A política entre a utopia e a realidade do seu exercício

Leonardo Boff

Antes de abordarmos, sucintamente, a questão complexa da política, faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a Política com P maiúsculo, que é a busca comum do bem comum, da política com p minúsculo, que consiste na política partidária, que, como a palavra sugere, é parte, e não o todo.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes. Por isso, por um lado, dizem os papas, a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis, como o patrimonialismo e a corrupção. Daí viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representado pelos parlamentares. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, essa é a tendência dominante, particularmente no quadro da pós-modernidade. E está contaminando os jovens.

É PRECISO SONHAR

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonham e que não se orientam por utopias escolheram o caminho de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança, e o desfecho fatal é a autodestruição. A utopia nos faz andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe as funções pelas quais existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política com P maiúsculo quanto para a política com p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios em que estão envolvidos os poderes públicos.

Quando confrontamos a política realmente existente com a utopia da política, notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado, que se regem por uma feroz competição, deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade. Isso faz com que os valores não materiais ocupem um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias.

Ora, desses valores altamente positivos vive fundamentalmente a política que se entende como prática da ética social.

REFORMA POLÍTICA

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam essa ética (ética na política), mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalhe as instituições, os braços longos do poder (que devem ser transparentes) e um serviço público. É nesse campo que ocorrem as perversões da política. Especialmente grave é o financiamento privado das eleições, que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil, com tradição patrimonialista, o político facilmente considera seu o bem público e se apropria dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política reintroduziria a ética na política. Para Aristóteles, política e ética eram sinônimos.

Dilma dá continuidade à invenção do novo Brasil

Leonardo Boff

É notório que a direita brasileira, especialmente aquela de forças elitistas que sempre ocuparam o poder de Estado e o trataram como propriedade privada, apoiadas pela mídia privada e familiar, está se aproveitando da crise – que é mundial, e não, apenas, nacional (e temos a vantagem de manter um mínimo de crescimento e o emprego dos trabalhadores, coisa que não acontece na Europa nem nos Estados Unidos) – para fazer sangrar a presidente Dilma Rousseff e desmoralizar o Partido dos Trabalhadores, e assim criar uma atmosfera que lhe permita voltar ao lugar que por via democrática perdeu.

Celso Furtado, em “A Construção Interrompida” (1993), escreveu com acerto: “O tempo histórico se acelera, e a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio da Janeiro, 1993, pág. 35).

Aqui reside a verdadeira questão: queremos prolongar a dependência àquelas forças nacionais e mundiais que sempre nos mantiverem alinhados e sócios menores de seu projeto, ou queremos completar a invenção do Brasil como nação soberana que tem muito que contribuir para a solução da atual crise ecológico-social do mundo?

Se, por um lado, não podemos nos privar de algumas críticas ao governo do PT, por outro, seria faltar à verdade se não reconhecêssemos os avanços significativos sob os governos desse partido. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.

ÓDIO CONTRA O PT

Surgiu um estranho ódio contra o PT em muitos âmbitos da sociedade. Suspeito que esse ódio seja porque as políticas públicas permitiram aos pobres usar o avião e visitar seus parentes no Nordeste; também conseguiram adquirir seu carro e comprar em shopping centers. O lugar deles não seria no avião, mas na periferia, pois esse é seu lugar. Mas eles foram integrados à sociedade e a seus benefícios.

Devemos aproveitar as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam: reafirmar nossa independência, garantindo nosso futuro autônomo, mas relacionado com a totalidade do mundo, ou desperdiçá-la, vivendo atrelados ao destino que é sempre decidido por eles, que nos querem condenar a ser apenas os fornecedores dos produtos “in natura” que lhes faltam, voltando assim a nos colonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, do quilate de Darcy Ribeiro e Celso Furtado, entre outros, que propuseram uma reinvenção ou refundação do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido mundialmente.

Esse é o desafio lançado aos candidatos à mais alta instância de poder no país. Não vejo figura melhor para seguir nessa reconstrução, a partir de baixo, com uma democracia participativa, com seus conselhos e movimentos populares opinando e ajudando a formular caminhos que nos levem para a frente e para o alto, do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

A situação é urgente, pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op. cit. 35). Nós não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes participar das batalhas, como nos ensinava dom Quixote, em sua gaia sabedoria.

Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.

A propósito das eleições, a relação entre fé e política

Antes de mais nada, há que se distinguir uma política escrita com P maiúsculo e outra com p minúsculo. Ou então a política social e a política partidária. A política social diz respeito ao bem comum da sociedade. Por exemplo, a organização da saúde, a rede escolar, os transportes, os salários têm a ver com a política social. Lutar para conseguir um posto de saúde no bairro e se unir para trazer a linha de ônibus até o alto do morro é fazer política social.

Essa política significa a busca do bem comum. Nesse nível, todos os cidadãos e todos os cristãos católicos ou evangélicos podem e devem participar.

A política partidária representa a luta pelo poder de Estado, para conquistar o governo municipal, estadual e federal. Os partidos políticos existem em função do objetivo de se chegar ao poder, seja para mudá-lo (processo libertador), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar o Estado que existe). O partido, como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes sociais que elaboram um projeto. Se chegarem ao poder, vão comandar as políticas públicas conforme seu programa e sua visão partidária.

QUAL É O PROGRAMA?

Com referência à política partidária, é importante considerar os seguintes pontos: ver qual é o programa do partido; como o povo entra nesse programa: se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos históricos do povo; se prevê a participação do povo, mediante seus movimentos e organismos, na sua concepção, implementação e controle; quem são os candidatos que representam o programa: que biografia têm, se estão na lista da ficha suja, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases, se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da mudança social ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até injustiças que encerram.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por nossas elites a fim de se beneficiar dele, esquecendo o sujeito de todo o poder, que é o povo.

Como entra a fé nisso tudo? A fé diretamente tem a ver com Deus e seu desígnio sobre a humanidade. Mas ela está dentro da sociedade e é uma das criadoras de opinião e de decisão. Ela funciona como uma bicicleta.

Possui duas rodas, mediante as quais se torna efetiva na sociedade: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela oração, pelas celebrações, pelas pregações e pela leitura das Escrituras. Pela roda da política, a fé se expressa pela prática da justiça e da solidariedade. Como se vê, política é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em duas rodas para andar corretamente.

FÉ E POLÍTICA

A Bíblia considera a roda da política como ética mais importante que a roda da religião como culto. Sem a ética, a fé fica inoperante. São as práticas que contam para Deus. Melhor que proclamar “Senhor, Senhor” é fazer a vontade do Pai.

Concretamente, fé e política se encontram juntas na vida das pessoas. A fé inclui a política, quer dizer, um cristão deve se empenhar pela justiça e pelo bem-estar social; deve optar por programas que se aproximem daquilo que entendeu ser o projeto de Jesus e de Deus.

A Carta da Terra e as promessas de transformação da sociedade

Leonardo Boff

Para pormos em curso um tipo de grande transformação que nos devolva a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias impostergáveis.

Importa passar do paradigma “império”, vigente há séculos, para o paradigma “comunidade da Terra”; de uma sociedade industrialista, que depreda os bens naturais e tensiona as relações sociais, para uma sociedade de sustentação de toda a vida; da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um ente vivo, chamado “Gaia”, “Pacha Mama” ou “Mãe Terra”; da era tecnozoica, que devastou grande parte da biosfera, para a era ecozoica, pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntos cooperam na salvaguarda da vida; da lógica da competição, que se rege pelo ganha-perde e que opõe as pessoas, para a lógica da cooperação e do ganha-ganha, que congrega e fortalece a solidariedade entre todos; do capital material, sempre limitado e exaurível, para os capitais espiritual e humano ilimitados, feitos de amor, solidariedade, respeito, compaixão e da confraternização com todos os seres da comunidade de vida; e de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada, que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à lógica do processo cosmogênico, que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação.

CONSCIÊNCIA

Se é perigosa a grande transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a grande transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa, seguramente, é a grande transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história.

A Carta da Terra é fruto de uma vasta consulta aos mais distintos setores da sociedade mundial, desde os povos originários das tradições religiosas e espirituais até notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Mikhail Gorbachev. Depois de oito anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno, mas denso, que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Aí se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia que podem efetivamente apontar um caminho promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001, foi assumido oficialmente em 2003 pela Unesco como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio.

NO LAGO DE ITAIPU

A hidrelétrica Itaipu Binacional, a segunda maior do mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra, e dois diretores seus, Jorge Samek e Nelton Friedrich, conseguiram envolver 29 municípios que bordejam o grande lago, onde vivem cerca de 1 milhão de pessoas. Deram início de fato a uma grande transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplicam o cuidado e a responsabilidade coletiva, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo, porque as pessoas vivem já agora o que querem para os outros.

Se concretizarmos o sonho da Terra, essa não será mais condenada a ser, para a maioria da humanidade, um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor.

Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

 

Elogio do pé, que sustenta a paixão pela Copa do Mundo

Leonardo Boff

Em tempos de Copa do Mundo, o pé é o que conta de verdade, pois é com o pé que se ganham ou se perdem partidas de futebol e, eventualmente, a Copa.

Entretanto, se algum extraterrestre viesse à Terra e reparasse como os humanos tratam os pés, suspeito que ficariam escandalizados. Parece que os consideram a parte menos nobre do corpo, pois os escondem. Pior, tentam sufocá-los com um pedaço de pano, chamado de meia. Depois, estrangulam-nos com algo mais duro, de couro, os sapatos. E, não contentes, amarram-nos com finas cordas, os cadarços, para se assegurar de que não vão se libertar. Por fim, colocam todo o peso do corpo em cima dos pés, obrigando-os a cheirar o pó dos caminhos, a sofrer a dureza das pedras, a sentir o mau cheiro de tanto lixo jogado no chão.

Mas essa interpretação dos alienígenas é exterior e equivocada. O que fazemos aos pés é cuidar deles, pois constituem nosso meio natural de transporte. Mais ainda, os pés são o sinal mais convincente de nossa hominização. Deixamos para trás o reino animal quando nossos ancestrais antropoides se ergueram sobre os pés e começaram a andar eretos, a ver longe, permitindo o desenvolvimento do cérebro.

MILAGRE ANATÔMICO

Anatomicamente, são um milagre, com dorso adaptado para aparar os atritos e planta consistente para defender-se das asperezas do solo. Uma rede de pequenos tendões garante as articulações, que conferem equilíbrio aos movimentos. O que não fazem os dançarinos com os pés!?

O pé é tão importante que foi escolhido por muitos povos antigos e modernos, como os anglo-saxões, como unidade de medida. Um pé equivale a 12 polegadas, o que corresponde a 30,48 cm. A poesia, a forma mais nobre da literatura, tem que ter pés certos para ser harmoniosa.

Sem os pés, não teríamos o futebol, para o qual os pés são tudo. É o esporte mais criativo, diverso e mobilizador que existe. É uma metáfora do que melhor podemos apresentar: a combinação feliz do desempenho do indivíduo com a cooperação do grupo. Pode ser uma verdadeira escola de virtudes: autodomínio, tranquilidade, gentileza e capacidade de perdão ao não retrucar pontapé com pontapé. Porque somos humanos, às vezes tal coisa pode acontecer. Mas não é permitida. O jogador é advertido, punido com cartão amarelo ou vermelho e pode até ser expulso.

COM UM PÉ ATRÁS

Se consultarmos o dicionário Aurélio, encontramos ali mais de uma dezena de significações ligadas ao pé, em sua grande maioria positivas. Com o pé em algumas dessas significações, vamos fazer o elogio do pé, pé que sustenta a paixão pela Copa do Mundo. Num mundo politicamente sem pé nem cabeça, com chefes de Estado metendo os pés pelas mãos em conflitos na Síria, no Afeganistão e na Palestina, e sempre em pé de guerra contra o terrorismo, encontramos no futebol um pé para pensarmos uma sociedade mundial que dê pé para formas de convivência amigável e até fraternal que encontram pé de apoio no entusiasmo das torcidas em todos os países.

Por um lado, devemos estar com o pé atrás diante dos utopismos; por outro, não devemos arredar pé na busca de formas civilizadas de convivência global. Logicamente, esse mundo não chega nem aos pés do sonho de Jesus, mas ele tem pé na esperança humana. Podemos começar com o pé direito já agora, ficando ao pé das vítimas, mesmo que tenhamos que fazer pé atrás às pressões dos poderosos. Mas vamos bater pé nessa causa sagrada, sabendo que ela não se alcança com o pé nas costas. Jamais vamos dar no pé.

Oxalá nossos jogadores, alguns pé de ouro, não nos deixem a pé, para não termos que sofrer que nem pé de cego.

 

Cada um tem seu tempo; depois, entra no silêncio do mistério

Leonardo Boff

Há um livro curioso do Primeiro Testamento, o Eclesiastes (em hebraico, Coélet), que não menciona a eleição do povo de Deus, nem a aliança divina, nem sequer a relação pessoal com Deus. Representa a fé judaica inculturada na visão grega da vida. Há uma passagem assaz conhecida que fala do tempo: “Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz”; e por aí vai (c. 3,2-8).

Há muitas formas de tempo. Precisamos nos libertar de um tipo de tempo dominante, aquele dos relógios. Hoje ninguém anda sem algum tipo de relógio mecânico, que mede o tempo a partir das rotações da Terra ao redor do Sol. Mas essa visão mecânica do tempo do relógio estreitou nossa percepção dos muitos tempos que existem. Foram os cosmólogos modernos que nos despertaram para os vários tempos. Tudo, no processo da evolução, possui o seu timing.

Assim, por exemplo, imediatamente após a primeira singularidade, o Big Bang, ocorreu a primeira expressão do tempo. Se a força gravitacional, aquela que faz expandir e ao mesmo tempo segurar as energias e as partículas originárias, fosse por milionésimos de segundo mais forte do que se apresentou, retrairia tudo para si e causaria explosões sobre explosões, tornando o universo impossível.

EXPANSÃO E CONTENÇÃO

Mas ocorreu aquele tempo necessário para o equilíbrio entre a expansão e a contenção que acabou abrindo um tempo para surgir tudo o que veio posteriormente. Se esse tempo exato fosse desperdiçado, nada mais teria acontecido.Num exatíssimo momento de alta complexidade da evolução do universo, irrompeu a vida. Tudo apontava para a irrupção da vida lá na frente.

Há, pois, tempos e tempos, e não apenas o tempo escravizante e mecânico do relógio. A Igreja guardou o sentido da diversidade dos tempos. Para cada tempo do ano, seja Natal, Quaresma ou Páscoa, há a sua cor específica.

Geralmente, vivemos os tempos das quatro estações, com as transformações que ocorrem na natureza. Na nossa infância interiorana, os tempos eram bem-definidos: janeiro a abril – tempo das uvas, dos figos, das melancias; maio – o plantio do trigo; e outubro e novembro – tempo de sua colheita.

DOIS TEMPOS…

Nós, crianças, esperávamos com ansiedade dois tempos sociais nos quais a vila toda se reunia para uma grande confraternização: a festa da polenta e a dos passarinhos. Como as matas eram virgens, abundava todo tipo de pássaros, que eram caçados especialmente para a festa. A outra era a buchada, comida com pão e vinho, em longas mesas, seguida de cucas e geleias.

Esses tempos e outros conferiam distintos sentidos para a vida. Havia a espera do tempo, sua vivência e sua recordação.

O universo inteiro tem o seu tempo, que se concretiza em dois movimentos que se dão também em nós: nossos pulmões e nossos corações se expandem e se contraem. O mesmo faz o universo mediante a gravidade: ao mesmo tempo em que se dilata, ele é segurado. Quando perde esse equilíbrio, é sinal de que prepara um salto para a frente e para cima, rumo a uma nova ordem que também se expande e se contrai.

Cada um de nós tem seu tempo biológico, determinado não pelo relógio mecânico, mas pelo equilíbrio de nossas energias. Quando chegamos ao seu clímax, se fecha o nosso ciclo e entramos no silêncio do mistério. Dizem que é aí que habita Deus, nos esperando com os braços abertos, como um pai e uma mãe cheios de saudades.

 

A própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade

Leonardo Boff

Inegavelmente, vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual, eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema vida e do sistema Terra. Temos que ir além.

Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes e Francis Bacon, são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos.

Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas de que podíamos dispor ao bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está essa compreensão que persiste ainda nos dias de hoje.

As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando Einstein mostrou que a matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato, nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada.

OUTRAS GALÁXIAS

Em 1924, Edwin Hubble, com seu telescópio no monte Wilson, no sul da Califórnia, descobriu que não há apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastando uma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginarem que o universo observável era muito menor; um eco ínfimo do Big Bang pode ser ainda identificado, permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos.

Mas uma das maiores contribuições que vêm desmantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza vem do prêmio Nobel de química Ilya Prigogine. Ele deixou para trás a concepção da matéria como algo inerte e passivo e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Nem sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo, e articula todas as interações.

UNIVERSO AUTOCRIATIVO

O universo é penetrado por um dinamismo autocriativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida consciente e humana.

Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios. Especialmente os organismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos e, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte.

Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos.

Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, nós a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nossa própria subsistência.

Neste momento, estamos vivendo um tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar em outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar em outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação.

 

O ser humano é a porção inteligente e consciente da Terra

Leonardo Boff

O ser humano consciente não deve ser considerado à parte do processo da evolução. Ele representa um momento especialíssimo da complexidade das energias, das informações e da matéria da Mãe Terra.

Em outras palavras, nós não estamos fora nem acima da Terra viva. Somos parte dela, junto com os demais seres que ela também gerou. Não podemos viver sem a Terra, embora ela possa continuar sua trajetória sem nós.

Por causa da consciência e da inteligência, somos seres com uma característica especial: a nós foram confiadas a guarda e o cuidado da Casa Comum. Melhor ainda: a nós cabe viver e continuamente refazer o contrato natural entre Terra e humanidade, pois é de sua observância que se garantirá a sustentabilidade do todo.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Essa mutualidade Terra-humanidade é mais bem-assegurada se articularmos a razão intelectual com a razão sensível. Damo-nos conta, mais e mais, de que somos seres impregnados de afeto e de capacidade de sentir, de afetar e de ser afetados. Essa dimensão, também chamada de “inteligência emocional”, foi recalcada na modernidade em nome de uma pretensa objetividade da análise racional. Hoje sabemos que todos os conceitos, ideias e visões do mundo vêm impregnados de afeto e de sensibilidade (M. Maffesoli, “Elogio da Razão Sensível”, Vozes, Petrópolis, 1998).

A inclusão consciente e indispensável da inteligência emocional com a razão intelectual nos move mais facilmente ao cuidado e ao respeito da Mãe Terra e de seus seres.

Junto às inteligências intelectual e emocional, existe no ser humano também a inteligência espiritual. O espírito e a consciência têm o seu lugar dentro do processo cosmogênico. Podemos dizer que eles estão, primeiro, no universo e, depois, na Terra e no ser humano. A distinção entre o espírito da Terra e do universo e o nosso espírito não é de princípio, mas de grau.

Esse espírito está em ação desde o primeiríssimo momento após o Big Bang. Ele é aquela capacidade que o universo mostra de fazer de todas as relações e interdependências uma unidade sinfônica. Sua obra é realizar aquilo que alguns físicos quânticos chamam de “holismo relacional”: articular todos os fatores, fazer convergir todas as energias, coordenar todas as informações e todos os impulsos para cima e para a frente, de forma que se forme um Todo e o cosmo apareça de fato como cosmo, e não simplesmente a justaposição de entidades ou o caos.

UNIVERSO AUTOCONSCIENTE

É nesse sentido que não poucos cientistas falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjunto das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida, e da vida à consciência, que nos seres humanos se realiza como autoconsciência individual, e da autoconsciência passamos à noosfera, pela qual nos sentimos uma mente coletiva.

Todos os seres participam de alguma forma do espírito. Eles também estão envolvidos numa incontável rede de relações que são a manifestação do espírito.

Essa compreensão desperta em nós um sentimento de pertencimento a esse todo, de parentesco com os demais seres da criação, de apreço por seu valor intrínseco, pelo simples fato de existirem e revelarem algo do mistério do universo.

Ao falarmos de sustentabilidade em seu sentido mais global, precisamos incorporar esse momento de espiritualidade cósmica, terrenal e humana, para ser completa, integral, e potenciar sua força de sustentação.

 

A desigualdade que é produzida pelo 1% de abastados no mundo

Leonardo Boff

Está causando furor, entre leitores e economistas, e pânico, principalmente entre os muito ricos, um livro de investigação cobrindo 250 anos de história, escrito por um dos mais jovens e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula “O Capital no Século XXI” (Seuil, Paris, 2013). Ele aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os Estados Unidos.

A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas é o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persistir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Essa tese, sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de força. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça.

A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites, a subordinação de grupos inteiros e a corrupção – fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.

PAÍSES DESIGUAIS

Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desigualdade, Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio.

O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego.

Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de democracia real quando se revelam essas excrescências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de cossemelhantes?

Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann: 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da “financeirização”; portanto, ganham por meio da especulação. Continua Pochmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%” (“Le Monde Diplomatique”, outubro de 2007.

E O BRASIL?

Segundo dados de organismos econômicos da ONU, em 2005 o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade, que continua enorme, caiu 17%.

Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbawn: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.

E, como um “grand finale”, a frase de Robert F. Kennedy: “O PIB inclui tudo, exceto o que faz a vida valer a pena”.

 

O tempo é das utopias mínimas

Leonardo Boff

Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar essa afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está aí fechado ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas, que podem irromper e concretizar-se. No fundo, é um projeto infinito, à procura de um objeto que lhe seja adequado.

É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os projetos e as utopias. Sem elas, o ser humano não veria sentido em sua vida. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, não teria um rumo.

Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista, que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos; a utopia industrialista, de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e das invenções técnicas; a utopia capitalista, de levar progresso e riqueza para todo mundo; a utopia socialista, de gerar sociedades igualitárias e sem classes; as utopias nacionalistas, sob a forma do nazifascismo; a utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal; a utopia de ambientalistas radicais, que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado a ela; etc.

Essas são as utopias maximalistas. Propunham o máximo. Muitas delas foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para confirmar que essas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Daí falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o “pós” se refere a esse tipo de utopia maximalista.

ÂNIMO HUMANO

Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje, a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o “possível viável” e fazem a sociedade “menos malvada e tornam menos difícil o amor”.

Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história. Há que se pôr um freio à ferocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação e que produz gases de efeito estufa que alimentam o aquecimento global, que, ao não ser detido, poderá produzir um armagedon ecológico.

As utopias minimalistas, a bem da verdade, são aquelas que vêm sendo implementadas pelo governo atual do PT e seus aliados com base popular: garantir que o povo coma duas ou três vezes ao dia, pois o primeiro dever de um Estado é garantir a vida dos cidadãos. São os projetos Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos, o aumento significativo do salário mínimo, o Prouni, os “pontos de cultura” e outros projetos populares que não cabe aqui elencar.

UTOPIAS VIÁVEIS

No nível das grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução dessas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar a que os povos se abracem na fraternidade e que se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia maximalista ou minimalista pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades, gozando um pouco do reino da liberdade e, por fim, poder dizer “valeu a pena”.

 

Quão humana é a nossa sociedade com a solidariedade aos haitianos?

 Leonardo Boff

O drama das centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que buscam hospitalidade no Brasil representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitianos, mas aos tantos que são expulsos ou desalojados de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio.

Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo mais de 100 milhões de refugiados, seja por guerras, por fome ou por fatores climáticos e outras causas semelhantes.

A hospitalidade é um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Basta lembrar os refugiados da África que chegaram à ilha italiana de Lampedusa e receberam a solidariedade do papa Francisco, ocasião em que fez as mais duras críticas à nossa civilização por ser insensível e perder a capacidade de chorar pela desgraça de seus semelhantes. Todos esses padecem sob a falta de hospitalidade e de solidariedade.

DESUMANIDADE

Nos jornais brasileiros, mas especialmente na mídias sociais, deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O governador Tião Viana, do Acre, mostrou profunda sensibilidade e hospitalidade acolhendo-os, a ponto de, com os meios parcos de um Estado pobre, não dar conta da situação. Teve que pedir socorro ao governo central. Mas foi, de forma desavergonhada, injuriado por muitos nas redes sociais. Aí nos damos conta de quão desumanos e sem piedade alguns podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de não desejar ser tratado dessa forma caso um dia se encontrem em semelhante situação.

Segundo o notável biólogo Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem a um estágio pré-humano, ao nível em que se encontram hoje os chimpanzés, que são societários, mas autoritários, nem sempre praticando a mutualidade.

É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade – disse-o o filósofo Kant em seu último livro, “A Paz Perpétua” (1795) – é a primeira virtude de uma República mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.

A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento. Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos, para captar a sua angústia e a sua esperança.

Ela exige, outrossim, uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Exige evitar tudo o que fizer o outro sentir-se um indesejado e um estranho.

HOSPITALIDADE

Importa dialogar abertamente para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui. Responsabilizar-se conscientemente, junto com outros para que encontre um lugar onde morar e um trabalho para ganhar a vida.

A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A nossa vem marcada lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos esses batem as portas aos imigrados, ao invés de abri-las e, compassivos, compartilharem de sua dor.

É nesse espírito que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos verdadeiramente um povo da cordialidade e da acolhida aberta a todos, o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização.

 

A beleza é que salvará o mundo do desespero, disse Dostoiévski

Leonardo Boff

Dos gregos aprendemos, e isso atravessou todos os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes, pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é “unum, verum et bonum”, o que quer dizer que ele goza de uma unidade interna que o mantém na existência; ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é; e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais, ajudando-os a existirem e coexistirem.

Foram os mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales, e especialmente são Boaventura, que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e santo Agostinho, acrescentaram ao ser mais uma característica transcendental: o “pulchrum”, vale dizer, o belo.

Baseados, seguramente, na experiência pessoal de são Francisco, que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade e que, “no belo das criaturas, via o Belíssimo”, enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular, senão na forma, mas na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

TERAPIA PESSOAL

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiódor Dostoiévski. Para ele, a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que via. Em seus escritos, descreveu pessoas más e destrutivas, e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio, mas o utilitarismo, o espírito de usar os outros e, assim, roubar-lhes a dignidade.

“Seguramente, não podemos viver sem pão, mas também é impossível existir sem beleza”, repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que, por meio da beleza, todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; ao contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura, dominada pelo marketing, vê a beleza como uma construção do corpo, e não da totalidade da pessoa. Então, surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxes para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser uma beleza construída, ela é sem alma. E, se repararmos bem, nessas belezas fabricadas, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois beleza tem a ver com amor e comunicação.

VIA DA BELEZA

O papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via “pulchritudinis” (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrai (“Exortação ‘A alegria do Evangelho’”, nº 167). A Igreja não visa o proselitismo, mas a atração que vem da beleza e do amor, cuja característica é o esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. Não é utilitarista. É como a flor que floresce por florescer, pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Mas quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então, ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za, que quer dizer: “o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo.

 

Quando imaginamos que nos perdemos, é que nos encontramos

Leonardo Boff

O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativamente. Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha.

Essa pequena história de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. Às vezes, quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que a história abaixo nos quer comunicar: um desafio para todos.

O EREMITA

“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Iguazaim. Fazia 30 anos que para lá se recolhera. Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias.

“‘Há 30 bons anos que por aqui vivo!’, suspirou o monge Porfiro. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se nesse pensamento por longas horas. ‘Há 30 bons anos e não me encontrei’.

“Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, pôs-se a caminho das montanhas de Iguazaim, após a reza pelos peregrinos. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto.

“‘Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas’. E dentro da noite Abba Tebaíno ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

“Depois, num desses intervalos em que as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com Abba veio se arrastando de mansinho até seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se a contemplar a lua, que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.

IGUAL AO GATO

“Depois de muito tempo, começou Abba Tebaíno a falar com grande doçura: ‘Porfiro, deves ser como o gato: ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim. Toda manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite dessa tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim. Nada quer, nada busca, tudo espera. Vive por viver, pura e simplesmente. Não se busca a si próprio nem mesmo na vaidade íntima da autopurificação ou na complacência da autorrealização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua… É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se’.

“E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das matinas. Depois, deram-se o ósculo da partida. O irmão Porfiro retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que, para encontrar-se, deveria perder-se na mais pura e singela gratuidade.

“Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

 

A busca de uma paz perene com todos os elementos da natureza

Leonardo Boff

Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis, atualizado por Francisco de Roma, é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que são Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem”, que corresponde ao “Shalom” bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações interpessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os pelo doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a “irmã e mãe-terra”, como a chamava, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar: “Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o Sol, contemplava a Lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar a Deus.

Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a planura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”.

Essa atitude de reverência e de enternecimento levava-o a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. No inverno, dava mel às abelhas para que não morressem de escassez e de frio. Pedia aos irmãos que não cortassem as árvores pela raiz, na esperança de que pudessem se regenerar. Só pode viver essa intimidade com todos os seres quem escutou sua ressonância simbólica dentro da alma, unindo a ecologia ambiental com a ecologia profunda.

UNIVERSO FRANCISCANO

O universo franciscano e ecológico nunca é inerte. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia, cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição, ele descobriu o que sabemos atualmente por via científica: que todos nós viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base. Francisco experimentou espiritualmente essa consanguinidade.

Dessa atitude nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameaças, paz de quem se sente sempre em casa, com os pais, os irmãos e as irmãs. A suprema expressão da paz, feita de convivência fraterna e de acolhida calorosa de todas as pessoas e coisas, é simbolizada pelo conhecido relato da perfeita alegria.

No relato da perfeita alegria, que encontra paralelos na tradição budista, são Francisco vai, passo a passo, desmontando os mecanismos que geram a cultura da violência. A verdadeira alegria não está na autoestima nem na necessidade de reconhecimento nem em fazer milagres e falar línguas. Em seu lugar, coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia. Vivida essa atitude, irrompe a paz que é uma paz interior inalterável, capaz de conviver jovialmente com as mais duras oposições, paz como fruto de um completo despojamento. Não são essas as primícias de um reino de justiça, de paz e de amor que tanto desejamos?

Essa visão da paz de são Francisco representa o outro modo de ser no mundo, uma alternativa ao modo de ser da modernidade e da pós-modernidade, assentado sobre a posse e o uso desrespeitoso das coisas para o desfrute humano, sem qualquer outra consideração.

Embora tenha vivido há mais de 800 anos, novo é ele, e não nós. Nós somos velhos e envelhecidos que, com a nossa voracidade, estamos destruindo as bases que sustentam a vida em nosso planeta e pondo em risco o nosso futuro como espécie. A descoberta da irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise e nos devolverá a inocência perdida, que é a claridade infantil da idade adulta.

A natureza humana diante da sexualidade e da família

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Leonardo Boff

Na consulta mundial sobre família e sexualidade promovida corajosamente pelo papa Francisco, sempre volta à tona certa compreensão da lei natural e da natureza humana. Por uma parte, pode-se afirmar que, sob certos aspectos, a natureza humana é um dado singular, sempre aberto, pois veio, junto com outros seres, se formando ao longo do processo evolutivo há milhões de anos e ainda não se encontra pronto. É um dado feito.

A partir dessa constatação, importa reconhecer que o ser humano é uma espécie que possui constantes antropológicas que geram certo tipo de comportamento singular, propriamente humano. Somos capazes de amor e de ódio, de ser guardiães da vida e seus destruidores. Tal fato dramatiza qualquer juizo ético que deve incorporar a tolerância e a misericórdia.

Por outra parte, a natureza humana é histórica, porque é trabalhada pela liberdade que lhe dá configurações culturais e a mantém aberta a novas formas futuras. Esse caráter histórico faz com que nenhum entendimento compreenda tudo do ser humano. Só o entende dentro de limites históricos. Ademais, cabe compreender o potencial e o utópico também como pertencentes ao dado da natureza humana, fazendo com que sempre alimente novos sonhos e procure realizá-los.

RELAÇÕES ILIMITADAS

Dito em poucas palavras, o ser humano é um ser de relações ilimitadas. Ele é, portanto, um em si relacionado. As tendências e as paixões ou o seu capital de desejo e seu complexo universo de impulsos não indicam, efetivamente, nenhuma norma de ação concreta. É aqui que entram a liberdade humana e sua capacidade de elaborar um projeto de vida.

Esse projeto de vida se orienta por valores. Esses valores são bons só para mim ou o são para todos? Aqui vale a proposição de Kant: o que é bom para mim deve poder ser universalizado. O projeto de vida põe em ação a liberdade e a responsabilidade. Sem liberdade e responsabilidade não há ética humana em nenhum lugar do mundo.

No fundo, o sentido último da ética é fazermo-nos mais plenamente humanos no sentido de fazermo-nos melhores a nós mesmos e de criar condições para que outros sejam também melhores junto conosco.

TODOS HUMANOS

Apliquemos essa visão da natureza humana aos temas relativos à família e à sexualidade. Partimos do fato de que há algo de comum: todos somos igualmente humanos. Há também algo de distinto: somos humanos nos modos chinês, ianomâmi, mapuche e brasileiro. A diferença não destrói a unidade de base, apenas mostra a fecundidade dessa natureza coparticipada, pois ela só se dá na medida em que se realiza de diferentes formas.

Nessa quadra nova da consciência globalizada na qual temos acesso a tantas diferenças, importa entender dois dados como diferentes e complementares. Nenhum tem o direito de se impor aos demais; devem existir como diferentes e ser aceitos como tais.

Aplicadas essas reflexões ao tema da família e da sexualidade, devemos dizer: importa respeitar as diferenças, identificar os elementos comuns e aprender a conviver com distintas morais e formas de família e de sexualidade. Mas sob uma condição: todas devem tratar humanamente o ser humano, nunca fazê-lo objeto, mas um ser autônomo com valor em si mesmo. A partir daí, estabelecer o diálogo, fazer as críticas e ver como podemos todos nos tratar humanamente, com amor e respeito, de forma que possamos sempre ser melhores.

É o mínimo do mínimo de uma possível ética humanitária, hoje tão necessária. (transcrito de O Tempo)

A Terra não é um planeta em que há vida, ela é um organismo vivo

Leonardo Boff 

A partir dos anos 70, ficou claro para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. Ela é viva, um superorganismo vivente denominado pelos andinos de “Pacha Mama” e pelos modernos de “Gaia”, o nome grego para a Terra viva.

A espécie humana representa a capacidade de Gaia de ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós, humanos, possibilitamos à Terra apreciar a sua luxuriante beleza, contemplar sua intrincada complexidade e descobrir espiritualmente o mistério que a penetra.

O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido. O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese.

A mudança que essa leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século XVI ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do Sol. Especialmente, a verificação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de autorrealização. Consequentemente, a verdade se dá numa referência aberta, e não num código fechado e estabelecido.

A IDADE DO COSMOS

Importa, antes de mais nada, realizar a reintegração do tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos, quando principiaram a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psiquê. Quando isso madurou, então nascemos de verdade, sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.

Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:

Em 1º de janeiro, ocorreu o big-bang. Em 1º de maio, o surgimento da Via Láctea. Em 9 de setembro, a origem do sistema solar. Em 14 de setembro, a formação da Terra. Em 25 de setembro, a origem da vida. Em 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiros hominídeos. Em 31 de dezembro, irromperam os primeiros homens e mulheres. Os últimos dez segundos de 31 de dezembro inauguraram a história do “Homo sapiens”, do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23h59min56s. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós? Na última fração de segundo antes de completar meia-noite. Em outras palavras, somente há 24 horas o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos.

MILAGRE DA EXISTÊNCIA

Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nessas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso, em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.

Em seguida, faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Pertencemos ao sistema solar, que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas num planeta pequeno, mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de formas cada vez complexas e conscientizadas de vida: a Terra.

Reintegrados no espaço e no tempo, nos sentimos como Pascal: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza reside em saber e celebrar tudo isso.

Humanos foram um dos últimos seres a entrarem no teatro da cria

Leonardo Boff

A ética da sociedade dominante no mundo é utilitarista e antropocêntrica. Quer dizer: ilusoriamente, considera que os seres da natureza somente possuem razão de existir na medida em que servem ao ser humano e que este pode dispor deles a seu bel-prazer.

A tradição judaico-cristã reforçou essa ideia com o seu “subjugai a Terra e dominai sobre tudo o que vive e se move sobre ela”(Gn 1:28).

Mal sabemos que nós, humanos, fomos um dos últimos seres a entrarem no teatro da criação. Quando 99,98% de tudo já estava pronto, surgimos nós. O universo, a Terra e os ecossistemas não precisaram de nós para se organizar e ordenar sua majestática complexidade e beleza.
Cada ser possui valor intrínseco, independentemente do uso que fazemos dele. Tem algo a revelar que só ele o pode fazer, mesmo o menos adaptado, que em seguida, pela seleção natural, desaparecerá para sempre. Mas a nós cabe escutar e celebrar a mensagem que nos tem a revelar.
O mais grave, entretanto, é a ideia que toda a modernidade e grande parte da comunidade científica atual projeta do planeta Terra e da natureza. Estes são considerados simples “res extensa”, coisa que pode ser mensurada, manipulada. O método científico predominante mantém, em grande parte, essa lógica agressiva e perversa.

René Descartes, no seu “Discurso do Método”, diz algo de clamoroso reducionismo na compreensão: “não entendo por ‘natureza’ nenhuma deusa ou qualquer outro tipo de poder imaginário, antes me sirvo dessa palavra para significar a matéria”. Considera o planeta algo morto, sem propósito, como se o ser humano não fizesse parte dele.

O fato é que nós entramos no processo da evolução quando esta alcançou um patamar altíssimo de complexidade. Por nós, o universo chegou à consciência de si mesmo, e isso ocorreu numa minúscula parte do universo, que é a Terra. Por isso nós somos aquela porção da Terra que sente, ama, pensa, cuida e venera.

A nossa missão específica, nosso lugar no conjunto dos seres, é o de sermos aqueles que podem apreciar a grandeza do universo, escutar as mensagens que cada ser enuncia e celebrar a diversidade dos seres e da vida.

E pelo fato de sermos portadores de sensibilidade e de inteligência, temos uma missão ética: cuidar da criação e ser os guardiães dela para que continue com vitalidade e integridade e com condições de ainda evoluir.

Lamentavelmente, estamos cumprindo mal essa nossa missão, pois, no dizer do biólogo E. Wilson, “a humanidade é a primeira espécie da história da vida a se tornar uma força geofísica; o ser humano, esse ser bípede, tão cabeça de vento, já alterou a atmosfera e o clima do planeta, desviando-os em muito das normas usuais; já espalhou milhares de substâncias químicas tóxicas pelo mundo inteiro, e estamos perto de esgotar a água potável” (“A Criação – Como Salvar a Vida na Terra”, 2008).

Se não quisermos ser expulsos da Terra pela própria Terra, como os inimigos da vida, cumpre mudar nosso comportamento face à natureza, mas principalmente acolher a Terra como a ONU, em 2009, a aceitou, como mãe-Terra, e como tal cuidar dela e reconhecer e respeitar a história de cada ser vivo ou inerte.

Eles existiram antes de nós e por milhões e milhões de anos sem nós. Por essa razão, devem ser respeitados como o fazemos com as pessoas mais idosas, que tratamos com respeito e amor. Mais que nós, eles têm direito ao presente e ao futuro junto conosco.

Caso contrário, não há tecnologia nem promessas de progresso ilimitado que nos poderão salvar.

Prolongar a dependência ou completar a invenção do Brasil?

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Leonardo Boff

A atual sociedade brasileira, há que se reconhecer, conheceu avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar, especialmente se nos confrontarmos com as fases históricas anteriores, hegemonizadas pelas elites tradicionais que sempre detiveram o poder de Estado.

Mas esses avanços não são ainda proporcionais à grandeza de nosso país e de seu povo. As manifestações de junho de 2013 mostraram que boa parte da população, particularmente dos jovens, está insatisfeita. Esses manifestantes querem mais.

Querem outro tipo de democracia, a participativa, querem uma República de caráter popular, exigem, com razão, transportes que não lhes roubem tanto tempo, serviços básicos que os habilitem a entender melhor o mundo e a melhorar o tipo de trabalho que escolherem, reclamam saúde com um mínimo de decência e qualidade. Cresce em todos a convicção de que um povo doente e ignorante jamais dará um salto de qualidade rumo a outro tipo de sociedade menos desigual. O PT deverá estar à altura desses novos desafios e renovar sua agenda ao preço de não continuar mais no poder.

CRISE SISTÊMICA

As próximas eleições possuirão, a meu ver, uma qualidade singular. Dada a aceleração da história, impulsionada pela crise sistêmica mundial, seremos forçados a tomar uma decisão: ou aproveitamos as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam, reafirmando nossa autonomia e garantindo nosso futuro autônomo, ou as desperdiçamos e viveremos atrelados ao destino decidido sempre por eles, que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura que lhes faltam e, assim, voltam a nos recolonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, que propuseram uma reinvenção do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório.

Esse é o desafio lançado de forma urgente a todas as instâncias sociais: elas ajudam na invenção do Brasil como nação soberana, repensada nos quadros da nova consciência planetária e do destino comum da Terra e da humanidade? Poderão elas ser coparteiras de uma cidadania nova, que articula o cidadão com o Estado, o cidadão com o outro cidadão, o nacional com o mundial, a cidadania brasileira com a cidadania planetária, ajudando assim a moldar o devenir humano? Ou elas se farão cúmplices daquelas forças que não estão interessadas na construção do projeto Brasil porque se propõem inserir o país no projeto mundo globalizado de forma subalterna e dependente, com as vantagens concedidas às classes opulentas, beneficiadas com esse tipo de aliança?

INVIABILIZAÇÃO

As próximas eleições vão trazer à luz esses dois projetos. Devemos decidir de que lado estaremos. A situação é urgente, pois, como advertia, pesaroso, Celso Furtado, “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional”. Mas não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes dar as batalhas, como nos ensinava dom Quixote em sua gaia sabedoria.

Ainda há tempo para mudanças que podem reorientar o país para o seu rumo certo, especialmente agora que, com a crise ecológica, o ambiente se transformou num peso decisivo da balança e do equilíbrio buscado pelo planeta Terra. Importa crer em nossas virtualidades, diria mais, em nossa missão planetária. (transcrito de O Tempo)

A gestação do povo brasileiro, a universidade e o saber popular

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Leonardo Boff

O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. Vindos de 60 países diferentes, aqui estão se mesclando representantes desses povos num processo aberto, todos contribuindo na gestação de um povo novo que um dia acabará de nascer.

O que herdamos da Colônia foi um Estado altamente seletivo, uma elite excludente e uma imensa massa de destituídos e descendentes de escravos. Mas, apesar desse constrangimento histórico-social, no meio dessa massa enorme, maduraram lentamente lideranças e movimentos que propiciaram o surgimento de todo tipo de comunidades, associações, grupos de ação e de reflexão.

Do exercício democrático no interior desses movimentos nasceram cidadãos ativos; da articulação entre eles está nascendo uma energia geradora que lentamente chega à consciência de sua história e projeta um futuro diferente e melhor para todos.

Nenhum processo dessa magnitude se faz sem aliados, sem a ligação orgânica daqueles que manejam um saber especializado com os movimentos sociais comprometidos. É aqui que a universidade é desafiada a alargar o seu horizonte. Importa que os mestres e alunos frequentem a escola viva do povo e permitir que gente do povo possa entrar nas salas de aula.

INTELIGÊNCIA E MISÉRIA

Essa visão supõe a criação de uma aliança entre a inteligência acadêmica com a miséria popular. Todas as universidades se tornaram o lugar clássico da problematização da cultura, da vida, do homem, de seu destino e de Deus. As duas culturas – a humanística e a científica –, mais e mais, se intercomunicam no sentido de pensar o todo, o destino do próprio projeto científico e técnico face às intervenções que faz na natureza e sua responsabilidade pelo futuro comum da nação e da Terra. Tal desafio exige um novo modo de pensar que não segue uma lógica do simples e linear, mas do complexo e do dialógico.

As universidades são urgidas a buscar um enraizamento orgânico nas periferias, nas bases populares e nos setores ligados diretamente à produção. Aqui pode se estabelecer uma fecunda troca de saberes, entre o popular e o acadêmico; dessa aliança surgirão seguramente novas temáticas teóricas nascidas do confronto com a antirrealidade popular e da valorização da riqueza incomensurável do povo na sua capacidade de encontrar, sozinho, saídas para os seus problemas.

Desse casamento se acelera a gênese de um povo; permite um novo tipo de cidadania, baseada na concidadania dos representantes da sociedade civil e acadêmica e das bases populares que tomam iniciativas por si mesmos e submetem o Estado a um controle democrático.

Nessas iniciativas populares, os movimentos sociais sentem necessidade de um saber profissional. É onde a universidade pode e deve entrar, socializando o saber.

Desse ir e vir fecundo entre pensamento universitário e saber popular pode surgir o biorregionalismo com um desenvolvimento adequado àquele ecossistema e à cultura local. A partir dessa prática, a universidade resgatará seu caráter de servidora da sociedade.

Esse processo dinâmico e contraditório só prosperará se estiver imbuído de um grande sonho: de ser um povo novo, autônomo, livre e orgulhoso de sua terra.

Apesar de todas as tribulações históricas, o povo brasileiro nunca perdeu sua autoestima e o encantamento do mundo. É um povo de grandes sonhos.

Talvez seja essa visão encantada do mundo uma das maiores contribuições que nós, brasileiros, podemos dar à cultura mundial emergente, tão pouco mágica e tão pouco sensível ao jogo, ao humor e à convivência dos contrários.

A carícia essencial que resgata a humanidade nos seres humanos

01Leonardo Boff

A carícia constitui uma das expressões supremas da ternura. Por que dizemos carícia essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura moção psicológica. A carícia moção não envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo de ser que qualifica a pessoa em sua totalidade.

O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão é mais que a mão. É a pessoa inteira que, por meio da mão e na mão, revela um modo de ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial, precisamos cultivar o “eu” profundo, aquela busca do mais íntimo e verdadeiro em nós, e não apenas o ego superficial da consciência.

Assim como a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a qualquer outra intenção que não seja a da experiência de querer bem e de amar. Não é um roçar de peles, mas um investimento de carinho e de amor por meio da mão e da pele.

TERNURA E CUIDADO

O afeto não existe sem a carícia, a ternura e o cuidado. Assim como a estrela precisa de uma aura para brilhar, da mesma forma o afeto necessita da carícia para sobreviver. É a carícia que confere concretude ao afeto e ao amor. É a qualidade da carícia que impede o afeto de ser mentiroso, falso ou dúbio. A carícia essencial é leve como um entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar portas e janelas, quer dizer, na invasão da intimidade da pessoa.

Disse com precisão o psiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo: ”A mão, órgão humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que agarra e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de encontro inter-humano”.

Numa reflexão cultural mais ampla, a mão que agarra corporifica o modo de ser dos últimos quatro séculos, da assim chamada modernidade. O eixo articulador do paradigma moderno é a vontade de agarrar tudo para possuir e dominar.

NATUREZA

Os modernos agarraram dominando a natureza, explorando seus bens e serviços sem qualquer consideração de respeito de seus limites e sem dar-lhe tempo de repouso para poder se reproduzir. Hoje, colhemos os frutos envenenados dessa prática sem qualquer cuidado e ausente de todo sentimento de carícia para com o que vive e é vulnerável.

Agarrar é expressão do poder sobre algo, da manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas ao meu modo de ser. Se bem repararmos, não ocorreu uma mundialização, respeitando as culturas em sua rica diversidade. O que ocorreu foi a ocidentalização do mundo. E na sua forma mais pedestre: uma hamburguerização do estilo de vida norte-americano imposto a todos os quadrantes do planeta.

A mão que acaricia representa a alternativa necessária: o modo de ser cuidado, pois “a carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem entramos em contato”(Restrepo).

É urgente, nos dias de hoje, resgatar nos seres humanos a dimensão da carícia essencial. Ela está dentro de todos nós, embora encoberta por grossa camada de cinza de materialismo, de consumismo e de futilidades. A carícia essencial nos devolve a nossa humanidade perdida. Em seu sentido melhor reforça também o preceito ético mais universal: tratar humanamente cada ser humano, quer dizer, com compreensão, com acolhida, com cuidado e com a carícia essencial.