A explosão do presidente

Imagem relacionada

Charge do Nani (nanihumor.com)

Carlos Chagas

Ao aterrissar no aeroporto Santos Dumont, o então avião presidencial, o BAC-One Eleven, raspou sua cauda na pista. Mesmo assim, taxiou normalmente, até a parada dos motores. O chefe da Segurança, coronel Vale, alertou os passageiros para que deixassem rapidamente a aeronave, que poderia explodir. Recomendou ao presidente Costa e Silva, que corresse. O velho general irritou-se e respondeu: “O presidente explode mas não corre!”

O episódio se conta a propósito de outro presidente que, às voltas com a explosão de seu governo, procura manter uma postura de normalidade. Apesar de seis de seus ministros estarem incluídos na lista do Janot, passíveis de condenação, Michel Temer recomendou a todos continuarem no exercício de suas funções, como se nada tivesse acontecido.

A gente fica pensando no que acontecerá caso Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil, puxando a fila de outros, venha a se transformar em réu do Lava Jato. Conseguirá o presidente preservar a dignidade de seu governo? Quando pipocarem evidências de malfeitos de parte de sua equipe, junto com as demissões, receberão a protocolar carta de elogios e agradecimentos pelos serviços prestados?

Não seria melhor dispensá-los antes, em silêncio, para evitar o vexame? Nada parece mais oportuno do que uma reforma do ministério, ampla, geral e irrestrita. Até hoje o governo, com raras exceções, tem sido um condomínio de facções partidárias ávidas de participar do poder e de suas benesses. Desafia-se que alguém, hoje, possa citar na ponta da língua, os nomes de todos os ministros e suas respectivas filiações. Muito menos suas realizações.

A oportunidade é ímpar para trocar todo mundo, abrindo espaços para a convocação de auxiliares sem compromisso com a corrupção. Fora daí, o risco é de Michel Temer explodir, junto com as instituições…

 

 

A insatisfação dos excluídos está nas ruas

Capa Folha de S.Paulo - Edição São PauloCarlos Chagas

De repente, acordaram as centrais sindicais, os sindicatos, as corporações e demais entidades que se imaginava adormecidos. O povo foi para a rua. Impossível desconsiderar o que aconteceu no país inteiro, quarta-feira. Trabalhadores e desempregados deram sinal de estarem vivos nas manifestações verificadas nas capitais dos estados e principais cidades, protestando contra as reformas da Previdência Social e trabalhista. Poucos entreveros, a maioria dos protestos verificou-se em clima de ordem, nem por isso menos assustador.

A partir de agora, depois de razoável interregno, o ator principal está de novo no palco, insurgindo-se contra o modelo das reformas elitistas. Não faltaram, sequer, os veementes protestos contra Michel Temer, uma espécie de representante maior da insatisfação popular.

ENSAIO GERAL – Assistimos um ensaio geral da peça que em 2018 será encenada com toda pompa e circunstância pela sucessão presidencial.  Daqui por diante, mais se farão ouvir os protestos do Brasil Real frente à ação das forças empenhadas em dar marcha-a-ré no processo político-institucional. Não foi por acaso que as manifestações coincidiram com a condenação da banda podre do conservadorismo, no caso, a revelação dos agentes da lista do Procurador Geral.

Adianta muito pouco minimizar a voz das ruas novamente entoada para quem quiser ouvir. Não parece fora de propósito imaginar que nas próximas vezes em que o povo se manifestar, subirá a temperatura. A insatisfação dos excluídos poderá chegar a limites perigosos, mas explicáveis.

Em suma, erguem-se obstáculos aos retrocessos programados pelo neoliberalismo.

A CONTA-GOTAS – Melhor seria que o ministro Fachin abrisse logo o sigilo das acusações ao mundo político, revelando quantos deputados, senadores, ministros e ex-ministros, governadores e demais espécimes do bloco da corrupção, bem como suas praticas delituosas. A revelação a conta-gotas só faz aumentar as agruras da classe política.

Os caçadores derrotarão o lobo mau

Resultado de imagem para Eliseu padilha charges

Padilha, o Lobo Mau, quer a Chapeuzinho Vermelho

Carlos Chagas

Chapeuzinho Vermelho entrou toda faceira no quarto da Vovozinha, levando na cesta café com leite, queijo e uma maçã. A velha tirou a cabeça dos lençóis e espantou a netinha. “Vovó, para que esses olhos tão grandes?” “Para melhor te ver, minha querida”. “E essas mãos tão compridas?” “Para melhor de abraçar, meu bem”. “E essa boca com dentes tão feios?” “Para melhor te comer, meu petisco!” A história para crianças não termina assim, porque logo vieram os caçadores, mataram o lobo e retiraram a Chapeuzinho e a avó de sua barriga, ficando todos felizes.

A historinha se conta a propósito da chegada dos líderes dos partidos ao gabinete do chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, ontem. Tinham sido convocados para cuidar da reforma da Previdência Social. Espantaram-se quando ouviram dele apavorantes ameaças no caso de o projeto do governo não ser aprovado. Perderiam as benesses e vantagens, não teriam apoio nenhum e seriam derrotados nas eleições do ano que vem. Cederam, dispostos a aceitar a proposta, antes de ser deglutidos, quando um deles exclamou: “Vamos chamar os caçadores!”

Parece evidente a reação da base parlamentar oficial à proposta que penaliza os assalariados e retira dos menos privilegiados os derradeiros direitos ainda vigentes. Pior fica a situação quando se acrescenta a reforma trabalhista.

O governo insiste e aterroriza o Congresso, diante do horror das mudanças apresentadas sob a promessa de recuperação da economia nacional. Ninguém escapará, nas eleições do ano que vem. Muito menos o empresariado, iludido com as promessas de ser favorecido com o sacrifício das massas. Elas são os caçadores, ávidos de arcabuzar quantos, como Eliseu Padilha, imaginam sobreviver à anacrônica iniciativa das prerrogativas do Lobo.

FULMINADA A CAIXA DOIS

Quem faz as contas sobre a próxima decisão a ser adotada pelo Supremo Tribunal Federal conclui pela condenação do Caixa Dois conforme puxa a fila a opinião da presidente Carmem Lúcia: é crime mesmo. Nas investigações que se seguirão, responderão quantos tiverem recebido esses recursos ilícitos, tanto faz se em dinheiro podre ou não.  

Adeus, renovação política

Resultado de imagem para reforma politica charges

Charge do Sinovaldo, reproduzida do Jornal VS

Carlos Chagas

Feito o lobisomem que aparece nas noites de lua cheia, caiu no Congresso, mais uma vez, a proposta da eleição de deputados em lista fechada, na discussão da reforma política. O eleitor não votaria no candidato de sua preferência, mas na sigla de um partido cujos caciques comporiam a relação dos companheiros dignos de receber os votos. Imagine-se quem os dirigentes partidários colocariam nos primeiros lugares: eles mesmos, ainda que se fosse para ser votados individualmente, ficariam na rabeira.

Trata-se de mais uma vigarice dos mesmos de sempre.

Fica estranho que depois de a Câmara dos Deputados haver rejeitado a sugestão, tempos atrás, ela retorne impávida pela manobra dos mesmos de sempre. Quem puxa a fila, agora, é o presidente do Congresso, Eunício Oliveira, por sinal o senador mais votado no Ceará.

A reforma política segue os passos da vaca: vai para o brejo, ainda que se tenha a certeza de sua rejeição pelo bom senso.

A reforma política ressurge em meio à crise gerada pela tentativa de aceitação do caixa dois, outra agressão abominável. Suas Excelências imaginam que uma das duas excrescências acabará aprovada, coisa que lhes basta para continuar boiando no esgoto.

Nada de novo acontece sob o sol. Porventura aprovada a lista fechada, seria inócuo o desvio de recursos ilícitos do caixa dois para a preservação dos mandatos dos controladores dos partidos. Garantiriam seus lugares, verdadeiramente o que lhes interessa. A renovação ficaria para as calendas, em todas as legendas.

 

A sucessão na estaca zero

Resultado de imagem para lula candidato charges

Charge do Mariano, reproduzida da Charge Online

Carlos Chagas

Aécio Neves e Geraldo Alckmin estão na lista de Janot, a ser divulgada em breve. Há rumores de que José Serra também. Não há cláusula de inelegibilidade para nenhum dos três, pelo menos enquanto não forem condenados em segunda instância. Mas se forem, ficarão afastados da sucessão de 2018. Sobrará espaço para João Dória Júnior, apesar de suas sucessivas declarações de que cumprirá até o fim o mandato de prefeito de São Paulo.

De repente, instaura-se a dúvida no ninho dos tucanos. Certeza também não há no PMDB, porque se a recuperação econômica naufragar, Henrique Meirelles ficará de fora. Como Michel Temer, pelos mesmos motivos e mais o juramento de que não disputará o segundo mandato.

O leque de outras opções não anima ninguém.  Marina Silva eclipsou-se, Ciro Gomes não é mais o mesmo, Jair Bolsonaro marcha de pé trocado, Ronaldo Caiado não rompe os limites de Goiás, Joaquim Barbosa sumiu e quaisquer outros nem lembrados são.

A conclusão é de que apagaram o quadro negro, restando apenas o Lula, que esta semana confirmará sua candidatura pelo PT. Também cercado de obstáculos e armadilhas da operação Lava Jato.

Em suma, a sucessão presidencial volta à estaca zero. Como só daqui a um ano a disputa ressurgirá, aguarda-se o aparecimento de novas hipóteses.

QUEM SERÁ O CHEFE? – A Segunda Guerra Mundial aproximava-se o fim e perguntaram ao maior líder militar da Inglaterra, Bernard Montgomery, a razão de seu sucesso. Cheio de arrogância e empáfia, ele disse aos jornalistas ser porque não bebia, não fumava, não jogava e não prevaricava.

Winston Churchill agastou-se e chamou os repórteres, dizendo: “Podem escrever que eu bebo, fumo, jogo e prevarico, mas sou o chefe dele…”

O episódio se recorda a propósito das mudanças que o presidente Michel Temer promoverá no ministério, assim que divulgada a segunda lista do Janot.

A farsa da livre competição

Resultado de imagem para OPORTUNIDADES IGUAIS CHARGES

Charge sem autoria (Arquivo Google)

Carlos Chagas

Tome-se um pimpolho bem alimentado, bem vestido e feliz, que vai à escola particular, tem direito a festa de aniversário todo ano, é levado à Disney, e, acima de tudo, recebe o amor dos pais. Coloque-se ao lado dele um desses meninos de rua, maltrapilho, que não sabe quem foi o pai ou onde está a mãe, com os dentes podres sem nunca ter ido ao dentista e obrigado a buscar alimentação na lata do lixo.

Vamos promover uma corrida entre eles, colocando-os lado a lado e dizendo que ganha quem chegar primeiro no próximo quarteirão.

Sem tirar nem pôr, esse é o modelo econômico que nos assola, da livre competição entre quantidades e valores desiguais. Dá no mesmo quando os meninos crescem e a diferença entre eles se amplia. Mesmo se não ceder à tentação do crime e da marginalidade, um vai continuar enfrentando o desemprego, passando fome e recebendo, no máximo, o vergonhoso salário mínimo. O outro progride, torna-se empresário, especula na bolsa, aumenta seu patrimônio e torna-se dirigente político, mesmo se aceitando que não recebe propinas nem se torna cliente da operação Lava Jato.

PARA O BREJO – Para onde vamos? Para o brejo, atrás ou na frente da vaca. De pouco adianta fornecer a um dos menininhos escola gratuita, uniforme, merenda e transporte. Ou, depois de crescido, bolsa-família, luz para todos e “minha casa, minha vida”. É falsa a alegação de que todos tiveram as mesmas oportunidades de progredir. Turva-se a visão da sociedade com essa farsa que serve apenas para entupir consciências e manter o modelo cruel em funcionamento.

Basta atentar para o conteúdo das reformas propostas pelo governo para promover a justiça social, da previdenciária à trabalhista e à tributária. Nenhuma delas irá melhorar a vida das massas. Todas beneficiam as elites.

A “livre competição” está em marcha, enganando os ingênuos e satisfazendo os vigaristas.

Enganados e sufocados

Resultado de imagem para LULA ENGANADOR CHARGES

Charge do Kacio (kacio.art.br)

Carlos Chagas

Quando o PT foi para o poder, frustrado desde sua fundação, derrotado três vezes com o Lula, mas afinal vitorioso, imaginava-se mudança fundamental na vida do país. Afinal, mesmo de forma lenta e gradual, porém segura, parecia ter chegado a hora do andar de baixo. Não mais a prevalência dos beneficiados pela fortuna, pelo berço ou pelas maracutaias, senão os primeiros passos para a conquista da melhoria das condições de vida dos despojados da fortuna e da ascensão dos trabalhadores a patamares menos cruéis de sobrevivência.

Empolgaram a imensa maioria dos cidadãos as pregações sobre igualdade, extinção dos privilégios de uns poucos e fim da livre competição entre quantidades e valores desiguais.

Seria extinta a miséria, reduzida a pobreza e gradativamente poderiam desaparecer as diferenças sociais responsáveis pelo fato de sempre os ricos ficarem mais ricos e os pobres, mais pobres.

APOIO ENTUSIASMADO – Era nesse objetivo que se fixava o pequeno grupo de intelectuais e acadêmicos, entusiasmados com a experiência ímpar de ver um operário no governo. Também compareciam os sindicatos, a Igreja, os universitários e até parte da classe média.

Claro que mais se organizavam, desde muito já organizadas, as mesmas camadas beneficiadas de sempre, fáceis de identificar no empresariado, nos donos da terra, nos especuladores, banqueiros e demais condutores de uma sociedade que, pelo jeito, esgotara-se e se condenava ao fracasso.

Abria-se o palco para o confronto entre o passado e o futuro, ainda que subordinado a vícios de lá e de cá, corolário da imperfeição humana da qual jamais nos livraremos.

Pelo menos, estava evidente a importância de se alterar o modelo que nos acompanha desde o Descobrimento, cada vez mais sofisticado por maior sacrifício das massas e festa das elites. Criava-se no país a consciência da necessidade de interromper a progressão das vantagens que o dinheiro concede aos senhores e falta faz aos vassalos.

EQUILÍBRIO E IGUALDADE – Imaginava-se, vale repetir, haver chegado o tempo do equilíbrio, pelo esforço de um grupo disposto não a recuperar, mas a criar o espaço de igualdade, porque liberdade, afinal, mesmo distorcida, já tínhamos, e fraternidade, conseguiríamos à força.

Alguma coisa se conseguiu, mas é preciso atentar para o fato de que desde a primeira eleição do Lula, as elites foram cooptando os personagens. Até o próprio, surpreendendo com uma anacrônica Carta aos Brasileiros, não endereçada aos seus eleitores, mas a leitores interessados em preservar benesses e vantagens. Ao redor, vicejaram falsos aliados, antigos cultores das mudanças, mas empenhados em isoladamente ascender de patamar através da corrupção, do roubo e da mistificação.

Apesar disso, algum resultado o primeiro companheiro conquistou, advindo daí sua reeleição. O diabo foi o segundo mandato. Sem reação, o Lula entregou-se aos destinatários da malfada carta. O ideal igualitário naufragou e foi para as profundezas quando, não podendo disputar um terceiro período, vendeu sonhos que não eram mais dele. Assumiu a incompetência em forma de mulher. Foi simples questão de tempo as elites voltarem ao poder e às reformas que mais uma vez massacram e sufocam a maioria, de novo  enganada e sufocada.

Choro e ranger de dentes

Resultado de imagem para lista de janot charges

Charge do Boopo (Humor Político)

Carlos Chagas

No Congresso, ressurge a proposta de ser anistiado o recebimento de ajuda eleitoral pelo caixa dois. Não se encontram deputados e senadores dispostos a votar contra. Depois que o Supremo Tribunal Federal admitiu como crime até o caixa um, Suas Excelências replicam com a iniciativa celerada.

Foi mais uma vez protelada a divulgação da lista do procurador Rodrigo Janot, no caso, a segunda, quando nem a primeira é conhecida. Deputados, senadores e ministros andam apavorados com a perspectiva de ter seus nomes conhecidos, na semana que vem. Mas também confiam em que, de novo, mudarão a lei para escapar de incriminações.

O risco é de novamente ficarem impunes os parlamentares que se elegeram com dinheiro podre. Sofrem também os vigaristas hoje sem mandato. No Congresso, há quem esteja sem dormir, pois pelo menos 150 seriam referidos como beneficiados pelas falcatruas.

Outra sombra a pairar sobre a Praça dos Três Poderes refere-se ao futuro. Nas eleições do ano que vem, quando a maioria disputará a reeleição, estão proibidas as doações por empresas. Campanhas milionárias, só por candidatos milionários. Como a maioria parlamentar disputará as preferências do eleitor? O fundo partidário não chegará para todos, talvez nem para os caciques. A quase totalidade das empresas, com as empreiteiras à frente, decidiram não abrir os cofres. Resultado: choro e ranger de dentes…

OS GOVERNADORES – Quantos governadores integram a lista? Se forem os 27, não haverá surpresa. Mas uns poucos escaparão. Não muitos, porque as empreiteiras agiram nos Estados até com mais desfaçatez. Sofrem os que pretendiam candidatar-se à reeleição, abrindo-se para eles a frustração de buscar outros caminhos.

É preciso rasgar o véu da impunidade

Resultado de imagem para LISTA DE JANOT CHARGES

Charge do Giancarlo, reprodução do Arquivo Google

Carlos Chagas

Tarda a divulgação da lista do Procurador Rodrigo Janot, parece que em sua segunda versão, mesmo se desconhecendo a primeira. Seriam 150 deputados, senadores e ministros envolvidos com a corrupção. Até agora, Suas Excelências conseguiram empurrar com a barriga a possibilidade de, denunciados, perderem os mandatos, os direitos políticos e a prerrogativa de se candidatarem à reeleição, ano que vem.

Alguma coisa não bate, nessa protelação que deixa mal o Supremo Tribunal Federal.

Nos tempos do Descobrimento, anos se passaram sem que as naus portuguesas conseguissem dobrar o Cabo Bojador, depois do qual se imaginava o oceano despencando num precipício cheio de monstros e dragões. Foi preciso que Vasco da Gama seguisse adiante, contornasse o continente africano e afinal chegasse às Índias.

Falta um capitão corajoso para enfrentar o desconhecido, como também um novo Henrique, o Navegador, para estimular a aventura.

O impasse diante da corrupção, hoje, lembra a epopeia lusitana daquele idos. Faltou coragem nos dois casos, até que um desbravador se animasse a seguir em frente.

Quem romperá o véu da impunidade? O próprio Janot? Marco Aurélio Mello ou Carmem Lúcia?

O PMDB E SEU CANDIDATO – De forma lenta e gradual, cristaliza-se no PMDB a evidência de que existe apenas um candidato capaz de disputar a sucessão presidencial do ano que vem. Certamente com cláusula de desempenho: Henrique Meirelles, se a recuperação econômica vingar. Ele já pertenceu ao PSDB, elegendo-se deputado sem ter assumido. Agora, seria a salvação do PMDB.

Mudar o modelo, para conseguir crescer 

Resultado de imagem para reformas charges

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Carlos Chagas

Baixou sobre o Brasil a sombra do Capeta, com a divulgação pelo IBGE da queda de 3,6% do PIB, em 2016. Foi a confirmação do caos que vínhamos sentindo desde a reeleição de Dilma Rousseff, que agora queima nas chamas do esquecimento. Aliás, por onde andará a ex-presidenta? Adianta muito pouco a esfarrapada contestação de Henrique Meirelles, a respeito de já termos voltado a crescer. Apenas se confirmou o mergulho no precipício, do qual emergiremos quando Deus quiser, e parece que ELE não quer.

Porque não será com as reformas da Previdência Social, trabalhista e outras mudanças favoráveis aos mesmos de sempre que o país se irá recuperar.

MODELO PERVERSO – Do que necessitamos é quebrar as estruturas do modelo vigente há décadas, sempre fazendo os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres. Para começar, imediatas eleições gerais, capazes de expelir os responsáveis pela débacle atual. Coisa que só acontecerá pela proibição de concorrerem quantos exercem mandatos eletivos. Mais a dissolução dos partidos políticos em funcionamento. E uma nova Constituição acorde com as necessidades da população carente, ou seja, a maioria dos cidadãos.

Utopia? Sonhos de noite de verão? Ilusões impossíveis de se materializar?

Os três mosqueteiros já são quatro

Resultado de imagem para AECIO, ALCKMIN, SERRA E DORIA

Só está faltando o quarto destaque da ala dos tucanos…

Carlos Chagas

Geraldo Alckmin movimentou mais uma peça no xadrez sucessório ao declarar, domingo, desejar ser candidato à presidência da República. Todo mundo já sabia, é claro, mas como o nome do prefeito João Dória Júnior passou a sensibilizar os setores mais conservadores do PSDB, entendeu o governador de garantir seus espaços.

Aguarda-se agora a réplica de Aécio Neves, mesmo em vias de ter seu nome relacionado com a lista da Odebrecht. Alckmin também será citado e sabe das dificuldades em superar a vantagem do presidente do partido, pela própria função exercida, por isso não fecha as portas para uma futura mudança de legenda. Como essa hipótese só se viabilizará no primeiro semestre do ano que vem, há tempo de sobra.

Impossível negar que João Dória Júnior poderá superar a afirmação de apoiar a indicação de Geraldo Alckmin, caso as pesquisas, daqui por diante, favoreçam seu nome.

E JOSÉ SERRA? – O problema dessas evoluções no ninho tucano está na pouca projeção do PSDB na corrida sucessória. Onde, por exemplo, insere-se José Serra na equação? Renunciando ao ministério das Relações Exteriores, dias atrás, o senador paulista ficou menos engessado para curvar-se à hierarquia partidária. Também poderá mudar de partido para disputar o palácio do Planalto. O singular na história é que tanto Aécio quanto Alckmin e Serra são três derrotados em passadas eleições presidenciais.

Em suma, continuam as especulações, indicando que os três mosqueteiros agora são quatro, com a chegada de João Dória Júnior. Alexandre Dumas não faria melhor.

Nomeação do novo Assessor de Imprensa do Planalto é mais um golpe em Padilha

Resultado de imagem para luciano suassuna jornalista

Luciano Suassuna vai comandar a Imprensa no Planalto

Carlos Newton

Em mais um eletrizante capítulo da novela do esvaziamento da facção de Eliseu Padilha no Planalto, o jornalista Luciano Suassuna assumiu nesta segunda-feira (dia 6) o cargo de assessor de Imprensa da Presidência da República. Com isso, a facção do presidente Michel Temer ganha mais um importante cargo na hierarquia palaciana, enquanto Padilha passa a contar apenas com o apoio de dois assessores de primeiro escalão – o advogado Gustavo do Vale Rocha, da Subchefia Jurídica da Casa Civil, e o jornalista Márcio de Freitas Gomes, da Secretaria de Comunicação Social (Secom).

DEVAGAR E SEMPRE – O estilo de Temer é lento, dissimulado é preciso. O primeiro passo para esvaziar Padilha, a partir de outubro, foi deixá-lo de fora da maioria das reuniões políticas internas e externas, nas quais o presidente passou a ser acompanhado por Moreira Franco, que nem ministro era. Padilha fez cara de paisagem, fingiu que não era com ele e continuou se comportando como todo-poderoso do governo, inclusive criando problemas com outros ministros.

O segundo passo de Temer foi dado em 3 de fevereiro, com a nomeação de Moreira Franco para ministro da Secretaria-Geral, que passou a controlar hierarquicamente três importantes setores do Planalto (Cerimonial, Administração e Comunicação Social), que desde o início do governo eram subordinados à Casa Civil.

No sábado de Carnaval (dia 24), Temer aproveitou a ausência de Padilha, que estava prestes a ser operado, e afastou o chefe da Assessoria de Imprensa, Douglas de Felice, ex-assessor de Renan Calheiros. Para que não houvesse problemas, deu a ele um emprego de melhor remuneração, como assessor da presidência do Sebrae, e sepultou o assunto.

SÓ FALTA UM – Agora, para retomar inteiramente o controle da Comunicação Social, só falta se livrar do secretário Márcio de Freitas Gomes. Aliás, ao assumir a Presidência em maio de 2016, Temer nem queria nomeá-lo, mas sofreu forte pressão de Padilha e dos demais caciques do PMDB, teve de ceder.

Márcio Gomes pode até continuar na Secom, mas está totalmente esvaziado. Será uma presença meramente decorativa, por ser um jornalista sem maior experiência, que passou muitos anos como assessor do PMDB e depois ficou encostado como assessor de Temer na Vice-Presidência da República, não fez carreira na profissão.

Quanto a Luciano Suassuna, trata-se de um jornalista de verdade, com trajetória vitoriosa no Correio Braziliense, Veja, Estadão, Zero Hora e IstoÉ. Já ganhou dois prêmios Esso de Reportagem, publicou três livros sobre política e jornalismo. Em 1993 recebeu, junto com o jornalista Luís Costa Pinto, o prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem por “Os Fantasmas da Casa da Dinda”.

UMA SITUAÇÃO ESTRANHA – Essa disputa entre as facções de Padilha e Temer é uma situação estranha e inusitada, porque isso nunca aconteceu, muitos jornalistas ainda nem acreditam que esteja havendo esse imbroglio. Afinal, o presidente da República detém a caneta. Portanto, basta manejá-la, sempre que se sentir incomodado. Mas acontece que Temer só chegou ao poder porque foi carregado pelos caciques do PMDB. Era um dos participantes do grupo e teve de se tornar refém deles, pois o governo foi claramente fatiado e compartilhado.

Com as demissões de Romero Jucá, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, a prisão de Eduardo Cunha, o esvaziamento de Renan Calheiros e Edison Lobão, o recolhimento de Jáder Barbalho e a licença de Eliseu Padilha, pela primeira vez Temer está respirando sem aparelhos e começa a montar sua própria estrutura no Planalto, junto com Moreira Franco, que está citado na Lava Jato, porém jamais integrou a elite dos caciques do PMDB.

JORNALISTAS CERCEADOS – Desde que a Tribuna da Internet publicou, com absoluta exclusividade, as primeiras matérias sobre a disputa de poder, o ambiente ficou ainda mais pesado no Planalto. No dia 27 de setembro, os jornalistas ficaram proibidos de circular sozinhos. Para entrar no terceiro andar (Presidência) e no quarto andar (Casa Civil e Secretaria de Governo), até hoje têm de ser acompanhados por funcionários da Secretaria de Comunicação.

É claro que isso deve acabar na gestão de Luciano Suassuna, assim que ele estiver adaptado às novas funções, em meio à intrigalhada que hoje caracteriza o Planalto. E com toda certeza a Assessoria de Imprensa vai parar também de mover campanhas difamatórias usando notícias falsas. como acorreu com os ministros Medina Osório (AGU) e Marcelo Calero (Cultura), para forçá-los a deixar o governo.

###
PS – Somente vão continuar (por enquanto) as notícias falsas divulgadas pelos assessores sobre a doença de Padilha, que foi muito mais grave do que se divulgou, pois ele não deverá ter condições de assumir na próxima segunda-feira, ao contrário do que a imprensa continua a anunciar, repetindo as informações manipuladas pelo pessoal da Casa Civil. Como dizia nosso amigo Ibrahim Sued, em sociedade tudo se sabe. (C.N.)

Começar tudo de novo

Resultado de imagem para caixa dois

Charge do Jean Galvão, reproduzida do UOL

Carlos Chagas

Fica estabelecido que só por milagre a chapa Dilma-Temer será separada pelo Tribunal Superior Eleitoral no julgamento dos abusos e excessos praticados nas eleições presidenciais de 2014. Ambos formam uma só unidade, quer dizer, os argumentos para a cassação de uma se estenderão para o outro. Dilma terá pouca coisa a lamentar, apenas a perda de seus direitos políticos por oito anos. Como já não tinha mesmo vontade nem condições de retornar à vida pública, continuará onde está, ou seja, no ostracismo perpétuo.

Com Michel Temer é diferente. Tem a perder o poder maior, a presidência da República. Claro que a decisão da corte eleitoral poderá ser revista pelo Supremo Tribunal Federal. Confirmada a sentença, no entanto, três hipóteses se armam: assume o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para convocar eleições indiretas ou completar o mandato até 31 de dezembro de 2018; o segundo colocado nas eleições anteriores, Aécio Neves, é convocado e ganha o direito de governar o país; ou serão antecipadas as eleições e começará tudo de novo.

Uma dúvida insere-se nessa última opção: qual a duração do período de governo? Quatro anos, como estabelecido na Constituição, extinguindo-se a coincidência de mandatos legislativos com o de presidente da República ou esticando-se o período de deputados e senadores?

Mais oportuna seria a última possibilidade, capaz de passar o rodo na crise que nos assola. Em meio à decisão do TSE, que não se sabe quando acontecerá, melhor seria apagar o quadro-negro.  Em especial porque no meio do cipoal bem que o Congresso poderia promover a tão anunciada e jamais concretizada reforma política.

Também surge a alternativa de não acontecer nada, se Michel Temer conseguir protelar o julgamento até o final de seu mandato. Só que não decidir poderá ser pior do que qualquer decisão…

A festa no céu já terminou para o PT

Resultado de imagem para FIM DE FESTA DO PT CHARGES

Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Carlos Chagas

O sapo pediu ao urubu para entrar na sua viola e voar com ele para o céu, onde haveria uma festa de arromba. O batráquio divertiu-se como nunca, a ponto de não perceber que a festa estava acabando e o urubu já tinha descido. Não teve outro remédio senão pular, arrebentando-se todo aqui em baixo.

A fábula se conta a propósito do PT. Foi para as alturas, esbaldou-se e festejou sua intimidade com o poder. Fez de tudo em matéria de corrupção, como se fosse o dono da festa. Só que agora se vê sozinho, sem poder retornar às suas bases. O urubu não vai voltar para resgatá-lo. Não tem outra saída a não ser o pulo.

O PT já teve 72 deputados federais, agora possui 57 e quantos conseguirá eleger em 2018?

CANDIDATURA – Tudo depende do Lula. Sendo candidato e conseguindo superar a rejeição que o envolve, certamente contribuirá para a permanência do partido entre os maiores do Congresso, ainda que não mais o primeiro. Mas se for alijado da disputa por conta da Operação Lava Jato, deixará o PT sem pai nem mãe. Como também sem urubu capaz de levá-lo aos sindicatos ou mesmo a outra festa no céu.

O partido que já foi dos trabalhadores não tem como chegar a eles, sequer para evitar as reformas previdenciária e trabalhista. Não se tem notícia de qualquer campanha petista contra as reformas celeradas propostas pelo governo Michel Temer. Muito menos de sua aliança com as centrais sindicais. O desemprego de 13 milhões de trabalhadores parece não lhe dizer respeito. A festa no céu acabou mesmo.

Falta a lista dos acusados

Resultado de imagem para janot charges

Charge do Sete (rafaelsete.com)

Carlos Chagas

Não se passa um dia sem o festival de corrupção apresentar mais um número envolvendo velhos e novos atores. O autor, por enquanto, é a  Odebrecht, mas muitos outros estão na fila.  A bilheteria é um sucesso, ora registrando 200 milhões de reais distribuídos por diversos partidos políticos, ora misturando propinas com caixa dois, expondo as entranhas de governos passados e atuais.

Uma pergunta, porém, não quer calar: a origem do dinheiro podre distribuído ao universo partidário. A entrega de milhões para candidatos de toda espécie, em todas as eleições, decorre de supostos favores prestados ou a prestar para a realização de contratos e benefícios que deputados, senadores, ministros e altos funcionários facilitarão através de suas atividades rotineiras.

Tudo indica que, mesmo a passos de tartaruga, o Judiciário conseguirá desbastar o cipoal de que assola o país e levar os culpados a julgamento. Fica em aberto, no entanto, o problema da reposição aos cofres públicos do produto surripiado. Multas têm sido impostas aos corruptos e aos corruptores, mas com poucas chances de se materializar.

Já tarda a divulgação da lista dos culpados, devida pelo Procurador Geral da República. Espera-se que antes de terminado seu mandato, possa liberar os nomes dos acusados e as quantias distribuídas. Os vazamentos até agora verificados deixam a desejar, quando o total permanece desconhecido.

Um diálogo inexistente

Resultado de imagem para executivo e legislativo charges

Charge do Amarildo , reproduzida do Arquivo Google

Carlos Chagas

Nos partidos da base oficial, existem deputados e senadores que criticam a forma de o governo fazer as coisas, não  as coisas que o governo faz. Tome-se a reforma da Previdência Social. Gostariam líderes do PMDB, PSDB, PP, PDT e penduricalhos que, antes de o presidente Temer ter encaminhado ao Congresso o elenco de mudanças no setor previdenciário, deveria ter aberto com os partidos a discussão sobre o que precisava ser feito. O palácio do Planalto teria, assim, uma radiografia das tendências parlamentares, antes de apresentar apenas sua imposição. O trabalho comum serviria para ganhar tempo, uma vez que todos concordam com a reforma, ainda que sem acordo sobre o que reformar.

Tem sido sempre assim, no relacionamento entre Executivo e Legislativo, fora das ditaduras.  O primeiro prepara pratos feitos que manda para o outro, infenso a cumprir ordens. Por isso abre-se sempre o impasse sobre as mudanças. Caso houvesse um debate prévio, essas mudanças começariam a tramitar já com uma tendência conhecida. Poupar-se-ia tempo.

NÃO ABREM MÃO – O problema é que os dois poderes são presunçosos e egoístas. Não abrem mão do que entendem ser suas prerrogativas, este pretendendo impor sem dialogar, aquele imaginando-se absoluto na função de mudar tudo.

O resultado, não raro, são os impasses e a perda de tempo, quando tudo poderia ser diferente caso se acertassem previamente. Nenhuma das partes se sentiria diminuída. Do jeito que o processo se desenvolve, frustra-se o governo ao ver dilapidada sua proposta, como frustram-se os partidos, obrigados a remendar o que será o produto final. Confirma-se a observação inicial: a forma de o governo fazer as coisas deixa a desejar, ainda que concordem todos com as coisas que precisam ser feitas.

Apenas um detalhe a mais: precisaria esse diálogo acontecer em sigilo, à margem dos holofotes, porque a atuação diante das câmeras e microfones perturba o sentido das coisas.

Contradições legais, tão comuns no Brasil

Charge do Nani (nanihumor.com)

Carlos Chagas

O Tribunal Superior Eleitoral avança, o relator Herman Benjamim parece inclinado a condenar a chapa Dilma-Temer, vitoriosa em 2014, por abuso do poder político e econômico. Nesse caso, a lei estabelece a anulação do resultado. Como Dilma já foi objeto do impeachment e Temer assumiu, apenas ele será punido com o afastamento. Nesse caso, abrem-se duas hipóteses: ou vai para o poder o segundo colocado nas eleições passadas, no caso Aécio Neves, ou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assume a presidência da República para convocar eleição indireta para completar o mandato até 31 de dezembro de 2018.

Só que a Constituição determina que presidentes da República só possam ser processados por crimes cometidos no exercício de seus mandatos. Temer estaria fora do alcance da punição, pois assumiu depois das eleições.

SEM PUNIÇÃO – É absurda essa cláusula de limitar o afastamento apenas ao período em que o condenado exerce o mandato presidencial, mas está na Constituição. Vamos que Temer, antes de chegar ao palácio do Planalto, tenha assassinado alguém. Não poderá ser punido. Só depois de completado o mandato correrá o processo. Assim, se tiver incurso em abuso de poder antes de empossado, ficará incólume até ser sucedido pelo próximo presidente.

De qualquer maneira, um terremoto abalará as instituições, mesmo tanto tempo depois das eleições presidenciais, se o Tribunal Superior Eleitoral anular a vitória da chapa Dilma-Temer. É o que poderá acontecer. Sem esquecer que o PSDB, autor do processo ora em conclusão, é hoje o maior auxiliar do governo Temer no Congresso. São as contradições legais tão frequentes em nossa vida política.

O testamento de Adão na Era Moderna

Resultado de imagem para temer diz que não é candidato em 2018charges

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Carlos Chagas

Portugal, com o rei D. João III, Espanha, com o imperador Carlos V, e o Vaticano, com o papa Alexandre VI, mancomunaram-se para a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que dividiu entre as duas potências ibéricas a recém-descoberta América do Sul, que nem se chamava assim.

Agastou-se François I, rei da França, garfado pela impossibilidade de participar do festim. Não reconheceu o tratado e ainda por cima fez chegar aos adversários singular contradita:  “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me  afastou da partilha do mundo…”

O testamento de Adão continua frustrando muita gente. Por exemplo, quem deu a Michel Temer o direito de eleger-se presidente da República sem ter-se submetido a eleições? Através de manobras parlamentares fajutas, depois do impeachment  de  Dilma Rousseff, o então vice assumiu o palácio do Planalto de forma nada ética, apesar de constitucional. O resultado é que no passado carnaval, milhões de foliões gritavam “fora Temer!”, até obrigando o governo a expedir nota oficial acentuando que não se pronunciaria.

Acima e além da lei, existe a natureza das coisas, e ela indica a rejeição da nação ao presidente da República. Ainda que conseguisse feito milagres, acabando com o desemprego, a fome, a miséria e a corrupção, Temer continuaria contando com o repúdio nacional. Repetiu outra vez, nessa quarta-feira de Cinzas, que não se candidatará à reeleição. Seria bom conferir, em 2018, porque além da evidente ambição de todo ser humano, a realidade é de que o PMDB não tem candidato saído de seus quadros. Como maior partido na sustentação do governo, faltam alternativas políticas e pessoais para a disputa. Sobra apenas Michel, pois parece claro que a recuperação econômica jamais se alcançará em dois anos, coisa que favoreceria Henrique Meirelles. Sendo assim, para garantir a poderosa estrutura montada a partir do PMDB, resta só ele. Esse raciocínio começa a germinar nas bancadas do partido e mais crescerá. É preciso perguntar: e a nação? Melhor encontrar logo o testamento de Adão…

A posse do futuro presidente, em 2019

Resultado de imagem para republica velha charges

Charge do Mollica, reprodução do Arquivo Google

Carlos Chagas

Na República Velha, hoje seria dia de votação, de quatro em quatro anos. Eleição fraudada, sem ser secreta, com as mulheres proibidas de votar e sem Justiça Eleitoral. O cidadão votava declarando seu voto a um funcionário público, que anotava o voto num livrão.  Por isso jamais um candidato do governo perdeu. A data comemorava a vitória do Brasil na Guerra do Paraguai. O diabo é que para a posse do eleito, nossos avós procuraram outra data significativa e acharam a Proclamação da República, 15 de novembro. Resultado: oito meses e meio de interregno, quando o presidente eleito viajava para a Europa ou descansava placidamente, compondo seu ministério. Estava tudo arranjado, as crises eram raras, tudo fora acertado pelos poderosos Partidos Republicanos de Minas e São Paulo, ou seja, os fazendeiros desses dois Estados, com raras exceções.

O tempo passou, já votamos em muitas outras datas, ou não votamos, ficando pela Constituição de 1988 o voto no primeiro domingo de  outubro, com a confirmação em outra votação no último, se ninguém alcançar a metade mais um dos votos, no primeiro.

Já votamos em variadas datas, inclusive no repudiado 31 de março, mas hoje metade do Brasil e dos demais países do mundo encontra-se sob os eflúvios das comemorações da passagem do ano. O resultado é que poucas autoridades estrangeiras conseguem vir, sem falar em nós mesmo.

Já se tentou mudar a data, estendendo-a por alguns dias, mas com tantas reformas políticas em pauta, a proposta não vingou. Por que surripiar do novo presidente dez dias que sejam de mandato?

Quando mais uma vez o Congresso tenta estabelecer umas tantas mudanças institucionais, jamais acontecidas, ressurge outra vez a sugestão, que dificilmente será aprovada.

Essas considerações se fazem a propósito do primeiro de janeiro de 2O19. O novo presidente acordará mais cedo, deputados e senadores também, mas o importante será saber quem. Em sã consciência, ninguém arrisca um palpite.

 

Temer anda para trás, sem rumo

Imagem relacionada

Charge do Clayton, reproduzida de O Povo/CE

Carlos Chagas

O Curupira tem os pés para trás, ou seja, não se sabe se anda para a frente ou de marcha-a-ré. Desse jeito, o presidente Michel Temer: apostava em Dilma Rousseff, passou a inimigo do PT, prometeu o liberalismo e agora é candidato a não completar o mandato por conta do Tribunal Superior Eleitoral. Se ele for considerado incurso em crime de perturbar a eleição de 2014, perderá a presidência da República, como a antecessora já perdeu. Nesse caso, abre-se o leque: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, cumpre o resto do mandato, ou a Justiça determina que Aécio Neves, segundo colocado nas eleições passadas, assuma o poder. Duas soluções capazes de dissolver o que resta das instituições e deixar o país em frangalhos.

Sendo assim, melhor que o Curupira continue a transitar pela floresta, ou seja, que Michel Temer permaneça no palácio do Planalto, mas com rumo certo.

NAU SEM RUMO – A pergunta é para quê está no governo. Deixar a caravela ao léu, sem rumo nem porto de arribação, ou condenada ao naufrágio inevitável em meio à tempestade, é o que desenha à frente.

Abre-se diante do atual presidente uma única saída: reunir os líderes de todos os partidos e anunciar que devem unir-se em torno de um programa de salvação nacional ou ele renunciará.

Assim fez Itamar Franco, depois da débâcle de Fernando Collor. O então vice-presidente não deixou alternativa. Naqueles idos, prevaleceu o bom senso e todos concordaram num ministério de união, do qual apenas o PT saltou de banda.

A situação se repete, até como farsa.

Governar com a obrigatória distribuição de favores, benesses e falcatruas aos partidos e demais forças inerentes à nação será o portal do caos. Apelar para a unidade em meio à desagregação, a saída.

Para começar, o Curupira precisaria dissolver tudo o que erigiu até hoje. Não apenas um novo ministério, mas a reformulação das diretrizes retrógradas impostas pelas elites conservadoras em ação. Nada de reformas favoráveis aos mesmos de sempre, muito menos o retrocesso aos tempos do neoliberalismo.

Em suma, Itamar Franco deixou exemplo singular e necessário. E o Curupira, terá coragem para imitá-lo?