A cultura capitalista, a injustiça social e a injustiça ecológica

Leonardo Boff
O Tempo

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis, mas teve como consequência um alto custo: a perversa desigualdade social.

Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vigora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de ecossistemas inteiros, exaustão dos bens naturais e, no termo, uma crise geral do sistema vida e do sistema Terra. As forças produtivas se transformaram em destrutivas.

No entanto, o capitalismo persiste como sistema dominante em todo o globo sob o nome de “macroeconomia neoliberal de mercado”. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital, que encarna um modo de viver, produzir, consumir, se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar.

CARACTERÍSTICAS

Vejamos rapidamente algumas de suas características: acumulação de bens materiais, mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração dos bens naturais; mercantilização de todas as coisas e especulação financeira, tudo feito com o menor investimento possível, visando obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.

Para esses propósitos, se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam na cultura do capital, mas são elas que produzem a felicidade possível, o capitalismo destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só antivida, mas também antifelicidade.

Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para a efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza.

CULTURA DO CAPITAL

Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de autoafirmar-se.

Em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tensionam: a vontade do indivíduo de ser e a integração num todo maior.

A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós, e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo.

Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até o máximo possível, do indivíduo e da autoafirmação, desdenhando o todo maior, a integração e o nós. Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro, mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.

Como superar essa situação secular? No resgate do equilíbrio dessas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim.

Uma experiência de impacto: o encontro com Pepe Mujica

Leonardo Boff
O Tempo

Participando de um congresso ibero-americano sobre medicina familiar e comunitária, em Montevidéu, no Uruguai, tive a oportunidade de ter um encontro com o ex-presidente José Mujica. Tal encontro deu-se em sua chácara, nos arredores da capital uruguaia. Ali estava ele, com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, uma calça esportiva muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoeirados como quem vem da faina da terra.

Vive numa casa humilde, com o velho Fusca que não anda mais que 70 km/h. Já lhe ofereceram US$ 1 milhão por ele; rejeitou a oferta por respeito ao velho carro, que diariamente o levava ao palácio presidencial, e por consideração ao amigo que lho havia dado de presente. Rejeita que o considerem pobre.

Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por 13 anos, mas nunca fala disso nem mostra o mínimo ressentimento. Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis, mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e fazê-lo crescer.

Conversamos por mais de uma hora. Começamos com a situação do Brasil e da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma, especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada no penoso caso da Petrobras. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.

SISTEMA VIDA

Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema vida e do sistema Terra. Aí me dei conta do vasto horizonte de sua visão de mundo. Enfatizou que a questão axial hoje reside na preocupação não com o Uruguai ou com o nosso continente latino-americano, mas com o destino de nosso planeta e o futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação. Caso contrário, iremos ao encontro de uma tragédia ecológico-social inimaginável.

O triste, comentou Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a totalidade de nosso destino.

Mas o ponto alto da conversação foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante cultura do capital. De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e valores vividos e proclamados pela cultura do capital, que aprisionou toda a humanidade com a ideia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem-estar material sem fim, o que opõe ricos e pobres.

CULTURA DO CAPITAL

A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentirmos inseridos na natureza.

Importa viver o que pensamos. Impõem-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com a realidade. É difícil, constatava Mujica, construir as bases para essa cultura humanitária e amiga da vida, mas temos que começar por nós mesmos.

Saí do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou aquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado uma pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de

amor.

Ódio nas manifestações não é tanto ao PT, mas à inclusão social

Leonardo Boff
O Tempo

Já dissemos neste espaço e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas fazê-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.

Nenhum governo antes em nossa história conseguiu essa façanha memorável. Nem havia condições para realizá-la, porque nunca houve interesse em fazer das massas exploradas um povo consciente e atuante na construção de um projeto Brasil. Importante era manter a massa como massa, pois assim não poderia ameaçar o poder das classes dominantes.

As minorias ricas e dominantes elaboraram uma estratégia de conciliação entre si, por cima da cabeça do povo e contra o povo, para manter a dominação. O estratagema sempre foi o mesmo. Foi a partir da política colonial – continuada até recentemente – que se lançaram as bases estruturais da exclusão no Brasil, como foi mostrado por grandes historiadores, especialmente por Simon Schwartzman, com o seu “Bases do Autoritarismo Brasileiro” (1982), e Darcy Ribeiro, com seu grandioso “O Povo Brasileiro” (1995).

DESPREZO PELO POVO

Existe, pois, e tem raízes profundas, um desprezo pelo povo, gostemos ou não. Esse desprezo atinge o nordestino, os afrodescendentes, os povos indígenas, os pobres em geral, os moradores de favelas e aqueles que têm outra orientação sexual.

Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram, começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carro, entraram nos shoppings, viajaram de avião, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas.

Segundo o pesquisador Márcio Pochmann, em seu “Atlas da Desigualdade Social no Brasil”, 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5.000 famílias. Essas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.

CLASSES POPULARES

Veem, temerosas, a ascensão das classes populares. Essas invadem seus lugares exclusivos. No fundo, começa a haver uma pequena democratização dos espaços. Essas elites formaram, atualmente, um bloco histórico cuja base é constituída pela grande mídia empresarial, jornais e canais de televisão, altamente censuradoras do povo, pois lhe ocultam fatos importantes; banqueiros; empresários centrados nos lucros; e ideólogos (não são intelectuais) que se especializaram em criticar tudo o que vem do governo do PT e fornecem superficialidades intelectuais em defesa do status quo.

Essa constelação antipopular e até antiBrasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”.

Como teólogo, me pergunto, angustiado: em sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos; como combinam essa prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas universidades católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois atinge o próprio Deus, que é amor e compaixão e tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?

Mas entendo, pois para elas vale o dito espanhol: entre Deus e o dinheiro, o segundo é primeiro. Infelizmente.

O que se esconde por trás do ódio ao PT é a intolerância aos pobres

01Leonardo Boff
O Tempo

Há um fato espantoso, mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa vem também a rejeição mais violenta. Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que, na eleição, não respeitaram o rito democrático: ou se ganha, ou se perde. Os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atenda seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador José Honório Rodrigues, em seu clássico “Conciliação e Reforma no Brasil” (1965): “Os liberais no Império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando, além de indignados, intolerantes” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que, do Brasil Colônia até hoje, nunca mudaram seu ethos, abominando o povo. Só o aceitam fantasiado no Carnaval.

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, a mestiçagem cultural, as tolerâncias racial e religiosa, a expansão territorial, a integração psicossocial, a integridade territorial, a unidade de língua e, finalmente, a opulência e a riqueza do Brasil, que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação.

FATO HISTÓRICO

A que vêm essas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, os que eram considerados carvão no processo produtivo conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social, que se transformou em poder político, e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder as classes dominantes. Não ocorreu simplesmente uma alternância de poder, mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social.

Isso é intolerável para as classes poderosas, que se acostumaram a fazer do Estado seu lugar natural de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo.

Por todos os modos e artimanhas querem, ainda hoje, voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo, que rejeitou seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível, dado o quadro mundial mudado.

JUDICIALIZAÇÃO

Cogitam a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo. Por meio desse expediente, poderiam lograr um “impeachment” da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso, pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado e até inviabilizável esse intento.

O ódio contra o PT é menos contra o PT do que contra o povo pobre, que, por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas.

Antecipo-me aos críticos: “Mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão e a Petrobras”. Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Mas, nas bases e nos municípios, vive-se outro modo de fazer política, com participação popular.

Limites da liberdade de expressão: a incompletude de tudo que existe

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O Tempo

Os atentados terroristas no início deste ano em Paris e em Copenhague, a propósito de caricaturas tidas como insultantes a Maomé, trouxeram à baila a questão da liberdade de expressão. Na França, há uma verdadeira obsessão, quase histeria, na afirmação ilimitada da liberdade de expressão. É algo absoluto. Contrariamente, e com razão, afirmou o bispo profético dom Pedro Casaldáliga: “Nada há de absoluto no mundo a não ser Deus e a fome; tudo o mais é relativo e limitado”.
Estendendo o teorema de Gödel para além da matemática, pode-se afirmar a insuperável incompletude e limitação de tudo que existe. Por que deverá ser diferente com a liberdade de expressão? Ela não escapa dos limites que devem ser reconhecidos.

Todo exercício da liberdade que implica ofender o outro, ameaçar a vida das pessoas (até de todo um ecossistema) e violar o que é tido como sagrado não deve ter lugar numa sociedade que se quer minimamente humana. Ora, há franceses (nem todos) que querem a liberdade de expressão imune de qualquer restrição. O resultado dessa pretensão foi tristemente constatado: se a liberdade é total, então deve valer para todos e em todas as circunstâncias. É o que pensaram, certamente, aqueles terroristas de Paris.

SEM LIMITES

A liberdade sem limite é absurda, e não há como defendê-la filosoficamente. Para contrabalançar os exageros da liberdade, costuma-se ouvir a frase, tida quase como um princípio: “A minha liberdade acaba onde começa a tua”. Nunca vi alguém questionar essa afirmação, mas precisamos fazê-lo. Devemos submetê-la a uma crítica mais atenta.

Com a derrocada do socialismo, se perderam algumas virtudes que ele, bem ou mal, havia suscitado, como o sentido do internacionalismo, a importância da solidariedade e a prevalência do social sobre o individual.

Com a ascensão ao poder de Thatcher e Reagan, voltaram furiosamente os ideais liberais e a cultura capitalista, sem o contraponto socialista: a exaltação do indivíduo, a supremacia da propriedade privada, a democracia só delegatícia. As consequências são visíveis: atualmente, há muito menos solidariedade internacional e preocupação com as mudanças em prol dos pobres do mundo. Vigora perversa concorrência e falta de solidariedade, o que descarta os fracos.

INDIVIDUALISMO

É nesse pano de fundo que deve ser entendida a frase “a minha liberdade acaba onde começa a tua”. Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade.

Pensa-se: para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, significa então que a minha liberdade não conhece limites, se expande como quiser. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro.

SOBERANIA TERRITORIAL

Essa compreensão subjaz ao conceito vigente de soberania territorial dos Estados nacionais. Até os limites do outro Estado, ela é absoluta. Para além desses limites, ela desaparece. A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar.

Quando há um conflito entre dois países, normalmente se usa o caminho diplomático do diálogo. Frustrado este, logo se pensa na utilização da força. A soberania de um esmaga a soberania do outro.

Ultimamente, dada a destrutibilidade da guerra, surgiu a teoria do ganha-ganha para superar o ganha-perde. Estabelece-se o diálogo. Todos se mostram flexíveis e dispostos a concessões e acertos. Por isso, a frase correta é esta: “A minha liberdade somente começa quando começa também a tua”.

Por trás dessa compreensão vigora a ideia de que ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência. Como bem deixou escrito Che Guevara: “Somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também sua liberdade”.

O que precisa ser agregado ao processo de educação

Leonardo Boff

Geralmente, o processo educativo da sociedade está sempre atrasado em relação às mudanças que acontecem. As instituições de ensino não antecipam eventuais processos e custa-lhes fazer as mudanças necessárias para estar à altura deles.
Entre outras, duas são as grandes mudanças que estão ocorrendo na Terra: a introdução da comunicação global via internet e a grande crise ecológica que põe em risco o sistema da vida e o sistema Terra. Podemos eventualmente desaparecer do planeta. Para impedir esse apocalipse, a educação deve ser diversa daquela que dominou até agora.

Não basta o conhecimento, precisamos de consciência e de uma nova prática. Urge nos reinventarmos como humanos, no sentido de inaugurar uma nova forma de habitar o planeta, com outro tipo de civilização. Temos que nos reeducar. Por isso, acrescento às dimensões acima referidas estas duas: aprender a cuidar e aprender a nos espiritualizar.

Mas, antes, faz-se mister resgatar a inteligência cordial, sensível ou emocional. Sem ela, falar do cuidado e da espiritualidade faz pouco sentido. A causa reside no fato de que todo o sistema moderno de ensino se funda na razão intelectual, instrumental e analítica. Ela é uma forma de conhecer e de dominar a realidade, fazendo-a mero objeto. Sob o pretexto de que a razão sensível impediria a objetividade do conhecimento, foi recalcada. Com isso surgiu uma visão fria do mundo.

APENAS 200 MIL ANOS

Sabemos que a razão intelectual, como a que temos hoje, é recente, possui cerca de 200 mil anos, quando surgiu o Homo sapiens. Mas antes surgiu, há cerca de 200 milhões de anos, o cérebro límbico, por ocasião da emergência dos mamíferos. Com eles, entrou no mundo o amor, o cuidado, o sentimento que se devota à cria. Nós, humanos, nos esquecemos de que somos mamíferos intelectuais. Logo, somos fundamentalmente portadores de emoções, paixões e afetos.

O que importa é que hoje temos que enriquecer nossa razão intelectual com a razão cordial, muito mais ancestral, se quisermos fazer valer o cuidado e a espiritualidade.

Sem essas duas dimensões, não iremos nos mobilizar para cuidar da Terra, da água, do clima, das relações inclusivas. Precisamos cuidar de tudo, sem o que as coisas se deterioram e perecem. E, então, iríamos ao encontro de um cenário dramático.

ESPIRITUALIDADE

Outra tarefa é resgatar a dimensão da espiritualidade. Ela não deve ser identificada com a religião. Ela subjaz à religião, porque é anterior a ela. A espiritualidade é uma dimensão inerente ao ser humano como a razão, a vontade e a sexualidade. É o lado do profundo, de onde emergem as questões do sentido terminal da vida e do mundo. Infelizmente, essas questões foram tidas como algo privado e sem grande valor. Mas sem sua incorporação, a vida perde irradiação e alegria. No entanto, há um dado novo: os neurólogos concluíram que sempre que o ser humano aborda essas questões do sentido, do sagrado e de Deus, há uma aceleração sensível nos neurônios do lobo frontal. Chamaram a isso “ponto Deus” no cérebro, uma espécie de órgão interior pelo qual captamos a presença de uma energia poderosa e amorosa que liga e religa todas as coisas.

Alimentar esse “ponto Deus” nos faz mais solidários, amorosos e cuidadosos. Ele se opõe ao consumismo e ao materialismo de nossa cultura. Todos, especialmente os que estão na escola, devem ser iniciados nessa espiritualidade, pois nos torna mais sensíveis aos outros, mais ligados à mãe-Terra, à natureza e ao cuidado, valores sem os quais não garantiremos um futuro bom para nós.

Inteligência cordial e espiritualidade são as exigências mais urgentes que a atual situação ameaçadora nos faz.

Às agressões dos seres humanos, a Terra responde com flores

Todo caos possui dois lados: um, destrutivo, e outro, criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a diminuição da espécie humana. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite aos seres humanos sobreviventes construir outro tipo de civilização.

Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de 15 grandes dizimações, como a do cambriano, há 480 milhões de anos, que dizimou cerca de 90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.

Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta face a um eventual colapso do sistema de vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Por um lado, estiagens prolongadas associadas a grande escassez de água. Em outros lugares, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.

LIMITES FÍSICOS

O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunâmis, enchentes, terremotos e um incontido aumento do aquecimento global. Se chegarmos a um aumento de 2°C, a situação é ainda administrável. Mas, caso não façamos a lição de casa, diminuindo drasticamente a emissão de gases causadores do efeito estufa, e não reorientarmos nossa relação para com a natureza, a temperatura pode se elevar até 6°C. Aí conheceremos a “tribulação da desolação”.

A renomada revista “Science” de 15.1.2015 publicou um trabalho de 18 cientistas sobre os limites planetários. Identificaram nove dimensões fundamentais para a continuidade da vida e de nosso ensaio civilizatório. Vale a pena citá-las: 1) mudanças climáticas; 2) mudança na integridade da biosfera, com a erosão da biodiversidade e a extinção acelerada de espécies; 3) diminuição da camada de ozônio; 4) crescente acidificação dos oceanos; 5) desarranjos nos fluxos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e de nitrogênio, fundamentais para a vida); 6) mudanças no uso dos solos, como o desmatamento e a desertificação; 7) escassez ameaçadora de água doce; 8) concentração de aerossóis na atmosfera; 9) introdução de agentes químicos sintéticos, materiais radioativos e nanomateriais que ameaçam a vida.

QUATRO JÁ FORAM

Dessas nove dimensões, as quatro primeiras já ultrapassaram seus limites, e as demais se encontram em elevado grau de degeneração. E, apesar desse cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas e fedegosos amarelos; no canto de minha casa, as “belle donne” floridas; tucanos que pousam em árvores em frente da minha janela e araras que fazem ninhos debaixo do telhado.

Então me dou conta de que a Terra é, de fato, mãe generosa: a nossas agressões, ela ainda nos sorri com sua flora e fauna. E nos infunde a esperança de que, não o Apocalipse, mas um novo Gênesis está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Como asseguram as escrituras judaico-cristãs: “Deus é o soberano amante da vida”(Sab 11:26). E não permitirá que a vida, que penosamente superou o caos, venha a desaparecer.

A escassez de água no Brasil e sua distribuição no mundo

Leonardo Boff

Nenhuma questão hoje é mais importante do que a da água. Dela depende a sobrevivência de toda a cadeia da vida e, consequentemente, de nosso próprio futuro. Especialistas e grupos humanistas já sugeriram um pacto social mundial ao redor daquilo que é vital para todos: a água.

Independentemente das discussões que cercam o tema da água, podemos fazer uma afirmação segura e indiscutível: a água é um bem natural, vital, insubstituível e comum. Nenhum ser vivo pode viver sem a água.

Consideremos rapidamente os dados básicos sobre a água no planeta Terra: ela já existe há 500 milhões de anos; somente 2,5% da água disponível no mundo é doce. Mais de 2/3 dessas águas doces encontram-se nas calotas polares e geleiras e no cume das montanhas (68,9%); quase todo o restante (29,9%) é de águas subterrâneas. Sobram 0,9% nos pântanos e apenas 0,3% nos rios e lagos. Desses, 70% se destinam à irrigação na agricultura, 20% à indústria, e sobram apenas 10% para uso humano e dessedentação dos animais.

NÃO HÁ FALTA D’ÁGUA

Existe no planeta cerca de 1,36 bilhão de km³ de água. Se tomássemos toda a água de oceanos, lagos, rios, aquíferos e calotas polares e a distribuíssemos equitativamente sobre a superfície terrestre, a Terra ficaria mergulhada debaixo da água a 3 km de profundidade.

A renovação das águas é da ordem de 43 mil km³ por ano, enquanto o consumo total é estimado em 6.000 km³ por ano. Portanto, não há falta de água.

O problema é que se encontra desigualmente distribuída: 60% em apenas nove países, enquanto 80 outros enfrentam escassez. Pouco menos de 1 bilhão de pessoas consomem 86% da água existente, enquanto para 1,4 bilhão é insuficiente e para 2 bilhões não é tratada, o que gera 85% das doenças, segundo a OMS.

PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA

O Brasil é a potência natural das águas, com 12% de toda água doce do planeta, mas ela é desigualmente distribuída: 72% na região amazônica, 16% no Centro-Oeste, 8% no Sul e no Sudeste e 4% no Nordeste. Apesar da abundância, não sabemos usar a água, pois 37% da tratada é desperdiçada, o que daria para abastecer toda a França, a Bélgica, a Suíça e o norte da Itália. É urgente, portanto, um novo padrão cultural em relação a esse bem tão essencial.

Há uma corrida mundial para a privatização da água. Criou-se um mercado das águas que envolve mais de US$ 100 bilhões.

Mas há também fortes reações populares, como ocorreu no ano 2000 em Cochabamba, na Bolívia. A empresa norte-americana Bechtel comprou as águas e elevou os preços a 35%. A reação organizada da população botou a empresa para correr do país.

DIREITO À VIDA

O grande debate hoje se trava nestes termos: a água é fonte de vida ou de lucro? É um bem natural vital ou um bem econômico? Ambas as dimensões não se excluem, mas devem ser retamente relacionadas. Fundamentalmente, a água pertence ao direito à vida. Nesse sentido, a água de beber, para uso na alimentação e para higiene pessoal e dessedentação dos animais deve ser gratuita.

Como, porém, ela é escassa e demanda uma complexa estrutura de captação, conservação, tratamento e distribuição, implica uma inegável dimensão econômica, que, entretanto, não deve prevalecer sobre a outra.

Uma fome zero mundial, prevista pelas Metas do Milênio da ONU, deve incluir a sede zero, pois não há alimento que possa existir e ser consumido sem água. Água é vida, um dos símbolos mais poderosos da natureza. Sem ela, não viveríamos.

Em busca de um conceito de povo: de ator secundário a protagonista

Povo brasileiro

O povo brasileiro, na visão de Tarsila do Amaral

Leonardo Boff

Há poucas palavras mais usadas por distintas retóricas do que “povo”. Seu sentido é tão flutuante que as ciências sociais dão-lhe pouco apreço, preferindo falar em “sociedade” ou “classes sociais”. Mas, como nos ensinava L. Wittgenstein, “o significado de uma palavra depende de seu uso”.
Entre nós, quem mais usa positivamente a palavra “povo” são aqueles que se interessam pela sorte das classes subalternas, ou povo. Vamos tentar fazer um esforço teórico para conferir um conteúdo analítico para que o uso do termo sirva àqueles se sentem excluídos.

O primeiro sentido filosófico-social deita suas raízes no pensamento clássico da Antiguidade. Cícero, santo Agostinho e Tomás de Aquino afirmavam que “povo não é qualquer reunião de homens de qualquer modo, mas é a reunião de uma multidão ao redor do consenso do direito e dos interesses comuns”. Cabe ao Estado harmonizar os vários interesses.

OUTROS SENTIDOS

Um segundo sentido de “povo” nos vem da antropologia cultural: é a população que pertence à mesma cultura, habitando determinado território. Esse sentido é legítimo porque distingue um povo do outro. Mas esse conceito oculta as diferenças e até contradições internas: tanto pertencem ao povo um fazendeiro do agronegócio como o peão pobre que vive em sua fazenda. Mas no Estado moderno o poder só se legitima se estiver enraizado no povo. Por isso, a Constituição reza que “todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”.

Um terceiro sentido é chave para a política, que é a busca comum do bem comum ou a atividade que busca o poder de Estado para, a partir dele, administrar a sociedade. Na boca dos políticos profissionais, “povo” apresenta grande ambiguidade. Por um lado, expressa o conjunto indiferenciado dos membros de uma sociedade determinada, por outro, significa a gente pobre e com parca instrução, marginalizada. Quando os políticos dizem que “vão ao povo, falam ao povo e agem em benefício do povo”, pensam nas maiorias pobres. Aqui emerge uma dicotomia: entre as maiorias e seus dirigentes ou entre a massa e as elites.

Há um quarto sentido de “povo” que deriva-se da sociologia. Aqui, se impõe certo rigor do conceito para não cairmos no populismo. Inicialmente, possui um sentido político-ideológico na medida em que oculta os conflitos internos do conjunto de pessoas com suas culturas diferentes, status social e projetos distintos. Esse sentido possui parco valor analítico, pois é globalizador demais.

Sociologicamente, “povo” aparece também como uma categoria histórica que se situa entre massa e elites. Numa sociedade que foi colonizada e constituída em classes, aponta clara a figura da elite: os que detêm o ter, o poder e o saber. O “povo” é cooptado como ator secundário de um projeto formulado pelas elites e para as elites.

POVO-MASSA

Mas sempre há rachaduras no processo de hegemonia ou dominação de classe: lentamente, da massa, surgem lideranças carismáticas que organizam movimentos sociais com visão própria. Deixam de ser “povo-massa” e começam a ser cidadãos ativos e relativamente autônomos. Já não dependem das elites. “Povo”, portanto, nasce e é resultado da articulação dos movimentos e das comunidades ativas. Esse é o fato novo no Brasil e na América Latina dos últimos decênios que culminou hoje com as novas democracias de cunho popular e republicano.

Agora podemos falar com certo rigor conceitual: aqui há um “povo” emergente enquanto tem consciência e projeto próprio para o país. Possui também uma dimensão axiológica: todos são chamados a ser povo, deixar de haver dominados e dominadores, mas cidadãos-atores de uma sociedade na qual todos podem participar.

A intolerância que se manifesta no Brasil e no mundo moderno

Leonardo Boff

O assassinato dos chargistas do “Charlie Hebdo” e a última eleição presidencial no Brasil trouxeram à luz um dado latente no mundo e na cultura brasileira: a intolerância. A intolerância no Brasil é parte daquilo que Sérgio Buarque de Holanda chama de “cordial”, no sentido de ódio e preconceito que vêm do coração, como a hospitalidade e a simpatia. Em vez de cordial, eu preferiria dizer que o brasileiro é passional. O que se mostrou na última campanha eleitoral foi o “cordial passional”, tanto como ódio de classe (desprezo do pobre) quanto como discriminação racial (nordestino e negro). Ser pobre, negro e nordestino implicava uma pecha negativa, e aí o desejo absurdo de alguns de dividir o Brasil entre o Sul “rico” e o Nordeste “pobre”.

Esse ódio de classe deriva do arquétipo “casa grande e senzala” introjetado em certos setores sociais e bem expresso por uma madame rica de Salvador: “Os pobres, não contentes com receber a Bolsa Família, querem ainda ter direitos”. Isso supõe a ideia de que, se um dia foram escravos, deveriam continuar a fazer tudo de graça, como se não tivesse havido a Abolição da Escravatura e não valessem os direitos. Os homoafetivos e outros da LGBT foram hostilizados até nos debates oficiais entre os candidatos, revelando uma intolerância “intolerável”.

Para entender um pouco mais profundamente a intolerância, importa ir um pouco mais a fundo na questão. A realidade, assim como se apresenta, é contraditória; complexa, pois é convergência dos mais variados fatores; nela, há caos originário e cosmos (ordem), há luzes e sombras, há o sim-bólico e o dia-bólico. Em si, não são defeitos de construção, mas a condição real de “implenitude” de tudo que existe no universo. Isso obriga todos a conviverem com as diferenças e as imperfeições. E nos obriga a ser tolerantes com os que não pensam e agem como nós.

VERDADES ABSOLUTAS

O risco permanente é a intolerância. Ela reduz a realidade, pois assume apenas um polo e nega o outro. Coage todos a assumirem o seu polo e anula o outro, como o fazem de forma criminosa o Estado Islâmico e a Al Qaeda. O fundamentalismo e o dogmatismo tornam absoluta a sua verdade. Assim, eles se condenam à intolerância e passam a não reconhecer e respeitar a verdade do outro. O primeiro que fazem é suprimir a liberdade de opinião, o pluralismo, e impor o pensamento único. Os atentados como o de Paris têm por base essa intolerância.

É imperioso evitar a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar.

Essa é a grande dificuldade das sociedades europeias: a não aceitação do outro, seja árabe, muçulmano ou turco; e, na sociedade brasileira, do afrodescendente, do nordestino e do indígena. Há que se incentivar a tolerância ativa, que consiste na coexistência, na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito por ele e consegue ver os valores da diferença e, assim, pode se enriquecer.

EXIGÊNCIA ÉTICA

A tolerância é, antes de mais nada, uma exigência ética. Ela representa o direito que cada pessoa possui de ser aquilo que é e de continuar a sê-lo. Esse direito foi expresso universalmente na regra de ouro “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou, formulado positivamente: “Faça ao outro o que queres que te façam a ti”.

Cada pessoa tem direito de viver e de conviver no planeta Terra. A natureza nos oferece a melhor lição: por mais diversos que sejam os seres, todos convivem, se interconectam e formam a complexidade do real e a esplêndida diversidade da vida.

Para entender o terrorismo contra o jornal “Charlie Hebdo” em Paris

Leonardo Boff

Uma coisa é se indignar contra o ato terrorista que dizimou os melhores chargistas franceses. Trata-se de ato abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja. Outra coisa é procurar analiticamente entender por que tais eventos acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céu escuro, feito de matanças, humilhações e discriminações, quando não de guerras, como as do Iraque e Afeganistão.Os Estados Unidos e os países europeus estavam nessas guerras. Na França, vivem milhões de muçulmanos, a maioria em condições precárias nas periferias. Mesmo os nascidos na França são discriminados, a ponto de haver uma verdadeira islamofobia.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os EUA. A reação do presidente Bush foi declarar uma “guerra infinita” contra o terror e instituir o Ato Patriótico, que viola direitos fundamentais dos cidadãos.

O que os EUA e seus aliados ocidentais fizeram no Iraque e no Afeganistão foi uma guerra moderna, com mortandade de civis. Se nesses países houvesse somente a plantação de tâmaras e figos, nada disso ocorreria. Mas lá há petróleo. Tal violência deixou um rastro de ódio e vingança em muitos muçulmanos vivendo em seus países ou pelo mundo afora.

RESULTADO DA VIOLÊNCIA

A partir desse transfundo, pode-se entender que o atentado em Paris é resultado dessa violência primeira, e não a causa originária. Nem por isso se justifica.

O efeito desse atentado é instalar um medo generalizado. Esse efeito é buscado pelo terrorismo: ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo. O significado principal do terrorismo não é ocupar territórios, mas ocupar as mentes.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de Setembro, Osama bin Laden, feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”. Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou pessoas estranhas, eis o objetivo essencial do terrorismo.

DOMINAÇÃO DAS MENTES

Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte estratégia: (1) os atos de terror têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada; (2) apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada; (3) devem sugerir que foram minuciosamente preparados; (4) devem ser imprevistos para dar a impressão de serem incontroláveis; (5) devem ficar no anonimato dos autores, que usam máscaras, porque, quanto mais suspeitos, maior é o medo; (6) devem provocar medo permanente; e (7) devem distorcer a percepção da realidade (qualquer coisa diferente pode configurar o terror; basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial).

Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes das pessoas com o medo e o pavor. O importante não é a violência em si, mas seu caráter de espetáculo, capaz de dominar as mentes de todos.

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista, como são hoje os EUA. Noam Chomsky cita um funcionário dos órgãos de segurança norte-americano que confessou: “Os EUA são um Estado terrorista, e nos orgulhamos disso”.

oxalá não predomine no mundo, especialmente no Ocidente, esse espírito. Aí, sim, iremos ao encontro do pior. Somente meios pacíficos têm a força secreta de vencer a violência e as guerras. Essa é a lição da história e o conselho de sábios como Gandhi, Martin Luther King Jr., Francisco de Assis e Francisco de Roma.

A busca de um novo começo para a sobrevivência da Terra

Leonardo Boff

No artigo anterior, abordamos o lado objetivo da questão ecológica, tentando superar o mero ambientalismo a partir de uma nova visão do planeta, da natureza e do ser humano como a porção pensante da Terra. Mas essa consideração é insuficiente se não for completada por uma visão subjetiva. Não basta ver e pensar diferente. Temos também que agir diferente.

Inspira-nos a Carta da Terra, de cuja redação tive a honra de participar. Insatisfeito com os resultados finais da Rio+20, um grupo decidiu fazer uma consulta nas bases da humanidade para levantar princípios e valores em vista de uma nova relação para com a Terra e a nossa convivência sobre ela: “Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo… Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”. E conclui a Carta: “Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a perspectiva de um modo de vida sustentável”.

Note-se que se fala de um novo começo, e não apenas de alguma reforma. Duas dimensões são imprescindíveis: uma mudança na mente e no coração. A mudança na mente já foi abordada no artigo anterior: a nova visão sistêmica, envolvendo Terra e humanidade como uma única entidade.

DIREITOS DO CORAÇÃO

Agora, cabe aprofundar a mudança do coração. Para mim, aqui está um dos nós essenciais do problema ecológico, que deve ser desatado se quisermos mesmo fazer a grande travessia para o novo paradigma.

Trata-se do resgate dos direitos do coração. Toda a nossa cultura moderna exacerbou a inteligência racional até o ponto de torná-la irracional com a criação dos instrumentos de nossa autodestruição e da devastação do sistema Terra. Essa exacerbação difamou e recalcou a inteligência sensível, a pretexto de que atrapalhava o olhar objetivista da razão. Hoje sabemos que todo saber, por mais objetivo que seja, vem impregnado de emoção e de interesses.

Temos que enriquecer a inteligência intelectual e instrumental, da qual não podemos prescindir se quisermos dar conta dos problemas humanos. Mas sozinha ela se transforma em fundamentalismo da razão, que é sua loucura. Diz o filósofo Patrick Viveret: “Só podemos utilizar a face positiva da racionalidade moderna se a utilizarmos amalgamada com a sensibilidade do coração” (“Por uma Sobriedade Feliz”, 2012, p. 41).

Sem o casamento da razão com o coração, nunca nos moveremos para amar de verdade a Mãe Terra, reconhecer o valor intrínseco de cada ser e respeitá-lo, e nos empenhar em salvar nossa civilização. Bem dizia o papa Francisco: nossa civilização é cínica, pois perdeu a capacidade de sentir a dor do outro.

ÉTICA E CULTURA

A categoria central dessa visão é o cuidado como ética e cultura humanística. Se não cuidarmos da vida, da Terra e de nós mesmos, tudo adoece, e acabamos por não garantir a sustentabilidade nem resgatar o que E. Wilson chama de “biofilia” – o amor à vida. Tudo o que cuidamos, também amamos. Tudo o que amamos, também cuidamos.

Para mim, o núcleo da razão instrumental analítica que nos deu a tecnociência, com seus benefícios e também com suas ameaças, deve ser impregnado pelo núcleo da razão cordial e sensível.

Então, seremos plenamente humanos. Sentir-nos-emos parte da natureza e verdadeiramente a própria Terra, que pensa, ama e cuida. Então poderemos crer e esperar que ainda podemos nos salvar sem precisar pensar como Martin Heidegger: “Somente um Deus nos poderá salvar”. Yes, we can.

Como compreender o perverso processo criminoso da corrupção

Leonardo Boff
 Pelas mídias sociais, fui atacado ferozmente por ter apoiado o projeto político do PT e da presidente Dilma Rousseff, sempre com o mesmo argumento: “Por que não reconhece e escreve contra a corrupção?”

Segundo a Transparência Internacional, o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo. Em 91 analisados, ocupa o 69º lugar. Só esse dado denuncia a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados, como agora com a corrupção na Petrobras. Como compreender esse perverso processo criminoso?

Comecemos com a palavra “corrupção”. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus). Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita aos desvios, e a corrupção é um deles.

Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.

HERANÇA COLONIAL

A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então, as pessoas, para sobreviver e resguardar um mínimo de liberdade, eram levadas a corromper. Essa prática deu origem ao jeitinho brasileiro.

A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo, não se distingue a esfera pública da privada. Os que estão no poder tratam a coisa pública como se fosse sua.

Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é, em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos de classes.

Cultural: a cultura dita regras socialmente reconhecidas. Os corruptos são vistos como espertos, e não como os criminosos que de fato são. Via de regra, podemos dizer: quanto mais desigual e injusta é uma sociedade, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.

O PODER CORROMPE

Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico lorde Acton (1843-1902): “O poder tem a tendência a se corromper, e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava: “Meu dogma é a maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”. Por que isso? Hobbes, no seu “Leviatã” (1651), nos acena uma resposta plausível: “A razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”.

Lamentavelmente, foi o que ocorreu com setores do PT e seus aliados. Levantaram a bandeira da ética e das transformações sociais, mas preferiram o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiram a governabilidade ao preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética.

Como combater a corrupção? Pela transparência total, pelo aumento de auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem cem auditores por 100 mil habitantes; o Brasil tem apenas 12,8 mil, quando precisaríamos pelo menos de 160 mil. Precisamos lutar por uma democracia mais participativa, que se faça vigilante e cobre inteireza ética de seus representantes.

Os sentimentos de amor e ódio na campanha eleitoral

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Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro “Raízes do Brasil”. Ele entendia a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de “coração”. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio.

Escrevo isso para entender os sentimentos cordiais que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve declarações de entusiasmo e de amor para os dois candidatos do segundo turno e de ódio profundo de ambas as partes do eleitorado.

Talvez em nenhuma campanha anterior tenham-se expressado os gestos cordiais dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nessa palavra. Quem seguiu as redes sociais se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV.

Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão. Em consequência, criaram-se a casa-grande e a senzala. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado, os senhores que tudo possuem, e, do outro, o servo que pouco tem. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade.

ESCRAVIDÃO

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Houve uma época em que mais da metade do Brasil era composta de escravos. Hoje, cerca de 60% da população possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro.

As consequências dessas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso, quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante porque vive no semiárido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do Nordeste nos vêm grandes escritores, poetas e atores. No Brasil de hoje, é a região que mais cresce economicamente, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa cordialidade apareceram nas redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

AMBIGUIDADE

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológica para compreender a irrupção dos amores e ódios nessa campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade frontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de simbólica (que une) e de diabólica (que divide). Cada um deve saber equilibrar essas duas forças.

Esses meses de campanha eleitoral mostraram quem somos por dentro, cordiais no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e, ao mesmo tempo, de exaltação positiva e de militância séria.

Devemos procurar entender e buscar formas civilizadas de cordialidade nas quais predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos, num projeto por todos assumido, para que se transforme o país na “terra da boa esperança” (Ignacy Sachs).

A vitória de Dilma e o que ela representa para os pobres

Leonardo Boff

Nessas eleições presidenciais, os brasileiros se confrontaram com uma cena bíblica: tinham que escolher entre dois caminhos.

Criaram-se todas as condições para uma tempestade perfeita, com distorções e difamações, difundidas na grande imprensa e nas redes sociais. Face a essas adversidades, a presidente Dilma Rousseff, por ter passado pelas torturas nos porões dos órgãos de repressão da ditadura militar, fortaleceu sua identidade, cresceu em determinação e acumulou energias para enfrentar qualquer embate. Mostrou-se como é: uma mulher corajosa e valente. Ela transmite confiança, virtude fundamental para um político. Isso gera no eleitor ou eleitora a sensação de “sentir firmeza”.

Sua vitória se deve em grande parte à militância que saiu às ruas e organizou manifestações. O povo mostrou que amadureceu na sua consciência política e soube escolher o caminho que lhe parecia mais acertado, votando em Dilma.

O eleitor já conhecia os dois caminhos. Um, ensaiado por oito anos, fez crescer economicamente o Brasil, mas transferiu a maior parte dos benefícios aos já contemplados, à custa do arrocho salarial, do desemprego e da pobreza das grandes maiorias. Fazia políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres. O Brasil fez-se um sócio menor e subalterno ao grande projeto global. Esse não era o projeto de um país soberano.

O povo percorreu também o outro caminho, o do acerto e da felicidade possível. Nesse, ele teve centralidade. Um de seus filhos, Lula, conseguiu, com políticas públicas voltadas aos humilhados e ofendidos, que uma Argentina inteira fosse incluída na sociedade moderna. Dilma Rousseff levou avante, aprofundou e expandiu essas políticas.

ACESSO AOS BENS DA VIDA

A questão de fundo de nosso país está sendo equacionada: garantir a todos, mas principalmente aos pobres, o acesso aos bens da vida, superar a espantosa desigualdade e criar, mediante a educação, oportunidades aos pequenos para que possam crescer, se desenvolver e se humanizar como cidadãos ativos.

Esse projeto despertou o senso de soberania do Brasil, projetou-o no cenário mundial com uma posição independente, cobrando uma nova ordem mundial, na qual a humanidade se descobrisse como humanidade.

O desafio para a presidente Dilma não é só consolidar o que já deu certo e corrigir defeitos, mas inaugurar um novo ciclo de exercício do poder que signifique um salto de qualidade em todas as esferas da vida social.

Pouco se conseguirá se não houver uma reforma política que elimine de vez as bases da corrupção e que permita um avanço da democracia representativa, com a incorporação da democracia participativa. É urgente uma reforma tributária para que haja mais equidade e ajude a suplantar a abissal desigualdade social. Dilma, nos debates, apresentou um leque significativo de transformações a que se propôs. Pela seriedade e sentido de eficácia que sempre mostrou, podemos confiar que acontecerão.

REFORMA AGRÁRIA MODERNA

Há questões que mal foram acenadas nos debates: a importância da reforma agrária moderna que fixa o camponês no campo com todas as vantagens que a ciência propicia. Importa ainda demarcar e homologar as terras indígenas, muitas ameaçadas pelo avanço do agronegócio.

Por último, e talvez o maior dos desafios, vem o campo da ecologia. Severas ameaças pairam sobre o futuro da vida e de nossa civilização. O Brasil, por sua riqueza ecológica, é fundamental para o equilíbrio do planeta crucificado. Um novo governo Dilma não poderá obviar a essa questão que é de vida ou morte para a nossa espécie humana.

Que o espírito de sabedoria e de cuidado oriente as decisões difíceis que a presidente Dilma Rousseff deverá tomar.

A atual eleição presidencial à luz da história antipovo do país

Leonardo Boff

Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira – na tensão entre as elites e o povo.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa formação social desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de ser movidos: a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos; o predomínio da monocultura; a produção voltada para o mercado externo; e o regime de trabalho escravo.

A independência de Portugal não alterou nenhum desses pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas, e foram combatidos a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e, sobretudo, nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a Balaiada, no Maranhão; a Cabanagem, na Amazônia; a Praieira, em Pernambuco; e a Farroupilha, no Sul.

A ERA VARGAS 

A Revolução de 1930, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas-São Paulo para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno; do voto censitário para o voto universal (menos para os analfabetos); das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial, com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária.

Getúlio Vargas implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de cooperação entre capital e trabalho, entre operários e capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais.

Nesta campanha eleitoral, certos meios criaram o lema “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT para instaurar a “ditadura” do mercado financeiro. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

MEDIDAS DEMOCRATIZANTES

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes, como o Prouni e as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária; a demarcação e homologação em área contínua da terra ianomâmi contra meia dúzia de arrozeiros, assim como todos os programas sociais.

Os que sobem o tom, dizendo que tudo no país está errado, em que pesem a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais Médicos etc., posicionam-se contra as políticas que visam assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e, sobretudo, colocar um pouco de freio (insuficiente, a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do mercado.

São essas as razões do meu voto para outro projeto de país que atende as demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso que votei em Dilma Rousseff no primeiro turno e o farei no segundo, respeitando outras escolhas.

O sentido de uma bioeconomia ou de um ecodesenvolvimento

Leonardo Boff

As eleições presidenciais trouxeram à tona novamente a questão do desenvolvimento, tema clássico da macroeconomia mundializada. Temas de absoluta gravidade, como as ameaças que pesam sobre a vida e a nossa civilização, nem sequer foram aventados, seja por ignorância, seja porque os candidatos se dariam conta de que teriam que mudar tudo. Ninguém tem esse tipo de ousadia, nem mesmo Marina Silva, que suscitou o paradigma da sustentabilidade. O que podemos dizer com certeza: assim como está, não podemos continuar. O preço de nossa sobrevivência é a mudança radical na forma de habitar a Terra. A proposta de um ecodesenvolvimento ou de uma bioeconomia nos anima a caminhar nessa direção.
Um dos primeiros a verem a relação intrínseca entre economia e biologia foi o matemático e economista romeno Nicholas Georgescu Roegen (1906-1994). Contra o pensamento dominante, ele chamava a atenção para a insustentabilidade do crescimento devido aos limites dos bens e serviços da Terra. Começou-se a falar de “decrescimento econômico para a sustentabilidade ambiental e a equidade social”. Esse decrescimento significa reduzir o crescimento quantitativo para dar mais importância ao qualitativo, no sentido de preservar os bens e serviços que serão necessários às futuras gerações.

A bioeconomia é, na verdade, um subsistema do sistema da natureza, sempre limitada, e, por isso, objeto de permanente cuidado por parte do ser humano. A economia deve acompanhar e obedecer aos níveis de preservação e regeneração da natureza.

ECODESENVOLVIMENTO

Modelo semelhante, chamado de “ecodesenvolvimento e bioeconomia”, vem sendo proposto, entre outros, pelo professor de economia da PUC-SP Ladislau Dowbor, que pensa na linha de outro economista, Ignacy Sachs. Este é um polonês naturalizado francês e brasileiro por amor. A partir de 1980, despertou para a questão ecológica e, possivelmente, foi o primeiro a fazer suas reflexões no contexto do antropoceno, que inauguraria uma nova era geológica que teria o ser humano como fator de risco global.

As análises de Dowbor e de Sachs combinam economia, ecologia, justiça e inclusão social. Daí nasce um conceito de sustentabilidade possível, ainda dentro dos constrangimentos impostos pela predominância do modo de produção industrialista, consumista, individualista, predador e poluidor.

Ambos estão convencidos de que não se alcançará uma sustentabilidade aceitável se não houver uma sensível diminuição das desigualdades sociais, a incorporação da cidadania como participação popular no jogo democrático, respeito às diferenças culturais e a introdução de valores éticos de respeito a toda vida e um cuidado permanente com o meio ambiente.

A sustentabilidade exige certa equidade social. Assim, por exemplo, os países mais pobres têm direito de expandir mais sua pegada ecológica para atender suas demandas, enquanto os mais ricos devem reduzi-la ou controlá-la. Enfaticamente, repetem Dowbor e Sachs que a solidariedade é um dado essencial ao fenômeno humano, e o individualismo cruel a que estamos assistindo nos dias de hoje significa uma excrescência que destrói os laços da convivência e, assim, torna a sociedade fatalmente insustentável.

É deles a bela expressão “biocivilização”, uma civilização que dá centralidade à vida, à Terra, aos ecossistemas e a cada pessoa.

BIOCIVILIZAÇÃO

Essa proposta nos parece uma das mais sensatas e responsáveis face aos riscos que correm o planeta e o futuro da espécie humana. A proposta de Dowbor e de Sachs merece ser considerada, pois mostra grande funcionalidade e viabilidade.

A política entre a utopia e a realidade do seu exercício

Leonardo Boff

Antes de abordarmos, sucintamente, a questão complexa da política, faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a Política com P maiúsculo, que é a busca comum do bem comum, da política com p minúsculo, que consiste na política partidária, que, como a palavra sugere, é parte, e não o todo.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes. Por isso, por um lado, dizem os papas, a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis, como o patrimonialismo e a corrupção. Daí viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representado pelos parlamentares. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, essa é a tendência dominante, particularmente no quadro da pós-modernidade. E está contaminando os jovens.

É PRECISO SONHAR

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonham e que não se orientam por utopias escolheram o caminho de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança, e o desfecho fatal é a autodestruição. A utopia nos faz andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe as funções pelas quais existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política com P maiúsculo quanto para a política com p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios em que estão envolvidos os poderes públicos.

Quando confrontamos a política realmente existente com a utopia da política, notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado, que se regem por uma feroz competição, deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade. Isso faz com que os valores não materiais ocupem um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias.

Ora, desses valores altamente positivos vive fundamentalmente a política que se entende como prática da ética social.

REFORMA POLÍTICA

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam essa ética (ética na política), mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalhe as instituições, os braços longos do poder (que devem ser transparentes) e um serviço público. É nesse campo que ocorrem as perversões da política. Especialmente grave é o financiamento privado das eleições, que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil, com tradição patrimonialista, o político facilmente considera seu o bem público e se apropria dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política reintroduziria a ética na política. Para Aristóteles, política e ética eram sinônimos.

Dilma dá continuidade à invenção do novo Brasil

Leonardo Boff

É notório que a direita brasileira, especialmente aquela de forças elitistas que sempre ocuparam o poder de Estado e o trataram como propriedade privada, apoiadas pela mídia privada e familiar, está se aproveitando da crise – que é mundial, e não, apenas, nacional (e temos a vantagem de manter um mínimo de crescimento e o emprego dos trabalhadores, coisa que não acontece na Europa nem nos Estados Unidos) – para fazer sangrar a presidente Dilma Rousseff e desmoralizar o Partido dos Trabalhadores, e assim criar uma atmosfera que lhe permita voltar ao lugar que por via democrática perdeu.

Celso Furtado, em “A Construção Interrompida” (1993), escreveu com acerto: “O tempo histórico se acelera, e a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio da Janeiro, 1993, pág. 35).

Aqui reside a verdadeira questão: queremos prolongar a dependência àquelas forças nacionais e mundiais que sempre nos mantiverem alinhados e sócios menores de seu projeto, ou queremos completar a invenção do Brasil como nação soberana que tem muito que contribuir para a solução da atual crise ecológico-social do mundo?

Se, por um lado, não podemos nos privar de algumas críticas ao governo do PT, por outro, seria faltar à verdade se não reconhecêssemos os avanços significativos sob os governos desse partido. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.

ÓDIO CONTRA O PT

Surgiu um estranho ódio contra o PT em muitos âmbitos da sociedade. Suspeito que esse ódio seja porque as políticas públicas permitiram aos pobres usar o avião e visitar seus parentes no Nordeste; também conseguiram adquirir seu carro e comprar em shopping centers. O lugar deles não seria no avião, mas na periferia, pois esse é seu lugar. Mas eles foram integrados à sociedade e a seus benefícios.

Devemos aproveitar as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam: reafirmar nossa independência, garantindo nosso futuro autônomo, mas relacionado com a totalidade do mundo, ou desperdiçá-la, vivendo atrelados ao destino que é sempre decidido por eles, que nos querem condenar a ser apenas os fornecedores dos produtos “in natura” que lhes faltam, voltando assim a nos colonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, do quilate de Darcy Ribeiro e Celso Furtado, entre outros, que propuseram uma reinvenção ou refundação do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido mundialmente.

Esse é o desafio lançado aos candidatos à mais alta instância de poder no país. Não vejo figura melhor para seguir nessa reconstrução, a partir de baixo, com uma democracia participativa, com seus conselhos e movimentos populares opinando e ajudando a formular caminhos que nos levem para a frente e para o alto, do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

A situação é urgente, pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op. cit. 35). Nós não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes participar das batalhas, como nos ensinava dom Quixote, em sua gaia sabedoria.

Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.

A propósito das eleições, a relação entre fé e política

Antes de mais nada, há que se distinguir uma política escrita com P maiúsculo e outra com p minúsculo. Ou então a política social e a política partidária. A política social diz respeito ao bem comum da sociedade. Por exemplo, a organização da saúde, a rede escolar, os transportes, os salários têm a ver com a política social. Lutar para conseguir um posto de saúde no bairro e se unir para trazer a linha de ônibus até o alto do morro é fazer política social.

Essa política significa a busca do bem comum. Nesse nível, todos os cidadãos e todos os cristãos católicos ou evangélicos podem e devem participar.

A política partidária representa a luta pelo poder de Estado, para conquistar o governo municipal, estadual e federal. Os partidos políticos existem em função do objetivo de se chegar ao poder, seja para mudá-lo (processo libertador), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar o Estado que existe). O partido, como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes sociais que elaboram um projeto. Se chegarem ao poder, vão comandar as políticas públicas conforme seu programa e sua visão partidária.

QUAL É O PROGRAMA?

Com referência à política partidária, é importante considerar os seguintes pontos: ver qual é o programa do partido; como o povo entra nesse programa: se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos históricos do povo; se prevê a participação do povo, mediante seus movimentos e organismos, na sua concepção, implementação e controle; quem são os candidatos que representam o programa: que biografia têm, se estão na lista da ficha suja, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases, se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da mudança social ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até injustiças que encerram.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por nossas elites a fim de se beneficiar dele, esquecendo o sujeito de todo o poder, que é o povo.

Como entra a fé nisso tudo? A fé diretamente tem a ver com Deus e seu desígnio sobre a humanidade. Mas ela está dentro da sociedade e é uma das criadoras de opinião e de decisão. Ela funciona como uma bicicleta.

Possui duas rodas, mediante as quais se torna efetiva na sociedade: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela oração, pelas celebrações, pelas pregações e pela leitura das Escrituras. Pela roda da política, a fé se expressa pela prática da justiça e da solidariedade. Como se vê, política é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em duas rodas para andar corretamente.

FÉ E POLÍTICA

A Bíblia considera a roda da política como ética mais importante que a roda da religião como culto. Sem a ética, a fé fica inoperante. São as práticas que contam para Deus. Melhor que proclamar “Senhor, Senhor” é fazer a vontade do Pai.

Concretamente, fé e política se encontram juntas na vida das pessoas. A fé inclui a política, quer dizer, um cristão deve se empenhar pela justiça e pelo bem-estar social; deve optar por programas que se aproximem daquilo que entendeu ser o projeto de Jesus e de Deus.