A grande transformação e a corrupção geral de nosso tempo

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Leonardo Boff

Normalmente, as sociedades se assentam sobre o seguinte tripé: economia (que garante a base material da vida humana), política (pela qual se distribui o poder e se montam as instituições que fazem funcionar a convivência social) e ética (que estabelece valores e normas que regem os comportamentos humanos). Geralmente, a ética vem acompanhada por uma aura espiritual que responde pelo sentido último da vida e do universo, exigências sempre presentes na agenda humana.

Essas instâncias se entrelaçam numa sociedade funcional, mas sempre nessa ordem: a economia obedece à política e a política se submete à ética. Mas, a partir da Revolução Industrial no século XIX, a economia começou a se descolar da política e a soterrar a ética. Surgiu uma economia de mercado, de forma que todo o sistema econômico fosse dirigido e controlado apenas pelo mercado, livre de qualquer controle ou de um limite ético.

A marca registrada desse mercado não é a cooperação, mas a competição, que vai além da economia e impregna todas as relações humanas. Mais ainda: criou-se, no dizer de Karl Polanyi, “um novo credo, totalmente materialista, que acreditava que todos os problemas poderiam ser resolvidos por uma quantidade ilimitada de bens materiais”(“A Grande Transformação”, Campus, 2000, pág. 58). Esse credo é, ainda hoje, assumido com fervor religioso pela maioria dos economistas do sistema imperante e, em geral, pelas políticas públicas.

EIXO ÚNICO

A partir de agora, a economia funcionará como o único eixo articulador de todas as instâncias sociais. Tudo passará pela economia, concretamente, pelo PIB. Quem estudou em detalhe esse processo foi o filósofo e historiador da economia, já referido, Karl Polanyi. Demonstrou ele que, “em vez de a economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no sistema econômico” (pág. 77). Então, ocorreu o que ele chamou de “a grande transformação”: de uma economia de mercado se passou a uma sociedade de mercado.

Em consequência, nasceu um novo sistema social, no qual a sociedade não existe, apenas os indivíduos competindo entre si. Tudo mudou, pois tudo vira mercadoria. Qualquer bem será levado ao mercado para ser negociado em vista do lucro individual. Polanyi não deixa de anotar que tudo isso é “contrário às substâncias humana e natural das sociedades”. Mas foi o que triunfou, especialmente no pós-guerra.

Aqui, cabe recordar as palavras proféticas de Karl Marx: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico, e podia vender-se. (…) O tempo da corrupção geral, da venalidade universal, ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal, é levada ao mercado para receber um preço, no seu mais justo valor”.

EFEITOS DESASTROSOS

Os efeitos socioambientais desastrosos dessa mercantilização de tudo estão sendo sentidos hoje pelo caos ecológico da Terra. Temos que repensar o lugar da economia no conjunto da vida humana, especialmente face aos limites da Terra.

Quando uma sociedade se entorpece como a nossa, e por seu crasso materialismo se faz incapaz de sentir o outro como outro, e somente o vê enquanto eventual produtor e consumidor, ela está cavando seu próprio abismo.

Agora, cabe o retorno ao “não há alternativa”: ou mudamos, ou pereceremos, porque os nossos bens materiais não nos salvarão. É o preço letal por termos entregue nosso destino à ditadura da economia transformada num “deus salvador” de todos os problemas.

O aquecimento global é a febre que denuncia a doença da Terra

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Leonardo Boff

Há negacionistas da Shoah (eliminação de milhões de judeus nos campos nazistas de extermínio) e há negacionistas das mudanças climáticas da Terra. Os primeiros recebem o desdém de toda a humanidade. Os segundos veem, dia a dia, suas convicções sendo refutadas por fatos inegáveis. Só se mantêm coagindo cientistas para não dizerem tudo o que sabem, como foi denunciado por diferentes e sérios meios alternativos de comunicação. É a razão ensandecida que busca a acumulação de riqueza sem qualquer outra consideração. Em tempos recentes, temos conhecido eventos extremos da maior gravidade: Katrina e Sandy nos Estados Unidos, tufões terríveis no Paquistão e em Bangladesh, o tsunami no sudeste da Ásia, o tufão no Japão que danificou as usinas nucleares em Fukushima e, ultimamente, o avassalador tufão Haiyan, nas Filipinas, com milhares de vítimas.

Nos últimos meses, quatro relatórios oficiais de organismos ligados à ONU lançaram veemente alerta sobre as graves consequências do crescente aquecimento global. Com 90% de certeza, esse é comprovadamente provocado pela atividade irresponsável dos seres humanos e dos países industrializados. Todos são unânimes em afirmar que não estamos indo ao encontro do aquecimento global: já estamos dentro dele.

Poucas semanas atrás, a secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Christina Figueres, em plena entrevista coletiva, desatou em choro incontido ao denunciar que os países quase nada fazem para a adaptação e a mitigação do aquecimento global. Yeb Sano, das Filipinas, na 19ª Convenção do Clima em Varsóvia, ocorrida entre 11 e 22 deste mês, chorou também, diante de representantes de 190 países, quando contava o horror do tufão que dizimou seu país, atingindo sua própria família.

Os representantes desses países já trazem no bolso as instruções previamente tomadas por seus governos, e os grandes dificultam por muitos modos qualquer consenso. Lá estão também os donos do poder no mundo. Todos querem que as coisas continuem como estão. É o que de pior nos pode acontecer, porque então o caminho para o abismo se torna mais direto e fatal. Por que essa irracional oposição?

CONSUMISMO ILIMITADO

Esse caos ecológico é tributado ao nosso modo de produção, que devasta a natureza e alimenta a cultura do consumismo ilimitado. Ou mudamos nosso paradigma de relação para com a Terra e para com os bens e serviços naturais, ou vamos irrefreavelmente ao encontro do pior. O paradigma vigente se rege por esta lógica: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no mais curto lapso de tempo, com inovação tecnológica e com maior potência competitiva? A produção é para o puro e simples consumo, que gera a acumulação; este, o objetivo principal. A devastação da natureza e o empobrecimento dos ecossistemas aí implicados são meras externalidades (não entram na contabilidade empresarial). Como a economia neoliberal se rege estritamente pela competição e não pela cooperação, estabelece-se uma guerra de mercados, de todos contra todos. Quem paga a conta são os seres humanos (injustiça social) e a natureza (injustiça ecológica). Ocorre que a Terra não aguenta mais esse tipo de guerra total contra ela. O aquecimento global é a febre que denuncia a doença. O planeta está gravemente doente.

Ou começamos a nos sentir parte da natureza, e então a respeitamos como a nós mesmos, passando do paradigma da conquista e da dominação para aquele do cuidado e da convivência, e produzimos respeitando os ritmos naturais e nos limites de cada ecossistema, ou então preparemo-nos para as amargas lições que a mãe- Terra nos dará. Não está excluída a possibilidade de que ela já não nos queira mais sobre sua face e se liberte de nós como nos libertamos de uma célula cancerígena. Ela continuará, coberta de cadáveres, mas sem nós. Que Deus não permita semelhante e trágico destino.

As causas da erosão atual dos direitos humanos no mundo

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Leonardo Boff

Vivemos num mundo no qual os direitos humanos são violados, praticamente, em todos os níveis: familiar, local, nacional e planetário. O Relatório Anual da Anistia Internacional de 2013, referente a 2012 e cobrindo 159 países, faz exatamente essa dolorosa constatação. Em vez de avançarmos no respeito da dignidade humana e dos direitos das pessoas, dos povos e dos ecossistemas, estamos regredindo a níveis de barbárie.

A forma mais covarde é a ação dos drones, aviões não pilotados que, a partir de alguma base do Texas, dirigidos por um jovem militar diante de uma telinha de televisão, como se estivesse jogando um videogame, consegue identificar um grupo de afegãos celebrando um casamento, dentro do qual presumivelmente deverá haver algum guerrilheiro da Al Qaeda. Basta essa suposição para, com um pequeno clique, lançar uma bomba que aniquila todo o grupo, com mães e crianças inocentes.

É a forma perversa da guerra preventiva, inaugurada por Bush e criminosamente levada avante pelo presidente Obama, que não cumpriu as promessas de campanha com referência aos direitos humanos, seja do fechamento de Guantánamo, seja da supressão do Ato Patriótico, pelo qual qualquer pessoa dentro dos Estados Unidos pode ser detida por suspeita de terrorismo, sem necessidade de avisar a família. Hoje, consoante o Relatório da Anistia Internacional, o país que mais viola direitos de pessoas e de povos são os EUA.

NEOCOLONIZAÇÃO

O continente que mais violações sofre é a África. É um continente esquecido e vandalizado. Terras são compradas (land grabbing) por grandes corporações e pela China para nelas produzirem alimentos para suas populações. É uma neocolonização mais perversa que a anterior.

A situação de nosso país é preocupante, dado o nível de violência que campeia em todas as partes. Diria, não há violência: estamos montados sobre estruturas de violência sistêmica que pesam sobre mais da metade da população afrodescendente, sobre os indígenas que lutam por preservar suas terras, sobre os pobres em geral e sobre os LGBT, discriminados e até mortos.

O fundamento último do cultivo dos direitos humanos reside na dignidade de cada pessoa humana e no respeito que lhe é devido. Dignidade significa que ela é portadora de espírito e de liberdade que lhe permite moldar sua própria vida. O respeito é o reconhecimento de que cada ser humano possui um valor intrínseco, é um fim em si mesmo e jamais um meio para qualquer outra coisa. Diante de cada ser humano, por anônimo que seja, todo poder encontra seu limite, inclusive o Estado.

O fato é que vivemos num tipo de sociedade mundial que colocou a economia como seu eixo estruturador. A razão é utilitarista, e tudo, até a pessoa humana, como denuncia o papa Francisco, é feito “um bem de consumo que, uma vez usado, pode ser atirado fora”. Numa sociedade assim, não há lugar para direitos, apenas para interesses. Até o direito sagrado à comida e à bebida só é garantido para quem puder pagar. Caso contrário, estará ao pé da mesa, junto com os cães, esperando alguma migalha que caia da mesa farta dos epulões.

Nesse sistema econômico, político e comercial, se assentam as causas principais, não exclusivas, que levam permanentemente à violação da dignidade humana. O sistema vigente não ama as pessoas, apenas sua capacidade de produzir e de consumir. De resto, são apenas resto, óleo gasto na produção.

A tarefa, além de humanitária e ética, é principalmente política: como transformar esse tipo de sociedade malvada numa sociedade em que os humanos possam se tratar humanamente e gozar de direitos básicos. Caso contrário, a violência é a norma.