres no consumo.

Tudo indicava que, com quatro eleições ganhas, apesar dos constrangimentos sistêmicos, se consolidava outro sujeito de poder, vindo de baixo, das maiorias oriundas da senzala e dos movimentos sociais. Essas começaram a ocupar os lugares e usar os meios antes reservados à classe média e aos da classe do privilégio que, no fundo, nunca aceitou Lula e nunca se reconciliou com o povo.

Foi aí que os antigos donos do poder despertaram raivosamente, pois poderiam, pela via do voto, nunca mais chegar ao poder. Instaurada uma crise político-econômica no governo Dilma, cujos contornos são globais, a classe do privilégio aproveitou a oportunidade para agravar a situação e, pela porta dos fundos, chegar ao Planalto.

VELHA ARTICULAÇÃO

Criou-se uma articulação nada nova, já ensaiada contra Vargas, Jango e JK, assentada sobre o tema moralista do combate à corrupção. Para isso, era necessário suscitar a tropa de choque que são os partidos da macroeconomia capitalista (PSDB, PMDB e outros), apoiados pela imprensa empresarial que foi o braço estendido das forças mais conservadores e reacionárias de nossa história.

A narrativa é antiga, pois sataniza o Estado como o antro da corrupção e magnifica o mercado como o lugar das virtudes econômicas e da inteireza dos negócios. Nada mais falso. A corrupção é mais selvagem no mercado, pois sua lógica não se rege pela cooperação, mas pela competição. Mas essa narrativa conquistou a classe média. Para garantir sucesso nessa empreitada perversa, criou-se uma articulação que envolve grandes bancos, a Fiesp, o MP, a PF e alguns setores do Judiciário.

IMPEACHMENT

O atual processo de impeachment à presidente Dilma se inscreve dentro desse quadro golpista, pois trata-se de tirá-la do poder não por via eleitoral, mas pela exacerbação de práticas administrativas consideradas crime de responsabilidade. A injustiça é o que mais fere a dignidade de uma pessoa. Dilma não merece essa dor, que é pior do que aquela sofrida nas mãos dos torturadores.

O desafio de fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual

Charge do Oliveira, reprodução do blog do Chacrinha

Leonardo Boff
O Tempo

Há dois Brasis que correm paralelos e que possuem lógicas e dinâmicas diferentes.  Há o Brasil dominante, profundamente desigual e, por isso, injusto, reproduzindo uma sociedade malvada, que não tem compaixão nem misericórdia para com as grandes maiorias. Segundo o IPEA, são 71 bilionários, ou 5 mil famílias extensas, que detêm grande parte da riqueza nacional e mostram parco sentido social, insensíveis à desgraça de milhões que vivem nas centenas de favelas que circundam quase todas as nossas cidades. Desses se originam, em grande parte, o ódio e a discriminação que tributam aos pobres e aos filhos da escravidão que se verifica ainda nos dias atuais.

Distancio-me decisivamente do pessimismo de Paulo Prado em seu ironizado livro de 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira”, para quem a tristeza, a preguiça, a luxúria e a cobiça constituem os traços marcantes do brasileiro. Ao lado dessas distorções, vigora outro lado do mesmo Brasil, dos pobres que lutam bravamente para sobreviver e que, no meio da miséria, deixam transparecer uma alegria que vem de dentro: dançam e veneram seus santos e não têm necessidade de crer em Deus, porque o sentem na pele e em cada passo de sua vida.

É o Brasil dos menosprezados pelos setores conservadores que se orientam pelo PIB e pelo consumo, considerados imprestáveis para o sistema porque produzem pouco e consomem ainda menos.

UM PAÍS DIVIDIDO

Esse Brasil cindido, com lados contrapostos, constitui uma contradição viva e escandalosa. Tem uma herança sombria que nos vem do etnocídio indígena que ainda persiste, do colonialismo que nos deixou o complexo de vira-latas e que penetrou, em forma de arquétipo psicológico, a estrutura da casa-grande e da senzala; ela se manifesta pelo fosso que cinde o país de cima a baixo e nos faz herdeiros de uma República com uma democracia que é mais farsa que realidade, pois é composta, em sua grande maioria, por corruptos que se beneficiam do bem público para realizar o bem privado.

O povo brasileiro, feito da amálgama de representantes de 60 países diferentes que para cá vieram, não acabou de nascer ainda. Está em processo de fazimento. Apesar das contradições, aponta para uma mestiçagem bem-sucedida que poderá configurar um rosto singular do país, como uma potência nos trópicos. O Brasil descrito acima me parece ser o real, repleto de injustiças e contradições.

Mas há outro Brasil ainda. É o Brasil do imaginário, que está nos sonhos do povo, a pátria amada, abençoada por Deus, o Brasil da humanidade cálida, da música popular e dos ritmos africanos, do futebol, do Carnaval, das praias e de gente bonita. Ele move os sentimentos do povo.

UTOPIA BRASIL

É a utopia Brasil, como nos ensinou o mestre Celso Furtado, “fruto de dimensões secretas da realidade, um afloramento de energias contidas que antecipa a ampliação do horizonte de possibilidades aberto a uma sociedade”, que queremos justa, fraterna e feliz (cf. “Em Busca de Novo Modelo: Reflexões sobre a Crise Contemporânea”, 2002, p. 37).

Esse Brasil só existe em sonho, mas está em estado nascente. O sonho e a utopia pertencem à realidade em seu caráter potencial e virtual. O dado é feito e não esgota as virtualidades do real. São essas virtualidades que antevemos como realidades futuras, que nos mantêm na jovialidade e nos alimentam a esperança de que os corruptos de hoje não triunfarão. Serão apagados da memória coletiva. Estigmatizados, cinza e pó cobrirão seus nomes.

Nosso desafio é fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual.

O impeachment da presidente Dilma é uma antirrevolução da direita

Leonardo Boff
O Tempo

Sou um dos poucos que têm dito e repetido que a ascensão do PT e de seus aliados ao poder central tem significado a verdadeira revolução pacífica brasileira. Florestan Fernandes escreveu que “A Revolução Burguesa no Brasil” (1974) representou a absorção pelo empreendedorismo pós-colonial de um padrão de organização da economia, da sociedade e da cultura, com a universalização do trabalho assalariado, uma ordem social competitiva e uma economia de mercado de bases monetárias e capitalistas.

Se bem repararmos, não ocorreu propriamente uma revolução, mas uma modernização conservadora que alavancou o desenvolvimento brasileiro, mas não promoveu uma mudança do sujeito de poder. Os que sempre estiveram no poder, sob várias formas, continuaram e aprofundaram seu poder. Não houve uma mudança de sujeito do poder como agora.

OS SEM-PODER

É isso que, a meu ver, ocorreu com o advento do PT e de aliados com a eleição de Lula presidente. O sujeito não é mais formado pelos detentores tradicionais de poder, mas pelos sem-poder: os vindos da senzala, das periferias e dos fundões de nosso país, do novo sindicalismo, dos intelectuais de esquerda, da Igreja da libertação.

Todos esses, num longo e penoso processo de organização e articulação, conseguiram transformar o poder social que haviam acumulado num poder político-partidário. Via PT, operaram analiticamente uma autêntica revolução.

Conferiu-se novo rumo ao país. Lula presidente teve que fazer concessões à macroeconomia neoliberal para assegurar a mudança de rumo, abrindo-se ao mundo dos pobres e marginalizados. Conseguiu montar políticas sociais, algumas inauguradas anteriormente de forma apenas inicial, mas agora oficiais, como políticas de Estado. Elas “atenderam as necessidades mais gerais e profundas que não haviam sido antes devidamente atendidas” (Caio Prado Jr.).

MUITOS PROGRAMAS

Enumeremos algumas, como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos, as inúmeras universidades e escolas técnicas, o Fies e os diversos regimes de cotas para acesso à universidade. Ninguém pode negar que a paisagem social do Brasil mudou. Todos, também os banqueiros e os endinheirados, saíram ganhando.

Logicamente, herdeiros que somos de uma tradição perversa de exclusão e desigualdades gritantes, muita coisa resta ainda por fazer, particularmente no campo da saúde e da educação. Mas houve uma revolução social.

ANTIRREVOLUÇÃO

Por que nos referimos a todo esse processo? Porque está em curso no Brasil uma antirrevolução. As velhas elites oligárquicas nunca aceitaram um operário como presidente. Relacionada à crise econômico-política (que devasta a ordem capitalista mundial), uma direita conservadora e rancorosa, aliada a bancos e ao sistema financeiro, a investidores nacionais e internacionais, à imprensa empresarial hostil, a partidos conservadores, a setores do Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público – sem excluir a influência da política externa norte-americana, que não aceita uma potência no Atlântico Sul ligada aos Brics –, essa direita está promovendo a antirrevolução.

IMPEACHMENT

O impeachment da presidente Dilma é um capítulo dessa negação. Querem voltar ao estado anterior, à democracia patrimonialista e de costas para o povo, pela qual se enriquecem como no passado.

Além de defender a democracia e desmascarar o impeachment como golpe parlamentar contra a presidente Dilma, importa assegurar a revolução brasileira, pela qual esperamos há séculos. Repito o que escrevi e vi num tuíte: “Se os pobres soubessem o que estão armando contra eles, as ruas do Brasil seriam insuficientes para conter o número de manifestantes”.

O golpe da volta da religião, da família e de Deus contra a corrupção

Charge do Pataxó (pataxocartoons.blogspot.com)

Leonardo Boff
O Tempo

O comportamento dos parlamentares nos três dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidente Dilma Rousseff parecia o de criançolas se divertindo num jardim de infância: gritarias por todo canto, coros recitando seus mantras contra ou a favor do impedimento, pessoas vestidas com a bandeira nacional, placas com seus slogans repetitivos… Enfim, um espetáculo indigno de pessoas decentes, de quem se esperaria um mínimo de seriedade. Chegou-se a fazer até um bolão de apostas, como se fosse um jogo do bicho ou de futebol.

Mas o que mais causou estranheza foi a figura do presidente da Câmara, que conduziu a sessão, o deputado Eduardo Cunha. Ele vem sendo acusado de muitos crimes e é réu no Supremo Tribunal Federal, mas julga uma mulher decente contra a qual ninguém ousou atribuir qualquer crime. Precisamos questionar a responsabilidade do STF por ter permitido esse ato que nos envergonhou nacional e internacionalmente. Que interesse secreto alimenta a Suprema Corte face a tão escandalosa omissão?

PEDALADAS ESQUECIDAS

Ocorreu na declaração de voto algo absolutamente desviante. Tratava-se de julgar se a presidente havia cometido crime de responsabilidade fiscal junto com outros manejos administrativos das finanças, base jurídica para um processo político de impedimento. Grande parte dos deputados nem sequer se referiu a essa base jurídica, as famosas pedaladas fiscais. Em vez de se aterem juridicamente ao eventual crime, deram asas à politização da insatisfação generalizada que ocorre na sociedade em razão da crise econômica, do desemprego e da corrupção na Petrobras.

A grande maioria se concentrou na corrupção e nos efeitos negativos da crise. Apostrofaram hipocritamente o governo de corrupto, quando sabemos que um grande número de deputados está indiciado em crimes de corrupção. Generalizando, com honrosas exceções, os deputados não representam os interesses coletivos, mas aqueles das empresas que lhes financiaram as campanhas.

COMO UM ESPANTALHO…

Importa notar um fato preocupante: emergiu novamente, como um espantalho, a velha campanha que reforçou o golpe militar de 1964: as marchas da religião, da família, de Deus e contra a corrupção. Dezenas de parlamentares da bancada evangélica claramente fizeram discursos de tom religioso, invocando o nome de Deus. E todos, sem exceção, votaram pelo impedimento. Poucas vezes se ofendeu tanto o segundo mandamento da Lei de Deus, que proíbe usar seu santo nome em vão.

Grande parte dos parlamentares, de forma pueril, dedicou seu voto à família, à esposa, à avó, aos filhos e aos netos, citando seus nomes, numa espetacularização da política de reles banalidade. Ao contrário, aqueles contra o impedimento argumentavam e mostravam um comportamento decente.

GOLPE PARLAMENTAR

Fez-se um julgamento apenas político, sem embasamento jurídico convincente, o que fere o preceito constitucional. O que ocorreu foi um golpe parlamentar inaceitável.

Os votos contra o impedimento não foram suficientes. Todos saímos diminuídos como nação e envergonhados dos representantes do povo que, na verdade, não o representam nem pretendem mudar as regras do jogo político.

Agora nos resta esperar a racionalidade do Senado, que irá analisar a validade ou não dos argumentos jurídicos, base para um julgamento político acerca de um eventual crime de responsabilidade, negado por notáveis juristas do país.

Talvez não tenhamos ainda amadurecido como povo para poder realizar uma democracia digna desse nome: a tradução para o campo da política da soberania popular.

O impeachment de Dilma é uma repetição da tragédia brasileira

As elites conspiram contra Dilma, para concretizar o golpe

Leonardo Boff
O Tempo

A cordialidade brasileira, em sua face sombria, fornece o húmus de onde pode se precipitar novamente a tragédia do Brasil. Em que consiste essa tragédia? Sempre que o povo, os pobres, seus movimentos e seus líderes carismáticos irrompem no cenário político, surgem as velhas elites, que carregam dentro de si a estrutura da casa-grande, para negar-lhes direitos, conspirar contra eles, difamar e criminalizar suas lideranças, empurrá-los para as periferias de onde nunca deveriam ter saído. Aos negros, aos índios, aos quilombolas, aos pobres e a outros discriminados se lhes negam reconhecimento e dignidade.

É o que está ocorrendo atualmente no Brasil. Face a todos esses, as oligarquias, em geral, os conservadores e até os reacionários mostram-se cruéis e sem piedade, apoiados por uma imprensa malvada.

O que é intolerável para a classe dominante é o fato de um operário de pouca escolaridade ter-se tornado presidente do país.

MAIS INTELIGENTE

O que mais os irrita é dar-se conta de que Luiz Inácio Lula da Silva é muito mais inteligente que a maioria deles, tem uma liderança carismática que impressionou o mundo, e seu governo fez mais transformações que eles em todo o tempo em que estiveram no poder. A atual conflagração política, que atingiu níveis vergonhosos de expressão, nasce dessa mudança operada no andar de baixo, negada pelos do andar de cima, que escandalizam o mundo por sua riqueza e por seu poder.

Jessé de Souza, presidente do Ipea, revelou, recentemente, que o topo da pirâmide social brasileira é composto por cerca de 71 mil bilionários, representando apenas 0,05% da população adulta do país. Esses endinheirados têm sua expressão política nos partidos conservadores e têm síndrome de vira-latas, porque não conseguem ser aquilo que gostariam de ser: sócios, ainda que meros agregados, do projeto-mundo hegemonizado pelos Estados Unidos.

Eles não negam a democracia, pois seria vergonhoso demais, mas querem um Estado democrático não de direito, mas de privilégio, que lhes permita o enriquecimento, ocupando altas funções de governo e controlando órgãos reguladores, pelos quais garantem seus interesses corporativos.

ANTIPOPULAR

O grosso do PSDB e do PMDB (graças a Deus há neles pessoas honradas que pensam no Brasil, e não só nas próprias vantagens), sem citar outros partidos menores, se inscreve dentro desse arco político de uma modernidade conservadora e antipopular.

Ao contrário, os grupos progressistas, que ganharam corpo no PT e em seus aliados, postulam um Brasil autônomo, com projeto nacional próprio, que resgate a multidão dos injustamente deserdados com as políticas sociais consistentes, apontando para uma completa emancipação.

PRIMEIRO SE CONDENA…

Dois meses após a vitória de Dilma, em 2014, o PSDB já conclamava nas ruas o impedimento da presidente, sem apontar as condições constitucionais que permitissem tal ato extremo. Primeiro se condena, depois se procura algum eventual crime. Não é de se admirar que esse partido arrogante, cuja base social é a classe média conservadora, esteja se diluindo internamente por não manter ligação orgânica com o povo e seus movimentos, e por sustentar um projeto neocolonialista.

Com outros, articula um golpe parlamentar que renova a tragédia política brasileira, como foi com Vargas e com Jango, culminando com a ditadura militar. No lugar dos tanques e das baionetas, funcionam as tramoias. Querem ocupar o Estado para realizar seu projeto privatista e antinacional. Se ocorrer uma convulsão social, os golpistas serão seus principais responsáveis. Não podemos permitir que a tragédia novamente se consuma.

Qual o Brasil que queremos: um país justo ou apenas rico?

Charge do Kemp, reprodução do Humortadela

Leonardo Boff
O Tempo

A exaltação dos ânimos nos partidos e na sociedade nos dificulta discernir o que está, efetivamente, em jogo: que Brasil queremos? Um país justo ou um país rico? Logicamente, o ideal seria termos um país justo e simultaneamente rico, mas os caminhos que escolhemos para esse propósito são diferentes. Uns o impedem, outros o possibilitam. Se quisermos que seja justo, devemos optar pelo caminho da democracia republicana. A consequência é que haverá mais políticas sociais que atendam os mais vulneráveis, diminuindo, assim, nossa perversa desigualdade social.

Se quisermos um país rico, optamos pela democracia liberal dentro do modo de produção capitalista ou neoliberal. O neoliberalismo coloca o bem privado acima do bem comum. Em função disso, prefere fazer investimentos em grandes projetos e dar facilidades às indústrias eficientes para que consigam conquistar consumidores para seus produtos. Os pobres não são esquecidos, mas apenas recebem políticas pobres.

Thomas Piketty mostrou, em seu livro “O Capitalismo no Século XXI”, que o melhor caminho jamais excogitado para se alcançar a riqueza é o capitalismo. Mas reconhece que, onde ele se instala, logo se introduz a desigualdade, pois ele é montado para a acumulação privada, e não para a distribuição da renda. Predomina a concorrência, e não a solidariedade. O mercado comanda a política, pratica-se a privatização de bens públicos; o Estado mínimo não deve intervir, cabendo-lhe a segurança e a garantia dos serviços básicos.

BENS NATURAIS

E mais: a busca desenfreada da riqueza de alguns implica a exploração dos bens e dos serviços naturais, hoje quase exauridos, a ponto de termos tocado os limites físicos da Terra. Um planeta limitado não suporta um crescimento ilimitado. Precisamos de quase uma Terra e meia para atendermos as demandas humanas, o que a torna insustentável, inviabilizando a própria reprodução do sistema do capital. A ordem capitalista está conhecendo o seu limite.

Qual é o pomo de discórdia na política atual no Brasil? A oposição optou pela macroeconomia neoliberal. Líderes da oposição proclamam que os salários são altos demais, que toda a Petrobras, bem como o Banco do Brasil, a Caixa e os Correios, deveria ser privatizada. Já conhecemos essa fórmula. Ela é cruel para os pobres e danosa para os trabalhadores, pois favorece a acumulação e, assim, as desigualdades sociais. O capitalismo é bom para os capitalistas, mas ruim para a maior parte da população.

O PT, os partidos e os grupos progressistas querem o caminho da democracia republicana e participativa. Visam garantir as conquistas sociais e alargá-las. Não é nada seguro que a vitória do neoliberalismo vá mantê-las, pois obedece a outra lógica, a da maximização dos lucros.

BASE ECOLÓGICA

O atual governo busca um caminho próprio na economia e na política internacional, com a consciência de que, dentro de pouco, a economia mundial será de base ecológica. Aí emergiremos como uma potência, capaz de ser a mesa posta para as fomes e as sedes do mundo inteiro. Esse dado não pode ser desconsiderado.

A oposição ferrenha aos governos de Lula e Dilma tem como motor propulsor a liquidação desse projeto republicano, pois lhe custa aceitar a ascensão dos pobres e sua participação na vida social. Mas é esse projeto que responde à angústia que devorava Celso Furtado: “Por que o Brasil, sendo tão rico, é pobre, e, com tantas virtualidades, continua atrasado?” A resposta dada por Lula e Dilma mitiga a queixa de Celso Furtado, boa não só para os pobres, mas para todos.

A crise política brasileira: nem chorar, nem rir, mas entender

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Ilustração do chargista Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma dilaceração na sociedade brasileira que não pode continuar, pois comprometerá a nossa frágil democracia e a convivência minimamente pacífica. Tal fato se deriva da onda de ódio, intolerância e abuso por parte do Judiciário, que perdeu seu centro – a imparcialidade – e, em alguns casos, revela traços inegáveis de perseguição.

A campanha eleitoral de 2014 deslanchou um processo de rejeição e de inconformismo. Houve erros em ambos os lados. Todos, de alguma forma, foram vítimas de marqueteiros, que inventam, quando não distorcem, em favor de seus candidatos, que lhes pagam milhões para fazer um trabalho ambíguo e, não raro, sujo.

As eleições foram democráticas, mas dentro desse quadro maldoso. No entanto, num regime democrático, ganha quem tem a maioria dos votos válidos. Normalmente, quem perde, mostra elegância: vem a público, até por respeito aos eleitores, felicitar o vencedor e lhe desejar bons votos. Isso não ocorreu. O candidato da oposição não reconheceu a derrota. Ao contrário: tentou a recontagem dos votos e foi vencido; tentou impedir a diplomação e foi rejeitado; tentou impedir a tomada de posse e não conseguiu; continuou com um processo de impeachment que ainda corre, e não é líquido que prospere.

IMPOSSÍVEL GOVERNAR

Com isso, deu-se início a uma estratégia oposicionista de tornar impossível governar o país. Coincidentemente, estourou a corrupção da Petrobras, em que grande parte dos partidos estava comprometida. Mas aqui tornou a vigorar a politização da Justiça. Todo o peso das acusações caiu, praticamente, sobre o PT.

Os milhões da corrupção por parte do PT são tão escandalosos que suscitam, com razão, a indignação de qualquer pessoa sensata. Tal fato criou desalento por parte dos membros do partido e revolta e vontade de propor um impeachment contra a presidente por certos setores da população. De repente, todo o Partido dos Trabalhadores era e é corrupto, o que não é verdade. Ao arrepio do direito, bastavam suspeitas para o juiz mandar prender os suspeitos, antes mesmo de ouvi-los ou confirmar a objetividade das delações. Assim, assistimos, estarrecidos, ao excesso judicial de levar sob vara o ex-presidente Lula a interrogatório, quando a sensatez aconselhava fazer como se fez com outro ex-presidente, FHC, que foi ouvido em casa. A culminância chegou às raias da evidente insensatez e da falta da percepção das consequências sociais violentas quando um juiz e três jovens procuradores, parcos de experiência e mais ainda de cultura, decretarem a prisão preventiva de Lula.

UM OPERÁRIO NO PODER

Nessa atmosfera acirrada, cabe pedir moderação para salvaguardar a democracia e não favorecer comportamentos fascistas. Mas faz-se mister tomar em conta um dado esclarecedor. A oposição, cuja base social é constituída pelas elites econômicas e intelectuais, nunca aceitou que um metalúrgico assumisse o mais alto cargo da nação. Com o PT triunfou um projeto que conseguiu o que nunca ocorrera antes: incluir milhões na cidadania, permitir a milhares chegar à universidade, dar-lhes dignidade em sua casinha com luz elétrica.

O conflito de raiz é este: os estratos tradicionais e poderosos não aceitam essa inflexão na história do Brasil em favor dos humilhados e ofendidos. Querem-nos como seus serviçais baratos, exército de reserva.

Nunca pertenci ao PT, mas sempre apoiei sua causa. O essencial da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da justiça social. Por isso, apoiei e continuo a apoiar o PT, porque o vejo como um instrumento para realizar esse sonho maior.

Quatro sombras afligem a realidade brasileira atual

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Ilustração do Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizam nossa história, cujos efeitos perduram até hoje. A primeira sombra é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado é sempre baixar a cabeça e pensar que somente o que é estrangeiro é bom. A segunda sombra foi o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões. A consequência é termos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomadas, muitos são assassinados, e outros, para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância. A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi a escravidão. Entre 4 e 5 milhões de escravos foram trazidos da África como peças a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade, e seus lamentos, sob a chibata, chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da casa-grande e da senzala. Consequência: não precisamos respeitar o outro. Se lhe pagamos salário, é caridade, e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substituiu o direito, e criou-se um estado para servir aos interesses dos poderosos, e não ao bem de todos.

Raymundo Faoro (autor de “Os Donos do Poder”) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (“Conciliação e Reforma no Brasil”) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer o Estado nacional. Assim surgiu uma nação profundamente dividida entre poucos ricos e grandes maiorias pobres – um dos países mais desiguais do mundo, violento e cheio de injustiças sociais.

INJUSTIÇA SOCIAL

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca se logrou civilizá-lo. Mas, depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins nasceram desse esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões sair da miséria e ter os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

A QUARTA SOMBRA…

Mas uma quarta sombra escurece uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção. Setores importantes do PT se deixaram morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dados os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A Justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto “velhista”, neoliberal e insensível à injustiça social. Conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento de Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal.

Nunca fui filiado ao PT, mas, apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar menos malvada a nossa sociedade.

O resgate da utopia no contexto sombrio do Brasil e do mundo

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Face ao desamparo que grassa no Brasil e na humanidade atual, faz-se urgente resgatar o sentido libertador da utopia. Na verdade, vivemos no olho de uma crise da ordem política e do tipo de democracia que temos. Mais ainda, uma crise civilizacional de proporções planetárias.

Toda crise oferece chances de transformação, bem como riscos de fracasso. Na crise, medo e esperança, expressões de raiva e de violência real ou simbólica se mesclam, especialmente nesse momento crítico da sociedade.

Precisamos de esperança. Ela se expressa na linguagem das utopias. Estas, por sua natureza, nunca vão se realizar totalmente, mas nos mantêm caminhando.

Acertadamente, observou o poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… Ora!/ Não é motivo para não querê-las/ Que tristes os caminhos se não fora/ A mágica presença das estrelas”.

ALGO EM POTENCIAL

A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque não é feita apenas por aquilo que é dado, mas por aquilo que é potencial e que pode um dia se transformar em dado. A utopia nasce desse “transfundo” de virtualidades presentes na história, na sociedade e em cada pessoa.

O filósofo Ernst Bloch cunhou a expressão “princípio-esperança”, que entende o inesgotável potencial da existência humana e da história, que permite dizer “não” a qualquer realidade concreta, às limitações espaço-temporais, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar.

O ser humano diz “não” porque primeiro disse “sim”: sim à vida, ao sentido, a uma sociedade com menos corrupção e mais justa, aos sonhos e à plenitude ansiada. Embora realisticamente não entreveja a total plenitude no horizonte das concretizações históricas, nem por isso ele deixa de ansiar por ela com uma esperança jamais arrefecida.

PARAÍSO NA TERRA

Jó, quase nas vascas da morte, podia gritar a Deus: “Mesmo que Tu me mates, ainda assim espero em Ti”. O paraíso terrenal narrado no Gênesis 2-3 é um texto de esperança. Não se trata do relato de um passado perdido e do qual guardamos saudades, mas é antes uma promessa, uma esperança de futuro ao encontro do qual estamos caminhando. Como comentava Bloch: “O verdadeiro Gênese não está no começo, mas no fim”. Só no termo do processo da evolução serão verdadeiras as palavras das Escrituras: “E Deus viu que tudo era bom”. Enquanto evoluímos, nem tudo é bom, só perfectível.

O essencial do cristianismo não reside em afirmar a encarnação de Deus. Outras religiões também o fizeram. Mas é afirmar que a utopia virou eutopia (um lugar bom). Em alguém, não apenas a morte foi vencida, o que seria muito, mas ocorreu algo maior: todas as virtualidades escondidas no ser humano explodiram e implodiram. Jesus é o “Adão novíssimo” na expressão de são Paulo, o homem abscôndito agora revelado. Mas é apenas o primeiro dentre muitos; nós seguiremos a ele.

CRISE PURIFICADORA

Anunciar tal esperança no sombrio contexto atual do Brasil e do mundo não é irrelevante. Transforma a eventual tragédia da política, da Terra e da humanidade devido à dissolução social e às ameaças sociais e ecológicas numa crise purificadora.

Vamos fazer uma travessia perigosa, mas a vida será garantida, e o Brasil, bem como o planeta, ainda se regenerará e encontrará um caminho que nos abra um futuro “esperançador”.

Para os cristãos, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. A partir da crise da sexta-feira da crucificação, a vida triunfou. Por isso a tragédia não pode escrever o último capítulo da história, nem do Brasil, nem da Mãe Terra. Aquele o escreverá a vida em seu esplendor solar.

Derrotados nas urnas querem ganhar pela força, não pelo direito

Charge do Jota A., reprodução do Portal O Dia

Leonardo Boff
O Tempo

No emaranhado das discussões atuais relativas à corrupção, importa desocultar o que está oculto e que passa despercebido aos olhos pouco críticos: a vontade persistente dos grupos dominantes, que não aceitam a ascensão das massas populares aos bens mínimos da cidadania e que querem mantê-las onde sempre foram mantidas, à margem. A investigação jurídico-policial dos crimes na Petrobras envolve muitos outros partidos além do PT, como o PPS, o PMDB e o PSDB, beneficiados com subsídios e propinas para suas campanhas. Por que ela é conduzida de forma a se centrar unicamente nos membros petistas? O objetivo principal parece não ser a condenação dos malfeitos, que obviamente devem ser investigados, julgados e punidos.

Mas o PT não está sozinho nesse imbróglio. A maioria dos grandes partidos está metida nele. Por que o Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro não os investigam, já que pretendem limpar o país?

É ingênuo e enganador pensar que essas instâncias, inclusive os vários níveis da Justiça nos seus mais altos escalões, não venham imbuídas de intenções e ideologia. É próprio do discurso ocultador dos golpistas enfatizar a completa independência dessas instâncias e seu caráter imparcial. A realidade do passado e do presente revela outra coisa.

VONTADE PERVERSA

Por que a tentativa sistemática de desmontar a figura de Lula, levado sob vara para depor na PF, depois de tê-lo feito antes por três vezes? É a vontade perversa de destruí-lo como referência para todos aqueles que veem nele o político vindo dos fundões de nosso país, sobrevivente da fome que, finalmente, com seu carisma, galgou o centro do poder. Ele conferiu a coisa mais importante para uma pessoa: dignidade. A conciliação entre as classes sempre foi para aplainar o caminho dos grupos poderosos e negar benefícios ao povo. Com o PT, houve uma inflexão nessa lógica excludente.

Agora vem à tona o mesmo propósito das classes que não aceitaram, um dia, terem sido apeadas do poder. Querem voltar a qualquer custo. Dão-se conta de que pela via eleitoral não o conseguirão, por causa da mediocridade de seus líderes e por falta de qualquer projeto que devolva esperança ao povo, súcubos que são do poder imperial globalizado. Querem consegui-lo manipulando as leis, suscitando ódio e intolerância. É luta de classes. Basta ver o que se diz nas mídias sociais.

A política não é feita de confronto de ideias, projetos políticos e leituras diferentes de nossa situação de crise. É algo mais perverso: é a vontade de destruir Lula, de liquidar o PT e colocá-lo contra o povo. Temem que Lula volte para completar as políticas que foram boas para as maiorias e que lhe deram consciência e dignidade. O que os donos do poder mais temem é um povo que pensa. Querem-no ignorante para poder dominá-lo ideológica e politicamente e, assim, se garantir no privilégio.

NÃO PASSARÃO

Mas não o conseguirão. São tão obtusos e faltos de criatividade em sua fome de poder que usam as mesmas táticas de 1954, contra Vargas, ou de 1964, contra Jango. Trata-se sempre de deter os reclamos do povo por mais direitos, o que implica a redução dos privilégios e uma melhora da democracia.

Mas os tempos são outros. Não vão prosperar, pois já há um acúmulo de consciência e de pressão popular que os levará à irrisão, não obstante seus porta-vozes midiáticos continuem a mentir, a distorcer, a inventar cenários dramáticos para desfalcar a esperança popular e, assim, alcançar seu retorno pela força, e não pelo direito democrático. Porém, não passarão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O escritor Leonardo Boff cometeu um ato falho no texto, ao incluir o PPS no mensalão. Certamente ele queria se referir ao PP, este sim, mais sujo do que pau de galinheiro, como se diz no interior. (C.N.)

O pedido de perdão do papa Francisco aos povos indígenas

No México, o Papa pediu respeito às tradições indígenas

Leonardo Boff
O Tempo

Foi memorável a data de 15 de fevereiro de 2016, quando o papa Francisco esteve na cidade colonial de San Cristóbal de las Casas, capital do Estado mais pobre do México, Chiapas. Encontrou-se com os povos originários, maias, quichés e outros. Diante de 100 mil pessoas, celebrou uma missa utilizando as línguas deles.

Foi uma visita de dupla reparação. Primeiro, aos povos originários, pedindo perdão pelos séculos de dominação e sofrimento. Ecoam ainda nos nossos ouvidos as palavras comovedoras do profeta maia Chilam Balam de Chumayel: “Ai, entristeçamo-nos, porque chegaram. Vieram fazer nossas flores murcharem para que somente a sua flor vivesse; entre nós se introduziu a tristeza, veio o cristianismo; este foi o princípio de nossa miséria, o princípio de nossa escravidão”.

O impacto da invasão dos espanhóis foi tão violento que, dos 22 milhões de astecas existentes em 1519, quando Hernán Cortés penetrou no México, restaram apenas 1 milhão de pessoas em 1600. Morreram em guerras e por doenças dos europeus contra as quais não tinham imunidade. Foi um dos maiores genocídios da história humana. Na linguagem de um indígena do século XVI, os espanhóis, cristãos, “foram o anticristo na Terra, o tigre dos povos, o sugador do índio”.

UMA SEGUNDA REPARAÇÃO

Agora vem um papa da América Latina que não escamoteia, como sempre fizeram a Igreja oficial e a Espanha, essa devastação de nações inteiras. Reconhece os pecados e os abusos e pede perdão.

Fez uma segunda reparação: o resgate do bispo dom Samuel Ruiz García, incompreendido pela hierarquia mexicana, em grande parte conservadora, e perseguido pelo Vaticano por introduzir diáconos indígenas e colocar as bases de uma “Igreja indígena”, que combinava elementos do catolicismo e da cultura autóctone. O papa reconheceu as três línguas principais como línguas litúrgicas: chol, tzotzil e tzeltal. Deteve-se diante do túmulo de dom Samuel Ruiz e rezou longamente.

Mais ainda. O papa reconhece a grande contribuição que podem dar ao mundo pela forma como tratam a Pacha Mama, com respeito, veneração e harmonia. Retoma o discurso da encíclica sobre o “Cuidado da Casa Comum” e diz, enfaticamente: “Não podemos permanecer indiferentes perante uma das maiores crises ambientais da história. Nisso, vós tendes muito a ensinar-nos. Os vossos povos sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano”. Acrescentou ainda: “Entre os pobres mais abandonados e maltratados está o nosso oprimido e devastado planeta. Não podemos fazer-nos surdos face a uma das maiores crises ambientais da história”.

DOIS FENÔMENOS

De minhas andanças pelos vários países latino-americanos, constato dois fenômenos visíveis: o resgate biológico dos povos originários – que estão crescendo em número e refazendo sua população – e a reconquista de sua cultura, com suas religiões e sua sabedoria ancestral. É uma experiência inolvidável participar de suas celebrações, dirigidas por sacerdotes, sacerdotisas e sábios.

Eles não são filhos da modernidade secularizada. Guardam a sagrada veneração por todas as coisas. Sentem-se filhos das estrelas e em profunda comunhão com os ancestrais. Estes são invisíveis, mas estão presentes, acompanhando o povo com seus conselhos transmitidos pelos anciãos e pelos sábios.

Devemos revistar essas culturas ancestrais. Nelas estão vivos princípios e valores que nos poderão inspirar formas de superar a nossa crise de civilização e garantir o nosso futuro.

Nossa cultura conferiu valor absoluto ao espírito científico

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A nossa cultura, a partir do chamado Século das Luzes (1715-1789), aplicou de forma rigorosa a compreensão de René Descartes (1596-1650) de que o ser humano é “senhor e mestre” da natureza, podendo dispor dela ao seu bel-prazer. Conferiu um valor absoluto à razão e ao espírito científico. Com isso, se fecharam muitas janelas do espírito que permitem também um conhecimento, sem necessariamente passar pelos cânones racionais. O que mais foi marginalizado e até difamado foi o coração, órgão da sensibilidade e do universo das emoções, sob o pretexto de que ele atrapalharia “as ideias claras e distintas” (Descartes) do olhar científico. Assim surgiu um saber sem coração, mas funcional ao projeto da modernidade, que era – e continua sendo – o de fazer do saber um poder como forma de dominação da natureza, dos povos e das culturas.

Curiosamente, toda a epistemologia moderna, que incorpora a mecânica quântica, a nova antropologia, a filosofia fenomenológica e a psicologia analítica, tem mostrado que todo conhecimento vem impregnado das emoções do sujeito e que sujeito e objeto estão indissoluvelmente vinculados, às vezes por interesses escusos (J. Habermas).

Foi a partir de tais constatações e com a experiência desapiedada das guerras modernas que se pensou no resgate do coração. Finalmente, é nele que reside o amor, a simpatia, a compaixão, o sentido de respeito, base da dignidade humana e dos direitos inalienáveis.

CULTURA MAIA

Isso que nos parece novo e uma conquista – os direitos do coração – era o eixo da grandiosa cultura maia na América Central, particularmente na Guatemala. Como não passaram pela circuncisão da razão moderna, guardaram fielmente suas tradições, que provêm dos avós, ao largo das gerações.

Participei várias vezes de celebrações maias, sempre ao redor do fogo. Começam invocando o coração dos ventos, das montanhas, das águas, das árvores e dos ancestrais. Fazem suas invocações no meio de um incenso nativo perfumado e produtor de muita fumaça.

Ouvindo-os falar das energias da natureza e do universo, parecia-me que sua cosmovisão era muito afim, guardadas as diferenças de linguagem, da física quântica. Tudo para eles é energia e movimento entre a formação e a desintegração que conferem dinamismo ao universo. Eram exímios matemáticos e haviam inventado o número zero. Seus cálculos do curso das estrelas se aproximam em muito aos que alcançamos com os modernos telescópios.

DOIS CORAÇÕES

Dizem que tudo o que existe nasceu do encontro amoroso de dois corações, o do céu e o da Terra, que é um ser vivo que sente, intui, vibra e inspira os seres humanos. Estes são os “filhos ilustres, indagadores e buscadores da existência”, afirmações que nos lembram Martin Heidegger.

A essência do ser humano é o coração, que deve ser cuidado para ser afável, compreensivo e amoroso. Toda a educação que se prolonga ao largo da vida é para cultivar a dimensão do coração. Os irmãos de La Salle mantêm, na capital guatemalteca, um imenso colégio, onde jovens maias vivem na forma de internato bilíngue, no qual se recupera e sistematiza a cosmovisão maia, ao mesmo tempo em que assimilam e combinam saberes ancestrais com os modernos saberes, especialmente os ligados à agricultura e a relações respeitosas com a natureza.

Apraz-me concluir com um texto que uma mulher sábia me repassou no fim de um encontro com indígenas maias. “Quando tens que escolher entre dois caminhos, pergunta-te qual deles tem coração. Quem escolhe o caminho do coração, jamais se equivocará” (Popol Vuh).

Os equívocos do PT ao embarcar no presidencialismo de coalizão

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Durante quatro a cinco décadas houve vigorosa movimentação das bases populares da sociedade discutindo “que Brasil queremos”, diferentemente daquele que herdamos. Ele deveria nascer de baixo para cima e de dentro para fora, democrático, participativo e libertário. Mas consideremos um pouco os antecedentes histórico-sociais para entender por que esse projeto não conseguiu prosperar.

É do conhecimento dos historiadores, mas muito pouco da população, como foi cruenta a nossa história tanto na Colônia e na Independência como no reinado de dom Pedro I, sob a Regência e nos inícios do reinado de dom Pedro II. Sempre vigorou espantoso divórcio entre o poder e a sociedade. O que predominou foi a política de conciliação entre os partidos e as oligarquias, sempre sem o povo. No entanto, pela primeira vez, uma coligação de forças progressistas e populares, hegemonizadas pelo PT, vindo de baixo, chegou ao poder central. Ninguém pode negar o fato de que se conseguiu a inclusão de milhões que sempre foram postos à margem.

Um governo governa sustentado por uma sólida base parlamentar ou assentado no poder social dos movimentos populares organizados. Lula optou pelo Parlamento, no ilusório pressuposto de que seria o atalho mais curto para as reformas que pretendia. Assumiu o presidencialismo de coalizão. Líderes de movimentos sociais foram chamados a ocupar cargos no governo, enfraquecendo, em parte, a força popular.

À BASE DE INTERESSES

Lula, mesmo mantendo ligação com os movimentos de onde veio, não via neles o sustentáculo de seu poder, mas sim a coalizão pluriforme de partidos. Se tivesse observado um pouco a história, teria sabido do risco.

A coalizão se faz à base de interesses. A maioria dos parlamentares não representa o povo, mas os interesses dos grupos que lhes financiam as campanhas. Na prática, tratam da defesa dos bens particulares e corporativos. Por isso, em seus oito anos, Lula não conseguiu fazer passar nenhuma reforma. Não havia base.

A “Carta aos Brasileiros”, que, na verdade, era uma carta aos banqueiros, obrigou Lula a alinhar-se aos ditames da macroeconomia mundial e deixou pouco espaço para as políticas sociais. Uma parte da cúpula do PT, metida nessa coalizão, perdeu o contato orgânico com as bases. Nessa economia, o mercado dita as normas e tudo tem seu preço. Assim, parte do PT perdeu o contato orgânico com as bases, contato esse sempre terapêutico contra a corrupção. Boa parte do PT traiu sua bandeira principal, a ética e a transparência. E, o pior, traiu as esperanças de 500 anos do povo.

E nós, que tanta confiança depositávamos no novo, com as milhares de comunidades de base, as pastorais sociais e os grupos emergentes… Elas aprenderam a articular fé e política. A mensagem originária de Jesus de um reino de justiça e de fraternidade apontava de que lado deveríamos estar: dos oprimidos. A política seria uma mediação para alcançar tais bens para todos.

EQUÍVOCO FATAL

O partido cometeu um equívoco fatal: aceitou, sem mais, a opção de Lula pelo problemático presidencialismo de coalizão. Deixou de se articular com as bases, de formar politicamente seus membros e de suscitar novas lideranças. E aí veio a corrupção do mensalão. O petrolão, pelos números altíssimos da corrupção, desmoralizou parte do PT e das lideranças, atingindo o coração do partido.

O PT deve ao povo uma autocrítica nunca feita integralmente. Para se transformar numa fênix que ressurge das cinzas, deverá voltar às bases e, junto com o povo, reaprender a lição de uma nova democracia participativa, popular e justa, que poderá resgatar a dívida histórica que os milhões de oprimidos ainda esperam desde a Colônia e a escravidão.

A persistência da discriminação e do ódio na sociedade brasileira

Leonardo Boff
O Tempo

É fato inegável: há muito ódio, muita raiva, muito rancor, muita discriminação e muita repulsa na sociedade brasileira. Isso sempre existiu de alguma forma, ou alguém acha que os milhões de escravos e as mulheres à disposição da volúpia sexual dos patrões e de seus filhos não provocavam surdo rancor e profundo ódio? E o ódio dos patrões que castigavam seus escravos desobedientes no pelourinho?

O ódio pertence à zona do mistério. A própria Bíblia não sabe explicá-lo e o vê presente desde o começo no jardim do Éden. O primeiro crime ocorreu com Caim, que matou seu irmão Abel.

Mas eis que vem Jesus e reverte a lógica do ódio: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Ele mesmo sucumbiu ao ódio de seus inimigos, mas “venceu a morte pela morte” e assim derrubou “o muro da inimizade que dividia a humanidade” (Ef 2,14-16). Inaugurou, assim, uma nova etapa de nossa humanização, mas esse ideal nunca se transformou em cultura nos países cristianizados.

No Brasil, a raiva e o rancor históricos foram acrescidos depois das eleições de 2014. Houve quem não aceitou a derrota e deslanchou uma torrente de raiva e ódio que contaminou não apenas o partido vencedor, mas toda a sociedade. Inegavelmente, criou-se um consenso político-ideológico em alguns meios de comunicação que, com total desfaçatez, difundem esse sentimento.

PERSEGUIÇÃO A LULA

A verdadeira perseguição judicial que Lula está sofrendo é movida não tanto pela fome e sede de justiça, mas pela vontade de punir, de desfigurar seu carisma e liquidar sua liderança. Grassa um maniqueísmo avassalador que amargura toda a vida social. Bem dizia Bernard Shaw: “O ódio é a vingança dos covardes”.

Entretanto, tentando ir um pouco mais a fundo na questão do ódio, precisamos reconhecer que ele se enraíza em nossa própria condição humana num feixe de contradições. Somos, por natureza, e não por desvio de construção, seres contraditórios, compostos de ódios e de amores, de abraços e de rejeições. Mesmo escolhendo o amor, o ódio nos acompanha como uma sombra sinistra.

Encontramos esse realismo na Bíblia, mas também num pensador como Bertrand Russell, que observou com acerto: “O coração humano, tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que para a fraternidade”. Lógico, se ela colocou como eixo estruturador a concorrência e não a colaboração, e a luta de todos contra todos em vista da acumulação privada, entende-se que predomine a tensão, a raiva, a inveja, a ponto de o lema de Wall Street ser “greed is good”, ou “a cobiça é boa”.

CITANDO ENGELS

Mas há um ponto que precisa ser referido, observado por F. Engels quando escreveu uma introdução ao livro de Marx sobre a luta de classes na França: “Se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder, a burguesia não admitirá a democracia, sendo até capaz de golpeá-la”. Ora, por meio de Lula, o PT e seus aliados, vindo das massas trabalhadoras, chegaram ao poder. Isso é inadmissível para os “donos do poder”, que procuram inviabilizar o governo de cunho popular, desconsiderando o bem comum.

Aqui valem as palavras sábias do velho do Restelo, de Camões: “Ó glória de mandar, ó vã cobiça/ Desta vaidade a quem chamamos fama./ Ó fraudulento gosto, que se atiça/ Com uma aura popular que honra se chama” (Cântico IV, versos 94-95). Por trás da busca da glória de mandar e do poder, revestido de raiva e de ódio, se esconde, atualmente, a vontade daqueles que sempre o detiveram e que agora o perderam, e fazem de tudo para recuperá-lo por todos os meios possíveis.

O mito de Héstia, que representa nosso centro – o do lar e o da Terra

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Ilustração de Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Atualmente, há toda uma nova forma de interpretar os velhos mitos gregos e de outros povos. Em vez de considerar os deuses e as deusas entidades subsistentes, agora cresce a hermenêutica, especialmente após os estudos do psicanalista Jung e de seus discípulos Hillman, Neumann, Paris e outros, segundo a qual conceitos abstratos não conseguem expressá-los.

Um desses mitos é o da deusa Héstia, filha de Cronos (o deus do tempo e da idade de ouro) e de Reia, a grande mãe, geradora de todos os seres. Héstia representa nosso centro pessoal, o centro do lar e o centro da Terra, nossa Casa Comum. É virgem, não por desprezar a companhia do homem, mas para poder, com maior liberdade, cuidar de todos os que se encontram no lar.

Héstia significa, em grego, a “lareira com fogo aceso”: aquele lugar ao redor do qual todos se agrupam para se aquecerem e conviverem. Portanto, é o coração da casa, o lugar da intimidade familiar, longe do tumulto da rua. Héstia protege, dá segurança e aconchego. Além disso, a ela cabem a ordem da casa e a chave da despensa, para que sempre esteja bem fornida para familiares e hóspedes.

Nas casas gregas e romanas, mantinha-se sempre um fogo aceso para expressar a presença protetora de Héstia. Se o fogo se apagasse, era presságio de alguma desgraça. Também não se começava a refeição sem fazer um brinde a ela.

CADA UM TEM SEU LUGAR

Héstia significava, também, aquele canto para onde alguém se recolhe para estar só, ler seu jornal ou um livro e fazer uma meditação. Cada um tem o seu “lugarzinho” ou sua cadeira preferida. Para saber onde se encontra a nossa Héstia, devemos nos perguntar quando estamos fora de casa: qual é a imagem que melhor lembra o nosso canto? Aí está o centro existencial da casa. Sem a Héstia, a casa se transforma num dormitório ou numa espécie de pensão gratuita, sem vida. Com a Héstia há afeição, bem-estar e o sentimento de estar “finalmente em casa”.

Héstia era por todos venerada e, no Olimpo, a primeira a ser reverenciada. Júpiter sempre defendeu sua virgindade contra o assédio sexual de alguns deuses mais assanhados.

A nossa cultura patriarcal e a masculinização das relações sociais tornaram Héstia grandemente enfraquecida. As mulheres fizeram bem em sair de casa, desenvolver sua dimensão de “animus” (capacidade de organizar e dirigir). Mas tiveram que sacrificar, em parte, a sua dimensão de Héstia. Levaram para o mundo do trabalho as virtudes principais do feminino: o espírito de cooperação e o cuidado que tornaram as relações menos rígidas. Mas chega o momento de voltar para casa e de resgatar Héstia.

Ai da casa desleixada e desordenada! Aí emerge a vontade de que Héstia se faça presente para garantir a atmosfera boa, íntima e familiar. Esta não é apenas tarefa da mulher, mas também do homem. Por isso, em todo homem e em toda mulher, deve-se equilibrar o momento de Hermes, o estar fora de casa para trabalhar, com o momento de Héstia, o de voltar ao centro e ter seu refúgio e aconchego.

DOSAGEM VITAL

Hoje, por mais feministas que sejam as mulheres, elas estão resgatando essa fina dosagem vital.

Héstia também designava o centro da Terra, onde está o fogo primordial. Se a Terra não é mais o centro físico do universo, ela continua sendo o centro psicológico e emocional. Aqui vivemos, nos alegramos, sofremos e morremos. Mesmo viajando aos espaços exteriores, os astronautas sempre revelavam ter saudades da Mãe Terra, onde tudo o que é significativo e sagrado está aqui.

Temos que resgatar Héstia, protetora da Casa Comum, manter seu fogo vivo e conferir-lhe sustentabilidade. Não estamos lhe rendendo as honras que merece, e ela nos envia seus lamentos com o aquecimento global e as calamidades naturais.

A sociedade do cansaço e do abatimento social

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma discussão pelo mundo sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han. O pensamento nem sempre é claro e é, por vezes, discutível, como quando afirma que o “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito”.

Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil, além de cansaço, sofremos um desânimo e um abatimento atroz.

A aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons e mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, e a superinformação que nos chega pelas mídias sociais nos causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados.

Acresce-se ainda o ritmo do produtivismo neoliberal imposto aos trabalhadores no mundo inteiro. Cobra-se de todos o melhor desempenho possível, o que desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se o dito da revolução de 68 do século passado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido da vida e verdadeiros infartos psíquicos.

DESALENTO GENERALIZADO

Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras, além do fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda, o que fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saíram do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Como disse Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos.

Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade, a lugares antes reservados apenas para elas. Somos um dos países mais desiguais do mundo, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos que equivalem em número à guerra do Iraque. Temos trabalhadores vivendo sob condição equivalente à da escravidão.

Como sair desse inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto; não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada.

ALTERNATIVA DE SOCIEDADE

Vejo uma saída possível por parte da sociedade organizada e dos movimentos sociais, que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para propor uma alternativa de sociedade que possua raízes naqueles que, no passado, lutaram por outro Brasil com projeto próprio. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.

Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir. Utopia? Como dizia Oscar Wilde, “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele, porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento, teremos uma cultura da esperança e da alegria.

O biorregionalismo como alternativa para viver melhor

Papa Francisco, um grande defensor da ecologia

Leonardo Boff
O Tempo

O modelo ainda dominante nas discussões ecológicas privilegia em escala o Estado e o mundo; em economia, a exploração da natureza, o crescimento/desenvolvimento ilimitado em nível mundial e a competição; em política, prevalecem a centralização, a hierarquização, o controle e o governo da maioria; na cultura, o quantitativo sobre o qualitativo, a uniformização dos costumes, o consumismo, o individualismo e o pensamento tecnocrático.

Esse paradigma subjaz, em grande parte, à atual crise da Terra, pois considera esta um todo uniforme sem valorizar a singularidade de seus ecossistemas e a diversidade das culturas. Por isso, gera desequilíbrios no sistema da vida e na dinâmica natural da Terra viva.

Hoje, está se impondo outra vertente mais amiga da natureza e com possibilidades de nos tirar da crise atual: o biorregionalismo. A biorregião se circunscreve numa área, normalmente definida pelos rios e pelo maciço de montanhas. Possui certo tipo de vegetação, geografia do terreno, de fauna e de flora e mostra uma cultura local própria, com seus hábitos, tradições, valores, religião e história feita no local.

VALORIZANDO A REGIÃO

Em termos de escala, centra-se na região e na comunidade; em economia, na conservação, na adaptação, na autossuficiência e na cooperação; em política, na descentralização, na subsidiariedade, na participação e na busca do consenso; na cultura favorece a simbiose, a diversidade e o crescimento qualitativo e inclusivo.

Sua tarefa básica é fazer os habitantes entenderem e valorizarem o lugar onde vivem. Faz-se mister inserir as pessoas na cultura local, nas estruturas sociais, urbanas e rurais, no aprendizado das figuras exemplares da história local. Finalmente, sentir-se filho e filha da Terra.

É na biorregião que a sustentabilidade se faz real, e não retórica a serviço do marketing; pode se transformar num processo dinâmico, que se aproveita racionalmente das capacidades oferecidas pelo ecossistema local, criando mais igualdade, diminuindo a pobreza, facilitando a participação das comunidades no estabelecimento dos projetos e das prioridades.

UNIDADES SISTÊMICAS

Mesmo sendo a comunidade local a unidade básica, isso não invalida as unidades sistêmicas maiores que afetam a todos (por exemplo, o aquecimento global). A ideia do “glocal”, vale dizer, pensar e agir local e globalmente, nos ajuda a articular as duas dimensões. Sempre é necessário informar-se sobre as experiências de outras regiões e como está o estado geral do planeta Terra.

O biorregionalismo possibilita que as mercadorias circulem no local, evitando as grandes distâncias; favorece o surgimento de cooperativas comunitárias; persiste a economia de mercado, mas composta primariamente, embora não exclusivamente, de empresas familiares, iniciativas cujos proprietários são os próprios trabalhadores, numa cooperação aberta entre bairros e municípios, como ocorre entre várias cidades do vale do rio Itajaí, em Santa Catarina, e em outras regiões.

O biorregionalismo permite deixar para trás o objetivo de “viver melhor” para dar lugar ao “bem viver e conviver” dos andinos, que implica sempre o bem-estar para toda a comunidade, entrando em harmonia com a Mãe Terra, com os solos, as águas e os demais elementos que garantem nossa vida junto com os demais seres vivos do ecossistema.

Esse é um caminho que está sendo trilhado em muitos lugares no mundo. Ele configura uma semente de esperança no meio da falta de alternativas dos dias atuais.

Eticamente desqualificado, manda a julgamento mulher íntegra e ética

Charge de Nani (reprodução de nanihumor.com)

Leonardo Boff
O Tempo

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é acusado de graves atos delituosos: de beneficiário da Lava Jato, contas não declaradas na Suíça e mentiras deslavadas, como, numa entrevista coletiva, ao declarar que o deputado André Moura fora levado pelo chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, a falar com a presidente Dilma Rousseff para barganhar a aprovação da CPMF em troca da rejeição da admissibilidade de um processo contra ele no Conselho de Ética. Repetidamente, afirmou que Dilma mentiu à nação ao afirmar que jamais se submeteria a alguma barganha política.

Quem mentiu foi não a presidente, mas Eduardo Cunha. Seu incondicional aliado, o deputado André Moura, não esteve barganhando com Dilma, como o testemunhou o ministro Jaques Wagner. Imitando Fernando Pessoa, diria: ele mente tão perfeitamente que não parecem mentira as mentiras que repete sempre.

É mentira que seu julgamento foi estritamente técnico. Pode ser técnico em seu texto, mas é mentiroso em seu contexto. O técnico nunca existe isolado, sem estar ligado a um tempo e a um interesse. É o que nos ensinam os filósofos críticos. Ele deslanchou o processo de impeachment contra a presidente exatamente no momento em que, apesar de todas as pressões e chantagens sobre o Conselho de Ética, soube que perderia na votação, pois os três representantes do PT acolheriam a aceitação de um processo contra ele. O que fez foi um ato de vindita reles de quem perdeu a noção da gravidade e das consequências de seu ato rancoroso.

VERGONHOSO

É vergonhoso que a Câmara seja presidida por uma pessoa sem qualquer vinculação com a verdade e com o que é reto e decente. Manipula, pressiona deputados, cria obstáculos para o Conselho de Ética. Mais vergonhoso ainda é ele, cinicamente, presidir uma sessão na qual se decide a aceitação do impedimento de uma pessoa corretíssima e irreprochável como é a presidente Dilma Rousseff.

Se Kant ensinava que a boa vontade é o único valor sem nenhum defeito, porque, se tivesse um defeito, ela não seria boa, então Eduardo Cunha encarna o contrário, a má vontade como o pior dos vícios, porque contamina todos os demais atos, arquitetados para tirar vantagens pessoais ou prejudicar os outros.

Seu ato irresponsável pode lançar a nação em um grave retrocesso, abalando a jovem democracia que, com vítimas e sangue, foi duramente conquistada. Não podemos aceitar que um delinquente político, destituído de sentido democrático e de apreço ao povo brasileiro, nos imponha mais esse sacrifício.

UM APELO

Faço um apelo explícito ao procurador geral da República, o dr. Rodrigo Janot, e a todo o Supremo Tribunal Federal: pesem, sotopesem e considerem as muitas acusações pendentes contra Eduardo Cunha nas áreas da Justiça. Estimo que há suficientes razões para afastá-lo da presidência da Câmara e que venha a responder judicialmente por seus atos. A missão da mais alta instância da República, assim estimo, não se restringe à salvaguarda da Constituição e à correta interpretação de seus artigos, mas, junto a isso, zelar pela moralidade pública, quando esta, gravemente ferida, pode constituir uma ameaça à ordem democrática e, eventualmente, levar o país a um golpe.

Mais que outros cidadãos, são Suas Excelências os principais cuidadores da sanidade da política e da salvaguarda da ordem democrática num Estado de direito, sem a qual mergulharíamos num caos com consequências políticas imprevisíveis. O Brasil clama pela atuação corajosa e decidida de Suas Excelências, como ultimamente têm demonstrado exemplarmente.

Impasse do Clima é o mundo fazer a “conversão ecológica”

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llustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015 se celebra mais uma Convenção das Mudanças Climáticas (COP21), em Paris. Todas as realizadas até hoje chegaram a convergências pífias, muito distantes das exigências que o problema global exige. Há uma razão intrínseca ao atual sistema socioeconômico mundializado que impede de alcançar objetivos comuns e adequados. É semelhante a um trem sobre os trilhos. Ele está condicionado ao rumo que os trilhos traçam, sem alternativa.

As sociedades mundiais continuam obcecadas pelo ideal do crescimento ilimitado, medido pelo PIB. Falam em desenvolvimento, mas, na verdade, o que se busca é o crescimento material. O crescimento pertence aos processos vitais. Uma árvore não cresce ilimitadamente para cima nem nós crescemos fisicamente de forma indefinida. Um planeta limitado e escasso de bens e serviços não tolera um crescimento ilimitado.

A questão central não está, como viu o papa Francisco em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum, na relação entre crescimento e natureza, mas entre ser humano e natureza. Este não se sente parte dela, mas seu dono. Não cuida dela nem se responsabiliza pelos danos da voracidade de um crescimento infinito com o consumo ilimitado que o acompanha. Assim, caminha célere rumo a um abismo, pois a Terra não suporta mais tanta exploração e devastação.

AQUECIMENTO

Entre as muitas consequências dessa lógica perversa está o aquecimento global, que não cessa de crescer. O aquecimento é inequívoco, não dá para negá-lo. Basta olhar em volta e constatar os eventos extremos que ocorrem em todo o planeta. Para além da geofísica da própria Terra, que conhece fases de aquecimento e de esfriamento, este aquecimento é antrópico, resultado da ininterrupta intervenção humana nos processos naturais. O aquecimento que seria normal vem fortemente intensificado, especialmente pelos gases do efeito estufa, que seguram o calor aqui embaixo, impedindo que se disperse para o alto, aquecendo, em consequência, o planeta.

Toda luta é nos limitar a 2º C, o que permitiria um gerenciamento razoável da adaptação e da mitigação. Para nos mantermos nesses limites, dizem os cientistas, deveríamos reduzir a emissão dos gases em 80% até 2050. A maioria acha isso impossível. Se no entanto, por descuido humano, a temperatura chegar entre 4º C e 6º C por volta daquela data, a vida que conhecemos corre risco de desaparecer e atingir grande parte da espécie humana.

O secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, advertiu recentemente: “As tendências atuais estão nos levando cada vez mais para perto de potenciais pontos de ruptura, que reduziriam de maneira catastrófica a capacidade dos ecossistemas de prestar seus serviços essenciais”.

MUDAR DE RUMO

Temos que mudar de rumo ou conheceremos a escuridão. Há que se estabelecer uma nova relação para com a Terra, respeitar seus ciclos e limites, nos sentirmos parte dela, cuidar dela com processos de produção e consumo que atendam nossas necessidades, sem exaurir sua biocapacidade.

Deveremos aprender a ser mais com menos e a assumir uma sobriedade compartida em comunhão com toda a comunidade de vida, que também precisa da vitalidade da Mãe Terra para viver e se reproduzir. Ou faremos essa “conversão ecológica” (como diz o papa Francisco), ou estará comprometida nossa trajetória sobre este pequeno e belo planeta.