Xeque-mate num tabuleiro sem peças

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Charge do Boopo, reprodução do site Humor Político

Carlos Chagas

Agora que se aproxima o último capítulo dessa novela de horror, dois raciocínios conflitantes continuam gerando dúvidas, sobrevindo um impossível xeque-mate imposto pelos dois contendores a um só tempo: Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade, não agrediu a Constituição e não podia nem merecia ser afastada da presidência da República. Dilma Rousseff está sendo punida porque a maioria do país rejeitou o seu governo. O impeachment é o mecanismo que sobrou para afastá-la do poder por incompetência.

DUAS VERDADES – Do confronto entre essas duas verdades o Congresso decidiu-se pela segunda. O cumprimento estrito da lei perde para o sentimento nacional. Uma presidente é punida apesar de honesta e de não haver descumprido a Constituição, mas, se permanecesse no governo, o Brasil mergulharia no caos.

Evitar a queda não seria dever de deputados e senadores? Quem quiser que faça a opção. Qualquer das duas deixa mal os responsáveis pelo desfecho, mas havia uma terceira solução? O julgamento de Madame é tanto político quanto jurídico. Há menos de um ano ela foi reeleita com 54 milhões de votos, mas qual seria sua votação caso as eleições fossem hoje?

Concluem uns ser insuficiente não gostar de um governo para depô-lo. Outros falam da preservação das instituições postas em frangalhos.

A CRISE VAI AUMENTAR – Terá havido desvio de responsabilidade da presidente na origem de seu afastamento? Afastá-la do poder por incompetência? Onde se lê tal dispositivo em nossa lei maior?

Longe de arrefecer, a crise só fará aumentar. Importa pouco lembrar que o impeachment começou como um ato de vingança praticado pelo então presidente da Câmara dos Deputados. Ou que muitos senadores estão votando por interesse pessoal. Como também não esquecer que Dilma Rousseff imaginou-se acima do bem e do mal, detentora de todas as verdades absolutas, sem contas a prestar às instituições nacionais.

Em suma, um xeque-mate num tabuleiro sem peças…

Objetivo será transformar Madame em vítima, e a moda pode pegar

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Cenas degradantes no Senado que se transformou em hospício

Carlos Chagas

Foi um triste espetáculo, a transformação do Senado num hospício. Melhor, porém, que tenha sido na segunda sessão do capítulo final da batalha do impeachment, não no final. Mesmo assim, não há certeza. Pelo menos, quando Dilma Rousseff for depor, segunda-feira, o grupo das galinhas cacarejantes e do galinho maluco não encontrará pretexto para tumultuar os trabalhos. Para Gleisi, Vanessa, Fátima e Lindbergh, entre outros, o objetivo será  transformar Madame em vítima, ainda que Caiado, Renan, Magno e seus pimpolhos estejam preparados para inverter a equação.

O desempenho dos senadores na manhã de ontem, porém, foi uma fraude. Demonstrou que, se algum deus da baderna viesse a suprimir o Congresso de nossas instituições, o país inteiro aplaudiria. Com as exceções de sempre, o Senado suplantou a Câmara na encenação de uma das maiores pantomimas já verificada entre nós.

Será cobrada dos que maiores vexames ofereceram no funcionamento do Legislativo a punição da perda do mandato por qualquer Conselho de Ética. Não merecem representar o eleitorado e a federação.

Salvo inusitados, a tragédia aproxima-se do final. Dilma deve ser punida por permitir a ação da   quadrilha  que evoluiu  a  favor e contra ela.

Há quem imagine a possibilidade de Michel Temer não conseguir cumprir o anseio nacional de recuperação econômica, política e social. Tem gente preparada para apresentar em poucos dias seu pedido de afastamento. A moda pode pegar.

 

O ministro Ricardo Lewandowski obrigou-se a usar o Poder de Polícia na direção dos trabalhos, mas ficou na promessa. Bem que poderia ter determinado à Polícia Legislativa que conduzisse uns tantos senadores às celas certamente encontradas nos porões do palácio transformado em estabelecimento imoral.

É preciso começar tudo de novo, mas sem eles…

bate boca senado gleisi (Foto: Agência Senado)

Gleisi ofende os senadores (Ilustração reproduzida do G1)

Carlos Chagas

Magalhães Pinto era presidente do Senado Federal, quando o regime militar já havia perdido o frágil apoio que recebera da opinião pública  em 1964. De repente, os generais foram surpreendidos pelo fenômeno da fadiga dos metais. “Um avião ficou anos transportando passageiros de uma cidade para outra sem o menor acidente ou dificuldade técnica. Só que  um dia explodiu. Não houve erro do piloto, nem  tempestade, sequer gasolina adulterada ou sabotagem. Simplesmente, explodiu.  A causa foi afinal detectada: fadiga dos metais, que se recusaram, não aguentaram mais voar.”

PT SE EXAURIU – Isso aconteceu com a ditadura que nos assolava, hoje acontece com o sistema de governo estabelecido desde a ascensão do PT ao governo. O clímax da exaustão do regime chegou em meio ao processo de impeachment de  Dilma Rousseff. A performance do modelo incinerado por  Madame agora chega ao limite, com seus últimos defensores, ao encenar uma pantomima sem graça, sustentam que o Senado não tinha moral para julgá-la, nem o Supremo Tribunal Federal, muito menos as instituições pelas quais somos regidos.

Explodiram a ex-presidente e junto com ela tudo o que restou da aventura da Nova República. Nem se fala do papelão das três senadoras e do senador que compõem o quarteto funerário. Foram apenas os coveiros, mostrando até onde pode ir a ignorância humana.

TUMULTUANDO A SESSÃO – Gleisi, Vanessa, Fátima e Lindbergh, acolitados por mais um monte de obstinados, conseguiram botar o país em frangalhos, com a colaboração de seus adversários. Por quase três horas impediram o desenvolvimento de um processo constitucional que poderia encerrar uma sequela banal.

Entre procrastinações e agressões, contribuíram para demonstrar à população que tudo deve começar de novo. Mesmo sem eles, seus partidos políticos, suas leis, seus poderes e até seus eleitores.

Dilma já estava condenada, semanas atrás. A sentença sairá em alguns dias, caso o processo no Senado se estenda mais um pouco. Como recomeçar parece cada dia mais difícil.

O mais no mesmo permanecerá por quanto tempo ainda?

Charge do Jota A, reprodução do Portal O Dia

Carlos Chagas

Admitindo-se que Michel Temer se torne presidente definitivo da República, dentro de uma semana, seu primeiro grande problema coincidirá com o afastamento de Dilma Rousseff: o aumento salarial dos ministros do Supremo Tribunal Federal, do Procurador Geral e dos Defensores Públicos, com reflexos no custo de vida, na inflação e na popularidade do novo chefe do governo. Até agora, Michel só fez bondades e aumentou as despesas do governo. Deveria adiar mais essa, mas terá coragem?

Às trapalhadas de Madame seguir-se-á a confusão do sucessor? Continuará a população sofrendo as consequências de péssimos governos, já que as contas permanecerão sendo pagas pelo cidadão comum? Ainda mais porque o tempo das maldades está à vista de todos, com as reformas da Previdência Social e Trabalhista, além da elevação de impostos.

Não demora que novos pedidos de impeachment venham a pipocar na Praça dos Três Poderes. Porque popularidade o presidente nunca teve. Nem terá, se sua performance for igual à da antecessora.

Acaba de perder o apoio do PSDB e do DEM, sem saber se manterá o PMDB. Os sindicatos fogem dele, as massas com maior intensidade. A classe média nem chegou perto do palácio do Planalto e as elites bancam o avestruz em meio à tempestade, enfiando a cabeça na areia.

REPETIÇÃO DO DRAMA -Em suma, a nação dá sinais de distância, passo inicial para a rejeição. Não demora muito para repetir-se o drama anterior. Também, nada existe que justifique mudanças fundamentais no processo institucional. Faltam dois anos para o Brasil continuar na mesma. Só que desta vez o desfecho será pior. A continuidade do mais no mesmo levará à desagregação final.

Teria Michel Temer viajando para China, Japão, Índia, Argentina e Estados Unidos, condições para retomar o desenvolvimento nacional? Carece o provável novo governo de respaldo para dar a volta por cima.

Novas eleições gerais resolveriam alguma coisa? O povo não mudou, continua o mesmo. Os problemas, mais agudos. A desilusão, no mínimo igual. Mas a proximidade do caos, cada vez mais perto.

Os ministros do Supremo chegando aos 40 mil reais mensais, fora as polpudas vantagens, olham lá de cima os 880 reais que mais da metade da população recebe. Nem se fala, hoje, dos parlamentares, dos funcionários públicos privilegiados e de quantos se abrigam à sombra do Estado Nacional. Melhor seria caracterizar o afastamento desses dois Brasís: o formal e o real. O mais no mesmo permanecerá por quanto tempo ainda?

Não adianta brigar com a notícia: Lula é candidato e já está em campanha

Charge do Mariano, reprodução da Charge Online

Carlos Chagas

Em dois anos, tudo pode acontecer, até não acontecer nada. Assim, a indagação que se estende para 2018 refere-se a quem será o adversário do Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Porque, de início, não se cogita de acabar com o sistema de votação em dois turnos, um com todos os candidatos, outro apenas com os dois primeiros, ficando o vencedor obrigado a apresentar a metade mais um dos votos válidos.

Apesar da torcida que fazem os principais partidos, mais boa parte do eleitorado, das elites, das forças conservadoras e da mídia, a verdade é que o ex-presidente será o candidato do PT e forças afins, mais a maioria dos sindicatos e a legião dos  temerosos beneficiados dos programas sociais hoje ameaçados.

Dúvidas inexistem de que a campanha do Lula já começou, e mais se acentuará após as eleições municipais.

QUEM SERÁ O RIVAL? -Do outro lado, a incógnita prevalece: o segundo colocado será Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra, Marina Silva, Ciro Gomes, Henrique Meirelles, Ronaldo Caiado, Jair Bolsonaro ou, hipótese em aberto, Michel Temer? Um deles será forçosamente convocado a terçar armas com o primeiro-companheiro, por maiores esforços que façam seus adversários nessa frente ampla temerosa de mais uma derrota.

Torna-se necessário praticar aquela regra tão simples no jornalismo, ainda que combatida ao máximo por parte da população: é impossível brigar com a notícia. E a notícia, hoje, como ontem e talvez amanhã, dá ao Lula lugar garantido no primeiro turno das eleições presidenciais, abrindo-se o leque das especulações sobre quem ocupará o segundo lugar.

O resto são dúvidas: o ex-presidente encontrará forças para, na hora da decisão, superar a frente ampla certamente organizada contra ele?  E já entrado nos setenta anos, estará fisicamente preparado? Encontrará meios para retomar as propostas que realizou pela metade, nos seus dois primeiros governos?

A volta de Madame seria o próprio dilúvio

Charge do Tacho (reprodução do Jornal NH)

Carlos Chagas

São poucos os que acreditam, mesmo no PT, na possibilidade de uma reviravolta na sorte da já considerada ex-presidente Dima Rousseff. Está condenada. Tem uma semana para mudar o voto de sete senadores, dos 59 que já se manifestaram pelo seu impeachment. Missão quase impossível, apesar de viável na teoria.

Enquanto agora faltam dez dias ou um pouco mais, especula-se com a hipótese de Madame ser reconduzida ao poder.  Seria o que de pior pudesse acontecer ao Brasil. Começa que ficaria sem vice-presidente, pois Michel Temer renunciaria. O atual ministério estaria demitido, por inteiro. No Congresso pareceria fora de propósito formar maioria, ainda que fosse grande o contingente de adesistas dispostos a dar o dito pelo não dito.

A PIOR DAS CRISES – Na economia, os ínfimos resultados obtidos por Henrique Meirelles dariam lugar à maior das crises já verificadas na Republica. O número de desempregados se multiplicaria, assim como a falência atingiria a maior parte das empresas nacionais.

A maior dúvida, porém, diria respeito à mesma Dilma. Teria ela condições de governar uma nação nesse caso posta em frangalhos? Em que forças se basearia, já desligada do PT e sem um partido que não a tivesse repudiado? Onde buscaria apoio, sequer para encontrar auxiliares dispostos a acompanhá-la? Trata-se de um imperativo categórico reconhecer o malogro de um governo novamente chefiado por ela. Nem poderia repetir o vaticínio de Luís XV, aquele do “depois de mim o dilúvio”, pelo reconhecimento de que ela seria o próprio dilúvio.

Por tais motivos, afasta-se a visão do caos…

Por que escolher o menos pior?

Charge reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

Na multidão de sugestões, propostas e projetos sobre a reforma política, aliás até agora não realizadas, uma foi pinçada em recente reunião do PMDB em São Paulo, com direito à presença de Michel Temer. Acabar com a reeleição parece consenso no Congresso, mas por que não extinguir, também, o segundo turno nas eleições majoritárias?

O argumento em favor do fim dessa garantia de que presidentes da República, governadores e prefeitos cheguem ao poder respaldados pela metade mais um os eleitores baseia-se na contradição de um eleitor ser obrigado a votar em um dos dois candidatos mais votados. Se o seu preferido na eleição inicial não conquistar nem o primeiro nem o segundo lugar, o cidadão terá que optar entre dois que não receberam sua preferência. Escolherá o menos pior, conforme  suas concepções. Supondo que terá votado num terceiro, sentir-se-á à vontade para dar a volta por cima e escolher quem não mereceu sua confiança?

OUTRA VOLTA” – Melhor, para os defensores dessa supressão, que nas eleições majoritárias vença o que tiver obtido mais votos, independente da metade mais um que geralmente leva ao segundo turno. Essa “outra volta”, como se diz em Portugal, costuma trazer mais malefícios do que benefícios. Porque o vencedor começa recebendo votos de má vontade, a menos que o eleitor prefira votar em branco na segunda eleição.

Acresce que essa segunda eleição funciona como um torniquete junto ao eleitorado. Durante muito tempo votou-se naturalmente no candidato preferido. Se ganhou ou não, o resultado dependeu apenas dele e de seu programa de governo.

MAIS BARATAS – Não vem muito ao caso concluir que as eleições ficariam mais baratas e mais éticas. No primeiro caso, evitando a repetição da gastança obrigatória num país tão grande como o nosso. No outro, porque muitos compromissos podem cheirar mal, quando celebrados pelos dois primeiros colocados, ambos dispostos a aceitar horrores para vencer.

Registramos aqui apenas mais uma de centenas de sugestões que cruzam o céu, sem a emissão de juízos de valor. E com a ressalva de que as reformas políticas continuam onde sempre estiveram: sem ser aprovadas no Congresso.

Uma corrida futura, que já começou animada

Charge do Tacho, reprodução do Jornal NH

Carlos Chagas

Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra são candidatos à presidência da República, mas só um deles pelo PSDB. Os dois que sobrarem buscarão outros partidos. A disputa, por enquanto, restringe-se ao âmbito da legenda. Aécio tem a vantagem de ter sido candidato nas últimas eleições, mas tanto Alckmin quanto Serra também já foram igualmente derrotados.

Buscar um quarto pretendente não dá, dispostos os três a contar quantos tucanos poderão apoiá-los. Um entra com a maioria da bancada no Congresso, outro com a potência do governo de São Paulo e o terceiro com o governo federal. As primeiras escaramuças já se fazem sentir entre eles.

No PMDB, apesar das negativas, Michel Temer continua parte na equação. Em dois anos, tudo pode acontecer, até o presidente adquirir popularidade. Como tudo dependerá de Henrique Meirelles acertar com a política econômica, eis outra alternativa. Por enquanto, o maior partido nacional parece vazio de candidatos, apesar de  Roberto Requião imaginar que sua vez chegará.

Ciro Gomes entrou no PDT confiando em que será lançado. Diverge dos acima referidos por já possuir um plano de governo

Fala-se de outras hipóteses, embora por enquanto menos promissoras, como Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro, empenhados em exprimir uma banda ideológica singular. Alvaro Dias mudou de partido para poder apresentar-se.

Faltou um ser citado, que apesar dos percalços sofridos nos últimos meses, pode ocupar a pole position: o Lula está sendo bombardeado precisamente por isso.

PSDB imita os trapalhões na corrida pela sucessão de 2018

Charge do Cazo (carlosaraujoilustrador.blogspot.com)

Carlos Chagas

Continua o PSDB disputando o troféu um dia patrocinado por Dedé, Didi, Muçum e Zacarias, de saudosa memória. Depois de quatro horas de conversa com o presidente Michel Temer, os dirigentes tucanos resumiram suas reivindicações: esvaziar a bola do  ministro Henrique Meirelles para que ele não se torne candidato do PMDB à presidência da República.

São realmente uns trapalhões. Em vez de decidir quem será seu candidato, e começar a prepará-lo, o PSDB tenta enfraquecer possíveis concorrentes. Insurge-se contra o ministro da Fazenda dentro do raciocínio de que, se a economia for recuperada, ele será candidato natural.  Preferem seus caciques, então, o fracasso da política econômica, tanto que reivindicaram participar dela. Pressionaram Michel Temer não só para dar-lhes um lugar na mesa das decisões, mas também para perturbar Meirelles. Não chegarão a lugar algum na corrida sucessória, se em vez de selecionar seu candidato, ficarem tentando eliminar adversários.

Começa que o ministro da Fazenda nem pertence ao PMDB. Já foi do PSDB, quando se elegeu deputado federal, mas preferiu cair fora para presidir o Banco Central. Enfrenta olímpico desafio, agora, ao chefiar a política econômica. Caso tenha sucesso, lançar-se candidato será para bem mais tarde.

Os tucanos deveriam escolher seu preferido entre Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, sem se preocupar em queimar Meirelles. Caso contrário, ficarão voando sem rumo.

No último capítulo do impeachment, o povão ficará de fora?

Charge do Tacho, reprodução do Jornal VS

Carlos Chagas

As atenções estarão voltadas para o que parece o último capítulo da novela do impeachment, do dia 25 ao dia 31, se não sobrevierem inusitados. Foram aprovados os detalhes do julgamento final de Dilma Rousseff, com direito ao comparecimento de Madame ao plenário do Senado, para sua derradeira defesa e diálogo com os senadores, dia 29, além de depoimentos de testemunhas e coleta final dos votos, para condená-la. Tudo milimetricamente definido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski.

Uma lacuna, porém, permanece à margem da competência do ilustre magistrado: e o povo? Tem gente achando que a enfadonha tramitação do processo de afastamento de Dilma exauriu as últimas reservas de paciência do cidadão comum, que por isso dará de ombros durante os acontecimentos. O operário continuará operando, o banqueiro contando juros, o estudante estudando e o desempregado sofrendo. No máximo, uma parcela da população dividirá seus afazeres com as telinhas de reprodução da TV Senado.

Prevê-se a concentração de grupos, ainda que não de multidões, diante do palácio do Congresso, uns protestando e outros festejando a saída da presidente, não se sabe se de carro ou de helicóptero. Dificilmente procissões saudosistas ou carnavalescas desfilarão na Praça dos Três Poderes durante as prolongadas horas do julgamento. Apesar de um razoável aparato policial estar programado para zelar pela ordem na capital federal, não se tem notícia de desordens engendradas pelos sindicatos, partidos, sequer o PT, e sucedâneos. No Rio, São Paulo e outras  capitais, algumas aglomerações poderão acontecer, mas o povão, mesmo, ficará à margem, diante de  sequelas e querelas que não  lhe dizem respeito.

Com a carta na hora errada, Madame entregou os dedos e os anéis

Carlos Chagas

 

Na guerra da Coréia, quando a China entrou pela fronteira do norte e invadiu o sul daquele país dividido, empurrando as tropas americanas para o mar, o  general Omar Bradley, chefe do Estado Maior do comando dos Estados Unidos, vetou a estratégia do general Douglas McArthur, que era de bombardear os chineses com armas atômicas. Disse tratar-se da guerra errada, na hora errada e contra o inimigo errado. Evitou a terceira guerra mundial.

Guardadas as proporções, a carta da presidente afastada, Dilma Rousseff, aos senadores, foi a carta errada, na hora errada e contra o inimigo errado. Primeiro, porque se era para defender o seu mandato, Madame deveria ter atuado antes de a Câmara autorizar a licença para que fosse processada. Quando o impeachment passou para o Senado, era tarde demais.

Depois, por não ter percebido que forneceu aos senadores o argumento final para sua degola, ao propor eleições gerais fora de hora, reconhecendo a impossibilidade de continuar governando caso absolvida pelo Senado. Por último, ao insistir estar sendo vítima de um golpe capaz de ser evitado se tivesse mudado o governo e seus ministros logo depois de reeleita.

O resultado surge evidente: a carta não valeu de nada e apenas estimulou os senadores a apressar sua condenação. Até mesmo o gesto final capaz de salvar sua imagem para a História,  Sua Excelência evitou: se tivesse renunciado em vez de denegrir o Congresso, ao menos poderia sair com honra do episódio.

Pelo contrário, sai derrotada em todos os planos, a começar pelo seu próprio partido e seu criador, o Lula. Bem que a alertaram, primeiro para não candidatar-se ao segundo mandato, depois, para mudar sua equipe e suas diretrizes de governo. Não percebeu a realidade à sua volta, insistindo que a população a apoiava e que o país estava no rumo certo. Ficou como aquele recruta que marchava com passo trocado, diferente do batalhão inteiro. Tivesse renunciado e salvaria os dedos, mesmo entregando os anéis.

Reeleição, adeus? Ou tudo fica exatamente como está?

(Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Carlos Chagas

Michel Temer torna-se presidente definitivo em poucos dias, com mandato até 31 de dezembro de 2018, quando assumirá quem tiver sido eleito em outubro para um mandato de quatro anos, com direito à reeleição. Certo?

Mais ou menos, porque no Congresso a maioria pretende revogar o princípio constitucional do segundo mandato para os chefes de governo. Admite-se uma compensação, que seria a extensão dos períodos presidenciais. Havendo dúvidas a respeito de sua duração. Em vez dos oito anos com reeleição, um prolongamento de dois, quem sabe três anos para um mandato único. Essa mudança valeria também para governadores e prefeitos, beneficiando os que tivessem direito a disputar o segundo mandato em 2018.

Quanto ao atual presidente da República, parece clara a decisão de deputados e senadores de impedir sua continuação, quer dizer, Michel Temer não se valeria da possibilidade de eleger-se para um segundo mandato imediatamente depois do primeiro. Existem, assim, obstáculos a superar para a concretização do anseio nacional de se acabar com a reeleição, que só retrocessos ocasionou  em nossas instituições. A mudança constitucional foi malfeita porque estabeleceu a possibilidade de os presidentes, assim como os governadores e prefeitos, concorrerem ao segundo mandato estando no exercício do primeiro, sem se desencompatibilizarem. Um abuso, imposto e comprado por Fernando Henrique Cardoso para garantir sua continuação. Afinal, o mandatário precisa ser muito ruim para não se reeleger quando conserva o poder, a caneta e o Diário Oficial na mão.

A derrota dos candidatos à reeleição nos planos estadual e municipal tem acontecido, mas como exceção. Na esfera federal jamais aconteceu, pois Fernando Henrique, Lula e Dilma foram reeleitos.

REFORMA POLÍTICA – Em suma, mais um problema para o Congresso, relativo à reforma política, que não se sabe quando acontecerá. Caso não venha logo, aumentará a confusão. Bem que os parlamentares poderiam votar logo o fim da reeleição. Com toda a empáfia, Fernando Henrique não reconhecerá o mal feito ao país. Mesmo parecendo evidente que sem sua ambição de permanecer no palácio do Planalto além do primeiro mandato para o qual foi eleito, nenhuma dessas preocupações nos estariam aborrecendo.

Com relação à extensão dos mandatos presidenciais, mais um obstáculo: no caso de sua fixação em cinco anos, como ficariam deputados e senadores?

Mantidos quatro anos para uns e oito para outros, a coincidência de mandatos iria para o espaço.  Seria fácil estender os deputados para cinco anos, mas os senadores, por analogia, iriam para dez anos? Equivaleria a um abuso, mas fixá-los em cinco, um esbulho. Estaria desfeita a histórica diferença entre as duas casas. Em função dessas dificuldades, há quem sugira deixar tudo como está, inclusive a reeleição…

A nação sobreviverá à decadência do Estado?

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

NAÇÃO é um conjunto de indivíduos que normalmente falam a mesma língua, habitam o mesmo território, possuem passado,  cultura   e costumes comuns, assim como um mesmo objetivo e,  acima de tudo, dispõem da vontade de continuar  juntos. ESTADO existe quando uma nação se organiza politicamente, adotando instituições capazes de gerir e ordenar a nação. GOVERNO é o grupo de cidadãos que, pela força ou pelo consenso, dirigem o estado. PAÍS é o território de uma nação. PÁTRIA, apenas uma projeção sentimental do  conjunto.

Os rótulos, no entanto, não são mandamentos. De vez em quando enrolam-se e se atropelam, misturando-se e confundindo quantos imaginam  exprimir a sua exegese uma ciência exata.

Vale referir que de quando em quando nos deparamos com nações  que falam diversas línguas e mantém costumes diferentes, como a Rússia e a China.  Existem nações que habitam territórios distintos e separados, como o Paquistão e Bangladesh,  ou a Inglaterra e as Ilhas Malvinas, a França e o Suriname. Notam-se até nações sem território, como os judeus durante dois mil anos, antes da criação do estado de Israel. Também surgem nações divididas em dois estados, a exemplo das Coréias do Sul  e do Norte  e, até pouco, o Vietnã, a  República Democrática da Alemanha e a República Federal da Alemanha.

NAÇÃO BRASILEIRA – Essas simples e mal alinhadas referências nos conduzem a uma pergunta crucial: será o Brasil uma nação,  ou melhor,  continuará sendo?

A mesma língua caminha para tornar-se uma ficção, porque um gaúcho posto no Nordeste faz-se entender com dificuldade. Pronúncia, conceitos, cultura e costumes continuam se afastando, apesar dos esforços das novelas da Rede Globo.  Claro que existe um sentimento de unidade em todo o território nacional, por ação inicial do colonizador português. No empenho de ganhar dinheiro, os lusitanos realizaram esse milagre, ao tempo em que a América Espanhola fracionou-se em diversos estados e países. O passado, assim, costuma sinalizar as fraquezas de nossa formação, do Bequimão à Confederação do Equador e aos Farrapos até a predominância econômica e política de São Paulo, sem esquecer o sacrifício e a distância  do Nordeste.

Tendo em vista a calamitosa situação em que nos encontramos pela existência de dois Brasis, o formal e o real, que não adianta negar, o risco é flagrante. Já que com a evidência de a pátria só aparecer nos desfile militares e de o  governo haver perdido  a confiança e o respeito,  conclui-se que o estado vem sendo posto em frangalhos. E a nação, sobreviverá?

A desmoralização de sístole e diástole, na reforma partidária

Charge do Flávio, reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

Nunca entendi bem a diferença entre sístole e diástole, ou seja, os mecanismos cardíacos que orientam nosso sangue a fluir com maior ou menor intensidade pelas artérias.  Quem primeiro transplantou essa imagem para a política foi o general Golbery do Couto e Silva, numa de suas complexas análises a respeito do processo de abertura política no governo Ernesto Geisel. A moda pegou e agora assistimos essas variações do fluxo sanguíneo chegarem aos partidos: eles vão ou não vão ser limitados pela cláusula de barreira ou desempenho?

Porque em certos períodos de euforia da reforma política, parece que o Congresso votará dispositivos  draconianos para acabar com a farra das legendas menores e de aluguel, deixando que funcionem apenas cinco ou seis partidos capazes de cumprir  as  rígidas exigências de uma lei nova. Desapareceriam os partidos que apenas se locupletam no Fundo Partidário e de outras fórmulas para seus dirigentes e fundadores ganharem dinheiro, vendendo-se.

O problema é que logo depois segue-se o tempo de varrer para debaixo do tapete  essas propostas moralizadoras, em nome da liberdade de manifestação. Ora o próprio Congresso, ora o Supremo Tribunal Federal, consideram um atentado aos postulados democráticos proibir cidadãos de formar os partidos que bem entendem, mesmo caindo no ridículo do “partido do eu sozinho”. Sem esquecer os pequenos partidos históricos, que não satisfariam as ditas e ansiadas novas exigências, como a de disporem de percentuais significativos nas últimas eleições, espalhados em razoável número de estados.

ARQUIVAMENTO – Resultado: quando determinado projeto encontra-se em vias de virar lei, reduzindo por exemplo o vexame da existência atual de 35 partidos bagunçando a prática política, logo a proposta é rejeitada ou desfigurada a ponto de ser arquivada. E se deputados e senadores sentem-se envergonhados de mandar a proposta para o arquivo, entra em campo o Supremo Tribunal Federal para intrometer-se onde não deveria ter sido chamado.

Estamos numa fase em que a sístole arrefece e a diástole acelera. Ou será o contrario? De qualquer forma, escafedeu-se o veto à proliferação de partidos políticos, coisa que há um mês parecia próxima. Não se fala mais no projeto, entre deputados e senadores. Uns por comiseração e solidariedade, outros por malandragem, a impressão é de que de novo continuaremos com a desmoralização pela existência de cada vez mais partidos.

Somando os que funcionam com os que se encontram em formação e pedido de registro, logo teremos 70 legendas. Convenhamos, um absurdo, em condições de desmoralizar sístoles e diástoles e de promover considerável enfarte no sistema  sanguíneo…

Dilma Rousseff poderá renunciar, antes da cassação?

Charge do Kácio, reprodução do site Metropoles

Carlos Chagas

Previsto para começar dia 25, o capítulo  final do julgamento  de Dilma Rousseff estará encerrado até o dia 31. No círculo cada vez  mais apertado de seguidores de  Madame, há quem defenda sua ida ao Senado, não apenas para defender-se perante a Historia, mas para, num gesto final de protesto, renunciar. Antes que os senadores começassem a votar pela sua cassação, ela se retiraria do plenário e do processo.

Seria uma reação capaz de misturar as versões daqui a 50 ou 100 anos, mais ou menos como aconteceu com Deodoro da Fonseca. Afinal, ele foi obrigado a renunciar, pela conspiração de Floriano Peixoto, ou surpreendeu o país demonstrando a impossibilidade de governar com a Constituição de 1891?

Do jeito que os fatos se acumulam até agora, os estudantes do século XXII disporão de uma única versão do atual período bicudo: a presidente foi posta para fora por ação do Congresso. Se renunciasse, embaralharia as cartas com o relato de que renunciou reagindo a um golpe de estado. Na verdade, há muito pouca  diferença entre as duas interpretações, mas à medida em que o tempo passar, mais se confundirão os doutos historiadores com a natural simpatia ou antipatia pela figura da presidente.

O que fez Fernando Collor, diante alternativa de perder o mandato por ação de deputados que o acusavam de corrupção, foi renunciar  proclamando-se inocente, coisa que o Supremo Tribunal Federal depois confirmou. Optou pela renúncia, forma de protesto que mais tarde serviu para torná-lo senador. Será que Madame cogita de iniciativa igual?

A renúncia, agora, funcionaria como reação a uma cassação inevitável, ensejando à renunciante condições para apresentar-se como vítima de um golpe, que os analistas do futuro tentarão desvendar.

Madame vai, mas eles (os petistas) ficam e têm de disputar eleições

Charge do Ricardo Maurício, reprodução do Arquivo Google

Carlos Chagas

Dilma Rousseff vive um permanente inferno astral, apesar de fazer aniversário apenas em dezembro. Até a carta que pretendia endereçar aos senadores e à nação em geral vem sendo sabotada pelo Lula e dirigentes do PT. Só falta os Correios se negarem a transportá-la. Madame pretendia, e ainda mantém a disposição, de referir-se ao  seu impeachment como um golpe parlamentar. Não pouparia agressões verbais para reagir ao seu afastamento do palácio do Planalto, em vias de tornar-se definitivo. Pois não é que seus companheiros discordaram e até ameaçaram vir a público declarando a discordância?

Os motivos são óbvios: ela vai e eles ficam. No caso, vai para o esquecimento e ficam para disputar as eleições de 2018. Lula está cada vez mais disposto a concorrer à presidência da República daqui a dois anos. Por falta de opção, o PT estimula a aventura. Por que iriam, então, tornar impossível a convivência com os senadores que, ofendidos, poderiam criar obstáculos para a candidatura?

É natural que a já quase ex-presidente proteste por todos os meios e adjetivos contra sua cassação. Se não merecia governar o país, pelas lambanças que fez, também não merecia ser deposta por crimes que não praticou.

Parece dispensável a carta, que deverá ser redigida e expedida na próxima semana, porque não mudará o voto dos senadores, mas a presidente afastada não abre mão do desabafo. No mínimo para os livros de História. Quantos dos 59, talvez mais, senadores que votarão contra a remetente mendigaram benesses e favores quando frequentavam seu gabinete? É natural que se sintam constrangidos e incomodados, na hora de ler lamentos e acusações. A começar por Renan Calheiros, que faz pouco mudou-se com armas e bagagens para o batalhão de Michel Temer.

Nada mudaria no país, se a Madame voltasse ao poder

Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Carlos Chagas

Além de haver permitido a corrupção à sombra de seu governo, Dilma Rousseff ofereceu uma das piores performances administrativas de todos os tempos, levando a economia ao fundo do poço e a política à estratosfera. Por isso, merece a condição de ré, prestes a ser cassada.

No reverso da medalha, porém, não cometeu crime de responsabilidade, que justificaria sua degola.

São duas situações conflitantes e inconciliáveis. Partidários de uma e de outra tem razão. Madame merece ser afastada por incompetência, mas foi eleita pela maioria da população, ainda que tenha perdido o apoio do eleitorado.

Tudo indica que no fim do mês perderá definitivamente o mandato, mas a decisão de Câmara e Senado fundamentam-se na razão de seu péssimo governo e da necessidade de o caos ser evitado?

Aqui a equação enrola. Apesar de sobejas evidências de que se permanecesse até 2018 no poder o país iria à bancarrota, os motivos de sua defenestração parecem outros. Desde a investidura do Lula, 13 anos atrás, adotou-se um novo plano de voo para o Brasil. Em vez da anterior concepção neoliberal de governo, onde as elites mantinham e ampliavam seus privilégios, impondo esse modelo às massas, chegou à presidência da República um candidato tido como partidário de mudanças estruturais nos planos social e econômico. Se preferiu ater-se ao assistencialismo, perdendo a oportunidade de promover reformas de base, é outra história.

Era o que a maioria da população queria, mas o Lula preferiu acomodar-se às linhas principais do figurino da prevalência do capital sobre o trabalho, que o eleitorado havia rejeitado. É verdade que realizou pequena parte das promessas reformistas da sua campanha, promovendo a inclusão social de camadas menos favorecidas e ampliando a participação das massas. A sucessora, escolhida por falta de opção, prometeu realizar o muito que faltava, mas quebrou a cara. Fracassou até onde o Lula havia tido sucesso.

Foi quando as elites aproveitaram a oportunidade de revogar os avanços mesmo medíocres da transformação social para retomar o modelo de sua dominação absoluta. Sentiram a fragilidade de Dilma e o malogro de sua política econômica, que ajudaram a tornar pior.

O resultado aí está: o impeachment e a entrada de Michel Temer, defensor do retorno aos tempos do predomínio total das elites. É o que começamos a viver com a redução de direitos sociais, as reformas previdenciária e trabalhista, a contenção salarial, o aumento de impostos e demais mandamentos do catecismo neoliberal.

De nada adiantaria a permanência de Dilma no governo, se fosse para evitar o retrocesso.

Prova olímpica sem medalhas, numa desnecessária maratona

A sessão se prolongou, em busca de um resultado óbvio

Carlos Chagas

Na sessão que começou na manhã de terça-feira e entrou pela madrugada de ontem, horas preciosas de sono foram desperdiçadas pelos 81 senadores empenhados em degolar Dilma Rousseff. Não todos, é claro, pois 21 tentaram salvar o pescoço de Madame. Depois da aprovação do relatório de Antonio Anastasia, durante a apreciação do terceiro de um dos quatro destaques derrotados, já quase no fim da reunião, um dos governistas amarelou, quase reduzindo a maioria para 58 senadores e ampliando a minoria para 22. No final, Renan Calheiros se absteve e foi praticamente definido o placar da novela a ser encerrada no fim do mês: 59 a 21, ainda que certeza, só no fim da derradeira votação.

Faz muito que todo o plenário e a torcida do Flamengo sabiam desses números, tornando-se um desperdício ficarem os senadores por mais de 17 horas amontoados no plenário. Engana-se quem supuser que permaneceram em recatado silêncio, ouvindo os discursos e intervenções. Sob o olhar vetusto do ministro Ricardo Lewandowski, que presidia a sessão como presidente do Supremo Tribunal Federal, Suas Excelências conversavam, riam, contavam piadas e brincavam com os abomináveis joguinhos de telefones celulares.

Um discurso foi elogiável: do ex-ministro da Justiça e Advogado Geral da União, Eduardo Cardoso, na defesa do Dilma Rousseff. Não adiantou nada, pois todos já tinham opinião formada.

NADA DE NOVO – A trinca do barulho, Gleisi Hoffmann, Vanessa Graziotin e Lindbergh Farias, marcou a mesma presença de sempre, tumultuando e procurando protelar os trabalhos, mas dessa vez esbarrou na inflexibilidade do ministro  Lewandowski, que extremamente polido e  educado, impediu excessos.

A senadora Vanessa teve tempo, em função dos dois intervalos na longa reunião, de se dirigir ao seu gabinete e trocar duas vezes de roupa.

Agora que se inicia o julgamento da presidente afastada, com oitiva de testemunhas e arrazoados finais, a expectativa  é de mais uma olímpica sessão do Senado para o afastamento definitivo de Dilma. Só que não haverá medalhas a distribuir. A grande dúvida é saber se haverá tempo para o presidente Temer deixar de ser interino para poder viajar para a China.

Um partido à deriva leva medalha de ouro no pódio do fracasso

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Carlos Chagas

Ganha o PT a medalha de ouro na disputa pelas aspirações frustradas e os objetivos invertidos.  Dilma Rousseff sobe as escadas do cadafalso e em poucos dias estará decapitada. O Lula procura salvar-se do precipício e Rui Falcão obrigou-se a vender a mansão que possuía. José Dirceu conforma-se em envelhecer na prisão, Jacques Wagner sumiu. Os ex-tesoureiros do partido lamentam as condenações que os privaram da liberdade e antigos dirigentes buscam o anonimato. Até as convenções municipais para a escolha de candidatos a prefeito não se realizaram, ou transcorreram em segredo. Suas bancadas no Congresso desistiram de tentar salvar o mandato de Madame, mas nem cogitam da reconstrução, lançando tênues esperanças apenas na sucessão de 2018, caso o Lula decida disputar o retorno.

A campanha pelas eleições municipais não começou, o melhor que os companheiros pretendem é ser esquecidos. Se elegerem um único prefeito de capital, no caso de Rio Branco, no Acre, dar-se-ão por satisfeitos.

O partido que um dia aspirou mudar o Brasil agora recolheu-se e nem planos faz para sua renovação. Omite-se a juventude, indiferente à necessidade  de deitar ao mar a carga que sobrou da tempestade.

Dirão os companheiros otimistas que a mesma pasmaceira tomou conta dos outros  partidos. Mas acontece que o percentual de desânimo do PT supera os demais.  Também, bem feito…

Como dizia o ministro Armando Falcão, o futuro a Deus pertence…

Charge do Tacho, reprodução do Jornal NH

Carlos Chagas

Licenciado da presidência do PMDB, nem por isso Michel Temer se descuida da imagem do partido. Recomendou aos principais líderes para não deixarem sem resposta as acusações de participação nos malfeitos investigados pela Operação Lava Jato e sucedâneos. Se tiveram culpa, devem reconhecê-la e arcar com as consequências. O objetivo é preparar o PMDB para resistir às investidas dos  adversários e estar a postos para disputar as eleições presidenciais de 2018, das quais já se considera afastado. Claro que não cuidará de nomes, por enquanto, mas não afasta a hipótese de comandar o processo de escolha, buscando aliança com os partidos aliados. Nesse arco de especulações, por que não Henrique Meirelles, no caso de sucesso da atual política econômica?

Ministros historicamente filiados ao maior partido nacional, como Eliseu Padilha e Geddel Vieira Lima, torcem o nariz para a possibilidade de o ministro  da Fazenda sair na frente, mas de forma alguma se disporiam a sabotá-lo ostensivamente.

Sabe o PMDB que sua aliança com o PSDB tem prazo de carência. Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra disputam  a pole-position, podendo até o governador de São Paulo e o ministro das Relações Exteriores cederem à tentação de buscar uma legenda alternativa, caso o senador mineiro mantenha o controle dos tucanos.

CONTRA LULA – Outra preocupação do presidente ainda interino refere-se ao PT. Reconhece o desgaste olímpico dos companheiros a evidência de que eles só tem no Lula  a única  opção, por sinal nada desprezível.  Daí a blitz já desencadeada contra o ex-presidente, e que mais se acentuará com o tempo.

É cedo para elaborar cálculos fulanizados em torno dos nomes referidos ou de outros, mas como descendente de árabes, Temer não se esquece do tradicional ditado de seus ancestrais, de que “bebe água limpa quem chega  primeiro na fonte”. Daí haver desmentido, mas sem  a veemência que seria  de esperar, a hipótese de concorrer à reeleição. Por enquanto, a recepção que teve no Maracanã pela abertura das Olimpíadas responde a qualquer indagação, mas como dizia o polêmico ministro da Justiça, Armando Falcão, “o futuro  a Deus pertence”…