Somos feias, mas estamos aqui para gritar: “nou lèd, nou la”

As mulheres do Haiti são exemplo de sobrevivência

Leonardo Boff
O Tempo

Uma das histórias mais comoventes que tenho lido ultimamente vem de uma escritora haitiana, nascida em 1969, vivendo há muitos anos nos EUA: Edwidge Danticat. Fundamentalmente conta as histórias que ouviu de sua avó negra, nas longas noites dos apagões costumeiros do pobre Haiti.

Numa daquelas noites, a avó, entre muitas outras histórias, contou também aquela que ficou na memória do povo: o trágico destino de Anacaona. Era uma rainha da tribo dos arauaque, poeta, pintora e dançarina. Governava a parte oeste da ilha, chamada de Ayiti, que, na língua indígena original, significava “terra de grandeza” pela exuberância de sua paisagem verde.

Todos viviam tranquilos naquela parte, até que, por mar, chegaram, traiçoeiros, os espanhóis sedentos de riqueza. Saqueavam e matavam em função de sua ganância. Assim, logo prenderam a rainha Anacaona. Foi estuprada e morta. E toda a aldeia foi saqueada e destruída. Ainda no século XVI, com a presença dos espanhóis, todos os indígenas morreram por causa das doenças dos brancos ou foram simplesmente assassinados. Para substitui-los foram trazidos como escravos milhares de africanos.

LEMBRANÇA

Mesmo assim, até hoje, muitas crianças negras recebem o nome de Anacaona, como lembrança tanto do esplendor do passado quanto da continuada agonia do presente.

Mas, com a escravização dos africanos, se lançaram as bases do empobrecimento dessa formosa ilha, hoje a mais pobre da América Latina. Apesar disso, os haitianos nunca se resignaram; resistiram e foram os primeiros, mediante uma revolta de escravos, a extirpar a escravidão, em 1794. Depois, em 1804, criaram uma nação independente. Foi de pouca valia, porque depois vieram os franceses e os norte-americanos, que ocuparam a ilha, exploraram suas parcas riquezas e, em seguida, impuseram sangrentas ditaduras que geraram grande miséria que perdura até os dias de hoje.

Como se isso não bastasse, em 12 de janeiro de 2010 a ilha foi assolada por um terremoto de proporções catastróficas, deixando cerca de 200 mil mortos.

RESISTÊNCIA E FÉ

Edwidge Danticat narra o que ouviu de sua avó, dos padecimentos da escravidão, mas também de sua resistência e de sua fé. Os escravizados acreditavam que, quando morressem, seus espíritos retornariam à África, a uma terra pacífica de nome Ginen, habitada por deuses benfazejos. Assim conferiam um sentido maior a sua desumanização, e lhes era aberta a porta para uma vida de liberdade e de bem-aventurança.

Curiosamente, desenvolveram, no meio das maiores adversidades, uma visão encantada da vida. Segundo essa visão, o que conta na vida é estar vivo e sobreviver. Foi o que mais impressionou a autora. A avó contava que mulheres, como ela, quando se encontravam nos caminhos ou voltavam cansadas e empoeiradas das roças, se cumprimentavam com esta expressão: “Nou lèd, nou la”, que quer dizer: “Somos feias, mas estamos aqui”.

SOBREVIVÊNCIA

Comenta Edwidge: “Talvez esse ditado não agrade à sensibilidade estética de algumas mulheres. Mas esse ditado é, para as mulheres pobres haitianas, como minha avó, mais caro que a manutenção da beleza real ou produzida. O que vale a pena ser celebrado é o fato de que estamos aqui; apesar de todos os sofrimentos, nós existimos. A essência da vida é a sobrevivência e poder continuar a viver”.

Edwidge conclui seu relato clamando: “Nós somos filhas de Anacaona. Nós envergamos, mas não quebramos. Não somos atraentes, mas ainda assim resistimos. De vez em quando devemos gritar isso o mais distante que o vento puder levar nossas vozes: “Nou lèd, nou la!”.

As crises da vida e o caminho da realização do ser humano

01Leonardo Boff
O Tempo

Tudo o que vive é marcado por crises: crise do nascimento, da juventude, da escolha do parceiro, da escolha da profissão etc. Por fim, advém a grande crise da morte, quando passamos do tempo para a eternidade. O desafio posto a cada um não é como evitar as crises. Elas são inerentes a nossa condição humana. A questão é como as enfrentamos, que lições tiramos delas e como podemos crescer com elas. Por aí passa o caminho de nossa autorrealização e de nossa maturidade como seres humanos.

Toda situação é boa, cada lugar é excelente para nos medirmos e mergulharmos em nossa dimensão profunda, deixando emergir o arquétipo de base que carregamos (aquela tendência de fundo que sempre nos martela) e que quer se mostrar e fazer sua história. Cada um de nós está só. É a tarefa fundamental da existência. Mas, sendo fiel nesse caminhar, a pessoa já não está só. Construiu um centro pessoal a partir do qual pode se encontrar com todos os demais caminhantes. De solitário, faz-se solidário.

A geografia do mundo espiritual é diferente daquela do mundo físico. Nesta, os países se tocam pelos limites. Na outra, pelo centro. É a indiferença, a mediocridade, a ausência de paixão na busca de nosso eu profundo que nos distanciam de nosso centro, e assim perdemos as afinidades.

MELHOR SERVIÇO

Qual é o melhor serviço que posso prestar às pessoas? É ser eu mesmo como ser de relações e, por isso, sempre ligado aos outros.

A realização pessoal não consiste na quantificação de capacidades pessoais que podem ser efetivadas, mas na qualidade, no modo como fazemos bem aquilo que a vida nos cobra. A quantificação, a busca de títulos, de cursos sem fim, pode significar em muitas pessoas a fuga do encontro com a tarefa de sua vida: de se medir consigo mesmo. Foge no acúmulo do saber inócuo que mais ensoberbece e afasta dos outros do que nos amadurece para poder compreender melhor a nós mesmos e ao mundo.

A realização pessoal não é obra da razão, que discorre sobre tudo, mas do espírito, que é a capacidade de ser todo em tudo o que faz. Espiritualidade não é uma ciência ou uma técnica, mas um modo de ser inteiro em cada situação.

A primeira tarefa da realização pessoal é aceitar a nossa situação com seus limites e suas possibilidades. Em cada situação está tudo, não quantitativamente distendido, mas qualitativamente recolhido, como num centro. Entrar nesse centro de nós mesmos é encontrar os outros, todas as coisas e Deus.

O ÚLTIMO LIMITE

Outra tarefa imprescindível para a realização pessoal é saber conviver com o último limite, a morte. Quem dá sentido à morte dá sentido também à vida. Quem não vê sentido na morte também não descobre sentido na vida. Vamos morrendo lentamente, a prestações, porque, quando nascemos, começamos já a morrer, a nos desgastar e nos despedir da vida.

Essa despedida é um deixar para trás não apenas coisas e situações, mas sempre um pouco de nós mesmos. Temos que nos desapegar, nos empobrecer e nos esvaziar. Despojamo-nos de tudo, até de nós mesmos, no último momento da vida, na hora da morte, porque não fomos feitos para este mundo nem para nós mesmos, mas para o Grande Outro que deve encher nossa vida: Deus! Quem conseguir incorporar as negatividades, mesmo injustas, em seu próprio centro alcança o mais alto grau de hominização e de liberdade interior.

As negatividades e as crises pelas quais passamos nos dão esta lição: de nos despojarmos e nos prepararmos para a total plenitude em Deus.

A Carta da Terra e a encíclica “Cuidar da Casa Comum”

01Leonardo Boff
O Tempo

A encíclica “Cuidar da Casa Comum” e a Carta da Terra talvez sejam os dois únicos documentos de relevância mundial que apresentam tantas afinidades. Tratam do estado degradado da Terra e da vida em suas várias dimensões, fora da visão convencional que se restringe ao ambientalismo. A encíclica reconhece a Carta da Terra e a cita num dos pontos mais fundamentais: “Atrevo-me a propor de novo o considerável desafio da Carta da Terra: como nunca antes na história, o destino comum nos obriga a procurar um novo começo”. Esse novo começo é assumido pelo papa Francisco.

Em primeiro lugar, comparece o mesmo espírito que pervade os textos: de forma analítica, recolhendo os dados científicos mais seguros, de forma crítica, denunciando o atual sistema, que produz o desequilíbrio da Terra e, de forma “esperançadora”, apontando saídas salvadoras. Não se rende à resignação, mas confia na capacidade humana de forjar um novo estilo de vida na ação inovadora do Criador.

Há o mesmo ponto de partida. Diz a Carta: “Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando a devastação ambiental, a redução dos recursos e uma maciça extinção de espécies”. Repete a encíclica: “Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum… O sistema atual é insustentável a partir de vários pontos de vista”.

MESMAS PROPOSTAS

Há igual proposta. Assevera a Carta: “São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”. A encíclica enfatiza: “Toda aspiração a cuidar e a melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”.

Grande novidade, própria do novo paradigma cosmológico e ecológico, é a afirmação da Carta: “Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes”. Há um eco dessa afirmação na encíclica: “a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia, o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia e a proposta de um novo estilo de vida”.

A Carta afirma que “há um espírito de parentesco com toda a vida”. O mesmo afirma a encíclica. É a franciscana fraternidade universal.

A Carta da Terra enfatiza que é nosso dever “respeitar e cuidar da comunidade de vida em toda a sua diversidade”. Toda a encíclica, a começar pelo título “Cuidar da Casa Comum”, faz desse imperativo uma espécie de “ritornello”.

JUSTIÇA SOCIAL

Outra afinidade importante é o valor dado à justiça social. A carta sustenta forte relação entre a ecologia e a justiça social e econômica, que “protege os vulneráveis e serve aqueles que sofrem”. A encíclica atinge um de seus pontos altos ao afirmar “que uma verdadeira abordagem ecológica deve integrar a justiça para ouvir o grito da Terra e dos pobres”.

A Carta da Terra formulou uma definição de paz que é das mais felizes já realizadas pela reflexão humana: “a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o todo do qual somos parte”.

Esses dois documentos são faróis que nos guiam nestes tempos sombrios – devolvem a necessária esperança de que ainda podemos salvar a Casa Comum e a nós mesmos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Redigida por intelectuais ambientalistas de diversos países e organizações, a versão final da Carta foi aprovada numa reunião na sede da UNESCO, em Paris, em março de 2000.

Brasil protela crises por falta de ousadia das lideranças

Este é o verdadeiro retrato da política brasileira contemporânea

Leonardo Boff
O Tempo

Raramente na história houve tanta acumulação de situações de crise como no atual momento. Algumas são conjunturais e superáveis. Outras são estruturais e exigem mudanças profundas, como, por exemplo, a reforma política e a reforma tributária no Brasil. Mas há uma crise que se apresenta sistêmica e recobre toda a Terra e a humanidade. Ela é ecológica e social.

A percepção geral é que, assim, como a Terra viva se encontra, não pode continuar, pois pode nos levar a um quadro de tragédia com a dizimação de milhões de vidas humanas e de porções significativas da biodiversidade.

A crise sistêmica é grave porque carrega dentro de seu bojo a possibilidade da destruição da vida no planeta e, eventualmente, o desaparecimento da espécie humana. Não podemos subestimar sua gravidade. A atual crise brasileira é um pálido reflexo da crise maior planetária.

SAIR MELHOR

É nesse contexto que cabe um aprofundamento da natureza da crise para sairmos melhores dela. Desde o advento do existencialismo, a vida é entendida como processo permanente de crises e de superação de crises. Ortega y Gasset, no ensaio “Esquemas das Crises” (1942), mostrou que a história, por causa de suas rupturas e retomadas, possui a estrutura da crise, que obedece à seguinte lógica:

1) a ordem dominante deixa de realizar um sentido evidente; 2) reinam dúvida, ceticismo e uma crítica generalizada; 3) urge uma decisão que cria novas certezas e outro sentido; 4) tomada uma decisão, mesmo sob risco, abre-se, então, novo caminho e outro espaço para a liberdade. Supera-se a crise. Nova ordem pode começar.

A crise representa purificação e oportunidade de crescimento. Não precisamos recorrer ao ideograma chinês de “crise” para saber dessa significação. Basta nos remetermos ao sânscrito, matriz de nossas línguas ocidentais. Em sânscrito, “crise” vem de “kir” ou “kri”, que significa purificar e limpar. Então, a crise representa um processo crítico, de depuração do cerne: só o verdadeiro e substancial fica, o acidental e agregado desaparece.

SUPERAÇÃO DA CRISE

Ao redor e a partir desse cerne se constrói outra ordem que representa a superação da crise. Ela se traduzirá num curso diferente das coisas. Depois, seguindo a lógica da crise, essa ordem também entrará em crise. E permitirá, após processo crítico de acrisolamento e purificação, a emergência de nova ordem. E assim sucessivamente.

A crise possui também uma dimensão pessoal. A maior de todas é a crise da morte. Possui também uma dimensão cósmica, que é o fim do universo, que para nós não acaba na morte, mas numa incomensurável explosão e implosão para dentro de Deus.

Entretanto, todo processo de purificação não se faz sem cortes e rupturas. Daí a necessidade da decisão, que opera uma cisão com o anterior e inaugura o novo.

O Brasil vive, há séculos, protelando suas crises por faltar às lideranças ousadia histórica de tomar decisões que rompam com o passado perverso. Sempre se fazem conciliações negociadas a pretexto da governabilidade. Dessa forma, sutilmente se preservam os privilégios das elites, e as maiorias são condenadas a continuar na marginalidade social.

A crise do capitalismo é notória. Mas nunca se fazem cortes estruturais que inaugurem uma nova ordem econômica. Sempre se recorre a ajustes que preservam a lógica exploradora de base, como ocorreu recentemente na Grécia. Com a decisão, o caos e a crise desaparecem, e nasce nova esperança.

A perspectiva singular do papa ao propor uma ecologia integral

01Leonardo Boff
O Tempo

O papa Francisco operou uma grande virada no discurso ecológico ao passar da ecologia ambiental para a ecologia integral, que inclui a ecologia político-social, a mental, a cultural, a educacional, a ética e a espiritual.

Há o risco de que essa visão integral seja assimilada dentro do costumeiro discurso ambiental, não se dando conta de que todas as coisas, saberes e instâncias são interligadas. Ora, é essa cosmologia que leva o papa a dizer: “Nunca maltratamos e ofendemos nossa casa comum como nos últimos dois séculos”.

Como superar essa rota perigosa? O papa responde: “Com uma mudança de rumo” e ainda mais com a disposição de “delinear grandes percursos de diálogo que nos ajudem a sair desta espiral de autodestruição na qual estamos afundando”. Se nada fizermos, podemos ir ao encontro do pior. Mas o papa confia na capacidade criativa dos seres humanos.

Para enfrentar os múltiplos aspectos críticos de nossa situação, o papa propõe a ecologia integral. O pressuposto teórico deriva da nova cosmologia, da física quântica, da nova biologia, do novo paradigma contemporâneo que implica a teoria da complexidade e do caos. Nessa visão o repetia um dos fundadores da física quântica, Werner Heisenberg: “Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos; tudo é relação, e nada existe fora da relação”.

TUDO EM RELAÇÃO

Seguramente, a mais bela e poética das formulações é encontrada no número 92 da encíclica, no qual enfatiza: “Tudo está em relação, e todos nós estamos unidos como irmãos e irmãs (…) com todas as criaturas que se unem conosco”.

Essa visão existe já há quase um século, mas nunca conseguiu se impor na política e na condução dos problemas sociais e humanos. Todos permanecemos ainda reféns do velho paradigma que isola os problemas e para cada um procura uma solução específica, sem se dar conta de que essa solução pode ser maléfica para outro problema.

A encíclica poderá servir de instrumento educativo para apropriarmo-nos dessa visão inclusiva e integral. Por exemplo, como assevera a encíclica: “Quando falamos de ambiente, nos referimos a uma particular relação entre a natureza e a sociedade; isso nos impede de considerar a natureza como algo separado de nós. Somos incluídos nela, somos parte dela”.

E continua, dando exemplos convincentes: “Toda análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, trabalhistas, urbanos e da relação de cada pessoa consigo mesma, que cria um determinado modo de relações com os outros e com o ambiente”. Se tudo é relação, então a própria saúde humana depende da saúde da Terra e dos ecossistemas. Todas as instâncias se entrelaçam para o bem ou para o mal. Essa é a textura da realidade, não opaca e rasa, mas complexa e altamente relacionada com tudo.

Se pensássemos nossos problemas nacionais nesse jogo de inter-retrorrelação, não teríamos tantas contradições entre os ministérios e as ações governamentais. O papa nos sugere caminhos certeiros que nos podem tirar da ansiedade em que nos encontramos face ao nosso futuro comum.

Teilhard de Chardin tinha razão quando, nos anos 30 do século passado, escrevia: “A era das nações já passou. A tarefa diante de nós agora, senão pereceremos, é construir a Terra”. Cuidando da Terra com terno e fraterno afeto no espírito de são Francisco de Assis e de Francisco de Roma, podemos seguir “caminhando e cantando”, como conclui a encíclica, cheios de esperança. Ainda teremos futuro e iremos irradiar.

É um fim de caminho, não só do atual projeto Brasil, mas do mundo

Leonardo Boff
O Tempo

“É pau, é pedra, é o fim de um caminho: um projeto Brasil”. Esse é o título de um artigo do editor César Benjamin na revista “Piauí” de abril de 2015. Talvez seja uma das mais instigantes interpretações da megacrise brasileira, fora do arco teórico do repetitivo e enganoso discurso a partir do PIB. Afirmam-se aí, no meu entender, dois pontos básicos: o esgotamento da forma de fazer política do PT (lulismo) e a urgência de se pensar um projeto de Brasil, a partir de novos fins e de novos valores.

Face à crise atual ganham força as palavras severas de Celso Furtado num livro que vale ser revisitado: “Brasil: A Construção Interrompida” (1993): “Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades e, principalmente, de nossas debilidades. Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera e que a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se teremos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”. E conclui pesaroso: “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional”.

PROVA CRUCIAL

Estimo que a grande e decisiva “prova crucial” chegou. Tenho colocado com frequência esta alternativa: ou nos propomos refundar o Brasil sobre uma nova visão de mundo e de futuro, ou seremos condenados a ser um apêndice do projeto-mundo que entrou em crise nos países centrais, alastrando-se por todo o sistema e que não consegue encontrar uma saída viável.

O meu modesto sentimento do mundo me diz que importa realizar as seguintes transformações se quisermos sair bem da crise e ter um projeto autônomo de nação:

1) Assumir o paradigma contemporâneo, que já possui um século de formulação: o eixo estruturador não serão mais a economia sustentável e o PIB, mas a vida. A vida da Terra viva, a diversidade da vida e a vida humana. O capital material esgotado dará lugar ao capital humano cultural inesgotável, permitindo-nos ser mais com menos e integrar todos na mesma casa comum. Tudo o mais deve colocar-se a serviço dessa biocivilização, chamada também de “terra da boa esperança”. A continuar, o paradigma atual nos levará fatalmente ao pior dos mundos.

2) Fazer uma verdadeira reforma política, pois a que foi feita não merece esse nome e é fruto de reles fisiologismo.

3) Fazer uma reforma tributária para diminuir as desigualdade do país, um dos mais desiguais do mundo, vale dizer, em termos ético-políticos, também dos mais injustos.

4) Fazer uma reforma agrária e urbana, já que a ausência da primeira levou a que prevalecesse o agronegócio exportador em detrimento da produção de alimentos e fizesse que 83% da população migrasse para as cidades, geralmente para as periferias, com má qualidade de vida, saúde, educação, transporte e infraestrutura.

PROJETO-MUNDO

Retomo o título de Benjamin: “É pau, é pedra, é um fim de caminho”, não só o fim do atual projeto Brasil, mas o fim do projeto-mundo vigente. Dentro de pouco, a economia se orientará pelo ecológico e pelos bens e serviços naturais. Nisso, podemos ser a grande potência pelos imensos recursos que temos. O mundo precisará mais de nós do que nós do mundo.

Para quem toma a sério a reflexão de uma ecologia integral – praticamente ausente nas discussões econômicas –, o aquecimento global e os limites físicos da Terra, estas minhas palavras não soam apocalípticas, mas realísticas. Temos que mudar se quisermos continuar sobre este planeta, pois, por causa de nossa irresponsabilidade e inconsciência, ele já não nos suporta mais.

Recado para o PT: são possíveis a autocorreção e o recomeço

Leonardo Boff
O Tempo

Nem toda crise, nem todo caos são necessariamente ruins. A crise acrisola, funciona como um crisol que purifica o ouro das gangas e o libera para um novo uso. O caos não é só caótico; ele pode ser generativo.

A atual crise política e o caos social obedecem à lógica descrita acima. Oferecem uma oportunidade de refundação da ordem social a partir do caos social e dos elementos depurados da crise. Como no Brasil fazemos tudo pela metade e não concluímos quase nenhum projeto (Independência, Abolição da Escravatura, República etc.), há o risco de que percamos novamente a oportunidade atual de fazermos algo realmente profundo e cabal ou continuaremos com a costumeira ilusão de que, colocando esparadrapos, curamos a ferida que gangrena a vida social já por tanto tempo.

Antes de qualquer iniciativa nova, o PT deve fazer o que até agora nunca fez: uma autocrítica pública e humilde dos erros cometidos. Sabemos que a direita explorará o fato, mas eu creio na força intrínseca da verdade e da sinceridade. O povo entenderá.

FREI BETTO

Cito Frei Betto, que esteve dentro do poder central e idealizou o Fome Zero. Ao perceber os desvios, deixou o governo, comentando: “O PT, em 12 anos, não promoveu nenhuma reforma da estrutura, nem agrária, nem tributária, nem política. Havia alternativa para o PT? Sim, se não houvesse jogado sua garantia de governabilidade nos braços do mercado e do Congresso; se tivesse promovido a reforma agrária; se ousasse fazer a reforma tributária recomendada por Piketty; se houvesse, enfim, assegurado a governabilidade prioritariamente pelo apoio dos movimentos sociais. Se o governo não voltar a beber na sua fonte de origem – os movimentos sociais e as propostas originais do PT –, as forças conservadoras voltarão a ocupar o Planalto”.

E, agora, concluo eu: temos posto a perder a revolução pacífica e popular feita a partir de 2003, quando ocorreu não uma troca de poder, mas a troca da base social que sustenta o Estado: o povo organizado, antes à margem e agora colocado no centro. O PT pode suportar a rejeição dos poderosos. O que não pode é defraudar o povo e os humildes, que tanta confiança e esperança colocaram no partido. E muitos, como eu e Frei Betto, que nunca nos inscrevemos no PT, mas sempre apoiamos sua causa, por vê-la justa e afim às propostas sociais da Igreja da Libertação, sentimos abatimento e decepção. Não precisava ser assim.

Nem por isso desistiremos. No espectro político atual não vemos nenhum projeto que fuja da submissão ao capitalismo neoliberal, que faça a sociedade menos malvada e que apresente lideranças confiáveis que tornem melhor a vida do povo. A vida nos ensina e as escrituras cristãs não se cansam de repetir: quem caiu sempre pode se levantar.

HUMILDE A ABERTO

O PT tem que recomeçar lá embaixo, humilde e aberto, a aprender dos erros e da sabedoria do povo trabalhador. Valem ainda os ideais primeiros: inclusão social, desenvolvimento social com distribuição de renda e redistribuição da riqueza, cuidado com a natureza. Mas tudo isso não terá sustentabilidade se não vier acompanhado por uma reforma política e tributária e pesado investimento na agroecologia.

Para que isso ocorra, precisamos acreditar na justeza dessa causa, nos fortalecer face à batalha que será travada contra o PT por aqueles que vivem batendo panelas cheias porque nunca querem mudanças por medo de perderem benefícios. Jamais usar as armas que eles usam – mentiras e distorções –, mas usar a verdade, a transparência, a humildade e a vontade de melhorar. Vale o que dom Quixote sentenciou: não devemos aceitar as derrotas sem antes dar as batalhas.

Saída para a crise atual está em reformas realmente democráticas

Leonardo Boff
O Tempo

A crise política e econômica atual cria a oportunidade de fazermos realmente mudanças profundas, como as reformas política, tributária e agrária. Para termos a embocadura correta, importa considerar alguns pontos prévios.

Em primeiro lugar, cabe situar nossa crise dentro da crise maior da humanidade como um todo. Não vê-la dentro desse embricamento é estar fora do atual curso da história. Somos momento de um todo maior. No nosso caso, não escapa ao olhar curioso dos países centrais e das grandes corporações qual será o destino da sétima economia mundial. Não é do interesse da estratégia imperial que haja no Atlântico Sul uma nação continental como o Brasil que não se alinhe aos interesses globais.

Em segundo lugar, a atual crise brasileira tem um histórico que jamais pode ser esquecido: nunca houve uma forma de governo que desse atenção adequada às grandes maiorias. O Estado, apropriado desde o início de nossa história pelas classes proprietárias, não estava apetrechado para atender suas demandas.

Em terceiro lugar, há que se reconhecer que, como fruto de uma penosa e sangrenta história de lutas e superação de obstáculos de toda ordem, se constituiu outra base social para o poder político que agora ocupa o Estado e seus aparelhos. De um Estado elitista e neoliberal se transitou para um Estado republicano e social que, no meio dos maiores constrangimentos e concessões às forças dominantes nacionais e internacionais, conseguiu colocar no centro quem estava sempre na margem.

BOAS MEDIDAS

É de magnitude histórica inegável o fato de o governo do PT ter tirado da miséria 36 milhões de pessoas e lhes dado acesso aos bens fundamentais da vida. O que querem os humildes da Terra? Ver garantido o acesso aos bens mínimos que lhes possam fazer viver. A isso servem a Bolsa Família, Minha Casa, Minha vida, Luz para Todos e outras políticas sociais e culturais.

Qualifiquem como quiserem essas medidas, mas elas foram boas para a imensa maioria do povo brasileiro. Não é a primeira missão ética do Estado de direito a de garantir a vida de seus cidadãos? Por que os governos anteriores, em séculos, não tomaram essas iniciativas?

Há ódio de classe, sim, neste país, além da indignação e da raiva compreensíveis provocadas pelos escândalos de corrupção havidos no governo hegemonizado pelo PT. Essas elites, com seus meios de comunicação altamente marcados pela ideologia reacionária e de direita, apoiados pela velha oligarquia, diferente da moderna, mais aberta e nacionalista, que em parte apoia o projeto do PT, nunca aceitaram um governo de cariz popular. Fazem de tudo para inviabilizá-lo e, para isso, se servem de distorções, difamações e mentiras.

ESTRATÉGIAS

Duas estratégias se desenham pela direita que conseguiu se articular para voltar ao poder central, que perdeu pelo voto, mas não se conformou. A primeira é manter na sociedade uma situação de permanente crise política para, com isso, impedir que Dilma governe. A segunda consiste num processo de desmontagem do governo do PT, caluniando-o como incompetente e ineficaz, e desconstruir a liderança do ex-presidente Lula com difamações, distorções e mentiras diretas, que, quando desmascaradas, não são desmentidas.

Esse tipo de procedimento apenas revela que a democracia que ainda temos é de baixíssima intensidade.

Não sairemos dessa crise nem desfaremos os conchavos revanchistas e golpistas sem as reformas política, tributária e agrária. Caso contrário, a democracia será manca e caolha.

A era das grandes transformações da economia e da consciência

Leonardo Boff
O Tempo

Vivemos na era das grandes transformações. Entre tantas, destaco apenas duas. A primeira, na economia: começou partir do ano de 1834, quando se consolidou a Revolução Industrial na Inglaterra. Consiste na passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Quer dizer, a economia é o que conta, o resto deve servir a ela.

O mercado que predomina se rege pela competição, e não pela cooperação. O que se busca é o benefício econômico individual ou corporativo, e não o bem comum de toda a sociedade. Geralmente, esse benefício é alcançado à custa da devastação da natureza e da gestação perversa de desigualdades sociais.

Diz-se que o mercado deve ser livre e o Estado é visto como seu grande empecilho. A grande transformação postula um Estado mínimo, limitado praticamente às questões ligadas à infraestrutura da sociedade, ao fisco e à segurança. Tudo o mais pertence e é regulado pelo mercado.

INJUSTIÇA SOCIAL

Essa forma de organizar a sociedade, unicamente ao redor dos interesses econômicos do mercado, cindiu a humanidade de cima a baixo: um fosso enorme se criou entre os poucos ricos e os muitos pobres. Vigora perversa injustiça social.

Simultaneamente, se criou também uma iníqua injustiça ecológica. No afã de acumular, foram explorados de forma predatória bens e recursos da natureza, sem qualquer limitação e respeito. Essa voracidade encontrou limite na própria Terra. Ela não possui mais todos os bens e serviços suficientes e renováveis. Tal fato dificulta, senão impede, a reprodução do sistema produtivista/capitalista. É sua crise.

A CONSCIÊNCIA

A segunda grande transformação está se dando no campo da consciência. À medida que crescem os danos à natureza que afetam a qualidade de vida, cresce simultaneamente a consciência de que, na ordem de 90%, tais danos se devem à atividade irresponsável e irracional dos seres humanos, mais especificamente daquelas elites de poder que se constituem em grandes corporações multilaterais que assumiram os rumos do mundo.

Temos, com urgência, que fazer alguma coisa que interrompa esse percurso para o precipício. O primeiro estudo global foi feito em 1972 e pesquisou o estado da Terra. Revelou-se que ela está doente. A causa principal é o tipo de desenvolvimento que as sociedades assumiram. Ele acaba ultrapassando os limites suportáveis da natureza e da Terra. Temos que produzir, sim, para alimentar a humanidade, mas de outro jeito, respeitando os ritmos da natureza e seus limites, permitindo que ela descanse e se refaça. A isso se chamou de “desenvolvimento humano sustentável”, não só de crescimento material.

QUALIDADE DE VIDA

A reflexão ecológica se tornou complexa. Não se pode reduzi-la apenas à preservação do meio ambiente. A totalidade do sistema mundo está em jogo. Assim surgiu uma ecologia ambiental que tem como meta a qualidade de vida; uma ecologia social que visa a um modo sustentável de vida; uma ecologia mental que se propõe criticar preconceitos e visões de mundo hostis à vida e formular um novo “design” civilizatório, à base de princípios e valores para uma nova forma de habitar a casa comum; e, por fim, uma ecologia integral que se dá conta de que a Terra é parte de um universo em evolução e que devemos viver em harmonia com o todo.

Torna-se claro que a ecologia, mais que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços escassos, representa uma nova forma de relação para com a natureza e a Terra.

Se triunfar a consciência do cuidado e da nossa responsabilidade coletiva pela Terra e por nossa civilização, seguramente ainda teremos futuro.

 

O capitalismo, os socialismos e o projeto do ecossocialismo

Leonardo Boff
O Tempo

Uma das palavras mais difamadas na linguagem política neoliberal e capitalista é “socialismo”. Entende-se o porquê, pois ele comparece na história como um projeto alternativo à perversidade do capitalismo.

Alega-se que o socialismo nunca deu certo em nenhum lugar do mundo. Talvez uma das razões de manter o boicote à Cuba socialista por tantos anos da parte dos Estados Unidos se deva à vontade de mostrar ao mundo que o socialismo realmente não presta e não deve ser buscado como forma de organização da sociedade. E Obama teve que reconhecer que os EUA fracassaram. O capitalismo não é a única forma de organizar a produção e uma sociedade.

É forçoso reconhecer que aquele socialismo nunca foi o socialismo pensado por seus teóricos, há três séculos. Na verdade, era um capitalismo do Estado autoritário. Mas, se tomarmos como parâmetro critérios humanísticos, éticos e sociais mínimos, devemos reconhecer que o produtivismo, em geral, e o capitalismo também não deram certo.

ENRIQUECIMENTO ILIMITADO

Como pode dar certo um sistema que se propõe um mesquinho ideal de enriquecimento ilimitado, sem qualquer consideração? Devastou e continua devastando ecossistemas inteiros, desflorestando grande parte da área verde do mundo, envenenando os solos, poluindo as águas, contaminando o ar, erodindo a biodiversidade na razão de 100 mil espécies de seres vivos por ano, destruindo a base físico-química que sustenta a vida e pondo em risco o futuro de nossa civilização, suscitando a imagem tétrica de uma Terra depredada e coberta de cadáveres e eventualmente sem nós como espécie humana.

Esse sistema serve bem apenas a cerca de 2 bilhões de pessoas, que se afogam no consumo suntuoso e no desperdício atroz. Ocorre que somos já mais de 7 bilhões de pessoas, das quais quase 1 bilhão vive na mais canina pobreza e miséria. Mais ainda: os cálculos foram feitos, se esse sistema quisesse universalizar o bem-estar dos países opulentos, precisaríamos de pelo menos três Terras iguais a esta.

Que sistema atenderá as necessidades fundamentais da humanidade carente? Não será o capitalismo, que traz logo duas injustiças: a social, com a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, e a ecológica, com a devastação maciça da natureza.

ECOSSOCIALISMO

Deixando de lado os vários tipos de socialismo, restringimo-nos ao ecossocialismo contemporâneo. Surgido nos anos 70, com Raymon Williams, James O’Connor, Manuel Sacristán e Michael Löwy, ele afasta-se dos socialismos anteriores e apresenta uma proposta radical que “almeja não só a transformação das relações de produção, do aparelho produtivo e do padrão de consumo dominante, mas, sobretudo, construir um novo tipo de civilização, em ruptura com os fundamentos da civilização capitalista/industrialista ocidental moderna”.

Os tópicos principais dessa proposta foram expostos no Manifesto Ecossocialista Internacional (2001), que deu origem à Rede Ecossocialista Internacional (2007). Na Declaração Ecossocialista de Belém (2007), se diz claramente: “A humanidade enfrenta hoje um escolha extrema: ecossocialismo ou barbárie…” Essa proposta se alinha ao que também propõe a Carta da Terra, aprovada e assumida pela Unesco em 2003.

Dentro de pouco, seremos todos ecossocialistas não por opção ideológica, mas por razões matemáticas: dispomos apenas de escassos bens naturais com os quais devemos atender a toda a comunidade de vida. Ou repartimos tais bens com um mínimo de equidade entre todos, ou não haverá uma Arca de Noé que nos salve. É vida ou morte.

A cultura capitalista, a injustiça social e a injustiça ecológica

Leonardo Boff
O Tempo

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis, mas teve como consequência um alto custo: a perversa desigualdade social.

Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vigora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de ecossistemas inteiros, exaustão dos bens naturais e, no termo, uma crise geral do sistema vida e do sistema Terra. As forças produtivas se transformaram em destrutivas.

No entanto, o capitalismo persiste como sistema dominante em todo o globo sob o nome de “macroeconomia neoliberal de mercado”. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital, que encarna um modo de viver, produzir, consumir, se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar.

CARACTERÍSTICAS

Vejamos rapidamente algumas de suas características: acumulação de bens materiais, mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração dos bens naturais; mercantilização de todas as coisas e especulação financeira, tudo feito com o menor investimento possível, visando obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.

Para esses propósitos, se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam na cultura do capital, mas são elas que produzem a felicidade possível, o capitalismo destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só antivida, mas também antifelicidade.

Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para a efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza.

CULTURA DO CAPITAL

Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de autoafirmar-se.

Em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tensionam: a vontade do indivíduo de ser e a integração num todo maior.

A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós, e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo.

Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até o máximo possível, do indivíduo e da autoafirmação, desdenhando o todo maior, a integração e o nós. Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro, mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.

Como superar essa situação secular? No resgate do equilíbrio dessas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim.

Uma experiência de impacto: o encontro com Pepe Mujica

Leonardo Boff
O Tempo

Participando de um congresso ibero-americano sobre medicina familiar e comunitária, em Montevidéu, no Uruguai, tive a oportunidade de ter um encontro com o ex-presidente José Mujica. Tal encontro deu-se em sua chácara, nos arredores da capital uruguaia. Ali estava ele, com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, uma calça esportiva muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoeirados como quem vem da faina da terra.

Vive numa casa humilde, com o velho Fusca que não anda mais que 70 km/h. Já lhe ofereceram US$ 1 milhão por ele; rejeitou a oferta por respeito ao velho carro, que diariamente o levava ao palácio presidencial, e por consideração ao amigo que lho havia dado de presente. Rejeita que o considerem pobre.

Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por 13 anos, mas nunca fala disso nem mostra o mínimo ressentimento. Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis, mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e fazê-lo crescer.

Conversamos por mais de uma hora. Começamos com a situação do Brasil e da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma, especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada no penoso caso da Petrobras. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.

SISTEMA VIDA

Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema vida e do sistema Terra. Aí me dei conta do vasto horizonte de sua visão de mundo. Enfatizou que a questão axial hoje reside na preocupação não com o Uruguai ou com o nosso continente latino-americano, mas com o destino de nosso planeta e o futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação. Caso contrário, iremos ao encontro de uma tragédia ecológico-social inimaginável.

O triste, comentou Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a totalidade de nosso destino.

Mas o ponto alto da conversação foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante cultura do capital. De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e valores vividos e proclamados pela cultura do capital, que aprisionou toda a humanidade com a ideia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem-estar material sem fim, o que opõe ricos e pobres.

CULTURA DO CAPITAL

A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentirmos inseridos na natureza.

Importa viver o que pensamos. Impõem-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com a realidade. É difícil, constatava Mujica, construir as bases para essa cultura humanitária e amiga da vida, mas temos que começar por nós mesmos.

Saí do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou aquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado uma pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de

amor.

Ódio nas manifestações não é tanto ao PT, mas à inclusão social

Leonardo Boff
O Tempo

Já dissemos neste espaço e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas fazê-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.

Nenhum governo antes em nossa história conseguiu essa façanha memorável. Nem havia condições para realizá-la, porque nunca houve interesse em fazer das massas exploradas um povo consciente e atuante na construção de um projeto Brasil. Importante era manter a massa como massa, pois assim não poderia ameaçar o poder das classes dominantes.

As minorias ricas e dominantes elaboraram uma estratégia de conciliação entre si, por cima da cabeça do povo e contra o povo, para manter a dominação. O estratagema sempre foi o mesmo. Foi a partir da política colonial – continuada até recentemente – que se lançaram as bases estruturais da exclusão no Brasil, como foi mostrado por grandes historiadores, especialmente por Simon Schwartzman, com o seu “Bases do Autoritarismo Brasileiro” (1982), e Darcy Ribeiro, com seu grandioso “O Povo Brasileiro” (1995).

DESPREZO PELO POVO

Existe, pois, e tem raízes profundas, um desprezo pelo povo, gostemos ou não. Esse desprezo atinge o nordestino, os afrodescendentes, os povos indígenas, os pobres em geral, os moradores de favelas e aqueles que têm outra orientação sexual.

Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram, começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carro, entraram nos shoppings, viajaram de avião, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas.

Segundo o pesquisador Márcio Pochmann, em seu “Atlas da Desigualdade Social no Brasil”, 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5.000 famílias. Essas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.

CLASSES POPULARES

Veem, temerosas, a ascensão das classes populares. Essas invadem seus lugares exclusivos. No fundo, começa a haver uma pequena democratização dos espaços. Essas elites formaram, atualmente, um bloco histórico cuja base é constituída pela grande mídia empresarial, jornais e canais de televisão, altamente censuradoras do povo, pois lhe ocultam fatos importantes; banqueiros; empresários centrados nos lucros; e ideólogos (não são intelectuais) que se especializaram em criticar tudo o que vem do governo do PT e fornecem superficialidades intelectuais em defesa do status quo.

Essa constelação antipopular e até antiBrasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”.

Como teólogo, me pergunto, angustiado: em sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos; como combinam essa prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas universidades católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois atinge o próprio Deus, que é amor e compaixão e tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?

Mas entendo, pois para elas vale o dito espanhol: entre Deus e o dinheiro, o segundo é primeiro. Infelizmente.

O que se esconde por trás do ódio ao PT é a intolerância aos pobres

01Leonardo Boff
O Tempo

Há um fato espantoso, mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa vem também a rejeição mais violenta. Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que, na eleição, não respeitaram o rito democrático: ou se ganha, ou se perde. Os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atenda seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador José Honório Rodrigues, em seu clássico “Conciliação e Reforma no Brasil” (1965): “Os liberais no Império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando, além de indignados, intolerantes” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que, do Brasil Colônia até hoje, nunca mudaram seu ethos, abominando o povo. Só o aceitam fantasiado no Carnaval.

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, a mestiçagem cultural, as tolerâncias racial e religiosa, a expansão territorial, a integração psicossocial, a integridade territorial, a unidade de língua e, finalmente, a opulência e a riqueza do Brasil, que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação.

FATO HISTÓRICO

A que vêm essas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, os que eram considerados carvão no processo produtivo conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social, que se transformou em poder político, e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder as classes dominantes. Não ocorreu simplesmente uma alternância de poder, mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social.

Isso é intolerável para as classes poderosas, que se acostumaram a fazer do Estado seu lugar natural de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo.

Por todos os modos e artimanhas querem, ainda hoje, voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo, que rejeitou seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível, dado o quadro mundial mudado.

JUDICIALIZAÇÃO

Cogitam a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo. Por meio desse expediente, poderiam lograr um “impeachment” da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso, pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado e até inviabilizável esse intento.

O ódio contra o PT é menos contra o PT do que contra o povo pobre, que, por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas.

Antecipo-me aos críticos: “Mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão e a Petrobras”. Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Mas, nas bases e nos municípios, vive-se outro modo de fazer política, com participação popular.

Limites da liberdade de expressão: a incompletude de tudo que existe

14Leonardo Boff
O Tempo

Os atentados terroristas no início deste ano em Paris e em Copenhague, a propósito de caricaturas tidas como insultantes a Maomé, trouxeram à baila a questão da liberdade de expressão. Na França, há uma verdadeira obsessão, quase histeria, na afirmação ilimitada da liberdade de expressão. É algo absoluto. Contrariamente, e com razão, afirmou o bispo profético dom Pedro Casaldáliga: “Nada há de absoluto no mundo a não ser Deus e a fome; tudo o mais é relativo e limitado”.
Estendendo o teorema de Gödel para além da matemática, pode-se afirmar a insuperável incompletude e limitação de tudo que existe. Por que deverá ser diferente com a liberdade de expressão? Ela não escapa dos limites que devem ser reconhecidos.

Todo exercício da liberdade que implica ofender o outro, ameaçar a vida das pessoas (até de todo um ecossistema) e violar o que é tido como sagrado não deve ter lugar numa sociedade que se quer minimamente humana. Ora, há franceses (nem todos) que querem a liberdade de expressão imune de qualquer restrição. O resultado dessa pretensão foi tristemente constatado: se a liberdade é total, então deve valer para todos e em todas as circunstâncias. É o que pensaram, certamente, aqueles terroristas de Paris.

SEM LIMITES

A liberdade sem limite é absurda, e não há como defendê-la filosoficamente. Para contrabalançar os exageros da liberdade, costuma-se ouvir a frase, tida quase como um princípio: “A minha liberdade acaba onde começa a tua”. Nunca vi alguém questionar essa afirmação, mas precisamos fazê-lo. Devemos submetê-la a uma crítica mais atenta.

Com a derrocada do socialismo, se perderam algumas virtudes que ele, bem ou mal, havia suscitado, como o sentido do internacionalismo, a importância da solidariedade e a prevalência do social sobre o individual.

Com a ascensão ao poder de Thatcher e Reagan, voltaram furiosamente os ideais liberais e a cultura capitalista, sem o contraponto socialista: a exaltação do indivíduo, a supremacia da propriedade privada, a democracia só delegatícia. As consequências são visíveis: atualmente, há muito menos solidariedade internacional e preocupação com as mudanças em prol dos pobres do mundo. Vigora perversa concorrência e falta de solidariedade, o que descarta os fracos.

INDIVIDUALISMO

É nesse pano de fundo que deve ser entendida a frase “a minha liberdade acaba onde começa a tua”. Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade.

Pensa-se: para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, significa então que a minha liberdade não conhece limites, se expande como quiser. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro.

SOBERANIA TERRITORIAL

Essa compreensão subjaz ao conceito vigente de soberania territorial dos Estados nacionais. Até os limites do outro Estado, ela é absoluta. Para além desses limites, ela desaparece. A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar.

Quando há um conflito entre dois países, normalmente se usa o caminho diplomático do diálogo. Frustrado este, logo se pensa na utilização da força. A soberania de um esmaga a soberania do outro.

Ultimamente, dada a destrutibilidade da guerra, surgiu a teoria do ganha-ganha para superar o ganha-perde. Estabelece-se o diálogo. Todos se mostram flexíveis e dispostos a concessões e acertos. Por isso, a frase correta é esta: “A minha liberdade somente começa quando começa também a tua”.

Por trás dessa compreensão vigora a ideia de que ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência. Como bem deixou escrito Che Guevara: “Somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também sua liberdade”.

O que precisa ser agregado ao processo de educação

Leonardo Boff

Geralmente, o processo educativo da sociedade está sempre atrasado em relação às mudanças que acontecem. As instituições de ensino não antecipam eventuais processos e custa-lhes fazer as mudanças necessárias para estar à altura deles.
Entre outras, duas são as grandes mudanças que estão ocorrendo na Terra: a introdução da comunicação global via internet e a grande crise ecológica que põe em risco o sistema da vida e o sistema Terra. Podemos eventualmente desaparecer do planeta. Para impedir esse apocalipse, a educação deve ser diversa daquela que dominou até agora.

Não basta o conhecimento, precisamos de consciência e de uma nova prática. Urge nos reinventarmos como humanos, no sentido de inaugurar uma nova forma de habitar o planeta, com outro tipo de civilização. Temos que nos reeducar. Por isso, acrescento às dimensões acima referidas estas duas: aprender a cuidar e aprender a nos espiritualizar.

Mas, antes, faz-se mister resgatar a inteligência cordial, sensível ou emocional. Sem ela, falar do cuidado e da espiritualidade faz pouco sentido. A causa reside no fato de que todo o sistema moderno de ensino se funda na razão intelectual, instrumental e analítica. Ela é uma forma de conhecer e de dominar a realidade, fazendo-a mero objeto. Sob o pretexto de que a razão sensível impediria a objetividade do conhecimento, foi recalcada. Com isso surgiu uma visão fria do mundo.

APENAS 200 MIL ANOS

Sabemos que a razão intelectual, como a que temos hoje, é recente, possui cerca de 200 mil anos, quando surgiu o Homo sapiens. Mas antes surgiu, há cerca de 200 milhões de anos, o cérebro límbico, por ocasião da emergência dos mamíferos. Com eles, entrou no mundo o amor, o cuidado, o sentimento que se devota à cria. Nós, humanos, nos esquecemos de que somos mamíferos intelectuais. Logo, somos fundamentalmente portadores de emoções, paixões e afetos.

O que importa é que hoje temos que enriquecer nossa razão intelectual com a razão cordial, muito mais ancestral, se quisermos fazer valer o cuidado e a espiritualidade.

Sem essas duas dimensões, não iremos nos mobilizar para cuidar da Terra, da água, do clima, das relações inclusivas. Precisamos cuidar de tudo, sem o que as coisas se deterioram e perecem. E, então, iríamos ao encontro de um cenário dramático.

ESPIRITUALIDADE

Outra tarefa é resgatar a dimensão da espiritualidade. Ela não deve ser identificada com a religião. Ela subjaz à religião, porque é anterior a ela. A espiritualidade é uma dimensão inerente ao ser humano como a razão, a vontade e a sexualidade. É o lado do profundo, de onde emergem as questões do sentido terminal da vida e do mundo. Infelizmente, essas questões foram tidas como algo privado e sem grande valor. Mas sem sua incorporação, a vida perde irradiação e alegria. No entanto, há um dado novo: os neurólogos concluíram que sempre que o ser humano aborda essas questões do sentido, do sagrado e de Deus, há uma aceleração sensível nos neurônios do lobo frontal. Chamaram a isso “ponto Deus” no cérebro, uma espécie de órgão interior pelo qual captamos a presença de uma energia poderosa e amorosa que liga e religa todas as coisas.

Alimentar esse “ponto Deus” nos faz mais solidários, amorosos e cuidadosos. Ele se opõe ao consumismo e ao materialismo de nossa cultura. Todos, especialmente os que estão na escola, devem ser iniciados nessa espiritualidade, pois nos torna mais sensíveis aos outros, mais ligados à mãe-Terra, à natureza e ao cuidado, valores sem os quais não garantiremos um futuro bom para nós.

Inteligência cordial e espiritualidade são as exigências mais urgentes que a atual situação ameaçadora nos faz.

Às agressões dos seres humanos, a Terra responde com flores

Todo caos possui dois lados: um, destrutivo, e outro, criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a diminuição da espécie humana. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite aos seres humanos sobreviventes construir outro tipo de civilização.

Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de 15 grandes dizimações, como a do cambriano, há 480 milhões de anos, que dizimou cerca de 90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.

Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta face a um eventual colapso do sistema de vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Por um lado, estiagens prolongadas associadas a grande escassez de água. Em outros lugares, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.

LIMITES FÍSICOS

O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunâmis, enchentes, terremotos e um incontido aumento do aquecimento global. Se chegarmos a um aumento de 2°C, a situação é ainda administrável. Mas, caso não façamos a lição de casa, diminuindo drasticamente a emissão de gases causadores do efeito estufa, e não reorientarmos nossa relação para com a natureza, a temperatura pode se elevar até 6°C. Aí conheceremos a “tribulação da desolação”.

A renomada revista “Science” de 15.1.2015 publicou um trabalho de 18 cientistas sobre os limites planetários. Identificaram nove dimensões fundamentais para a continuidade da vida e de nosso ensaio civilizatório. Vale a pena citá-las: 1) mudanças climáticas; 2) mudança na integridade da biosfera, com a erosão da biodiversidade e a extinção acelerada de espécies; 3) diminuição da camada de ozônio; 4) crescente acidificação dos oceanos; 5) desarranjos nos fluxos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e de nitrogênio, fundamentais para a vida); 6) mudanças no uso dos solos, como o desmatamento e a desertificação; 7) escassez ameaçadora de água doce; 8) concentração de aerossóis na atmosfera; 9) introdução de agentes químicos sintéticos, materiais radioativos e nanomateriais que ameaçam a vida.

QUATRO JÁ FORAM

Dessas nove dimensões, as quatro primeiras já ultrapassaram seus limites, e as demais se encontram em elevado grau de degeneração. E, apesar desse cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas e fedegosos amarelos; no canto de minha casa, as “belle donne” floridas; tucanos que pousam em árvores em frente da minha janela e araras que fazem ninhos debaixo do telhado.

Então me dou conta de que a Terra é, de fato, mãe generosa: a nossas agressões, ela ainda nos sorri com sua flora e fauna. E nos infunde a esperança de que, não o Apocalipse, mas um novo Gênesis está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Como asseguram as escrituras judaico-cristãs: “Deus é o soberano amante da vida”(Sab 11:26). E não permitirá que a vida, que penosamente superou o caos, venha a desaparecer.

A escassez de água no Brasil e sua distribuição no mundo

Leonardo Boff

Nenhuma questão hoje é mais importante do que a da água. Dela depende a sobrevivência de toda a cadeia da vida e, consequentemente, de nosso próprio futuro. Especialistas e grupos humanistas já sugeriram um pacto social mundial ao redor daquilo que é vital para todos: a água.

Independentemente das discussões que cercam o tema da água, podemos fazer uma afirmação segura e indiscutível: a água é um bem natural, vital, insubstituível e comum. Nenhum ser vivo pode viver sem a água.

Consideremos rapidamente os dados básicos sobre a água no planeta Terra: ela já existe há 500 milhões de anos; somente 2,5% da água disponível no mundo é doce. Mais de 2/3 dessas águas doces encontram-se nas calotas polares e geleiras e no cume das montanhas (68,9%); quase todo o restante (29,9%) é de águas subterrâneas. Sobram 0,9% nos pântanos e apenas 0,3% nos rios e lagos. Desses, 70% se destinam à irrigação na agricultura, 20% à indústria, e sobram apenas 10% para uso humano e dessedentação dos animais.

NÃO HÁ FALTA D’ÁGUA

Existe no planeta cerca de 1,36 bilhão de km³ de água. Se tomássemos toda a água de oceanos, lagos, rios, aquíferos e calotas polares e a distribuíssemos equitativamente sobre a superfície terrestre, a Terra ficaria mergulhada debaixo da água a 3 km de profundidade.

A renovação das águas é da ordem de 43 mil km³ por ano, enquanto o consumo total é estimado em 6.000 km³ por ano. Portanto, não há falta de água.

O problema é que se encontra desigualmente distribuída: 60% em apenas nove países, enquanto 80 outros enfrentam escassez. Pouco menos de 1 bilhão de pessoas consomem 86% da água existente, enquanto para 1,4 bilhão é insuficiente e para 2 bilhões não é tratada, o que gera 85% das doenças, segundo a OMS.

PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA

O Brasil é a potência natural das águas, com 12% de toda água doce do planeta, mas ela é desigualmente distribuída: 72% na região amazônica, 16% no Centro-Oeste, 8% no Sul e no Sudeste e 4% no Nordeste. Apesar da abundância, não sabemos usar a água, pois 37% da tratada é desperdiçada, o que daria para abastecer toda a França, a Bélgica, a Suíça e o norte da Itália. É urgente, portanto, um novo padrão cultural em relação a esse bem tão essencial.

Há uma corrida mundial para a privatização da água. Criou-se um mercado das águas que envolve mais de US$ 100 bilhões.

Mas há também fortes reações populares, como ocorreu no ano 2000 em Cochabamba, na Bolívia. A empresa norte-americana Bechtel comprou as águas e elevou os preços a 35%. A reação organizada da população botou a empresa para correr do país.

DIREITO À VIDA

O grande debate hoje se trava nestes termos: a água é fonte de vida ou de lucro? É um bem natural vital ou um bem econômico? Ambas as dimensões não se excluem, mas devem ser retamente relacionadas. Fundamentalmente, a água pertence ao direito à vida. Nesse sentido, a água de beber, para uso na alimentação e para higiene pessoal e dessedentação dos animais deve ser gratuita.

Como, porém, ela é escassa e demanda uma complexa estrutura de captação, conservação, tratamento e distribuição, implica uma inegável dimensão econômica, que, entretanto, não deve prevalecer sobre a outra.

Uma fome zero mundial, prevista pelas Metas do Milênio da ONU, deve incluir a sede zero, pois não há alimento que possa existir e ser consumido sem água. Água é vida, um dos símbolos mais poderosos da natureza. Sem ela, não viveríamos.

Em busca de um conceito de povo: de ator secundário a protagonista

Povo brasileiro

O povo brasileiro, na visão de Tarsila do Amaral

Leonardo Boff

Há poucas palavras mais usadas por distintas retóricas do que “povo”. Seu sentido é tão flutuante que as ciências sociais dão-lhe pouco apreço, preferindo falar em “sociedade” ou “classes sociais”. Mas, como nos ensinava L. Wittgenstein, “o significado de uma palavra depende de seu uso”.
Entre nós, quem mais usa positivamente a palavra “povo” são aqueles que se interessam pela sorte das classes subalternas, ou povo. Vamos tentar fazer um esforço teórico para conferir um conteúdo analítico para que o uso do termo sirva àqueles se sentem excluídos.

O primeiro sentido filosófico-social deita suas raízes no pensamento clássico da Antiguidade. Cícero, santo Agostinho e Tomás de Aquino afirmavam que “povo não é qualquer reunião de homens de qualquer modo, mas é a reunião de uma multidão ao redor do consenso do direito e dos interesses comuns”. Cabe ao Estado harmonizar os vários interesses.

OUTROS SENTIDOS

Um segundo sentido de “povo” nos vem da antropologia cultural: é a população que pertence à mesma cultura, habitando determinado território. Esse sentido é legítimo porque distingue um povo do outro. Mas esse conceito oculta as diferenças e até contradições internas: tanto pertencem ao povo um fazendeiro do agronegócio como o peão pobre que vive em sua fazenda. Mas no Estado moderno o poder só se legitima se estiver enraizado no povo. Por isso, a Constituição reza que “todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”.

Um terceiro sentido é chave para a política, que é a busca comum do bem comum ou a atividade que busca o poder de Estado para, a partir dele, administrar a sociedade. Na boca dos políticos profissionais, “povo” apresenta grande ambiguidade. Por um lado, expressa o conjunto indiferenciado dos membros de uma sociedade determinada, por outro, significa a gente pobre e com parca instrução, marginalizada. Quando os políticos dizem que “vão ao povo, falam ao povo e agem em benefício do povo”, pensam nas maiorias pobres. Aqui emerge uma dicotomia: entre as maiorias e seus dirigentes ou entre a massa e as elites.

Há um quarto sentido de “povo” que deriva-se da sociologia. Aqui, se impõe certo rigor do conceito para não cairmos no populismo. Inicialmente, possui um sentido político-ideológico na medida em que oculta os conflitos internos do conjunto de pessoas com suas culturas diferentes, status social e projetos distintos. Esse sentido possui parco valor analítico, pois é globalizador demais.

Sociologicamente, “povo” aparece também como uma categoria histórica que se situa entre massa e elites. Numa sociedade que foi colonizada e constituída em classes, aponta clara a figura da elite: os que detêm o ter, o poder e o saber. O “povo” é cooptado como ator secundário de um projeto formulado pelas elites e para as elites.

POVO-MASSA

Mas sempre há rachaduras no processo de hegemonia ou dominação de classe: lentamente, da massa, surgem lideranças carismáticas que organizam movimentos sociais com visão própria. Deixam de ser “povo-massa” e começam a ser cidadãos ativos e relativamente autônomos. Já não dependem das elites. “Povo”, portanto, nasce e é resultado da articulação dos movimentos e das comunidades ativas. Esse é o fato novo no Brasil e na América Latina dos últimos decênios que culminou hoje com as novas democracias de cunho popular e republicano.

Agora podemos falar com certo rigor conceitual: aqui há um “povo” emergente enquanto tem consciência e projeto próprio para o país. Possui também uma dimensão axiológica: todos são chamados a ser povo, deixar de haver dominados e dominadores, mas cidadãos-atores de uma sociedade na qual todos podem participar.

A intolerância que se manifesta no Brasil e no mundo moderno

Leonardo Boff

O assassinato dos chargistas do “Charlie Hebdo” e a última eleição presidencial no Brasil trouxeram à luz um dado latente no mundo e na cultura brasileira: a intolerância. A intolerância no Brasil é parte daquilo que Sérgio Buarque de Holanda chama de “cordial”, no sentido de ódio e preconceito que vêm do coração, como a hospitalidade e a simpatia. Em vez de cordial, eu preferiria dizer que o brasileiro é passional. O que se mostrou na última campanha eleitoral foi o “cordial passional”, tanto como ódio de classe (desprezo do pobre) quanto como discriminação racial (nordestino e negro). Ser pobre, negro e nordestino implicava uma pecha negativa, e aí o desejo absurdo de alguns de dividir o Brasil entre o Sul “rico” e o Nordeste “pobre”.

Esse ódio de classe deriva do arquétipo “casa grande e senzala” introjetado em certos setores sociais e bem expresso por uma madame rica de Salvador: “Os pobres, não contentes com receber a Bolsa Família, querem ainda ter direitos”. Isso supõe a ideia de que, se um dia foram escravos, deveriam continuar a fazer tudo de graça, como se não tivesse havido a Abolição da Escravatura e não valessem os direitos. Os homoafetivos e outros da LGBT foram hostilizados até nos debates oficiais entre os candidatos, revelando uma intolerância “intolerável”.

Para entender um pouco mais profundamente a intolerância, importa ir um pouco mais a fundo na questão. A realidade, assim como se apresenta, é contraditória; complexa, pois é convergência dos mais variados fatores; nela, há caos originário e cosmos (ordem), há luzes e sombras, há o sim-bólico e o dia-bólico. Em si, não são defeitos de construção, mas a condição real de “implenitude” de tudo que existe no universo. Isso obriga todos a conviverem com as diferenças e as imperfeições. E nos obriga a ser tolerantes com os que não pensam e agem como nós.

VERDADES ABSOLUTAS

O risco permanente é a intolerância. Ela reduz a realidade, pois assume apenas um polo e nega o outro. Coage todos a assumirem o seu polo e anula o outro, como o fazem de forma criminosa o Estado Islâmico e a Al Qaeda. O fundamentalismo e o dogmatismo tornam absoluta a sua verdade. Assim, eles se condenam à intolerância e passam a não reconhecer e respeitar a verdade do outro. O primeiro que fazem é suprimir a liberdade de opinião, o pluralismo, e impor o pensamento único. Os atentados como o de Paris têm por base essa intolerância.

É imperioso evitar a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar.

Essa é a grande dificuldade das sociedades europeias: a não aceitação do outro, seja árabe, muçulmano ou turco; e, na sociedade brasileira, do afrodescendente, do nordestino e do indígena. Há que se incentivar a tolerância ativa, que consiste na coexistência, na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito por ele e consegue ver os valores da diferença e, assim, pode se enriquecer.

EXIGÊNCIA ÉTICA

A tolerância é, antes de mais nada, uma exigência ética. Ela representa o direito que cada pessoa possui de ser aquilo que é e de continuar a sê-lo. Esse direito foi expresso universalmente na regra de ouro “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou, formulado positivamente: “Faça ao outro o que queres que te façam a ti”.

Cada pessoa tem direito de viver e de conviver no planeta Terra. A natureza nos oferece a melhor lição: por mais diversos que sejam os seres, todos convivem, se interconectam e formam a complexidade do real e a esplêndida diversidade da vida.