O tempo é das utopias mínimas

Leonardo Boff

Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar essa afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está aí fechado ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas, que podem irromper e concretizar-se. No fundo, é um projeto infinito, à procura de um objeto que lhe seja adequado.

É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os projetos e as utopias. Sem elas, o ser humano não veria sentido em sua vida. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, não teria um rumo.

Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista, que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos; a utopia industrialista, de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e das invenções técnicas; a utopia capitalista, de levar progresso e riqueza para todo mundo; a utopia socialista, de gerar sociedades igualitárias e sem classes; as utopias nacionalistas, sob a forma do nazifascismo; a utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal; a utopia de ambientalistas radicais, que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado a ela; etc.

Essas são as utopias maximalistas. Propunham o máximo. Muitas delas foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para confirmar que essas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Daí falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o “pós” se refere a esse tipo de utopia maximalista.

ÂNIMO HUMANO

Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje, a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o “possível viável” e fazem a sociedade “menos malvada e tornam menos difícil o amor”.

Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história. Há que se pôr um freio à ferocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação e que produz gases de efeito estufa que alimentam o aquecimento global, que, ao não ser detido, poderá produzir um armagedon ecológico.

As utopias minimalistas, a bem da verdade, são aquelas que vêm sendo implementadas pelo governo atual do PT e seus aliados com base popular: garantir que o povo coma duas ou três vezes ao dia, pois o primeiro dever de um Estado é garantir a vida dos cidadãos. São os projetos Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos, o aumento significativo do salário mínimo, o Prouni, os “pontos de cultura” e outros projetos populares que não cabe aqui elencar.

UTOPIAS VIÁVEIS

No nível das grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução dessas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar a que os povos se abracem na fraternidade e que se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia maximalista ou minimalista pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades, gozando um pouco do reino da liberdade e, por fim, poder dizer “valeu a pena”.

 

Quão humana é a nossa sociedade com a solidariedade aos haitianos?

 Leonardo Boff

O drama das centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que buscam hospitalidade no Brasil representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitianos, mas aos tantos que são expulsos ou desalojados de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio.

Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo mais de 100 milhões de refugiados, seja por guerras, por fome ou por fatores climáticos e outras causas semelhantes.

A hospitalidade é um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Basta lembrar os refugiados da África que chegaram à ilha italiana de Lampedusa e receberam a solidariedade do papa Francisco, ocasião em que fez as mais duras críticas à nossa civilização por ser insensível e perder a capacidade de chorar pela desgraça de seus semelhantes. Todos esses padecem sob a falta de hospitalidade e de solidariedade.

DESUMANIDADE

Nos jornais brasileiros, mas especialmente na mídias sociais, deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O governador Tião Viana, do Acre, mostrou profunda sensibilidade e hospitalidade acolhendo-os, a ponto de, com os meios parcos de um Estado pobre, não dar conta da situação. Teve que pedir socorro ao governo central. Mas foi, de forma desavergonhada, injuriado por muitos nas redes sociais. Aí nos damos conta de quão desumanos e sem piedade alguns podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de não desejar ser tratado dessa forma caso um dia se encontrem em semelhante situação.

Segundo o notável biólogo Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem a um estágio pré-humano, ao nível em que se encontram hoje os chimpanzés, que são societários, mas autoritários, nem sempre praticando a mutualidade.

É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade – disse-o o filósofo Kant em seu último livro, “A Paz Perpétua” (1795) – é a primeira virtude de uma República mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.

A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento. Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos, para captar a sua angústia e a sua esperança.

Ela exige, outrossim, uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Exige evitar tudo o que fizer o outro sentir-se um indesejado e um estranho.

HOSPITALIDADE

Importa dialogar abertamente para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui. Responsabilizar-se conscientemente, junto com outros para que encontre um lugar onde morar e um trabalho para ganhar a vida.

A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A nossa vem marcada lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos esses batem as portas aos imigrados, ao invés de abri-las e, compassivos, compartilharem de sua dor.

É nesse espírito que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos verdadeiramente um povo da cordialidade e da acolhida aberta a todos, o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização.

 

A beleza é que salvará o mundo do desespero, disse Dostoiévski

Leonardo Boff

Dos gregos aprendemos, e isso atravessou todos os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes, pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é “unum, verum et bonum”, o que quer dizer que ele goza de uma unidade interna que o mantém na existência; ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é; e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais, ajudando-os a existirem e coexistirem.

Foram os mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales, e especialmente são Boaventura, que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e santo Agostinho, acrescentaram ao ser mais uma característica transcendental: o “pulchrum”, vale dizer, o belo.

Baseados, seguramente, na experiência pessoal de são Francisco, que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade e que, “no belo das criaturas, via o Belíssimo”, enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular, senão na forma, mas na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

TERAPIA PESSOAL

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiódor Dostoiévski. Para ele, a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que via. Em seus escritos, descreveu pessoas más e destrutivas, e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio, mas o utilitarismo, o espírito de usar os outros e, assim, roubar-lhes a dignidade.

“Seguramente, não podemos viver sem pão, mas também é impossível existir sem beleza”, repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que, por meio da beleza, todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; ao contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura, dominada pelo marketing, vê a beleza como uma construção do corpo, e não da totalidade da pessoa. Então, surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxes para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser uma beleza construída, ela é sem alma. E, se repararmos bem, nessas belezas fabricadas, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois beleza tem a ver com amor e comunicação.

VIA DA BELEZA

O papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via “pulchritudinis” (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrai (“Exortação ‘A alegria do Evangelho’”, nº 167). A Igreja não visa o proselitismo, mas a atração que vem da beleza e do amor, cuja característica é o esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. Não é utilitarista. É como a flor que floresce por florescer, pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Mas quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então, ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za, que quer dizer: “o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo.

 

Quando imaginamos que nos perdemos, é que nos encontramos

Leonardo Boff

O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativamente. Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha.

Essa pequena história de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. Às vezes, quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que a história abaixo nos quer comunicar: um desafio para todos.

O EREMITA

“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Iguazaim. Fazia 30 anos que para lá se recolhera. Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias.

“‘Há 30 bons anos que por aqui vivo!’, suspirou o monge Porfiro. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se nesse pensamento por longas horas. ‘Há 30 bons anos e não me encontrei’.

“Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, pôs-se a caminho das montanhas de Iguazaim, após a reza pelos peregrinos. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto.

“‘Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas’. E dentro da noite Abba Tebaíno ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

“Depois, num desses intervalos em que as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com Abba veio se arrastando de mansinho até seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se a contemplar a lua, que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.

IGUAL AO GATO

“Depois de muito tempo, começou Abba Tebaíno a falar com grande doçura: ‘Porfiro, deves ser como o gato: ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim. Toda manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite dessa tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim. Nada quer, nada busca, tudo espera. Vive por viver, pura e simplesmente. Não se busca a si próprio nem mesmo na vaidade íntima da autopurificação ou na complacência da autorrealização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua… É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se’.

“E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das matinas. Depois, deram-se o ósculo da partida. O irmão Porfiro retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que, para encontrar-se, deveria perder-se na mais pura e singela gratuidade.

“Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

 

A busca de uma paz perene com todos os elementos da natureza

Leonardo Boff

Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis, atualizado por Francisco de Roma, é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que são Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem”, que corresponde ao “Shalom” bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações interpessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os pelo doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a “irmã e mãe-terra”, como a chamava, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar: “Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o Sol, contemplava a Lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar a Deus.

Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a planura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”.

Essa atitude de reverência e de enternecimento levava-o a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. No inverno, dava mel às abelhas para que não morressem de escassez e de frio. Pedia aos irmãos que não cortassem as árvores pela raiz, na esperança de que pudessem se regenerar. Só pode viver essa intimidade com todos os seres quem escutou sua ressonância simbólica dentro da alma, unindo a ecologia ambiental com a ecologia profunda.

UNIVERSO FRANCISCANO

O universo franciscano e ecológico nunca é inerte. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia, cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição, ele descobriu o que sabemos atualmente por via científica: que todos nós viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base. Francisco experimentou espiritualmente essa consanguinidade.

Dessa atitude nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameaças, paz de quem se sente sempre em casa, com os pais, os irmãos e as irmãs. A suprema expressão da paz, feita de convivência fraterna e de acolhida calorosa de todas as pessoas e coisas, é simbolizada pelo conhecido relato da perfeita alegria.

No relato da perfeita alegria, que encontra paralelos na tradição budista, são Francisco vai, passo a passo, desmontando os mecanismos que geram a cultura da violência. A verdadeira alegria não está na autoestima nem na necessidade de reconhecimento nem em fazer milagres e falar línguas. Em seu lugar, coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia. Vivida essa atitude, irrompe a paz que é uma paz interior inalterável, capaz de conviver jovialmente com as mais duras oposições, paz como fruto de um completo despojamento. Não são essas as primícias de um reino de justiça, de paz e de amor que tanto desejamos?

Essa visão da paz de são Francisco representa o outro modo de ser no mundo, uma alternativa ao modo de ser da modernidade e da pós-modernidade, assentado sobre a posse e o uso desrespeitoso das coisas para o desfrute humano, sem qualquer outra consideração.

Embora tenha vivido há mais de 800 anos, novo é ele, e não nós. Nós somos velhos e envelhecidos que, com a nossa voracidade, estamos destruindo as bases que sustentam a vida em nosso planeta e pondo em risco o nosso futuro como espécie. A descoberta da irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise e nos devolverá a inocência perdida, que é a claridade infantil da idade adulta.

A natureza humana diante da sexualidade e da família

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Leonardo Boff

Na consulta mundial sobre família e sexualidade promovida corajosamente pelo papa Francisco, sempre volta à tona certa compreensão da lei natural e da natureza humana. Por uma parte, pode-se afirmar que, sob certos aspectos, a natureza humana é um dado singular, sempre aberto, pois veio, junto com outros seres, se formando ao longo do processo evolutivo há milhões de anos e ainda não se encontra pronto. É um dado feito.

A partir dessa constatação, importa reconhecer que o ser humano é uma espécie que possui constantes antropológicas que geram certo tipo de comportamento singular, propriamente humano. Somos capazes de amor e de ódio, de ser guardiães da vida e seus destruidores. Tal fato dramatiza qualquer juizo ético que deve incorporar a tolerância e a misericórdia.

Por outra parte, a natureza humana é histórica, porque é trabalhada pela liberdade que lhe dá configurações culturais e a mantém aberta a novas formas futuras. Esse caráter histórico faz com que nenhum entendimento compreenda tudo do ser humano. Só o entende dentro de limites históricos. Ademais, cabe compreender o potencial e o utópico também como pertencentes ao dado da natureza humana, fazendo com que sempre alimente novos sonhos e procure realizá-los.

RELAÇÕES ILIMITADAS

Dito em poucas palavras, o ser humano é um ser de relações ilimitadas. Ele é, portanto, um em si relacionado. As tendências e as paixões ou o seu capital de desejo e seu complexo universo de impulsos não indicam, efetivamente, nenhuma norma de ação concreta. É aqui que entram a liberdade humana e sua capacidade de elaborar um projeto de vida.

Esse projeto de vida se orienta por valores. Esses valores são bons só para mim ou o são para todos? Aqui vale a proposição de Kant: o que é bom para mim deve poder ser universalizado. O projeto de vida põe em ação a liberdade e a responsabilidade. Sem liberdade e responsabilidade não há ética humana em nenhum lugar do mundo.

No fundo, o sentido último da ética é fazermo-nos mais plenamente humanos no sentido de fazermo-nos melhores a nós mesmos e de criar condições para que outros sejam também melhores junto conosco.

TODOS HUMANOS

Apliquemos essa visão da natureza humana aos temas relativos à família e à sexualidade. Partimos do fato de que há algo de comum: todos somos igualmente humanos. Há também algo de distinto: somos humanos nos modos chinês, ianomâmi, mapuche e brasileiro. A diferença não destrói a unidade de base, apenas mostra a fecundidade dessa natureza coparticipada, pois ela só se dá na medida em que se realiza de diferentes formas.

Nessa quadra nova da consciência globalizada na qual temos acesso a tantas diferenças, importa entender dois dados como diferentes e complementares. Nenhum tem o direito de se impor aos demais; devem existir como diferentes e ser aceitos como tais.

Aplicadas essas reflexões ao tema da família e da sexualidade, devemos dizer: importa respeitar as diferenças, identificar os elementos comuns e aprender a conviver com distintas morais e formas de família e de sexualidade. Mas sob uma condição: todas devem tratar humanamente o ser humano, nunca fazê-lo objeto, mas um ser autônomo com valor em si mesmo. A partir daí, estabelecer o diálogo, fazer as críticas e ver como podemos todos nos tratar humanamente, com amor e respeito, de forma que possamos sempre ser melhores.

É o mínimo do mínimo de uma possível ética humanitária, hoje tão necessária. (transcrito de O Tempo)

A Terra não é um planeta em que há vida, ela é um organismo vivo

Leonardo Boff 

A partir dos anos 70, ficou claro para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. Ela é viva, um superorganismo vivente denominado pelos andinos de “Pacha Mama” e pelos modernos de “Gaia”, o nome grego para a Terra viva.

A espécie humana representa a capacidade de Gaia de ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós, humanos, possibilitamos à Terra apreciar a sua luxuriante beleza, contemplar sua intrincada complexidade e descobrir espiritualmente o mistério que a penetra.

O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido. O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese.

A mudança que essa leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século XVI ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do Sol. Especialmente, a verificação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de autorrealização. Consequentemente, a verdade se dá numa referência aberta, e não num código fechado e estabelecido.

A IDADE DO COSMOS

Importa, antes de mais nada, realizar a reintegração do tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos, quando principiaram a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psiquê. Quando isso madurou, então nascemos de verdade, sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.

Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:

Em 1º de janeiro, ocorreu o big-bang. Em 1º de maio, o surgimento da Via Láctea. Em 9 de setembro, a origem do sistema solar. Em 14 de setembro, a formação da Terra. Em 25 de setembro, a origem da vida. Em 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiros hominídeos. Em 31 de dezembro, irromperam os primeiros homens e mulheres. Os últimos dez segundos de 31 de dezembro inauguraram a história do “Homo sapiens”, do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23h59min56s. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós? Na última fração de segundo antes de completar meia-noite. Em outras palavras, somente há 24 horas o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos.

MILAGRE DA EXISTÊNCIA

Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nessas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso, em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.

Em seguida, faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Pertencemos ao sistema solar, que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas num planeta pequeno, mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de formas cada vez complexas e conscientizadas de vida: a Terra.

Reintegrados no espaço e no tempo, nos sentimos como Pascal: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza reside em saber e celebrar tudo isso.

Humanos foram um dos últimos seres a entrarem no teatro da cria

Leonardo Boff

A ética da sociedade dominante no mundo é utilitarista e antropocêntrica. Quer dizer: ilusoriamente, considera que os seres da natureza somente possuem razão de existir na medida em que servem ao ser humano e que este pode dispor deles a seu bel-prazer.

A tradição judaico-cristã reforçou essa ideia com o seu “subjugai a Terra e dominai sobre tudo o que vive e se move sobre ela”(Gn 1:28).

Mal sabemos que nós, humanos, fomos um dos últimos seres a entrarem no teatro da criação. Quando 99,98% de tudo já estava pronto, surgimos nós. O universo, a Terra e os ecossistemas não precisaram de nós para se organizar e ordenar sua majestática complexidade e beleza.
Cada ser possui valor intrínseco, independentemente do uso que fazemos dele. Tem algo a revelar que só ele o pode fazer, mesmo o menos adaptado, que em seguida, pela seleção natural, desaparecerá para sempre. Mas a nós cabe escutar e celebrar a mensagem que nos tem a revelar.
O mais grave, entretanto, é a ideia que toda a modernidade e grande parte da comunidade científica atual projeta do planeta Terra e da natureza. Estes são considerados simples “res extensa”, coisa que pode ser mensurada, manipulada. O método científico predominante mantém, em grande parte, essa lógica agressiva e perversa.

René Descartes, no seu “Discurso do Método”, diz algo de clamoroso reducionismo na compreensão: “não entendo por ‘natureza’ nenhuma deusa ou qualquer outro tipo de poder imaginário, antes me sirvo dessa palavra para significar a matéria”. Considera o planeta algo morto, sem propósito, como se o ser humano não fizesse parte dele.

O fato é que nós entramos no processo da evolução quando esta alcançou um patamar altíssimo de complexidade. Por nós, o universo chegou à consciência de si mesmo, e isso ocorreu numa minúscula parte do universo, que é a Terra. Por isso nós somos aquela porção da Terra que sente, ama, pensa, cuida e venera.

A nossa missão específica, nosso lugar no conjunto dos seres, é o de sermos aqueles que podem apreciar a grandeza do universo, escutar as mensagens que cada ser enuncia e celebrar a diversidade dos seres e da vida.

E pelo fato de sermos portadores de sensibilidade e de inteligência, temos uma missão ética: cuidar da criação e ser os guardiães dela para que continue com vitalidade e integridade e com condições de ainda evoluir.

Lamentavelmente, estamos cumprindo mal essa nossa missão, pois, no dizer do biólogo E. Wilson, “a humanidade é a primeira espécie da história da vida a se tornar uma força geofísica; o ser humano, esse ser bípede, tão cabeça de vento, já alterou a atmosfera e o clima do planeta, desviando-os em muito das normas usuais; já espalhou milhares de substâncias químicas tóxicas pelo mundo inteiro, e estamos perto de esgotar a água potável” (“A Criação – Como Salvar a Vida na Terra”, 2008).

Se não quisermos ser expulsos da Terra pela própria Terra, como os inimigos da vida, cumpre mudar nosso comportamento face à natureza, mas principalmente acolher a Terra como a ONU, em 2009, a aceitou, como mãe-Terra, e como tal cuidar dela e reconhecer e respeitar a história de cada ser vivo ou inerte.

Eles existiram antes de nós e por milhões e milhões de anos sem nós. Por essa razão, devem ser respeitados como o fazemos com as pessoas mais idosas, que tratamos com respeito e amor. Mais que nós, eles têm direito ao presente e ao futuro junto conosco.

Caso contrário, não há tecnologia nem promessas de progresso ilimitado que nos poderão salvar.

Prolongar a dependência ou completar a invenção do Brasil?

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Leonardo Boff

A atual sociedade brasileira, há que se reconhecer, conheceu avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar, especialmente se nos confrontarmos com as fases históricas anteriores, hegemonizadas pelas elites tradicionais que sempre detiveram o poder de Estado.

Mas esses avanços não são ainda proporcionais à grandeza de nosso país e de seu povo. As manifestações de junho de 2013 mostraram que boa parte da população, particularmente dos jovens, está insatisfeita. Esses manifestantes querem mais.

Querem outro tipo de democracia, a participativa, querem uma República de caráter popular, exigem, com razão, transportes que não lhes roubem tanto tempo, serviços básicos que os habilitem a entender melhor o mundo e a melhorar o tipo de trabalho que escolherem, reclamam saúde com um mínimo de decência e qualidade. Cresce em todos a convicção de que um povo doente e ignorante jamais dará um salto de qualidade rumo a outro tipo de sociedade menos desigual. O PT deverá estar à altura desses novos desafios e renovar sua agenda ao preço de não continuar mais no poder.

CRISE SISTÊMICA

As próximas eleições possuirão, a meu ver, uma qualidade singular. Dada a aceleração da história, impulsionada pela crise sistêmica mundial, seremos forçados a tomar uma decisão: ou aproveitamos as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam, reafirmando nossa autonomia e garantindo nosso futuro autônomo, ou as desperdiçamos e viveremos atrelados ao destino decidido sempre por eles, que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura que lhes faltam e, assim, voltam a nos recolonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, que propuseram uma reinvenção do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório.

Esse é o desafio lançado de forma urgente a todas as instâncias sociais: elas ajudam na invenção do Brasil como nação soberana, repensada nos quadros da nova consciência planetária e do destino comum da Terra e da humanidade? Poderão elas ser coparteiras de uma cidadania nova, que articula o cidadão com o Estado, o cidadão com o outro cidadão, o nacional com o mundial, a cidadania brasileira com a cidadania planetária, ajudando assim a moldar o devenir humano? Ou elas se farão cúmplices daquelas forças que não estão interessadas na construção do projeto Brasil porque se propõem inserir o país no projeto mundo globalizado de forma subalterna e dependente, com as vantagens concedidas às classes opulentas, beneficiadas com esse tipo de aliança?

INVIABILIZAÇÃO

As próximas eleições vão trazer à luz esses dois projetos. Devemos decidir de que lado estaremos. A situação é urgente, pois, como advertia, pesaroso, Celso Furtado, “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional”. Mas não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes dar as batalhas, como nos ensinava dom Quixote em sua gaia sabedoria.

Ainda há tempo para mudanças que podem reorientar o país para o seu rumo certo, especialmente agora que, com a crise ecológica, o ambiente se transformou num peso decisivo da balança e do equilíbrio buscado pelo planeta Terra. Importa crer em nossas virtualidades, diria mais, em nossa missão planetária. (transcrito de O Tempo)

A gestação do povo brasileiro, a universidade e o saber popular

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Leonardo Boff

O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. Vindos de 60 países diferentes, aqui estão se mesclando representantes desses povos num processo aberto, todos contribuindo na gestação de um povo novo que um dia acabará de nascer.

O que herdamos da Colônia foi um Estado altamente seletivo, uma elite excludente e uma imensa massa de destituídos e descendentes de escravos. Mas, apesar desse constrangimento histórico-social, no meio dessa massa enorme, maduraram lentamente lideranças e movimentos que propiciaram o surgimento de todo tipo de comunidades, associações, grupos de ação e de reflexão.

Do exercício democrático no interior desses movimentos nasceram cidadãos ativos; da articulação entre eles está nascendo uma energia geradora que lentamente chega à consciência de sua história e projeta um futuro diferente e melhor para todos.

Nenhum processo dessa magnitude se faz sem aliados, sem a ligação orgânica daqueles que manejam um saber especializado com os movimentos sociais comprometidos. É aqui que a universidade é desafiada a alargar o seu horizonte. Importa que os mestres e alunos frequentem a escola viva do povo e permitir que gente do povo possa entrar nas salas de aula.

INTELIGÊNCIA E MISÉRIA

Essa visão supõe a criação de uma aliança entre a inteligência acadêmica com a miséria popular. Todas as universidades se tornaram o lugar clássico da problematização da cultura, da vida, do homem, de seu destino e de Deus. As duas culturas – a humanística e a científica –, mais e mais, se intercomunicam no sentido de pensar o todo, o destino do próprio projeto científico e técnico face às intervenções que faz na natureza e sua responsabilidade pelo futuro comum da nação e da Terra. Tal desafio exige um novo modo de pensar que não segue uma lógica do simples e linear, mas do complexo e do dialógico.

As universidades são urgidas a buscar um enraizamento orgânico nas periferias, nas bases populares e nos setores ligados diretamente à produção. Aqui pode se estabelecer uma fecunda troca de saberes, entre o popular e o acadêmico; dessa aliança surgirão seguramente novas temáticas teóricas nascidas do confronto com a antirrealidade popular e da valorização da riqueza incomensurável do povo na sua capacidade de encontrar, sozinho, saídas para os seus problemas.

Desse casamento se acelera a gênese de um povo; permite um novo tipo de cidadania, baseada na concidadania dos representantes da sociedade civil e acadêmica e das bases populares que tomam iniciativas por si mesmos e submetem o Estado a um controle democrático.

Nessas iniciativas populares, os movimentos sociais sentem necessidade de um saber profissional. É onde a universidade pode e deve entrar, socializando o saber.

Desse ir e vir fecundo entre pensamento universitário e saber popular pode surgir o biorregionalismo com um desenvolvimento adequado àquele ecossistema e à cultura local. A partir dessa prática, a universidade resgatará seu caráter de servidora da sociedade.

Esse processo dinâmico e contraditório só prosperará se estiver imbuído de um grande sonho: de ser um povo novo, autônomo, livre e orgulhoso de sua terra.

Apesar de todas as tribulações históricas, o povo brasileiro nunca perdeu sua autoestima e o encantamento do mundo. É um povo de grandes sonhos.

Talvez seja essa visão encantada do mundo uma das maiores contribuições que nós, brasileiros, podemos dar à cultura mundial emergente, tão pouco mágica e tão pouco sensível ao jogo, ao humor e à convivência dos contrários.

A carícia essencial que resgata a humanidade nos seres humanos

01Leonardo Boff

A carícia constitui uma das expressões supremas da ternura. Por que dizemos carícia essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura moção psicológica. A carícia moção não envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo de ser que qualifica a pessoa em sua totalidade.

O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão é mais que a mão. É a pessoa inteira que, por meio da mão e na mão, revela um modo de ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial, precisamos cultivar o “eu” profundo, aquela busca do mais íntimo e verdadeiro em nós, e não apenas o ego superficial da consciência.

Assim como a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a qualquer outra intenção que não seja a da experiência de querer bem e de amar. Não é um roçar de peles, mas um investimento de carinho e de amor por meio da mão e da pele.

TERNURA E CUIDADO

O afeto não existe sem a carícia, a ternura e o cuidado. Assim como a estrela precisa de uma aura para brilhar, da mesma forma o afeto necessita da carícia para sobreviver. É a carícia que confere concretude ao afeto e ao amor. É a qualidade da carícia que impede o afeto de ser mentiroso, falso ou dúbio. A carícia essencial é leve como um entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar portas e janelas, quer dizer, na invasão da intimidade da pessoa.

Disse com precisão o psiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo: ”A mão, órgão humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que agarra e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de encontro inter-humano”.

Numa reflexão cultural mais ampla, a mão que agarra corporifica o modo de ser dos últimos quatro séculos, da assim chamada modernidade. O eixo articulador do paradigma moderno é a vontade de agarrar tudo para possuir e dominar.

NATUREZA

Os modernos agarraram dominando a natureza, explorando seus bens e serviços sem qualquer consideração de respeito de seus limites e sem dar-lhe tempo de repouso para poder se reproduzir. Hoje, colhemos os frutos envenenados dessa prática sem qualquer cuidado e ausente de todo sentimento de carícia para com o que vive e é vulnerável.

Agarrar é expressão do poder sobre algo, da manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas ao meu modo de ser. Se bem repararmos, não ocorreu uma mundialização, respeitando as culturas em sua rica diversidade. O que ocorreu foi a ocidentalização do mundo. E na sua forma mais pedestre: uma hamburguerização do estilo de vida norte-americano imposto a todos os quadrantes do planeta.

A mão que acaricia representa a alternativa necessária: o modo de ser cuidado, pois “a carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem entramos em contato”(Restrepo).

É urgente, nos dias de hoje, resgatar nos seres humanos a dimensão da carícia essencial. Ela está dentro de todos nós, embora encoberta por grossa camada de cinza de materialismo, de consumismo e de futilidades. A carícia essencial nos devolve a nossa humanidade perdida. Em seu sentido melhor reforça também o preceito ético mais universal: tratar humanamente cada ser humano, quer dizer, com compreensão, com acolhida, com cuidado e com a carícia essencial.

A grande transformação e a corrupção geral de nosso tempo

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Leonardo Boff

Normalmente, as sociedades se assentam sobre o seguinte tripé: economia (que garante a base material da vida humana), política (pela qual se distribui o poder e se montam as instituições que fazem funcionar a convivência social) e ética (que estabelece valores e normas que regem os comportamentos humanos). Geralmente, a ética vem acompanhada por uma aura espiritual que responde pelo sentido último da vida e do universo, exigências sempre presentes na agenda humana.

Essas instâncias se entrelaçam numa sociedade funcional, mas sempre nessa ordem: a economia obedece à política e a política se submete à ética. Mas, a partir da Revolução Industrial no século XIX, a economia começou a se descolar da política e a soterrar a ética. Surgiu uma economia de mercado, de forma que todo o sistema econômico fosse dirigido e controlado apenas pelo mercado, livre de qualquer controle ou de um limite ético.

A marca registrada desse mercado não é a cooperação, mas a competição, que vai além da economia e impregna todas as relações humanas. Mais ainda: criou-se, no dizer de Karl Polanyi, “um novo credo, totalmente materialista, que acreditava que todos os problemas poderiam ser resolvidos por uma quantidade ilimitada de bens materiais”(“A Grande Transformação”, Campus, 2000, pág. 58). Esse credo é, ainda hoje, assumido com fervor religioso pela maioria dos economistas do sistema imperante e, em geral, pelas políticas públicas.

EIXO ÚNICO

A partir de agora, a economia funcionará como o único eixo articulador de todas as instâncias sociais. Tudo passará pela economia, concretamente, pelo PIB. Quem estudou em detalhe esse processo foi o filósofo e historiador da economia, já referido, Karl Polanyi. Demonstrou ele que, “em vez de a economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no sistema econômico” (pág. 77). Então, ocorreu o que ele chamou de “a grande transformação”: de uma economia de mercado se passou a uma sociedade de mercado.

Em consequência, nasceu um novo sistema social, no qual a sociedade não existe, apenas os indivíduos competindo entre si. Tudo mudou, pois tudo vira mercadoria. Qualquer bem será levado ao mercado para ser negociado em vista do lucro individual. Polanyi não deixa de anotar que tudo isso é “contrário às substâncias humana e natural das sociedades”. Mas foi o que triunfou, especialmente no pós-guerra.

Aqui, cabe recordar as palavras proféticas de Karl Marx: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico, e podia vender-se. (…) O tempo da corrupção geral, da venalidade universal, ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal, é levada ao mercado para receber um preço, no seu mais justo valor”.

EFEITOS DESASTROSOS

Os efeitos socioambientais desastrosos dessa mercantilização de tudo estão sendo sentidos hoje pelo caos ecológico da Terra. Temos que repensar o lugar da economia no conjunto da vida humana, especialmente face aos limites da Terra.

Quando uma sociedade se entorpece como a nossa, e por seu crasso materialismo se faz incapaz de sentir o outro como outro, e somente o vê enquanto eventual produtor e consumidor, ela está cavando seu próprio abismo.

Agora, cabe o retorno ao “não há alternativa”: ou mudamos, ou pereceremos, porque os nossos bens materiais não nos salvarão. É o preço letal por termos entregue nosso destino à ditadura da economia transformada num “deus salvador” de todos os problemas.

O aquecimento global é a febre que denuncia a doença da Terra

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Leonardo Boff

Há negacionistas da Shoah (eliminação de milhões de judeus nos campos nazistas de extermínio) e há negacionistas das mudanças climáticas da Terra. Os primeiros recebem o desdém de toda a humanidade. Os segundos veem, dia a dia, suas convicções sendo refutadas por fatos inegáveis. Só se mantêm coagindo cientistas para não dizerem tudo o que sabem, como foi denunciado por diferentes e sérios meios alternativos de comunicação. É a razão ensandecida que busca a acumulação de riqueza sem qualquer outra consideração. Em tempos recentes, temos conhecido eventos extremos da maior gravidade: Katrina e Sandy nos Estados Unidos, tufões terríveis no Paquistão e em Bangladesh, o tsunami no sudeste da Ásia, o tufão no Japão que danificou as usinas nucleares em Fukushima e, ultimamente, o avassalador tufão Haiyan, nas Filipinas, com milhares de vítimas.

Nos últimos meses, quatro relatórios oficiais de organismos ligados à ONU lançaram veemente alerta sobre as graves consequências do crescente aquecimento global. Com 90% de certeza, esse é comprovadamente provocado pela atividade irresponsável dos seres humanos e dos países industrializados. Todos são unânimes em afirmar que não estamos indo ao encontro do aquecimento global: já estamos dentro dele.

Poucas semanas atrás, a secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Christina Figueres, em plena entrevista coletiva, desatou em choro incontido ao denunciar que os países quase nada fazem para a adaptação e a mitigação do aquecimento global. Yeb Sano, das Filipinas, na 19ª Convenção do Clima em Varsóvia, ocorrida entre 11 e 22 deste mês, chorou também, diante de representantes de 190 países, quando contava o horror do tufão que dizimou seu país, atingindo sua própria família.

Os representantes desses países já trazem no bolso as instruções previamente tomadas por seus governos, e os grandes dificultam por muitos modos qualquer consenso. Lá estão também os donos do poder no mundo. Todos querem que as coisas continuem como estão. É o que de pior nos pode acontecer, porque então o caminho para o abismo se torna mais direto e fatal. Por que essa irracional oposição?

CONSUMISMO ILIMITADO

Esse caos ecológico é tributado ao nosso modo de produção, que devasta a natureza e alimenta a cultura do consumismo ilimitado. Ou mudamos nosso paradigma de relação para com a Terra e para com os bens e serviços naturais, ou vamos irrefreavelmente ao encontro do pior. O paradigma vigente se rege por esta lógica: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no mais curto lapso de tempo, com inovação tecnológica e com maior potência competitiva? A produção é para o puro e simples consumo, que gera a acumulação; este, o objetivo principal. A devastação da natureza e o empobrecimento dos ecossistemas aí implicados são meras externalidades (não entram na contabilidade empresarial). Como a economia neoliberal se rege estritamente pela competição e não pela cooperação, estabelece-se uma guerra de mercados, de todos contra todos. Quem paga a conta são os seres humanos (injustiça social) e a natureza (injustiça ecológica). Ocorre que a Terra não aguenta mais esse tipo de guerra total contra ela. O aquecimento global é a febre que denuncia a doença. O planeta está gravemente doente.

Ou começamos a nos sentir parte da natureza, e então a respeitamos como a nós mesmos, passando do paradigma da conquista e da dominação para aquele do cuidado e da convivência, e produzimos respeitando os ritmos naturais e nos limites de cada ecossistema, ou então preparemo-nos para as amargas lições que a mãe- Terra nos dará. Não está excluída a possibilidade de que ela já não nos queira mais sobre sua face e se liberte de nós como nos libertamos de uma célula cancerígena. Ela continuará, coberta de cadáveres, mas sem nós. Que Deus não permita semelhante e trágico destino.

As causas da erosão atual dos direitos humanos no mundo

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Leonardo Boff

Vivemos num mundo no qual os direitos humanos são violados, praticamente, em todos os níveis: familiar, local, nacional e planetário. O Relatório Anual da Anistia Internacional de 2013, referente a 2012 e cobrindo 159 países, faz exatamente essa dolorosa constatação. Em vez de avançarmos no respeito da dignidade humana e dos direitos das pessoas, dos povos e dos ecossistemas, estamos regredindo a níveis de barbárie.

A forma mais covarde é a ação dos drones, aviões não pilotados que, a partir de alguma base do Texas, dirigidos por um jovem militar diante de uma telinha de televisão, como se estivesse jogando um videogame, consegue identificar um grupo de afegãos celebrando um casamento, dentro do qual presumivelmente deverá haver algum guerrilheiro da Al Qaeda. Basta essa suposição para, com um pequeno clique, lançar uma bomba que aniquila todo o grupo, com mães e crianças inocentes.

É a forma perversa da guerra preventiva, inaugurada por Bush e criminosamente levada avante pelo presidente Obama, que não cumpriu as promessas de campanha com referência aos direitos humanos, seja do fechamento de Guantánamo, seja da supressão do Ato Patriótico, pelo qual qualquer pessoa dentro dos Estados Unidos pode ser detida por suspeita de terrorismo, sem necessidade de avisar a família. Hoje, consoante o Relatório da Anistia Internacional, o país que mais viola direitos de pessoas e de povos são os EUA.

NEOCOLONIZAÇÃO

O continente que mais violações sofre é a África. É um continente esquecido e vandalizado. Terras são compradas (land grabbing) por grandes corporações e pela China para nelas produzirem alimentos para suas populações. É uma neocolonização mais perversa que a anterior.

A situação de nosso país é preocupante, dado o nível de violência que campeia em todas as partes. Diria, não há violência: estamos montados sobre estruturas de violência sistêmica que pesam sobre mais da metade da população afrodescendente, sobre os indígenas que lutam por preservar suas terras, sobre os pobres em geral e sobre os LGBT, discriminados e até mortos.

O fundamento último do cultivo dos direitos humanos reside na dignidade de cada pessoa humana e no respeito que lhe é devido. Dignidade significa que ela é portadora de espírito e de liberdade que lhe permite moldar sua própria vida. O respeito é o reconhecimento de que cada ser humano possui um valor intrínseco, é um fim em si mesmo e jamais um meio para qualquer outra coisa. Diante de cada ser humano, por anônimo que seja, todo poder encontra seu limite, inclusive o Estado.

O fato é que vivemos num tipo de sociedade mundial que colocou a economia como seu eixo estruturador. A razão é utilitarista, e tudo, até a pessoa humana, como denuncia o papa Francisco, é feito “um bem de consumo que, uma vez usado, pode ser atirado fora”. Numa sociedade assim, não há lugar para direitos, apenas para interesses. Até o direito sagrado à comida e à bebida só é garantido para quem puder pagar. Caso contrário, estará ao pé da mesa, junto com os cães, esperando alguma migalha que caia da mesa farta dos epulões.

Nesse sistema econômico, político e comercial, se assentam as causas principais, não exclusivas, que levam permanentemente à violação da dignidade humana. O sistema vigente não ama as pessoas, apenas sua capacidade de produzir e de consumir. De resto, são apenas resto, óleo gasto na produção.

A tarefa, além de humanitária e ética, é principalmente política: como transformar esse tipo de sociedade malvada numa sociedade em que os humanos possam se tratar humanamente e gozar de direitos básicos. Caso contrário, a violência é a norma.