Sem reformas, sem trombones e sem trombetas

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Aposentados e pensionistas sabem quem pagará a conta

Carlos Chagas

Desde que Michel Temer assumiu em definitivo a presidência da República, pelo menos quatro vezes o governo avançou e recuou das reformas trabalhista e da Previdência Social. Juntas ou em separado, elas foram anunciadas e adiadas, ora pelo presidente, ora por seus ministros. Ao mesmo tempo, variam os detalhes sobre o conteúdo de ambas. Um dia ouve-se que direitos sociais serão suprimidos, no outro que “não sou idiota para revogar prerrogativas do trabalhador”.

Essas reformas também são antecipadas e prorrogadas em seus prazos para chegar ao Congresso. Antes ou depois das eleições?  Este ano ou no próximo?

Muita gente conclui que nada foi decidido até agora, sequer estar certo se teremos ou não reformas. O  recente choque entre os procuradores de Curitiba e o Lula, com o PT a tiracolo, faz prever um embate olímpico no Congresso, quando os projetos chegarem lá.  Não só os companheiros pretendem obstar iniciativas impopulares. Ignora-se a verdadeira reação do PMDB e do PSDB. “Depende” dizem seus líderes, significando que aprovação e rejeição relacionam-se menos com o conteúdo das mudanças do que com a capacidade de o governo atender as reivindicações de suas bases partidárias. As demais legendas de apoio ao presidente Temer são mais complicadas.

Em suma, nem no ministério há certeza de nada, pois Eliseu Padilha e Henrique Meirelles não falam a mesma língua.

O discurso de hoje do presidente da Republica, na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, dificilmente servirá de parâmetro para suposições de nossa política interna.

NEM TROMBONES NEM  TROMBETAS –  Agripino Grieco,  o mais cáustico de nossos criticos literários, fazia a barba e cortava o cabelo durante anos a fio com o mesmo barbeiro. O fígaro contava sempre estar trabalhando na elaboração de um romance que ultrapassaria os méritos do D. Quixote, mas sempre que pedia ao cliente para ler uns capítulos, recebia educadas recusas pela falta de tempo. Tendo completado a obra máxima, resolveu arriscar: “Peço que pelo menos me dê a honra de escolher o título”.

Grieco, para livrar-se do incômodo autor, concordou, dizendo que não precisava ler uma página sequer, e surpreendeu o nosso Cervantes dos trópicos:

“O seu livro tem trombones?”

Diante da  resposta negativa, indagou: “E trombetas?”

“Também não”.

“Então aí está o seu título: “Nem trombones nem trombetas”…

A destruição do Brasil

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Charge do Bruno Galvão, reprodução do Arquivo Google

Carlos Chagas

É preciso prestar atenção. Do jeito que as coisas vão, logo o Brasil se verá envolvido num conflito que, se não for civil, passará bem perto. Importa menos saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, pois o pior se aproxima, ou melhor, já chegou. Apesar de dispor de designações variadas, estamos divididos em dois. Duas forças  em choque: conservadores versus progressistas;  direita contra esquerda; pobres, em oposição a ricos. Claro que dentro dessa simplificação absurda existirão mil nuanças e subdivisões, mas a verdade é que rapidamente chegaremos ao ápice de um confronto fundamental.

Nossa História permanece cheia de exemplos capazes de demonstrar quantas vezes estivemos perto da ruptura, seja política ou social. Só que agora é mais grave.

De um lado estão os que se aferram ao retrocesso e buscam implantar um sistema favorável à revogação de reformas sociais. Não tiveram escrúpulos em tomar o poder por artifícios escusos e preparam a extinção de conquistas anteriores, prometendo reformar para que tudo continue na mesma.

No reverso da medalha situam-se os que promoveram mudanças significativas, mas, ao mesmo tempo, encenaram amplo espetáculo de presunção, egoísmo e corrupção. Usaram o poder em favor de seus interesses pessoais.

Cada lado dispõe-se a arrasar o adversário às custas das reais conquistas da civilização e da cultura, duramente promovidas enquanto puderam conviver. Estão a um passo de se destruir e, com eles, o país até pouco tido como uno, indivisível e promissor.

Ameaça de prisão de Lula antecipa o processo sucessório

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Charge do Tacho, reprodução do Jornal NH

Carlos Chagas

Agita-se o PT. A ordem, além de disputar as eleições municipais de outubro, é fixar desde já a candidatura do Lula para 2018. Expô-lo o mais possível, agora e depois de encerradas as campanhas para prefeito e vereador. Os companheiros pretendem criar uma parede de proteção ao ex-presidente, de modo a evitar que venha a ser processado por Sérgio Moro ou qualquer outro juiz, muito menos nas instâncias seguintes, fator que o afastaria da corrida. Essa estratégia não demora a contagiar os demais partidos, antecipando-se o debate sucessório.

O mais prejudicado será o PSDB, que esperava atravessar o ano que vem sem ser obrigado a escolher entre Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Apesar de o ex-governador de Minas julgar-se no direito de ser escolhido por haver disputado as eleições passadas, será sempre bom lembrar que os outros dois também concorreram ao palácio do Planalto, ambos também derrotados.

O PMDB, além de o maior partido, ocupa a presidência da República. Reivindicaria a pole-position não fosse uma inusitada razão: carece de nomes para lançar. Michel Temer poderia reivindicar a reeleição, mas não anda bem de popularidade, muito pelo contrário. O atual presidente já jurou três vezes que não disputará, mas na falta de alguém, quem sabe?  Falou-se dias atrás em Henrique Meirelles, mas além de não deter popularidade, precisaria de uma cartola de mágico para recuperar a economia, acabar com o desemprego e tornar-se conhecido.

OUTROS NOMES – O PDT abriu as portas para Ciro Gomes, ainda que o polêmico candidato também tenha perdido uma eleição presidencial. Estar melhor preparado para o  exercício do cargo não é suficiente chega para ajudá-lo.

Marina Silva será fatalmente candidata pela Rede,  dispõe de apoio junto à massas,  mas apresenta contradições difíceis de superar. Não é mais a mesma, como demonstraram as eleições passadas.

A antecipação do processo eleitoral favorece Ronaldo Caiado, pelo DEM, partido que também abriga outro embrião de candidato, no caso Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Alvaro Dias abandonou o ninho dos tucanos à procura de uma legenda capaz de hospedá-lo, ainda que pequena. Outras hipóteses e aventuras se agitam, como Jair Bolsonaro, Joaquim Barbosa e mais aquela legião de desconhecidos atrás de quinze minutos de glória televisiva.

Em suma, haverá que aguardar.

 

Um júri simulado sem sentença, à espera do veredito em 2018

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Charge do Jota A, reprodução do Portal O Dia

Carlos Chagas

Tanto os meninos procuradores de Curitiba quanto o companheiro igual a Jesus Cristo prenderam a atenção nacional quarta e quinta-feira da semana que ainda não terminou. Nos dois casos, a primeira e fugaz impressão foi de que tanto Deltan Dallagnol quanto o Lula convenceram. Deixando a poeira assentar, verifica-se que agradaram os respectivos auditórios, mas em nenhum momento contribuíram para esclarecer a tertúlia que envolve o ex-presidente da República e seu partido.

Pode-se concluir que deu empate a exagerada troca de agressões transmitida pela televisão. Dallagnol só não acusou o Lula de lobisomem, enquanto o Lula inaugurou a temporada sucessória de 2018 apresentando-se com o mesmo figurino que veste desde os tempos de torneiro-mecânico.

NÃO MUDOU NADA – Nem o procurador nem o ex-presidente contribuíram para derrotar o adversário. Um acusando violentamente sem fornecer provas.  O outro ignorando as acusações e preferindo relacionar sua performance no palácio do Planalto como promessa para o futuro.

Resultado: quem era Lula continuou sendo Lula. Quem abominava o ex-presidente continuou abominando.

Já vivemos entreveros mais emocionantes e menos enfadonhos. O país inteiro já sabia de antemão cada detalhe da defesa e da acusação daquele júri simulado cuja sentença permanece em branco.

Ficou confirmado que o Lula é candidato e que Dallagnol quer ver o ex-presidente na cadeia. O veredito será conhecido antes de 2018?

Denúncias imobiliárias bastam para evitar candidatura de Lula?

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Charge do Iotti, reprodução da Zero Hora

Carlos Chagas

Foi fulminante a primeira metade da denúncia do procurador Delton Dallagnol contra o Lula, na medida em que se referiu a ligações do ex-presidente da República com os principais participantes e beneficiados do maior assalto aos cofres públicos de nossa História. O problema é que na segunda metade, na hora da apresentação das provas de envolvimento do primeiro-companheiro em atos de corrupção, a peça acusatória transformou-se numa  tertúlia imobiliária. Se o Lula tiver a prisão decretada, será por conta de sofisticados armários de cozinha e azulejos de luxo acrescentados a um tríplex destinado a ele e família, ao qual acabou renunciando.

Citado seis vezes como general comandante máximo, mentor, ápice da pirâmide da corrupção, maestro da orquestra criminosa e chefe da corrupção, o Lula responderá por uma denúncia imobiliária limitada a 3 milhões e 700 mil reais. Em torno dele e da quadrilha que supostamente chefiava, tem gente que desviou e roubou bilhões. Poucas vezes se pode imaginar um chefe tão condescendente com seus asseclas.

Numa palavra, estão evidentes ligações espúrias do ex-presidente com empreiteiras, vilões e aproveitadores do PT e adjacências, mas, no reverso da medalha, nenhuma prova conclusiva surgiu, de alta corrupção.

FATOR OCULTO – Fica claro o fator oculto nessa equação que acaba de abalar o país: pretendem impedir o Lula de disputar a presidência da Republica em 2018. Será por temerem sua vitória?

Um apartamento no Guarujá, recebido e depois devolvido, pode configurar ilícito penal, apesar de inferior a milhares de mansões, fazendas e até ilhas particulares habitadas pelas elites empresariais. Montes de presentes recebidos durante seus dois mandatos ficaram guardados anos a fio em depósitos de uma empreiteira, hoje sob guarda do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.  Bastariam para justificar o impedimento de uma candidatura?

Se querem afastar o Lula, terá de ser com algo bem  mais substancioso do que denúncias imobiliárias.

O exemplo de Itamar Franco, que Michel Temer não seguiu

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Reprodução do Arquivo Google

Carlos Chagas

É conhecido o episódio da chegada de Itamar Franco ao poder. Ao receber a comunicação de que substituiria Fernando Collor na presidência da República, declarou ser inaceitável um regime que não levasse a todos os cidadãos os benefícios da civilização e da cultura. Instalado no palácio do Planalto, dispensou todos os ministros e reuniu os dirigentes dos  partidos políticos nacionais. Apenas o Lula negou-se a permitir que o PT comparecesse.

Itamar declarou que renunciaria caso não tivesse o apoio de todos. Ninguém saltou de banda, ficando os companheiros isolados. Foi composto um governo de coalizão mas jamais de imposição ou barganha. O novo presidente selecionou os melhores, dentro dos partidos e seu governo, logo depois transformado em permanente, é até hoje considerado o melhor, desde a redemocratização.

Lembra-se a experiência de tantos anos para se estabelecer a comparação: o afastamento de Dilma Rousseff seguiu o modelo do acontecido com Fernando Collor.  Ambos se viram punidos pela falta de diálogo com o Congresso e pela presunção e arrogância no exercício do poder.

CHANTAGENS – O problema é que a fórmula adotada por Itamar já tarda para Michel Temer, que se mudou todo o ministério de Dilma, não conseguiu compor um governo sob seu comando. Curvou-se às imposições dos partidos, que pressionam e vivem de chantagem sobre o presidente da República. Estabeleceram um mecanismo longe de favorecer a unidade administrativa, pois empenhado em disputas menores, mesquinhas e egoístas.

Ainda há tempo para Temer rever a experiência de Itamar e, de acordo com as circunstâncias,  seguir-lhe o exemplo

Cúmplices de Eduardo Cunham merecem o mesmo destino

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Charge do Oliveira, reprodução do Diário Gaúcho

Carlos Chagas

O dever de casa foi feito pela metade. A Câmara cassou o mandato de Eduardo Cunha, acusado de quebra do decoro parlamentar. Foi punido mais pelo conjunto da obra do que por haver mentido, negando a existência de contas na Suíça. Perdeu o mandato também por haver desviado recursos dos cofres públicos, participado do petrolão, atropelado leis, formado uma quadrilha que aproveitou-se do poder para lavar dinheiro público e muita coisa a mais.

Até agora processado no Supremo Tribunal Federal, o ex-deputado responderá perante a primeira instância, no caso, no Paraná, sob a vigilância do juiz Sérgio Moro, para quem serão enviados os autos de diversos processos abertos contra ele.

Tudo indica que não escapará das condenações, devendo parar na cadeia, além de precisar repor o prejuízo ao Tesouro e às empresas que saqueou.

NOVELA DE HORROR – Termina aqui essa novela de horror? Nem pensar, porque o comportamento do antigo presidente da Câmara não se desenvolveu sozinho. Junto com ele, no mínimo dezenas de parlamentares e empresários contribuíram para as práticas criminosas. Se ainda não está tudo documentado, logo o Ministério Público, a Polícia Federal e as delações premiadas de seus parceiros revelarão. Mesmo aqueles que o condenaram na noite de segunda-feira têm contas a ajustar com o Judiciário.

Aqui o episódio se complica: haverá coragem e condições para a Justiça seguir seu curso? Disporão as instituições de vontade e meios para apurar e condenar os cúmplices de Eduardo Cunha? Boa parte dos 450 algozes do ex-deputado terão dormido mal, na noite passada, mesmo contando com a rotina do esquecimento e o auxílio da permanente impunidade. Os cúmplices da roubalheira continuada, de diversos matizes, serão tão culpados como o chefe. Merecem o mesmo destino.

Os asnos do Palácio do Planalto e a lição de Voltaire

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Charge do Paixão, reproduzida da Gazeta do Povo

Carlos Chagas

De 1715 a 1723, depois da morte de Luís XIV, a França foi governada por um Regente, tio de Luís XV, ainda uma criança. Jovem afoito e estouvado,  chegou a Paris François Marie Arouet,  para tornar-se um dos principais críticos dos costumes da realeza  e do clero. Apelidava-se de Voltaire. O Regente vira-se obrigado a intenso programa de contenção de gastos e despesas, determinando, entre outras medidas, que  se vendesse a metade das cavalariças reais. Voltaire escreveu logo depois que melhor faria o Regente se em vez das centenas de cavalos de raça, vendesse o monte de asnos que evoluíam em torno do trono.

Num domingo, passeando pelo Bois de Boulogne, o Regente deparou-se com Voltaire. Cumprimentando-o, disse que daria a Monsieur Arouet  a oportunidade de apreciar uma das mais bizarras vistas de Paris, que ele certamente não conhecia.

Logo vieram os soldados e levaram Voltaire para a prisão da Bastilha, onde ficou por quase um ano. Tinha liberdade para escrever, e lá completou a peça “Édipo”, de amplo sucesso na capital francesa por conta das alusões a tiranos, fidalgos e sacerdotes.

PENSÃO VITALÍCIA – Amigo influentes conseguiram que o Regente revogasse a prisão e  fizesse mais, assinando decreto que concedia ao jovem autor uma pensão vitalícia “para que enfrentasse as despesas com habitação e alimentação”.

De volta, Voltaire escreveu que aceitava a oferta, mas apenas pela metade. Agradecia que o tesouro real cuidasse de sua alimentação, mas quanto à sua habitação, deixasse que ele mesmo cuidaria…

Nova ordem de prisão foi expedida, mas o Regente tratou de negociar: soltaria Voltaire se ele embarcasse imediatamente para a Inglaterra, o que aconteceu. Ficou proibido de frequentar Paris, o que só fez aos noventa anos de idade.

Esse episódio é pinçado da larga biografia do irreverente gênio da literatura francesa, a propósito das dificuldades que o nosso Regente, versão 2016, vem enfrentando. Seria melhor que oferecesse para seus desafetos uma visão de Brasília, tomada da Papuda. Depois, uma sinecura qualquer para que ninguém recomendasse dever  livrar-se dos asnos que evoluem no Palácio do Planalto…

Reforma política é um eterno sonho de noite de verão

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Carlos Chagas

Em entrevista a O Globo, o presidente Michel Temer defendeu a existência de apenas dois ou três partidos, mas acentuou que o problema da cláusula de barreira é exclusivo do Congresso. Prevê-se que não sairá do palácio do Planalto nenhum projeto de reforma política, sequer para juntar-se às centenas de outros que tramitam no Congresso, de origens variadas. Assim tem sido nos governos anteriores, de Fernando Collor a Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Os mais recentes presidentes da República opinaram, geralmente no mesmo sentido, mas na hora de materializar o desejo comum, refluem, lavam as mãos e saltam de banda.

A conclusão é de que permanecerão no mínimo 35 partidos, sendo 25 funcionando no Legislativo.  Nenhum dos chefes do Executivo ousou chamar a si a obrigação de viabilizar o óbvio, pela simples razão de necessitarem de cada voto dos grandes e dos pequenos partidos em apoio a seus projetos. Como resultado, aumentam a confusão e as dificuldades de governar. Não haverá um só filiado a alguma dessas legendas disposto ao suicídio, propondo a própria extinção. Abusam ao máximo do troca-troca, sempre que discordam de seus partidos de origem ou se encontram na ante-sala de sua expulsão.

Mil sugestões têm sido produzidas em série, abrindo-se espaço para a mais recente, que trata da convocação de uma Assembleia Constituinte exclusiva para promover ampla reforma da Constituição, com espaço para mudanças políticas de vulto. Trata-se de sonho de noite de verão, porque mesmo eleitos à margem dos atuais deputados e senadores, os constituintes exclusivos jamais aprovariam mecanismos para mutilar-se.

Sendo assim, continuaremos à mercê da balbúrdia e até da corrupção dos partidos de aluguel e sucedâneos, pois há muitos outros em formação.

O alfaiate e a costureira

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Charge do Cerino (chargesdocerino.blogspot.com)

Carlos Chagas

A sucessão de manifestações contrárias ao presidente Michel Temer atravessou o Sete de Setembro e entrará pelo fim de semana. Com o adendo de que o número de manifestantes não diminuiu, muito pelo contrário. Além de São Paulo e Rio, outras capitais engrossam os protestos.

Não se concluirá, ao menos por enquanto, que a voz das ruas chegará a decibéis capazes de abalar as estruturas institucionais do país. Mas é bom tomar cuidado, porque esses fenômenos costumam pegar, como se dizia tempos atrás, feito sarampo.

Será ilusão supor os protestos como resultado apenas de iniciativas do PT e forças afins, reação ao afastamento de Dilma Rousseff. Está no âmago da ocupação das ruas o protesto à tomada do poder pelas elites, assim como a indignação pela crise econômica e a falta, pelo Estado, de iniciativas em condições de minorar as agruras da população. Porque desde a reeleição de Madame nenhum resultado apareceu favorecendo a recuperação nacional.

TEMER – É verdade que ninguém supôs a ascensão de Michel Temer como solução para superar as dificuldades do dia a dia do cidadão comum, a começar pelo desemprego e a elevação do custo de vida.  Mas como o ex-vice-presidente foi alçado ao patamar mais alto das responsabilidades públicas, azar o dele. Ainda mais por se haver ligado a promessas e programas que só beneficiam as classes melhor favorecidas.

Crescem as manifestações populares, reforçadas pela classe média igualmente submetida às dificuldades econômicas. Onde vão dar, fica difícil imaginar. Pode ser no crescimento da onda em favor de eleições diretas já. Também pode ser na impossibilidade de continuarem em vigor as arcaicas instituições legislativas, ou, pior ainda, as ameaças de retrocesso através da  política econômica  liberal.

Uma coisa parece certa: a sociedade não aguenta mais a roupa apertada com que as elites insistem em obrigá-la a vestir. Com Michel Temer de alfaiate, parece difícil, como foi com Dilma de costureira.

Dificuldades para as reformas da Previdência e da CLT

Charge do Miguel, reprodução do Jornal do Comércio/PE

Carlos Chagas

Mesmo revendo antigas hesitações e perplexidades, o presidente Michel Temer decidiu encaminhar o projeto de reforma da Previdência Social ao Congresso antes das eleições municipais de outubro. Ponto para ele, ainda que por cautela devemos aguardar o texto, daqui até 2 de outubro.

Em paralelo, movimentam-se as centrais sindicais e os grandes sindicatos na tentativa de barrar a iniciativa, ao menos naquilo em que a reforma suprimirá direitos e tornará mais difícil a vida de quem estiver para se aposentar.

Insistem ministros mais próximos do presidente Temer que direitos adquiridos serão respeitados e que as novas regras valerão apenas para quem não alcançou 50 anos de idade. Mesmo assim, é bom tomar cuidado, porque o sentimento de agradar as elites, até porque os governantes fazem parte delas, continua a ser o mesmo na atual gestão.

NO CONGRESSO – As dificuldades para cumprir a promessa só aparecerão quando as chamadas reformas chegarem ao Congresso. Junto com as mudanças na Previdência Social virá a reforma trabalhista, também com sérias restrições por parte das organizações sociais.

Mas as atenções gerais estão voltadas para a próxima segunda-feira, quando a Câmara dos Deputados julgará o ex-presidente da casa, Eduardo Cunha, processado por ofensa ao decoro parlamentar. São necessários 257 votos, sobre 511 deputados. Mesmo previsto para sessão marcada para as 19 horas, há dúvidas sobre a existência de quorum para o julgamento.

Na política brasileira, nada de novo debaixo do sol

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Charge do Tacho, reprodução do jornal NH

Carlos Chagas

A hesitação do presidente Michel Temer em mandar para o Congresso a proposta de reforma da Previdência Social, se antes ou depois das eleições de outubro, revela que nada mudou.  Tudo igual debaixo do sol. É grande o número de líderes dos partidos da base oficial sugerindo e até exigindo que o governo deixe para depois das eleições o elenco de maldades previdenciárias, capaz de desagradar meio mundo.Concordam com o aumento do tempo para aposentadorias, mas temem perder votos na escolha de vereadores e prefeitos. Após as eleições, para eles, tudo bem.

De novo, tentam enganar a população. Quantas vezes a classe política aplicou essa vigarice no país? Perdeu-se a conta, desde o governo José Sarney.

A mesma coisa acontece agora. O presidente Michel Temer chegou da China, ainda sem decidir se cumpre logo a promessa ligada a seus planos de recuperação nacional ou se, matreiramente, deixa passar as eleições.

CANDIDATO – Pensam que o povo é bobo. A simples delonga na materialização de medidas amargas faz cair a máscara do novo governo. Até o ministro Henrique Meirelles abre mão de exigir o envio imediato da reforma da previdência ao Congresso.  Deve ser mesmo candidato.

Não se exige a aprovação das mudanças antes de outubro. Seria impossível que deputados e senadores discutissem e votassem em pouco tempo alterações radicais nas aposentadorias. Mas, ao menos, uma definição caracterizaria as intenções do governo. Empurrando com a barriga suas obrigações mais profundas, o presidente Michel Temer dá o tom de como governará até o final de seu mandato. Nada de novo debaixo do sol…

Com as mãos abanando, sem nada para oferecer

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

Vem aí mais um Sete de Setembro. Não há certeza se Michel Temer desfilará de carro aberto pela Esplanada dos Ministérios antes de empoleirar-se no palanque das autoridades para assistir o desfile cívico-militar comemorativo do Dia da Independência do Brasil. Mas não deixará de abanar as mãos para quantos consigam vê-lo das calçadas. A verdade é que receberá a continência das Forças Armadas, os cumprimentos de seus ministros e do corpo diplomático, ainda que povão, mesmo, só de longe e sem entusiasmo.

O presidente está devendo sua identidade com o país. Aguarda-se um plano de governo. Pelo menos um elenco de reformas capazes de sensibilizar a opinião pública. Mesmo em se tratando de medidas de sacrifício, de cortes de gastos e de supressão de direitos sociais,  seria bom que Sua Excelência passasse dos enunciados genéricos para o conteúdo prático.

O BEM E O MAL – Recomendou Maquiavel que o Príncipe anunciasse de uma vez todo o mal necessário à sua permanência no poder e depois, aos poucos, fizesse o bem. Ouve-se falar nas restrições às aposentadorias e pensões, na extinção de prerrogativas trabalhistas, no aumento de impostos, na compressão salarial e demais maldades. Nada a respeito da melhoria das condições de vida das massas e da redução de encargos de que vive de salário, a começar pela vergonha de um salário mínimo que no próximo ano chegará aos 945 reais.

Fica difícil imaginar o novo governo conquistando apoio popular, mas o perigo é que perca o pouco que lhe resta de respeito. Em poucos meses faltarão condições a Temer para enfrentar o cidadão comum, caso não se decida a dizer a que veio.  Equilibrar as finanças, iniciativa ainda em dúvida, não bastará para ser reconhecido como representante do povo. Logo a inércia popular se transformará em manifestações de protesto por onde passar. Legitimidade e representatividade não se conquistam sem resultados. Muito menos, popularidade. Jamais com as mãos abanando, sem nada para oferecer.

Em 2018, o resto dependerá dos marqueteiros

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Charge do Iotti, reprodução do jornal NH

Carlos Chagas

Agora que soltamos o cavalo branco da imaginação no pasto das dúvidas e perplexidades do futuro imediato, galopa a primeira pergunta a respeito de quem será o adversário do Lula na disputa pelo segundo turno das eleições presidenciais de outubro de 2018. Porque mesmo admitindo discordâncias, até virulentas e malcriadas, insistimos na previsão de que o PT, por falta de opção, lançará o ex-presidente como candidato. Mais ainda, que será dele a pole-position, apesar de suas deficiências.

Sendo assim, pela lógica, surge a próxima questão: a quem o Lula deverá enfrentar, supondo-se que não alcançará a metade mais um dos votos na primeira votação?

Primeiro vem os óbvios: Pelo PSDB, Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou José Serra? O ex-governador de Minas, por ter sido candidato derrotado nas últimas eleições e presidir o partido dos tucanos, leva uma certa e fictícia  vantagem, mas o atual governador de São Paulo chega com o peso da potência de seu estado. O atual ministro das Relações Exteriores parece dispor de mais espaço fora do ninho, sendo que os três esgotam as possibilidades do partido.

Correndo por fora, no entanto, o páreo é agitado: Marina Silva, com evidentes possibilidades.  Ronaldo Caiado, pelos setores conservadores, atropelado por Jair Bolsonaro. Ciro Gomes, capaz de surpreender pelo conteúdo de suas propostas. Por que não o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim  Barbosa? Paulo Skaff, em nome da Avenida Paulista?

E mais uma legião de hoje desconhecidos, aventureiros, bicões e quem mais se disponha a arriscar.

SEGUNDO TURNO – Um deles alcançará o segundo turno, para enfrentar o Lula.  Dois anos serão uma eternidade, plena de dúvidas e surpresas, mas hoje, o quadro é esse. Claro que dentro das previsões esdrúxulas de uma realidade em constante mutação. Há quem aposte até no atual presidente Michel Temer, caso prevaleça a reeleição, sem ter sido extirpada numa reforma política que não chega. Na hipótese do parlamentarismo, o novo presidente valeria muito pouco, mas seria definido por eleições diretas ou pelo Congresso?

Em suma, para irritação de uns quantos e muitos incapacitados de decifrar os meandros da política nacional, fica valendo a afirmação inicial: o Lula será candidato do PT, até por falta de alternativa, e tem lugar cativo no segundo turno. O resto dependerá dos marqueteiros…

É ele mesmo: o PT não tem ninguém, apenas Lula

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

A candidatura do Lula em 2018 está posta, ancorada na tentativa de ressurreição do PT. A leitura que fica da decisão dos companheiros seria cômica se não fosse trágica: não há mais ninguém. Em tantos anos de experiência, o partido não criou sucedâneos para seu fundador. Quem achou que era Dilma quebrou a cara, bem antes, até, de seu afastamento. Nem nos governos estaduais nem no Congresso apareceu um substituto. Sequer nos meios sindicais.

Indaga-se a razão desse engessamento e a resposta só pode ser uma: porque o Lula não deixou. De tal maneira ocupou espaços e  reivindicou todos os comandos que agora ficou sozinho.

Quando escolheu Dilma para sucedê-lo, todo mundo aceitou. Não havia alternativa. Bem que ele tentou voltar em 2014, mas Madame não deixou. Imaginou-se Rainha da Cocada Preta e exigiu disputar o segundo mandato. Parece que fez até pressão para constranger o antecessor, ameaçando divulgar episódios da vida privada dele. Deu no que deu, com o esfacelamento do PT.

NÃO HÁ OUTRO – Hoje, para tentar recuperar o tempo perdido, voltam-se mais uma vez os companheiros para o Lula, pelo mesmo motivo de sempre: não há outro. Condições, ele possui, mesmo submetido a virulenta campanha de descrédito, em boa parte liderada pelos que tremem de medo de sua volta. Vão tentar desmoralizá-lo e até mobilizar o Judiciário, pelo simples motivo de não haver adversário.

Se chamado a escolher um candidato no PT, mesmo disposto a encontrá-lo, não conseguirá. Terminará olhando-se no espelho e concluindo ser ele mesmo, caso o PT se disponha a lutar pelo poder. Ainda que a contragosto, a maioria das forças populares ficará com ele, apesar dos desmandos e do caos deixado por Dilma.

Resta saber se, entrado nos setenta anos, terá saúde e disposição para enfrentar uma campanha.  E se terá apoio parlamentar suficiente para evitar a arapuca onde caiu sua malograda criação.

O último dia de agosto, mês do cachorro doido

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Na posse, Temer quase foi sufocado pelos puxa-sacos

Carlos Chagas

Felizmente, setembro chegou. Agosto fez das suas, terminando com o impeachment de Dilma Rousseff e a preservação de seus direitos políticos, ainda que não se saiba bem para quê. Mês do capeta, que saiu pelo ralo com o anúncio, pela equipe econômica, de que o salário mínimo, ano que vem, passará para 945 reais. Vá o agora presidente definitivo, Michel Temer, viver com essa merreca, mesmo dispondo de casa, comida e outras mordomias. Talvez por isso tenha decidido viajar para a China logo depois de empossado.

Algumas lições podem ser tiradas do dia da posse que não foi posse, pois ele já era presidente. A primeira, de que torna-se obrigatório vetar o uso de telefone celulares e sucedâneos nas solenidades de entronização de presidentes da República.

Espetáculos ridículos como o uso dessas maquininhas deveriam ser objeto de ampla proibição. Vetustos deputados, senadores e bicões amontoados no plenário do Senado e adjacências deram a impressão de um circo armado no Congresso. A cada instante alguém levantava o braço exigindo que as autoridades se imobilizassem sorrindo e olhando firme o horizonte, quando não abraçados com Temer e olhando um horizonte inexistente, entre seguranças com cara de bravo e a expectativa de incontáveis papagaios de pirata. Sendo também que ninguém andava, por impossibilidade física.

A ALMA DE CUNHA – Pairava sobre a multidão a alma danada do deputado Eduardo Cunha, várias vezes citado naquele plenário pela presidente escorraçada como a causa de todos os males. Ele não apareceu, mas se estivesse presente, seria objeto de linchamento explícito.

Entre selfies e abraços de urso, o novo presidente custou a escalar os degraus até o pódio onde prestou o juramento à Constituição, sob os acordes do Hino Nacional.

Teve de tudo na plateia, a começar pela negação do maior princípio da Física, de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Podem sim, em se tratando de posses improvisadas.

Graças aos céus, durou pouco, mas para o futuro seria bom que solenidades assim recebessem um mínimo de organização. Afinal, ninguém sabe quando será a próxima…

NO ALVORADA – Em outro palco apresentava-se Dilma Rousseff, para as despedidas. Sua retaguarda também foi disputada, a começar pelas “meninas” que durante todo o julgamento comportaram-se como se as bancadas do Senado fossem um galinheiro. Onde não faltou o “galinho maluco” para agredir adversários e a paciência do vetusto juiz que dirigia os trabalhos.

Madame prometeu oposição desvairada e jurou que a história não  acabaria assim. Faltou-lhe coragem para personalizar o retorno, preferindo o plural ao exclamar “nós voltaremos”. Nós quem, cara pálida?  Para onde e de onde? Posto em frangalhos, o PT ainda não revelou seu plano de batalha, mas jamais será liderado por ela.

A improvisação nas duas cerimônias do último dia de agosto dá o tom do que nos espera. Ou setembro  será diferente?

Depois da saída de Madame, nada de novo sob o sol

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Charge do Clayton, reprodução do jornal O Povo (CE)

Carlos Chagas

Quem abrir a janela, hoje de manhã, verá a mesma luz do sol, se não estiver chovendo, e a mesma balbúrdia proveniente do trânsito, das crianças indo para a escola e das donas de casa apressadas para as compras de sempre. Numa palavra, nada terá mudado. O gosto da pasta de dentes, do café e o frio do chuveiro serão iguais.

Sendo assim, melhor ninguém se entusiasmar com os editoriais dos jornais ou a euforia dos locutores e comentaristas de rádio e televisão, a respeito de o Brasil ter amanhecido outro, diferente e promissor, por conta da deposição de Dilma Rousseff na véspera. Ou por dispormos de um novo presidente, senão cheio de promessas, ao menos disposto a minorar os efeitos da crise econômica.

É verdade que Michel Temer mandou-se para a China, quando deveria estar se mostrando por aqui, ou melhor, começando a trabalhar. Mas é preciso insistir: o país não mudou um milímetro, exceção de Madame ter sido afastada e seu substituto ter assumido, apesar de há mais de cem dias estar nas telinhas e nas primeiras páginas como interino.

SACRIFÍCIOS – Temer fica devendo uma apresentação por inteiro, em especial sobre os sacrifícios que exigirá da população e com quem espera contar para eles. Itamar Franco, na mesma situação, reuniu os líderes de todos os partidos e disse que renunciaria caso não dispusesse da boa vontade de todos na busca de soluções para os graves problemas nacionais. Só o PT saltou de banda, colhendo depois duas derrotas do Lula para Fernando Henrique. Bem feito, mas a perspectiva, para agora, parece igual.

Ficam o vazio e a interrogação: como conter o desemprego que ultrapassou doze milhões de trabalhadores? De que maneira retomar o crescimento econômico reduzindo conquistas sociais e abrindo maiores espaços para os privilégios das elites.

No fim, só haverá escombros de boas intenções

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Charge da Myrria, reprodução de A Crítica

Carlos Chagas

Hoje, afinal, o país conhecerá a sentença do julgamento de Dilma Rousseff. Salvo engano, haverá a condenação, ou seja, a maioria dos 81 senadores transmudados em juízes se pronunciará pelo impeachment da presidente da República reeleita em outubro do ano passado por 54 milhões de votos. Madame será comunicada formalmente, ao tempo em que o presidente interino, Michel Temer, saberá haver sido transformado em presidente definitivo até o final do presente mandato, a 31 de dezembro de 2018.

A ele caberá reformar ou manter o atual ministério, além de tomar todas as atitudes inerentes a um presidente da República.

O Brasil dormirá por muitas noites, ou anos, na dúvida se terá sido justo ou não o afastamento de uma presidente acusada de crimes cometidos no exercício da função.

OPINIÕES DIVIDIDAS – Duas versões passam a dividir as opiniões: Dilma efetivamente cometeu crime de responsabilidade ou foi vitima de um golpe parlamentar, desferido por inspiração das elites empenhadas em desfazer o regime de realizações sociais?

Há argumentos favoráveis às duas correntes. Uma, de que Madame assinou três decretos sem consultar o Congresso e de que se valeu dos recursos de bancos públicos para sanar dificuldades de governo. Outra, de que por trás das acusações de quebra da lei, estão os interesses das elites em restabelecer  privilégios e benesses que iam desaparecendo com os avanços sociais dos últimos treze anos.

Quem quiser que opte, pois há razão nas duas interpretações. Não se justifica afastar uma presidente eleita livre e democraticamente, como também soa injustificável aceitar que um governo adote maquiar e até distorcer leis para ganhar eleições.

O resultado aí está. Para a História, dúvidas. Para a atualidade, o risco de a crise continuar abrindo suas asas e tornando o país não só ingovernável, mas rachado entre duas concepções opostas e conflitantes. E mais a certeza de que nem eleições presidenciais antecipadas ou realizadas em 2018 solucionarão o impasse. Prevaleça o interesse das elites ou a necessidade dos menos favorecidos, entre avanços e retrocessos, estaremos à espera do embate final onde não existirão derrotados nem vencedores. Só escombros de boas intenções…

Madame conseguiu deixar o Senado de saia justa

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Dilma se manifestou com firmeza, ao enfrentar os adversários

Carlos Chagas

Quebrou a cara quem esperava que a agenda do impeachment fosse tocar fogo no circo com o depoimento, ontem, da presidente afastada Dilma Rousseff no plenário do Senado. Muitos previam e até aguardavam com prazer que Madame fosse  fulminada pela  maioria dos senadores. Não teria como responder às acusações de haver praticado crime de responsabilidade e assinado decretos sem submetê-los ao Congresso.

Aconteceu o contrário. A presidente demonstrou não só pleno conhecimento das armadilhas e dos meandros da economia. Foi sincera em detalhar   como seu governo enfrentou os graves problemas da conjuntura. Defendeu-se. Não perdeu uma, inclusive quando Aécio Neves, Ronaldo Caiado e outros adversários tentaram acutilá-la.

No pronunciamento inicial, não escorregou uma só vez, apesar da emoção. Contundente em seu diagnóstico, ainda que nenhum senador desse sinais de  mudar  convicções ou decisões a respeito de afastá-la. Ou de que os erros de sua administração possam ser esquecidos. Reconheceu-os. Também referiu-se aos “sepulcros caiados”.

LOBISOMEM – Dilma deixou o Senado de saia justa. Desmontou as armadilhas dispostas à sua frente.  Por exemplo: nem uma voz levantou-se em defesa do lobisomem que ela não poupou, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Despertou até risos quando lembrou do tempo em que metade do Congresso acotovelava-se para tirar fotografias ao lado do deputado.

Ficou claro nas muitas horas em que chegou a perder a voz: identificou,  por trás do processo  que disse sem fundamento para cassá-la, a intenção das elites de  interromper as reformas sociais realizadas nos últimos treze anos. Criticou o “governo provisório” pela extinção e redução de uma série de prerrogativas para a população menos favorecida.

Muito antes de chegar a longa madrugada de inquirições à presidente, já se sabia da inocuidade da volta por cima na decisão dos senadores, em favor do impeachment. Ela mesmo, nas entrelinhas de seus comentários, deixava óbvio  estar prestando seu  último depoimento como presidente da República. Mas, vale repetir, deixou o Senado de saia curta.

Derrotados pelo voto, ressuscitados pelo golpe

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Charge do Edra (chargesdoedra.blogspot.com

Carlos Chagas

As ameaças ainda não se concretizaram. Ignoramos se Michel Temer quer apenas agradar os grupos que conseguiram afastar Dilma Rousseff, deixando de  atender suas reivindicações, ou se está pronto para o maior dos retrocesso nacionais, de extinguir as conquistas sociais estabelecidas desde Getúlio Vargas.

Penalizar os aposentados e demolir a Previdência Social; implantar a reforma trabalhista e revogar direitos de quem vive de salário; privatizar serviços públicos, presídios, hospitais, escolas e creches; aumentar impostos e proibir correções salariais; suprimir programas sociais e ampliar os privilégios do capital em detrimento do trabalho – essas e outras mudanças nas estruturas do país estão a um passo de ser anunciadas.

São tais objetivos que serviram de estímulo e até motivo para o afastamento de Madame da presidência da República. Por mais que ela tenha demonstrado incompetência e arrogância, acima e além de seu governo ter mergulhado na corrupção, está sendo deposta pelos que ansiavam a  volta aos privilégios agora   sustentados por  Michel Temer e sua quadrilha. Não foi posta para fora pela sede de justiça demonstrada pela população, pois os que a estão depondo são, em maioria, os  mesmos que se locupletavam do  assalto à coisa pública. Apenas como cortina de fumaça referem-se à lambança, aliás promovida pelo PT e sucedâneos. A causa real do retrocesso em vias de concretizar-se está na conspiração dos derrotados pelo voto e agora ressuscitados pelo golpe. Porque não há sucedâneo para a verdade: é golpe mesmo, afirmação comprovada pela revelação dos planos de Michel Temer…