Prolongar a dependência ou completar a invenção do Brasil?

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Leonardo Boff

A atual sociedade brasileira, há que se reconhecer, conheceu avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar, especialmente se nos confrontarmos com as fases históricas anteriores, hegemonizadas pelas elites tradicionais que sempre detiveram o poder de Estado.

Mas esses avanços não são ainda proporcionais à grandeza de nosso país e de seu povo. As manifestações de junho de 2013 mostraram que boa parte da população, particularmente dos jovens, está insatisfeita. Esses manifestantes querem mais.

Querem outro tipo de democracia, a participativa, querem uma República de caráter popular, exigem, com razão, transportes que não lhes roubem tanto tempo, serviços básicos que os habilitem a entender melhor o mundo e a melhorar o tipo de trabalho que escolherem, reclamam saúde com um mínimo de decência e qualidade. Cresce em todos a convicção de que um povo doente e ignorante jamais dará um salto de qualidade rumo a outro tipo de sociedade menos desigual. O PT deverá estar à altura desses novos desafios e renovar sua agenda ao preço de não continuar mais no poder.

CRISE SISTÊMICA

As próximas eleições possuirão, a meu ver, uma qualidade singular. Dada a aceleração da história, impulsionada pela crise sistêmica mundial, seremos forçados a tomar uma decisão: ou aproveitamos as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam, reafirmando nossa autonomia e garantindo nosso futuro autônomo, ou as desperdiçamos e viveremos atrelados ao destino decidido sempre por eles, que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura que lhes faltam e, assim, voltam a nos recolonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, que propuseram uma reinvenção do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório.

Esse é o desafio lançado de forma urgente a todas as instâncias sociais: elas ajudam na invenção do Brasil como nação soberana, repensada nos quadros da nova consciência planetária e do destino comum da Terra e da humanidade? Poderão elas ser coparteiras de uma cidadania nova, que articula o cidadão com o Estado, o cidadão com o outro cidadão, o nacional com o mundial, a cidadania brasileira com a cidadania planetária, ajudando assim a moldar o devenir humano? Ou elas se farão cúmplices daquelas forças que não estão interessadas na construção do projeto Brasil porque se propõem inserir o país no projeto mundo globalizado de forma subalterna e dependente, com as vantagens concedidas às classes opulentas, beneficiadas com esse tipo de aliança?

INVIABILIZAÇÃO

As próximas eleições vão trazer à luz esses dois projetos. Devemos decidir de que lado estaremos. A situação é urgente, pois, como advertia, pesaroso, Celso Furtado, “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional”. Mas não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes dar as batalhas, como nos ensinava dom Quixote em sua gaia sabedoria.

Ainda há tempo para mudanças que podem reorientar o país para o seu rumo certo, especialmente agora que, com a crise ecológica, o ambiente se transformou num peso decisivo da balança e do equilíbrio buscado pelo planeta Terra. Importa crer em nossas virtualidades, diria mais, em nossa missão planetária. (transcrito de O Tempo)

A gestação do povo brasileiro, a universidade e o saber popular

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Leonardo Boff

O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. Vindos de 60 países diferentes, aqui estão se mesclando representantes desses povos num processo aberto, todos contribuindo na gestação de um povo novo que um dia acabará de nascer.

O que herdamos da Colônia foi um Estado altamente seletivo, uma elite excludente e uma imensa massa de destituídos e descendentes de escravos. Mas, apesar desse constrangimento histórico-social, no meio dessa massa enorme, maduraram lentamente lideranças e movimentos que propiciaram o surgimento de todo tipo de comunidades, associações, grupos de ação e de reflexão.

Do exercício democrático no interior desses movimentos nasceram cidadãos ativos; da articulação entre eles está nascendo uma energia geradora que lentamente chega à consciência de sua história e projeta um futuro diferente e melhor para todos.

Nenhum processo dessa magnitude se faz sem aliados, sem a ligação orgânica daqueles que manejam um saber especializado com os movimentos sociais comprometidos. É aqui que a universidade é desafiada a alargar o seu horizonte. Importa que os mestres e alunos frequentem a escola viva do povo e permitir que gente do povo possa entrar nas salas de aula.

INTELIGÊNCIA E MISÉRIA

Essa visão supõe a criação de uma aliança entre a inteligência acadêmica com a miséria popular. Todas as universidades se tornaram o lugar clássico da problematização da cultura, da vida, do homem, de seu destino e de Deus. As duas culturas – a humanística e a científica –, mais e mais, se intercomunicam no sentido de pensar o todo, o destino do próprio projeto científico e técnico face às intervenções que faz na natureza e sua responsabilidade pelo futuro comum da nação e da Terra. Tal desafio exige um novo modo de pensar que não segue uma lógica do simples e linear, mas do complexo e do dialógico.

As universidades são urgidas a buscar um enraizamento orgânico nas periferias, nas bases populares e nos setores ligados diretamente à produção. Aqui pode se estabelecer uma fecunda troca de saberes, entre o popular e o acadêmico; dessa aliança surgirão seguramente novas temáticas teóricas nascidas do confronto com a antirrealidade popular e da valorização da riqueza incomensurável do povo na sua capacidade de encontrar, sozinho, saídas para os seus problemas.

Desse casamento se acelera a gênese de um povo; permite um novo tipo de cidadania, baseada na concidadania dos representantes da sociedade civil e acadêmica e das bases populares que tomam iniciativas por si mesmos e submetem o Estado a um controle democrático.

Nessas iniciativas populares, os movimentos sociais sentem necessidade de um saber profissional. É onde a universidade pode e deve entrar, socializando o saber.

Desse ir e vir fecundo entre pensamento universitário e saber popular pode surgir o biorregionalismo com um desenvolvimento adequado àquele ecossistema e à cultura local. A partir dessa prática, a universidade resgatará seu caráter de servidora da sociedade.

Esse processo dinâmico e contraditório só prosperará se estiver imbuído de um grande sonho: de ser um povo novo, autônomo, livre e orgulhoso de sua terra.

Apesar de todas as tribulações históricas, o povo brasileiro nunca perdeu sua autoestima e o encantamento do mundo. É um povo de grandes sonhos.

Talvez seja essa visão encantada do mundo uma das maiores contribuições que nós, brasileiros, podemos dar à cultura mundial emergente, tão pouco mágica e tão pouco sensível ao jogo, ao humor e à convivência dos contrários.

A carícia essencial que resgata a humanidade nos seres humanos

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A carícia constitui uma das expressões supremas da ternura. Por que dizemos carícia essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura moção psicológica. A carícia moção não envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo de ser que qualifica a pessoa em sua totalidade.

O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão é mais que a mão. É a pessoa inteira que, por meio da mão e na mão, revela um modo de ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial, precisamos cultivar o “eu” profundo, aquela busca do mais íntimo e verdadeiro em nós, e não apenas o ego superficial da consciência.

Assim como a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a qualquer outra intenção que não seja a da experiência de querer bem e de amar. Não é um roçar de peles, mas um investimento de carinho e de amor por meio da mão e da pele.

TERNURA E CUIDADO

O afeto não existe sem a carícia, a ternura e o cuidado. Assim como a estrela precisa de uma aura para brilhar, da mesma forma o afeto necessita da carícia para sobreviver. É a carícia que confere concretude ao afeto e ao amor. É a qualidade da carícia que impede o afeto de ser mentiroso, falso ou dúbio. A carícia essencial é leve como um entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar portas e janelas, quer dizer, na invasão da intimidade da pessoa.

Disse com precisão o psiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo: ”A mão, órgão humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que agarra e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de encontro inter-humano”.

Numa reflexão cultural mais ampla, a mão que agarra corporifica o modo de ser dos últimos quatro séculos, da assim chamada modernidade. O eixo articulador do paradigma moderno é a vontade de agarrar tudo para possuir e dominar.

NATUREZA

Os modernos agarraram dominando a natureza, explorando seus bens e serviços sem qualquer consideração de respeito de seus limites e sem dar-lhe tempo de repouso para poder se reproduzir. Hoje, colhemos os frutos envenenados dessa prática sem qualquer cuidado e ausente de todo sentimento de carícia para com o que vive e é vulnerável.

Agarrar é expressão do poder sobre algo, da manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas ao meu modo de ser. Se bem repararmos, não ocorreu uma mundialização, respeitando as culturas em sua rica diversidade. O que ocorreu foi a ocidentalização do mundo. E na sua forma mais pedestre: uma hamburguerização do estilo de vida norte-americano imposto a todos os quadrantes do planeta.

A mão que acaricia representa a alternativa necessária: o modo de ser cuidado, pois “a carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem entramos em contato”(Restrepo).

É urgente, nos dias de hoje, resgatar nos seres humanos a dimensão da carícia essencial. Ela está dentro de todos nós, embora encoberta por grossa camada de cinza de materialismo, de consumismo e de futilidades. A carícia essencial nos devolve a nossa humanidade perdida. Em seu sentido melhor reforça também o preceito ético mais universal: tratar humanamente cada ser humano, quer dizer, com compreensão, com acolhida, com cuidado e com a carícia essencial.

A grande transformação e a corrupção geral de nosso tempo

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Leonardo Boff

Normalmente, as sociedades se assentam sobre o seguinte tripé: economia (que garante a base material da vida humana), política (pela qual se distribui o poder e se montam as instituições que fazem funcionar a convivência social) e ética (que estabelece valores e normas que regem os comportamentos humanos). Geralmente, a ética vem acompanhada por uma aura espiritual que responde pelo sentido último da vida e do universo, exigências sempre presentes na agenda humana.

Essas instâncias se entrelaçam numa sociedade funcional, mas sempre nessa ordem: a economia obedece à política e a política se submete à ética. Mas, a partir da Revolução Industrial no século XIX, a economia começou a se descolar da política e a soterrar a ética. Surgiu uma economia de mercado, de forma que todo o sistema econômico fosse dirigido e controlado apenas pelo mercado, livre de qualquer controle ou de um limite ético.

A marca registrada desse mercado não é a cooperação, mas a competição, que vai além da economia e impregna todas as relações humanas. Mais ainda: criou-se, no dizer de Karl Polanyi, “um novo credo, totalmente materialista, que acreditava que todos os problemas poderiam ser resolvidos por uma quantidade ilimitada de bens materiais”(“A Grande Transformação”, Campus, 2000, pág. 58). Esse credo é, ainda hoje, assumido com fervor religioso pela maioria dos economistas do sistema imperante e, em geral, pelas políticas públicas.

EIXO ÚNICO

A partir de agora, a economia funcionará como o único eixo articulador de todas as instâncias sociais. Tudo passará pela economia, concretamente, pelo PIB. Quem estudou em detalhe esse processo foi o filósofo e historiador da economia, já referido, Karl Polanyi. Demonstrou ele que, “em vez de a economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no sistema econômico” (pág. 77). Então, ocorreu o que ele chamou de “a grande transformação”: de uma economia de mercado se passou a uma sociedade de mercado.

Em consequência, nasceu um novo sistema social, no qual a sociedade não existe, apenas os indivíduos competindo entre si. Tudo mudou, pois tudo vira mercadoria. Qualquer bem será levado ao mercado para ser negociado em vista do lucro individual. Polanyi não deixa de anotar que tudo isso é “contrário às substâncias humana e natural das sociedades”. Mas foi o que triunfou, especialmente no pós-guerra.

Aqui, cabe recordar as palavras proféticas de Karl Marx: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico, e podia vender-se. (…) O tempo da corrupção geral, da venalidade universal, ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal, é levada ao mercado para receber um preço, no seu mais justo valor”.

EFEITOS DESASTROSOS

Os efeitos socioambientais desastrosos dessa mercantilização de tudo estão sendo sentidos hoje pelo caos ecológico da Terra. Temos que repensar o lugar da economia no conjunto da vida humana, especialmente face aos limites da Terra.

Quando uma sociedade se entorpece como a nossa, e por seu crasso materialismo se faz incapaz de sentir o outro como outro, e somente o vê enquanto eventual produtor e consumidor, ela está cavando seu próprio abismo.

Agora, cabe o retorno ao “não há alternativa”: ou mudamos, ou pereceremos, porque os nossos bens materiais não nos salvarão. É o preço letal por termos entregue nosso destino à ditadura da economia transformada num “deus salvador” de todos os problemas.

O aquecimento global é a febre que denuncia a doença da Terra

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Leonardo Boff

Há negacionistas da Shoah (eliminação de milhões de judeus nos campos nazistas de extermínio) e há negacionistas das mudanças climáticas da Terra. Os primeiros recebem o desdém de toda a humanidade. Os segundos veem, dia a dia, suas convicções sendo refutadas por fatos inegáveis. Só se mantêm coagindo cientistas para não dizerem tudo o que sabem, como foi denunciado por diferentes e sérios meios alternativos de comunicação. É a razão ensandecida que busca a acumulação de riqueza sem qualquer outra consideração. Em tempos recentes, temos conhecido eventos extremos da maior gravidade: Katrina e Sandy nos Estados Unidos, tufões terríveis no Paquistão e em Bangladesh, o tsunami no sudeste da Ásia, o tufão no Japão que danificou as usinas nucleares em Fukushima e, ultimamente, o avassalador tufão Haiyan, nas Filipinas, com milhares de vítimas.

Nos últimos meses, quatro relatórios oficiais de organismos ligados à ONU lançaram veemente alerta sobre as graves consequências do crescente aquecimento global. Com 90% de certeza, esse é comprovadamente provocado pela atividade irresponsável dos seres humanos e dos países industrializados. Todos são unânimes em afirmar que não estamos indo ao encontro do aquecimento global: já estamos dentro dele.

Poucas semanas atrás, a secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Christina Figueres, em plena entrevista coletiva, desatou em choro incontido ao denunciar que os países quase nada fazem para a adaptação e a mitigação do aquecimento global. Yeb Sano, das Filipinas, na 19ª Convenção do Clima em Varsóvia, ocorrida entre 11 e 22 deste mês, chorou também, diante de representantes de 190 países, quando contava o horror do tufão que dizimou seu país, atingindo sua própria família.

Os representantes desses países já trazem no bolso as instruções previamente tomadas por seus governos, e os grandes dificultam por muitos modos qualquer consenso. Lá estão também os donos do poder no mundo. Todos querem que as coisas continuem como estão. É o que de pior nos pode acontecer, porque então o caminho para o abismo se torna mais direto e fatal. Por que essa irracional oposição?

CONSUMISMO ILIMITADO

Esse caos ecológico é tributado ao nosso modo de produção, que devasta a natureza e alimenta a cultura do consumismo ilimitado. Ou mudamos nosso paradigma de relação para com a Terra e para com os bens e serviços naturais, ou vamos irrefreavelmente ao encontro do pior. O paradigma vigente se rege por esta lógica: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no mais curto lapso de tempo, com inovação tecnológica e com maior potência competitiva? A produção é para o puro e simples consumo, que gera a acumulação; este, o objetivo principal. A devastação da natureza e o empobrecimento dos ecossistemas aí implicados são meras externalidades (não entram na contabilidade empresarial). Como a economia neoliberal se rege estritamente pela competição e não pela cooperação, estabelece-se uma guerra de mercados, de todos contra todos. Quem paga a conta são os seres humanos (injustiça social) e a natureza (injustiça ecológica). Ocorre que a Terra não aguenta mais esse tipo de guerra total contra ela. O aquecimento global é a febre que denuncia a doença. O planeta está gravemente doente.

Ou começamos a nos sentir parte da natureza, e então a respeitamos como a nós mesmos, passando do paradigma da conquista e da dominação para aquele do cuidado e da convivência, e produzimos respeitando os ritmos naturais e nos limites de cada ecossistema, ou então preparemo-nos para as amargas lições que a mãe- Terra nos dará. Não está excluída a possibilidade de que ela já não nos queira mais sobre sua face e se liberte de nós como nos libertamos de uma célula cancerígena. Ela continuará, coberta de cadáveres, mas sem nós. Que Deus não permita semelhante e trágico destino.

As causas da erosão atual dos direitos humanos no mundo

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Leonardo Boff

Vivemos num mundo no qual os direitos humanos são violados, praticamente, em todos os níveis: familiar, local, nacional e planetário. O Relatório Anual da Anistia Internacional de 2013, referente a 2012 e cobrindo 159 países, faz exatamente essa dolorosa constatação. Em vez de avançarmos no respeito da dignidade humana e dos direitos das pessoas, dos povos e dos ecossistemas, estamos regredindo a níveis de barbárie.

A forma mais covarde é a ação dos drones, aviões não pilotados que, a partir de alguma base do Texas, dirigidos por um jovem militar diante de uma telinha de televisão, como se estivesse jogando um videogame, consegue identificar um grupo de afegãos celebrando um casamento, dentro do qual presumivelmente deverá haver algum guerrilheiro da Al Qaeda. Basta essa suposição para, com um pequeno clique, lançar uma bomba que aniquila todo o grupo, com mães e crianças inocentes.

É a forma perversa da guerra preventiva, inaugurada por Bush e criminosamente levada avante pelo presidente Obama, que não cumpriu as promessas de campanha com referência aos direitos humanos, seja do fechamento de Guantánamo, seja da supressão do Ato Patriótico, pelo qual qualquer pessoa dentro dos Estados Unidos pode ser detida por suspeita de terrorismo, sem necessidade de avisar a família. Hoje, consoante o Relatório da Anistia Internacional, o país que mais viola direitos de pessoas e de povos são os EUA.

NEOCOLONIZAÇÃO

O continente que mais violações sofre é a África. É um continente esquecido e vandalizado. Terras são compradas (land grabbing) por grandes corporações e pela China para nelas produzirem alimentos para suas populações. É uma neocolonização mais perversa que a anterior.

A situação de nosso país é preocupante, dado o nível de violência que campeia em todas as partes. Diria, não há violência: estamos montados sobre estruturas de violência sistêmica que pesam sobre mais da metade da população afrodescendente, sobre os indígenas que lutam por preservar suas terras, sobre os pobres em geral e sobre os LGBT, discriminados e até mortos.

O fundamento último do cultivo dos direitos humanos reside na dignidade de cada pessoa humana e no respeito que lhe é devido. Dignidade significa que ela é portadora de espírito e de liberdade que lhe permite moldar sua própria vida. O respeito é o reconhecimento de que cada ser humano possui um valor intrínseco, é um fim em si mesmo e jamais um meio para qualquer outra coisa. Diante de cada ser humano, por anônimo que seja, todo poder encontra seu limite, inclusive o Estado.

O fato é que vivemos num tipo de sociedade mundial que colocou a economia como seu eixo estruturador. A razão é utilitarista, e tudo, até a pessoa humana, como denuncia o papa Francisco, é feito “um bem de consumo que, uma vez usado, pode ser atirado fora”. Numa sociedade assim, não há lugar para direitos, apenas para interesses. Até o direito sagrado à comida e à bebida só é garantido para quem puder pagar. Caso contrário, estará ao pé da mesa, junto com os cães, esperando alguma migalha que caia da mesa farta dos epulões.

Nesse sistema econômico, político e comercial, se assentam as causas principais, não exclusivas, que levam permanentemente à violação da dignidade humana. O sistema vigente não ama as pessoas, apenas sua capacidade de produzir e de consumir. De resto, são apenas resto, óleo gasto na produção.

A tarefa, além de humanitária e ética, é principalmente política: como transformar esse tipo de sociedade malvada numa sociedade em que os humanos possam se tratar humanamente e gozar de direitos básicos. Caso contrário, a violência é a norma.