Para ser ouvida e respeitada em Davos

Carlos Chagas

Com a presidente Dilma de volta a Brasília, chegou a hora de o governo passar da teoria à prática. Depois das exortações de Natal e Ano Novo,  a respeito de a economia irem bem, apesar da guerra psicológica de certas elites, abre-se a oportunidade da demonstração.

Que tal, por exemplo, para estimular investimentos externos,  apertar os parafusos fiscais? Porque lá fora muitos potentados deixam de aplicar seus recursos no Brasil por conta da desorganização nas contas públicas e nos gastos do governo.  Como seria suicídio cortar despesas sociais, forçar demissões e aumentar impostos, o caminho que se abre é o oposto: enquadrar  quantos burlam  o fisco, enviam centenas de milhões para paraísos fiscais e remetem lucros inexistentes para suas matrizes. Demonstrar ao investidor estrangeiro que somos um país sério, disposto a poupar internamente através da devida cobrança a quantos fazem de nós joguete de suas falcatruas, podendo, assim, definir a devida remuneração aos que se dispuserem colaborar com nosso desenvolvimento.

Pode parecer uma contradição, mas é por aí que Dilma se credenciaria a ser ouvida e respeitada no fórum de Davos, para onde se dirigirá dentro de poucos dias. Se ficar apenas na promessa de que nos constituímos num paraíso para os especuladores,  estará estimulando a vigarice.  Mas se demonstrar que quem vier de boa fé acabará saindo satisfeito, melhor para todos.

Há muita coisa a mais no dever de casa a ser feito este ano, sem prejuízo das metas eleitorais da reeleição e da manutenção de forte base parlamentar na Legislatura a se iniciar  ano que vem. Por exemplo: escolhendo novos ministros nos partidos que apóiam o governo, necessidade fundamental para a vitória nas urnas,  mas não aceitando a imposição de vigaristas e incompetentes. Selecionando, no arraial de cada um, gente séria  e honesta, que sempre será possível encontrar, mesmo com lupa e paciência.

Em suma, um objetivo da presidente é  a reeleição, mas outro, maior,  será   coroar seu primeiro mandato com uma performance que faça do segundo uma continuação necessária. Além de manter a política assistencialista, precisará avançar em iniciativas em condições de garantir a  ascensão dos  assalariados a novos patamares sociais. Quais? A cogestão, a participação dos trabalhadores no lucro das empresas, o restabelecimento de direitos suprimidos ao longo dos últimos anos, como a estabilidade no emprego, um  salário-família real, até um salário mínimo acorde com a Constituição, bem como  a proibição de demissões  imotivadas, como a que acaba de fazer uma montadora multinacional. Para isso existe o Estado, jamais para proteger interesses elitistas e escusos.

DESRATIZAÇÃO

Começa agora em janeiro intensa atividade no Congresso, mesmo com deputados e senadores de férias, m seus estados. Mesmo os representantes de Brasília deram no pé. A movimentação que acontecerá, já contratada pelas mesas da Câmara e do Senado, será para expurgar insetos, baratas e ratos que infestaram o Legislativo durante o ano passado. Conseguirão?…

Mateus, primeiro os teus

Carlos Chagas

Começa segunda-feira a temporada de reforma do ministério, com prazo para terminar apenas na primeira semana de abril. Ministros candidatos como Gleise Hoffmann, da Casa Civil, querem sair já, menos porque tem cadeira no Senado, mais para dedicar-se à sua campanha para o governo do Paraná. Mas ministros sem mandato parlamentar, como Alexandre Padilha, da Saúde,  candidato ao governo de São Paulo, lutam para permanecer no ministério o mais possível,  até abril, por conta do excelente palco capaz de  reforçar sua candidatura.  Entre os dois existem pelo menos mais dez ministros oscilando entre sair logo ou ficar o máximo possível, de acordo com suas conveniências eleitorais.

De todos pode-se afirmar: são muito mais candidatos do que ministros, na medida em que desenvolvem apenas ações administrativas capazes de render-lhes votos.

Caberá à presidente Dilma compor esse mosaico de interesses e pretensões, sabendo que quem sofre é o seu governo. Chegou a ser cogitada por ela uma data única, agora em janeiro, onde todos os ministros  candidatos seriam demitidos, mas o coração falou mais alto. Para não prejudicar Fernando Pimentel, por exemplo, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio,  candidato ao governo de Minas, deverá mantê-lo no tempo que for necessário.

Admite-se doze ministros dispostos a disputar as  eleições, mas o número é variável. Outros  ainda examinam suas possibilidades, em especial os que pleiteiam governos estaduais.  Alguns  de que nem se  fala examinam ou já terão tomado  a decisão de retornar ao Congresso. Quem sabe de  tentá-lo pela primeira vez.

De tudo, a conclusão inevitável:  “Mateus, primeiro os teus”, quer dizer, importa menos aos ministros candidatos como se desenvolve a administração federal, mesmo que ela  vá  andando devagar, quase parando,   por conta das  ambições políticas  de cada um.  Quem se prejudica é a presidente Dilma.

DOIS BILHÕES PARA COMEÇAR

No último dezembro o governo liberou perto de dois bilhões de reais em emendas individuais de deputados e senadores ao orçamento. Claro que os integrantes da base oficial foram melhor aquinhoados do que os da oposição. Não se contesta  a importância teórica das emendas individuais, agora tornadas impositivas para investimentos em saúde e educação. Apesar daquele percentual de malandragem em certas emendas, onde o autor se beneficia financeira ou politicamente, a maioria das propostas serve para melhorar a situação dos municípios carentes, além de favorecer instituições voltadas para  obras sociais e congêneres.

Estranha-se, porém, a coincidência: às vésperas do ano eleitoral, aumentaram as liberações, de forma desproporcional. Imagine-se então o que acontecerá até outubro…

Congresso versus Supremo

Carlos Chagas

Acontecerá em fevereiro  o primeiro embate político de vulto. O Supremo Tribunal Federal acabará de votar a proibição de doações de empresas para as campanhas eleitorais, registrando-se forte tendência pela aprovação entre seus onze ministros. O problema é que o Congresso, pela voz dos presidentes da Câmara e do Senado, já considerou a suposta decisão como interferência indevida do Judiciário nos assuntos do Legislativo.

Farão o que, deputados e senadores, diante do fato consumado? Claro que a proibição, mesmo oriunda do Supremo, não valerá para as eleições de outubro. Prevalece a norma constitucional de que  modificações no processo eleitoral não podem  ser adotadas no período de um ano que antecede as eleições. Mesmo assim, o Congresso precisará dar resposta imediata à intervenção da mais alta corte nacional de justiça, sob pena de ficar desmoralizado. Acresce que se não houver um basta à prática legisferante dos tribunais, mais para o fundo do poço cairão os parlamentares. Em especial às vésperas da renovação de seus mandatos. Muito pouco fizeram em termos de reforma política e perderão votos se deixarem para a próxima Legislatura a correção do que  entendem como uma aberração institucional.

2014 não será o ano da verdadeira reforma política, mas alguma coisa precisará ser feita. Talvez a votação do financiamento público das campanhas e a regulamentação das doações privadas, claro que sem impedir a participação das  empresas, mas limitando-as. Tudo para 2016 em diante, mas a aprovação terá que acontecer neste primeiro semestre.  O segundo, por conta das  campanhas variadas, inclusive de presidente da República, será tempo de recesso remunerado para Suas Excelências.

NÃO ADIANTA ESCONDER

A mídia tentou colaborar, mas não conseguiu transmitir a  versão de que na passagem do ano todos os brasileiros e visitantes transformam-se em anjos, arcanjos e querubins.  O que mais se viu e ouviu pela televisão  foram loas aos dois milhões que  celebraram a data nas areias de Copacabana e mais os dois milhões na Avenida Paulista, em perfeita ordem.  Tudo festa, tudo confraternização.

Não foi bem assim. Lá e cá, muita gente se viu assaltada. Grupos de pivetes promoveram arrastões. Até tiroteio aconteceu. Turistas foram atacados, furtados e roubados. Uma evidência de que o Brasil  continua o mesmo.

Indignação e desespero

Carlos Chagas

Melhor oportunidade não haverá do que um ano eleitoral para despertar   a energia da indignação e acionar  a explosão do desespero. Em especial porque o ensaio geral  aconteceu a partir de junho do ano passado. Vem coisa por aí, não é preciso ser profeta para imaginar. Porque nada mudou de essencial desde as manifestações de protesto diante dos péssimos serviços públicos, do descalabro na educação e na saúde, dos deficientes transportes coletivos, da falta de oportunidades para a juventude, da corrupção, da impunidade e do desdém  que os privilegiados dedicam às massas.

O grave é que não há um comando central, muito menos uma ideologia a impulsionar esses movimentos gerados pela frustração social. Décadas de descaso encoberto pela propaganda e  pela truculência levaram a maioria à situação de não haver retorno. Certos governos e algumas elites bem que demonstraram sensibilidade, mas foram levados de roldão pelo aumento das necessidades e das exigências.  Assistencialismo dirigido não basta.

É bobagem imaginar que tudo não passará de baderna praticada pelos black-blocs, pois eles nada mais são do que  espuma encimando vasto tsunami prestes a invadir o território nacional. Seria bom prevenir,  ao menos para evitar que o processo eleitoral não venha a constituir-se no maior  sacrificado no altar da   indignação e do desespero. Chegamos ao limite em que concessões não adiantam mais. É preciso mudar, reformar, até revolucionar.  Mas como? E com quem?

Nunca será de mais buscar exemplos na História. Luis XVI  tentou evitar o caos. Convocou os Estados Gerais, aceitou a diminuição da influência e dos privilégios da nobreza e do clero, reconheceu a Assembleia Nacional, depois Assembleia Legislativa,  até botou no chapéu os laços tricolores. Mesmo assim, acabou levado à força de Versailhes a Paris para depois ser guilhotinado. Antes, ao tomar conhecimento da queda da Bastilha, indagou se era uma rebelião. Responderam-lhe que não.  Era a revolução.  Na França, a  explosão popular acabou com a monarquia. Só que depois veio Napoleão…

TARSO FINCA PÉ

Exigência do governador Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, para candidatar-se à reeleição: que a presidente Dilma compareça apenas ao seu palanque, durante a campanha.  Como PMDB e PP terão candidatos, e  ela tem no segundo mandato sua prioridade maior, o governador talvez venha a desiludir-se…

 

Brasil não pode entrar 2014 na contramão da História com tentativa de censurar o STF

Carlos Newton

Projeto de lei que pretende acabar com a transmissão ao vivo dos julgamentos do Supremo Tribunal Federal pela TV Justiça, protocolado no último dia 18 pelo deputado Vicente Cândido (PT-SP), pretende, segundo o deputado, diminuir a exposição da corte e o “sensacionalismo exacerbado por parte de ministros”.

Essa iniciativa, coincidindo com o julgamento do Mensalão e com as prisões decretadas, pode parecer até uma espécie de retaliação ao tribunal, com desvio de finalidade do Parlamentar, o que por si só é grave. No entanto, conforme podemos acompanhar no cenário internacional, a tendência global é no sentido inverso, qual seja, a de ampliar a publicidade e transparência dos julgamentos dos Tribunais com transmissões pela televisão e internet. Não cabe ao Congresso interferir no funcionamento do STF nesse grau de detalhamento.

Reportagem de João Ozório de Melo no site Conjur mostra que os ministros da Suprema Corte dos EUA são os únicos que resistem às câmeras. Ao contrário do Brasil, congressistas americanos estão se empenhando em aprovar legislação que, de certa forma, “obrigue” a Suprema Corte dos EUA a liberar a transmissão ao vivo de suas audiências. O Comitê Judiciário do Senado elaborou um projeto de lei que, a qualquer momento, pode chegar ao plenário da Casa para votação.

ATRASO TECNOLÓGICO

A crítica de maior peso foi publicada dia 28/12, em artigo assinado nos jornais Los Angeles Times e Boston Herald, pela presidente da Suprema Corte de Ohio, ministra Maureen O’Connor. Ela escreveu que a Suprema Corte dos EUA é a única grande instituição da civilização ocidental que ainda não entrou no Século XXI, tecnologicamente.

De acordo com a ministra, as Supremas Cortes de todos os estados já permitem transmissões ao vivo por TV ou pela internet. Os tribunais de recurso estão adotando a medida progressivamente, a seu critério, liberando transmissões de audiências do plenário pleno — e não do painel de três juízes. O último foi o tribunal federal de recursos de São Francisco (Califórnia), que já começou a transmitir seus procedimentos.

No artigo, a ministra criticou alguns dos argumentos dos ministros da Suprema Corte, a começar pela defesa que fazem de seu direito de se manter longe das câmeras, porque são avessos à ideia de se tornarem figuras públicas e porque preferem a privacidade. “Eles não têm nenhum problema com a perda da privacidade, quando aparecem em frente a câmeras para promover um de seus livros”, ela afirmou.

No entanto, disse a ministra, o público tem todo o direito de ver os membros da Suprema Corte em ação, quanto o de escrutinar seus prefeitos, governadores e parlamentares. “A população tem uma expectativa de que, se alguma coisa é realmente importante, deve ser testemunhada em primeira mão”, ela escreveu.

“Praticamente todas as instituições de governos democráticos, em todo o mundo, responderam a essa expectativa da população, permitindo a transmissão de seus procedimentos por TV ou online. Menos a Suprema Corte dos EUA. Hoje em dia, mesmo julgamentos em fóruns criminais podem ser vistos até em smartphones, a 10 mil metros de altura”, afirmou.

“Está na hora de os tribunais darem um passo à frente e abrir seu sistema judicial historicamente opaco ao público, com a liberação de todos os tipos de câmeras”, escreveu.

Quem tem medo de Joaquim Barbosa?

Carlos Chagas

A melhor resposta a essa pergunta seria dizer: “todo mundo”. Claro que uns mais, outros menos. O medroso mais recente parece ser o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, menos porque as  pesquisas revelam o presidente do Supremo Tribunal Federal com percentuais superiores a Aécio Neves e a Eduardo Campos, perdendo apenas para Dilma, mais porque a vaidade do sociólogo continua monumental.

Referindo-se como uma aventura  a hipotética candidatura de Barbosa ao palácio do Planalto, FHC negou-lhe “as características necessárias para conduzir o Brasil sem causar grandes crises”. Acrescentou faltar ao  ministro traquejo para a vida partidária, “pois uma coisa é ser juiz e outra ter a capacidade de liderar um país”.

Mesmo elogiando sua performance como relator do mensalão, “tendo atuado com perseverança e clareza”, agrediu possíveis    eleitores de Barbosa como despreparados que desejam um “salvador da pátria”, coisa que “não dá bom resultado e mostra que a nossa democracia ainda não está consolidada. É perigoso”.

Dispensa-se um diploma de psicólogo ou de psiquiatra para perceber nas palavras de Fernando Henrique três motivações: ressentimento, frustração e medo. Primeiro porque até hoje o ex-presidente da República não admite possa governar alguém  mais capaz do que ele. Assim pensa do Lula e de Dilma, com respingos para Aécio. Depois porque apesar de entrado nos anos, conserva aquele recôndito desejo de que ainda o venham buscar como candidato. Por último, revela o receio de Barbosa emplacar e chegar ao segundo turno, sufocando o sonho dos tucanos.

Mas não é apenas o ex-presidente que teme a candidatura do presidente do Supremo. No PT, os partidários da reeleição de Dilma não se assustam com a perspectiva do segundo turno,  caso o adversário venha a ser Aécio. Mas tremem diante  da hipótese de Barbosa, senão como “salvador da pátria”, ao menos como alguém desvinculado dos partidos e das práticas vigentes no mundo político. A tal  “coisa nova” que de vez em quando atropela as campanhas presidenciais, como se verificou com Jânio Quadros e, depois, com Fernando Collor.

Existem, no entanto, entre os companheiros, aqueles que torcem pela candidatura de Barbosa. São os adversários de Dilma, buscando a alternativa de fazer do Lula o candidato. Face a um crescimento do ministro, por certo que na dependência de sua decisão de concorrer,  só o Lula para garantir a preservação do poder.

Sintomático na entrevista de Fernando Henrique, voltando-se a ela, foi a sugestão que deu: Barbosa deveria começar na política candidatando-se a vice-presidente. Seria manobra para o PSDB apropriar-se da popularidade dele? Mas se não serve para presidente, como serviria para  substituto ou sucessor?

Em suma, o ano se inicia com o nome do presidente da mais alta corte nacional de justiça ocupando manchetes. Até  agora ele se mantém calado, sem alimentar especulações. Dispõe de três meses e pouco para meditar,  porque em abril encerra-se o prazo para magistrados se candidatarem, quando então precisarão filiar-se a partidos políticos. Barbosa já criticou todos  num só comentário, tempos atrás.  Partidos, porém, não lhe faltarão…

Revivendo antigos pesadelos

Carlos Chagas

Completam-se,  no próximo 31 de março, cinquenta anos do golpe militar. Naqueles idos, ouvia-se falar muito de guerra revolucionária e de guerra psicológica adversa, expediente nascido na Central Inteligence Agency  para combater as esquerdas latino-americanas então prestigiadas em diversos países. Uma forma maliciosa  de os Estados Unidos reagirem à tomada do poder por governos que pregavam  reformas  de base e  novos rumos para diminuir as desigualdades sociais. 

 No Brasil,  governava  João Goulart. O maior arauto daquele raciocínio  perverso  de estarmos a um passo da tomada do poder pelos comunistas  era o deputado Bilac Pinto, ex-presidente da UDN, em sucessivos discursos da tribuna. Há um ano já se conspirava abertamente para a deposição do presidente  da República, disseminando-se nos quartéis, na maior parte da imprensa, nos partidos políticos e nas organizações empresariais que a União Soviética mudara de estratégia: em vez de assumir os governos dos países pobres através de sublevações armadas, os comunistas  buscavam infiltrar-se nos corações e mentes das populações, estimulando manifestações pelas reformas, greves  e fazendo denúncias sobre a miséria reinante.

 Era a guerra psicológica adversa,  com que os ideólogos do golpe  procuravam assustar a classe média. Deu certo para eles,  seguindo-se 21 anos de ditadura.

Por que se recordam aqueles tempos bicudos? Porque a presidente Dilma, em sua mensagem de fim de ano, na noite de domingo, ressuscitou o velho fantasma. Denunciou a existência de uma guerra psicológica verificada entre nós, agora por parte de  certas elites  interessadas em espalhar que a economia vai mal e a crise bateu às portas do Brasil. 

Para a presidente, estão fazendo guerra psicológica contra o país e contra o governo dela. Pode até ser verdade, mas o uso desse instrumento anacrônico,  mesmo  ao contrário, faz passar um frio na espinha. Remete os mais velhos a antigos pesadelos.

E SE DER CERTO?

Grande vitorioso na guerra do Pacífico, o general Douglas MacArthur acabara de reconquistar as Filipinas  e, de Manila, preparava a invasão  do Japão. Seria a maior operação anfíbia da história do mundo. Um  milhão de soldados americanos desembarcariam nas praias japonesas, prevendo-se que encontrariam  uma resistência desesperada. Pelo menos 400 mil marines morreriam ou seriam feridos. 

Alertado para tamanho  risco, o presidente Harry Truman tomou opção tão trágica quanto a invasão: autorizou o lançamento de duas bombas atômicas, em Hiroshima e Nagazaki, incinerando centenas de milhares de civis, a maior parte  velhos,  mulheres e crianças.

Informado horas antes do bombardeio, MacArthur   foi perguntado  por um auxiliar se por hipótese as bombas atômicas não dessem certo, aconteceria o  quê?

Resposta: “Eu me pergunto é o que acontecerá  se derem certo!”

O episódio se conta a propósito de  perspectiva  nem tão explosiva quanto os artefatos nucleares, mas capaz  de gerar uma rendição  incondicional como a que foi levado o Japão. E se der certo a estratégia de boa parte do PT  de fazer o ex-presidente Lula candidato no lugar de Dilma? Nesse caso, assim como o Imperador Hiroito, render-se-ão Aécio Neves, Eduardo Campos e quaisquer outros pretendentes ao palácio do Planalto…

Melhor mandar o Mantega?

Carlos Chagas

Em janeiro a presidente Dilma seguirá para Davos, na Suiça, sua primeira viagem do ano,  oportunidade ímpar para imitar o Papa Francisco e demonstrar a inconformidade de seu governo diante da ganância dos banqueiros e controladores das finanças internacionais, os responsáveis maiores pela miséria,a pobreza e as desgraças que assolam o planeta.

É a primeira vez que comparecerá a esse convescote de potentados, grupos econômicos e países a eles subservientes, ditos do Primeiro Mundo, interessados em manter e ampliar suas benesses e seu poder sobre a Humanidade.

No reverso da medalha, conforme versão dos marionetes nacionais submetidos  a esse governo mundial, a presidente iria para atrair mais investimentos para o Brasil. Traduzindo: ofereceria novas  vantagens à quadrilha que vive da exploração e da especulação.

Faz tempo  vivemos subordinados a esse jogo, mas o que teria Dilma a entregar, desde que começou essa nova rodada  de alienação da soberania nacional, iniciada com Fernando Henrique Cardoso?  Ela  mesmo  acaba de completar o ciclo ao privatizar portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, minerais e o petróleo do pré-sal. Como Papai Noel atrasado, anunciaria a privatização do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, dos Correios e, quem sabe, das forças armadas? Reforçaria o papel do BNDES, de financiador de empresas estrangeiras para a aquisição do que resta do patrimônio nacional?

Completam-se em agosto 60 anos da assinatura de um dos documentos mais  profundos da História do Brasil, assinado pelo maior de nossos presidentes da República, pouco antes de dar fim à própria vida. Getúlio Vargas  denunciou a farsa da exploração do país pelos antecessores daqueles que agora se reunirão em Davos. Os mais velhos emocionam-se com a Carta-Testamento. Os mais jovens deveriam buscá-la nos arquivos e nos livros, ao menos para saber que resistir é preciso. Dilma certamente leu, mas será que esqueceu?

Se for para um grito de revolta diante dos algozes dos maiores valores éticos que deveriam pautar pessoas e nações, a presidente fará muito bem de ir. Mas se for para submeter-nos outra vez à sanha desses abutres, melhor mandar o Mantega…

O Rio nao merece isso…

Carlos Chagas

Anuncia  Sérgio Cabral que deixará o governo do Rio a 31 de março para candidatar-se ao Senado. Como terminará no próximo ano o mandato de  Francisco Dornelles,  havendo  apenas uma vaga de senador por estado, a informação é de que o ex-ministro da Fazenda não pleiteará a reeleição. São amigos, quase parentes e integram a base política do governo, Cabral no PMDB, Dornelles no PP.

A ser verdadeira a notícia, eis mais um motivo para o Rio lamentar. Porque o ainda senador destacou-se nos últimos sete anos como uma das maiores expressões do Congresso. Passa incólume pela saraivada de críticas a montes de parlamentares que não honram o mandato. Tem prestado excelentes serviços ao Rio e ao Senado, em especial no ramo da economia.

Crítico implacável dos desmandos praticados no setor, é para ele que recorrem os presidentes da casa e os responsáveis pelas comissões técnicas, sempre que precisam decidir  sobre propostas  ligadas às finanças nacionais. Seria supérfluo referir  os projetos de sua autoria, tantos de vital importância para o funcionamento das instituições.

Defensor intransigente da reforma política, credite-se a ele o pouco que o Senado conseguiu  emplacar. Alto saber e reputação ilibada,  não há quem o acuse de desvios. Acresce ser cuidadoso patrono de iniciativas capazes de minorar as agruras do interior fluminense, percorrendo sistematicamente os municípios para aferir suas necessidades e mantendo permanente contacto com os prefeitos, tanto faz a que partidos pertençam.

Dornelles teria sua reeleição garantida, no entender dos observadores da política local. Receberia nas urnas  o reconhecimento generalizado dos eleitores. Por questões políticas e  de amizade,  abre mão da disputa e deixa o Rio na constrangedora situação de eleger ou derrotar um governador nos últimos meses rejeitado pela opinião pública. Até acampamentos de protesto foram erigidos na rua onde Cabral reside, a ponto de precisar dormir em casas alternativas.

Deixando para outro dia a emissão de juízos de valor a respeito de sua administração, haverá que reconhecer de onde sopram os ventos, prenunciando o insucesso. A mais recente pesquisa indicou que apenas 18% dos  eleitores avaliam positivamente o governador, enquanto 33% o julgam regular e 47% como ruim ou péssimo.

Corre a versão de que Sergio Cabral, como compensação, ofereceria a Dornelles o lugar de vice-governador na chapa de Luiz Fernando Pezão ao governo do estado. Ideia infeliz por diversos motivos, entre eles o de  vir a estar invertida a dobradinha, se fosse para valer. Além da evidência de que o atual vice-governador é o último colocado nas consultas eleitorais.

Indaga-se, por tudo, sobre os limites da insensatez na política. O Rio não  merece a substituição de um dos raros senadores que deram certo.

Luz sobre as trevas

Carlos Chagas

A presidente Dilma prorrogou até o último dia de 2014  o prazo de funcionamento da Comissão da Verdade. Salutar a medida é, pois permitirá mais investigações a respeito de torturas, maus tratos e lesões aos direitos humanos praticados por agentes do Estado durante o regime militar.  Fica, no entanto, um espaço a preencher: e aqueles que se levantaram contra a ditadura utilizando  os mesmos instrumentos e a mesma violência praticados por ela? Porque também morreu e sofreu gente do lado de lá.  Como  inocentes foram vitimados por ações de contestação aos donos do poder. Para não falar de “justiçamentos” havidos entre eles.

É farta a literatura a respeito dos abomináveis excessos registrados pelos donos do poder, como surgiram também depoimentos variados a respeito dos abusos verificados no campo oposto.

A anistia apagou tudo, por mais amarga que seja, até hoje, para as vitimas e suas  famílias, assistir a impunidade dos algozes. De um lado e de outro, diga-se, apesar  do grau maior de horrores e de culpa recair sobre os que se escondiam à sombra do poder público. Nem por isso, porém, justifica-se o silêncio  da Comissão da Verdade com relação ao reverso da medalha. Haverá tempo agora, a partir da prorrogação do período de seu funcionamento.

Não se trata de ver punidos  com cadeia  quantos foram  responsáveis pelos desatinos daqueles anos de chumbo. Não haverá como apagar o instrumento legal que, apesar de imperfeito, permitiu ao país olhar para o futuro,  mesmo sem esquecer o passado.

Mesmo assim o papel da Comissão da Verdade é fundamental na medida em que ilumina as profundezas de um período deixado para trás. Apontar os responsáveis talvez configure sentença tão implacável quanto teria sido  condená-los à prisão. Muitos jamais se convencerão de haver incorrido em crimes. De um lado e de outro, vale repetir. Porque entre eles persiste um  corporativismo empedernido.

Uns por entenderem haver servido à preservação de valores vigentes à época, mesmo distorcidos. Outros por justificarem a insurreição violenta. Tanto faz. Apesar de já conhecidos, estes e aqueles, o libelo da Comissão da Verdade, quando exarado, daqui a um ano, servirá de alerta. Desde que traga a condenação moral de todos os envolvidos.

Negociar sem medo

Carlos Chagas

Em termos de sucessão presidencial, servirá para que candidato o conselho de Winston Churchill de que “jamais devemos negociar com medo, mas não devemos ter medo de negociar”?

Começando por Aécio Neves, vale indagar se não está na hora dele visitar José Serra e esclarecer de uma vez por todas se, depois de o ex-governador paulista haver reconhecido a prevalência do ex-governador mineiro como candidato, não está na hora de obter um plano de vôo completo para a campanha  dos tucanos? Porque sem a simbiose dos dois, claro que em torno da indicação de Aécio, fica difícil sonhar  com o palácio do Planalto. É preciso definir a compensação para Serra, inclusive espaços num hipotético governo, sem falar da sua candidatura a senador ou deputado.

Outra negociação imprescindível do neto do dr. Tancredo tem que ser com Eduardo Campos. Devem passar das preliminares para a fase concreta da aliança no segundo turno, devendo um apoiar o outro, na dependência de quem for disputar com Dilma. Um pacto de não agressão precederia os entendimentos, inclusive envolvendo o futuro  governo, na hipótese da vitória.

Por falar no candidato do Partido Socialista, ele também precisa negociar sem medo com Marina Silva. E vice-versa. Parecem tênues as pontes que ligam o governador de Pernambuco e a ex-senadora e ex-ministra. Começa por saber se ela aceitará compor a chapa, como vice, e em que termos. Sem afastar a possibilidade de, estando bem adiante nas pesquisas, inverter-se a dobradinha. Antes de tudo, porém, necessitam ambos enfrentar a dúvida, além de encontrarem um ponto de inflexão na doutrina e na ideologia que sustentam, obviamente cheias de arestas.

A sempre presente e muitas vezes negada candidatura de Joaquim Barbosa precisaria, se verdadeira, partir de uma negociação ampla do presidente do Supremo Tribunal Federal com as organizações da sociedade civil. Só depois partiria para encontrar um partido capaz de abrigá-la. Essa equação pouco ortodoxa exigirá, mais do que as outras,  diálogo permanente do suposto candidato com forças situadas à margem do quadro partidário, mesmo com a necessidade de valorizá-los.

Por último, que tipo de negociação causaria medo em Dilma Rousseff? Talvez devesse começar com o Lula, que já deu mil evidências de apoiar a sucessora mas ainda assiste parte considerável do PT levantando o nome dele. Claro que conversam todas as semanas, examinam as sucessões estaduais e debatem o papel do partido na campanha. Mas seria preciso uma aproximação maior entre a presidente-candidata e os companheiros. A promessa de manter ou até de  ampliar a participação do PT no segundo governo deve ser o ponto de partida, ainda que seja longo o percurso para polir arestas partidárias.

As legendas que apóiam o governo e a reeleição exigirão de Dilma compromissos de no mínimo preservar seus espaços no ministério. Pode não ser essa intenção dela, capaz de imaginar o governo de seus sonhos no segundo mandato, isto é, livrar-se das  exigências de sua base parlamentar. A operação exigirá amplas e delicadas negociações, mas se ela não tiver medo, poderá obter sucesso.

Foi assim que Winston Churchill viajou diversas vezes a Moscou, negociando com Stalin, durante a Segunda Guerra. Foi assim que salvou a Inglaterra.

Ficou para o ano que vem o presente de Dilma

Carlos Chagas

Nem por milagre a presidente Dilma revelará  o pedido feito a Papai Noel para receber  seu presente de Natal, hoje cedo,  numa das janelas do palácio da Alvorada. Apesar do segredo   e  diante da frustração de não encontrar nada, especula-se no vazio de Brasília que o presente desejado e não recebido nada tem a ver com sua reeleição. Esta parece garantida, ao menos conforme a totalidade das pesquisas, tanto faz se no primeiro ou no segundo turno do próximo outubro.

O que ela realmente desejava, e que não veio, era uma declaração de liberdade. Uma carta de alforria para livrar-se das tutelas variadas que tolhem sua ação. Senão neste Natal, pelo menos imaginará  que no próximo tudo será diferente e o presente chegará.

Livrar-se, com todo o respeito e carinho, da interferência do Lula  em seu governo, resume o que precisa e deseja. Aceitou o óbvio durante o primeiro mandato, pois jamais chegaria ao palácio do Planalto sem a decisão pelo seu nome e o comando do ex-presidente em sua campanha e depois, em sua administração.

O problema é que agora, ainda devedora eterna do antecessor, Dilma adquiriu condições para voar sozinha, ou, ao menos, para traçar seu próprio plano de voo. Não terá concordado, lá no fundo, com o fatiamento do ministério entre os partidos de sua base parlamentar. Por que aceitar, no segundo mandato, gente que nunca viu, para assumir o  comando de setores essenciais à realização de um programa de sua preferência, que não conseguiu executar desde que se tornou presidente?

Também engoliu outro  tipo  de imposições ao herdar ministros do governo anterior dos quais discordava.  Para sorte sua,  alguns deles viram-se catapultados pelos seus próprios pecados. Mesmo  assim, ficou evidente não ser esse o governo dos sonhos deu  sua  própria  chefe, apesar de sucessivas mudanças ditadas pelas circunstâncias.

Papai Noel não  terá trazido na madrugada de hoje a liberdade de que Dilma não dispôs ao inaugurar seu primeiro período, e de que não dispõe até agora, mas ficam os planos traçados para o próximo 25 de dezembro. Antes de outubro ela ainda precisará  ceder a pressões partidárias e pessoais, como em janeiro ou fevereiro vier a recompor a equipe desfalcada por ministros-candidatos. As exigências são as mesmas, ainda mais impulsionadas pela necessidade de apoio dos partidos à sua reeleição. Mas conquistada a presumida vitória, daqui a dez meses, terá condições de livrar-se dos  penduricalhos incrustados ao seu redor.

Em suma, liberdade para compor o seu próprio governo  certamente não terá sido o presente que Dilma esperava receber hoje, mas se tudo sair conforme seus desejos, virá no Natal do ano que vem. A partir daí, quatro anos potencialmente dispostos para realizações que  não pode efetuar, como limpar a poeira de favorecimentos a grupos empresariais duvidosos, varrer para fora de casa  o lixo do  neoliberalismo herdado dos tucanos e promover reformas sociais de base em vez de paliativos assistencialistas. Será  tudo isso um sonho de noite de Natal? Nosso ou dela?

Renovação, adeus

Carlos Chagas

Renovação no  PSDB com   Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves?  No PT, com Lula, Dilma, Aloisio Mercadante, Rui Falcão, Eduardo e  Marta Suplicy, além de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares?   No PMDB, com Michel Temer, José Sarney,  Sergio Cabral, Henrique Eduardo Alves,  Renan Calheiros, Pedro Simon, Roberto Requião? No PTB, com Fernando Collor e Roberto Jefferson?

Nos demais partidos, dos pequenos aos ínfimos, a conclusão é a mesma: todos falam em renovação mas são os mesmos que ocupam as principais lideranças.  Fora os que estão presos, os demais concentram   esforços nas eleições ou reeleições de outubro.

Não será por aí,  quer dizer, pelas eleições, que o quadro político nacional irá se renovar. O PT  bem que tentou aprovar  resolução proibindo  seus deputados e senadores de perpetuarem-se nos mandatos e nas funções de direção, mas a maioria deu de ombros. Aplausos na teoria, rejeição  na pratica, diante das propostas de que  deputados só poderiam exercer três mandatos e  senadores, dois.

Abre-se, assim, para os caciques partidários, a plácida via da preservação de suas aldeias. Os jovens empenhados em fazer carreira esbarram  no mesmo obstáculo quando se trata de apresentar novas ideias e lideranças. Poderão, alguns, eleger-se para a Câmara dos Deputados ou um bissexto governo estadual desimportante, ainda que com consciência da sua subordinação aos personagens  há décadas dominando os respectivos partidos. Pouco adiantará  fundarem novas legendas. Elas também passarão a funcionar  sob a égide de conselhos de anciãos.

Fenômenos como Jânio Quadros, ontem, e Fernando Collor, ainda há pouco, servem apenas para demonstrar que as exceções  existem para confirmar a regra. O resultado  está sendo o anacronismo  partidário, onde a ausência de novos líderes sufoca o aparecimento de ideias e propostas.

Qual a mensagem que o PSDB estará passando ao eleitorado quando se iniciarem as campanhas para o próximo outubro?  A volta ao neoliberalismo, o retorno maciço às privatizações e abertura total   aos investimentos e especulações externas.  O PT insistirá no assistencialismo enquanto o PMDB buscará manter a política paroquial para o uso do poder. Do PTB não se tem notícia de nada novo, nem sequer a tentativa de ressuscitar o velho trabalhismo. E assim por diante.

Resta saber se a população aceitará o mesmo acanhado  modelo de disputar eleições ou se, na falta de aparecer um  movimento, quem sabe   um líder diferente,  a  reação será do pouco caso, da abstenção,  do voto branco ou nulo. Vive-se um período de  acomodação, com os mesmos de sempre, incapacitados de empolgar a maioria a exigir renovação.

Saudade do tempo dos prefeitos

Carlos Chagas

Depois reclamam por aumentar o número de pessoas,  em Brasília,  com saudade dos tempos de Juscelino Kubitschek, quando o governo do Distrito Federal compunha-se de um prefeito nomeado e de alguns secretários.  Jânio, Jango e os generais-presidentes seguiram a receita, sempre escolhendo gente de reputação ilibada e, na maioria das vezes, de  capacidade administrativa.

As coisas só pioraram quando o Congresso aprovou emendas sucessivas, estabelecendo eleições diretas de governador, representação na Câmara e no Senado e uma  Assembleia Distrital. Com as exceções de sempre, a capital federal viu-se tomada pelo que de pior existia na política partidária.

Com o aumento da população, prevista para ficar em 500 mil habitantes e hoje beirando os três milhões, foi a festa para quantos se especializaram em explorar os ingênuos e locupletar-se com a coisa pública. Emergiram, no centro do país, verdadeiras quadrilhas.

De lá para cá, tivemos governadores e senadores cassados e  presos, além de deputados processados aos montes. Além dos que permanecem à sombra, impunes, dividindo com ampla categoria de maus empresários os frutos do esbulho e da roubalheira. Pois o pior ainda está por vir: as pesquisas indicam a volta da maioria dos bandidos, pelo voto.

Brasília é a casa do presidente da República, mas fazer o quê, se a cidade defronta-se com o retorno dos amigos do  Ali Babá? Que representação é essa, vale repetir, com as exceções de sempre?

Por essas e outras é que dá saudade do tempo dos prefeitos…

ULTIMO ESFORÇO

Combinaram os presidentes da Câmara e do Senado de promover um último esforço para a aprovação da reforma política, a partir de fevereiro e com prazo fatal para esgotar-se em julho. Para Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros, o ano parlamentar estará  limitado ao primeiro semestre de 2014.  Depois, serão meses de  recesso remunerado, com deputados e senadores empenhados na campanha eleitoral.  Há quem suponha tratar-se de sonho de noite de verão. O que não foi feito em anos não se concretizará em meses.

Dificuldades de todos os lados

 

Carlos Chagas

Declarou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que a condenação  de alguns parlamentares rompeu longa tradição, mas que  não acredita venham as punições  mudar o comportamento de políticos envolvidos com corrupção.  Não tem ilusões a respeito.

Há que unir os dois extremos do raciocínio, e quem pode fazer é precisamente Barbosa, vigiando para  o Poder  que preside continuar  a  cumprir  suas obrigações, julgando e condenando os culpados. Mas só isso basta? Porque apesar da dura e bela performance do Supremo no caso  do mensalão,  nas diversas instâncias do Judiciário dormem processos em profusão contra políticos corruptos.  Uma verdadeira revolução seria fazer com que juízes, desembargadores e ministros, no país inteiro, também participassem  da quebra da longa tradição que mantém a impunidade como regalia da classe política.

Não que apenas eles, os políticos corruptos, mereçam estar atrás das grades. Outras categorias encontram-se na mesma situação, como os empresários e empreiteiros corruptos. Há gente honesta, entre eles, mas sobrariam poucos se passada a peneira em suas atividades. Dos banqueiros, nem há que falar, bem como,  no reverso da medalha, existem juízes e  funcionários públicos envolvidos em toda sorte de crimes. As recentes denúncias contra  empresas estrangeiras e altos gestores da coisa pública em São Paulo indicam a importância de se aproveitar a oportunidade ou de reconhecer que tudo continuará como está, ou estava,  antes da condenação dos mensaleiros.

Dizia o saudoso Adaucto Lúcio Cardoso que a reforma mais necessária para o Brasil, desde tempos imemoriais, precisaria ser do Judiciário. Advogado militante, antes e depois de tornar-se deputado, ele não cedeu sequer ao movimento militar que havia apoiado. Resistiu até que tropa armada invadisse a Câmara que presidia, pois não aceitara a cassação de alguns deputados. Depois, convidado para ministro do Supremo, demorou pouco em renunciar  ao lugar para não compactuar com a implantação  da censura a livros, além dos jornais e meios eletrônicos.

Nada mais certo do que começar  depurando  o Judiciário, mas como? Os juízes de primeira instância submetem-se a concursos severos, mas para o preenchimento dos tribunais estaduais e federais, até o mais altos, a  forma de aferir o alto saber jurídico e a probidade dos indicados começa  e termina nos políticos, governadores ou presidentes da República, de um lado, Senado e Assembléias Legislativas, de outro.   Aqui mora o perigo, mas soluções existiriam?

Fazer concurso para ministro do Supremo e de  altos tribunais seria ridículo, pois quem os aprovaria ou reprovaria? Os políticos? Determinar mandatos fixos poderia punir excepcionais julgadores e abrir as portas para outros nem tanto.  Promover  eleições para juiz seria correr o risco de assistir corruptos  eleitos, como tantos políticos vem sendo,  para  usufruir da corrupção.

Quem quiser que opine, mas se o presidente Joaquim Barbosa se dispõe a anunciar novos tempos, que  tal transferir a ele a responsabilidade das soluções? Só que tem um problema: não poderia ser no exercício de suas atuais funções. Precisaria comandar outro Poder. Para o qual necessitaria  submeter-se às mesmas limitações contra as quais alerta e até se insurge. Nó difícil de desatar…

Em tempo de Natal, reflexões sobre os criadores das principais religiões – de Krishna a Maomé, passando por Lao Tse, Moisés, Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus

Carlos Newton

Avatar é uma palavra derivada do sânscrito. Significa “aquele que descende de Deus” ou, simplesmente, qualquer espírito que ocupe um corpo, representando assim uma manifestação divina na Terra.

http://3.bp.blogspot.com/_5HZ6XuoKKeA/TRxJwUbb_2I/AAAAAAAAADs/JuhBLRCzfdw/s1600/lord-krishna.jpgKrishna, o mais antigo

A humanidade teve grandes avatares do pensamento filosófico, social e espiritual, que nos influenciam até hoje. Pela ordem de entrada em cena – Krishna na Índia (3 mil anos antes de Cristo); Lao Tse na China (1.300 a.C.); ao mesmo tempo, Moisés no Egito e Oriente Médio (1.291 a.C), Buda na região do Nepal/Himalaia (600 anos a.C.); pouco depois, Confúcio no Nordeste da China (550 anos a.C.); logo em seguida, Sócrates na Grécia (469 a.C.); o próprio Jesus Cristo na Palestina, abertura da atual nova Era; e Maomé (570 depois de Cristo).

Há outros avatares, como Zoroastro (ou Zaratrusta), criador da doutrina dualista (Bem e Mal) dos persas, cerca de 700 anos antes de Cristo,uma religião também muito importante, adotada pelo Império Aquemênida, que dominou grande parte do mundo 500 anos antes de Cristo. Mas vamos nos fixar nos outros oito avatares, que ainda hoje influenciam a humanidade.

Em todos esses doutrinadores, constatam-se praticamente os mesmos ensinamentos, a idêntica tentativa de melhorar a vida de todos e de criar relações mais justas e humanas, numa impressionante coincidência de propósitos e iniciativas.

Suas origens são bem distintas. Mas tinham em comum os mesmos objetivos sociais e espirituais. Detalhe interessante: nenhum dos grandes avatares deixou por escrito seus pensamentos religiosos e teses filosóficas. As palavras de todos eles foram difundidas ou transcritas por discípulos, apóstolos ou seguidores.

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OS AVATARES

Os registros históricos são precários, especialmente de Krishna, o mais antigo,  que viveu na Índia antiga há mais ou menos 5 mil anos. Seus ensinamentos, transmitidos por uma série de seguidores (também considerados avatares na Índia), formam a base do Hinduísmo, uma das mais importantes religiões.

Lao Tse (1.300 anos antes de Cristo)

Diz-se que o chinês  Lao Tse (ou Lao Zi, Lao Tzu) era filho de um alquimista. Conforme os registros do cânone religioso taoísta, Lao Tse teria sido convidado pelo rei Wen para ser o responsável pela biblioteca real. Portanto, era alfabetizado. No 25º ano da era do rei Zhao, iniciou sua grande viagem para o Ocidente, com intuito de chegar aos reinos da atual Índia, depois ir ao Afeganistão e à Itália. Durante o trajeto, teria aceitado como discípulo um oficial chefe da fronteira, a quem ditou vários escritos, entre eles o Tao Te Ching.”

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DE MOISÉS A JESUS

Moisés (Moshe ou Mōüsēs) foi um profeta egípcio da Tribo de Levi, autor da Torah, segundo a tradição judaico-cristã, correspondente aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento cristão. Segundo o Livro do Êxodo, o menino Moisés foi adotado pela filha do faraó, que o encontrou enquanto se banhava no Rio Nilo e o educou na corte como o príncipe do Egito. Por ter matado um feitor, levado pela “justa ira”, fugiu do Egito para escapar da pena de morte. E conduziu o povo de Israel até ao limiar de Canaã, a Terra Prometida a Abraão. Moisés é patriarca dos judeus e santo nas Igrejas Católica e Ortodoxa.

Os registros são de que Buda (Siddharta Gautama) nasceu numa família nobre num reino da região do Nepal. Quando descobriu o que representavam a vida e a morte, submeteu-se a sofrimentos, purificou-se e passou a doutrinar os outros, ensinando que uma pessoa não se torna  sacerdote por nascimento e ninguém é pária pelo berço, mas em função de seus próprios atos.

Já o chinês Confúcio (K’ung Ch’iu, K’ung Chung-ni ou Confucius) nasceu em uma pequena cidade na região chinesa de Lu. Seu pai, Shu-Liang He, teria sido magistrado e guerreiro. O pensador teve seus ensinamentos difundidos na obra “Analectos de Confúcio”, uma coleção de aforismos, compilada muitos anos após a sua morte. Sua filosofia pregava a moralidade pessoal e governamental, além dos procedimentos corretos nas relações sociais, com justiça e sinceridade.

O grego Sócrates veio de família humilde. Na juventude era chamado de Sokrates ios Sōfronískos (Sócrates, o filho de Sophroniscus). Seu pai era operário, especialista em entalhar colunas nos templos, casado com a parteira Phaenarete. Durante a infância, Sócrates ajudou o pai no ofício de entalhador, mas logo depois se tornaria o maior filósofo e educador da Antiguidade. Seus pensamentos foram transmitidos pelos discípulos Platão e Xenofonte. São impressionantes as teses de Sócrates sobre a alma, a espiritualidade e a reencarnação.

Depois, temos Jesus Cristo e seus ensinamentos compilados na Bíblia, também escrita bem depois da morte dele e que deu origem a grande número de ramificações e seitas religiosas derivadas do Cristianismo.

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MAOMÉ, O MAIS RECENTE

O avatar dos muçulmanos é Maomé (Muḥammad ou Moḥammed), que é bem mais moderno e nasceu depois de Cristo, em 6 de Abril de 570. Para os islamitas, Maomé foi precedido em seu papel de profeta por Jesus, Moisés, Davi, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão. Seria o mais recente e último profeta do Deus de Abraão.

Como figura política, Maomé unificou várias tribos árabes, criando os primórdios da formação do império islâmico que se estendeu da Pérsia até a Península Ibérica. Também Maomé nada deixou escrito, foram seus discípulos que redigiram o Corão.

Por fim, ainda sobre os avatares, é interessante destacar um pensamento atribuído a Buda, nos seguintes termos:

“Não sou o primeiro Buda que existiu na terra, nem serei o último. No tempo devido outro Buda levantar-se-á no mundo, um santo, um ser divinamente iluminado, dotado de sabedoria em sua conduta, benigno, conhecendo o universo, um líder incomparável dos homens, um mestre dos anjos e dos mortais. Ele vos revelará as mesmas verdades eternas que vos ensinei. Ele vos pregará esta religião, gloriosa em sua origem, gloriosa em seu clímax, gloriosa em seus objetivos, tanto no espírito como na forma. Ele proclamará uma vida religiosa tão pura e perfeita como a que agora proclamo. Seus discípulos serão contados em milhares, enquanto que os meus contam-se em centenas.”

O assunto é importante e inesgotável.
Amanhã voltaremos a ele, com os
ensinamentos de Sócrates,

sua influência no Cristianismo e no Espiritismo.

 

Desgraças, audiência e faturamento

Carlos Chagas

A aproximação do final do ano leva-nos a meditar sobre o que não precisa, necessariamente, envolver questões políticas. De início situa-se a mídia, e, dentro dela, os telejornais oferecidos pela televisão aberta. Reparou o leitor que cada vez mais o noticiário apresentado refere-se a crimes, violência, estupros, desastres e desgraças variadas? O fenômeno atinge todas as emissoras, sem faltar nenhuma. Na carência de  horrores nacionais, aliás, coisa rara, aproveitam requentadas matérias do mesmo teor, produzidas lá fora.                                                       

A explicação, para os seus responsáveis, é simples: audiência. Esse tipo de noticiário prende o telespectador menos favorecido economicamente, maioria absoluta entre quantos permanecem frente às telinhas, até por falta de opção.  Para o trabalhador que passou o dia entre pesadas ocupações e dificuldades imensas para ir de casa ao trabalho, e deste voltar exausto e sem outra alternativa que sentar-se diante da TV,   não deixa de ser uma opção  saber que há gente em piores condições que a sua. Audiência gera publicidade, e publicidade sustenta as emissoras. Logo…

Logo revela-se a simbiose entre o conteúdo da informação transmitida e os produtos anunciados, tudo visando aquelas  camadas sociais que não deixam de comprar fogões, geladeiras e sucedâneos da linha branca,  ao tempo em que dispõem das desgraças alheias  para comentar com a família e os amigos.

Poderia ser diferente? Claro, na dependência da disposição dos  que tomam decisões, mas eles  encontram-se prisioneiros da obrigação de garantir o faturamento para garantir o emprego, sendo a fórmula mais fácil   dar ao povo aquilo que o povo pede. 

Vale o mesmo raciocínio quando se voltam para a classe média, anestesiada pelas numerosas e infindáveis novelas. Completam-se, os telejornais e os sucessivos episódios de tragédias e finais felizes.  Revelam-se, nos vídeos, as mesmas frustrações e os mesmos desejos mal-realizados  do cidadão instalado na poltrona.

Dirão os experts ser assim no mundo inteiro, mas não precisávamos exagerar tanto, aqui no Brasil, fechando-se o círculo vicioso. Pouca coisa de qualidade é apresentada na programação pois assim  ficam asseguradas a publicidade e a audiência. É o que acontece em meio à  hegemonia de  um grupo e a disputa sem imaginação pelos outros.    Há exceções, por certo, assim como cada organização terá suas linhas particulares para desenvolver a atividade televisiva, mas a verdade é que todas se exprimem nessa equação infeliz de que desgraças dão audiência, que por sua vez  gera faturamento. Uma prisão eletrônica  no centro da qual sofrem a qualidade, a cultura e o aprimoramento social.

Vale, para concluir, um exemplo de como é difícil romper essa limitação. Quando a falecida Rede Manchete tentava lutar pela sobrevivência, Adolpho Bloch comprou a preço de ouro,  na Alemanha, trinta  apresentações da Orquestra Filarmônica de Berlim, regida por Von Karaghian. Mandou  colocá-las no ar aos domingos, em horário nobre, onde enfrentaria diversos programas de auditório. Pois a orquestra  deu traço, no Ibope…

UMA CERTEZA OU UM RISCO?

Anuncia-se que Aloísio Mercadante irá mesmo para a Casa Civil, sucedendo Gleise Hoffman, candidata ao governo do Paraná. Com isso o ainda ministro da Educação abriria mão de candidatar-se em outubro,  ao Senado ou à Câmara. Fica claro que ele  aposta todas as fichas  na reeleição da presidente Dilma, pretendendo seguir com ela no segundo mandato. Depois, se o ex-presidente Lula resistir à  tentação de voltar ao Planalto com mais de setenta anos, quem seria o candidato? A armação é parecida com a que imaginou José Dirceu, devendo Mercadante fugir do mensalão como o diabo foge da cruz…

Melhor teria sido comprar e calar

Carlos Chagas

Não dá para entender porque tanta festa, em especial na imprensa, por conta da decisão da presidente Dilma de comprar os caças suecos Saab Gripen NG. Serão apenas 36 aeronaves de combate, para entrega até 2023.

Nossa defasagem é imensa, mesmo diante de países latino-americanos como  Chile, Peru e Venezuela, melhor armados do que a Força Aérea Brasileira. Diante dos Estados Unidos, com território equivalente ao nosso, os números nos envergonham. A Marinha de Guerra americana  possui 19 porta-aviões, cada um abrigando em torno de 90 caças de última geração. Além de pelo  menos 50 bases navais e aéreas em terra, também  espalhadas por outros países. Cada uma com mais de 50 aeronaves.

E nós, celebrando 36 caças,   incapazes de ter sido adquiridos antes que os velhos Mirage virem sucata, o que acontecerá no próximo dia 31. Dispomos de uma dúzia de F-15, adaptados, com vida útil bastante para aguardar a chegada dos suecos,

mas é tão gritante a comparação com outras esquadrilhas que melhor teríamos feito calar, ao anunciar  a compra.    Ficaríamos menos ridículos.

Nos anos bicudos do regime militar, não houve maior  renovação de  nosso equipamento bélico, apesar do estímulo a empresas brasileiras  de fabricação de carros de combate, metralhadoras e até aviões de porte médio.     Muito pior ficou quando os governos seguintes deixaram falir a quase totalidade daquelas empresas, incapazes de evitar a sabotagem promovida por  concorrentes estrangeiras. Passamos a depender até da importação de fuzis.

Claro que nossas prioridades devem ser hospitais, escolas, rodovias, ferrovias e portos.  Mas negligenciar  a defesa nacional,  além de burrice, é crime. Colhemos agora as consequências.  Não resistiríamos mais do que quinze minutos diante de um ataque ou invasão promovida por nações como Estados Unidos, Rússia ou China, apesar das distâncias. Nossos guerreiros estariam obrigados a transformar-se em guerrilheiros, fator a nós favorável dada a extensão territorial, mas em matéria de conflito convencional, nada haveria a fazer. Por tudo isso, mesmo lembrando que toda grande marcha começa pelo primeiro passo, melhor repetir o refrão inicial: nada temos a comemorar, melhor teria sido calar diante da aquisição dos 36 aviões de caça. E tratar da aquisição de mais 36…

O PULO DOS GATOS

José Serra,  Lula e Marina Silva terminam o ano  depositando sua confiança em  Aécio Neves,  Dilma Rousseff e  Eduardo Campos. Deixam muitos  sinais de que não disputarão a presidência da República  em outubro do próximo ano.

Jogo feito, decisões  impossíveis de reversão? Nem pensar. Não se suponham inusitados como fator de fazê-los mudar de idéia. Importa ficar, mesmo, na chamada normalidade eleitoral. O que acontecerá, caso as pesquisas do primeiro semestre de 2014 mostrem ampla superioridade de Serra sobre Aécio, de Lula sobre Dilma e de Marina sobre Campos? Algum deles resistirá,  senão à voz das ruas, pelo  menos à voz de tucanos, companheiros e ambientalistas?

Parece cedo para concluir estarem definidos os candidatos. 

O Congresso conseguirá desmentir o Dr. Ulysses?

Carlos Chagas

Esta semana, houve a revoada de deputados e senadores, inclusive tucanos, para seus estados. Com as exceções de sempre, só em fevereiro o Congresso  voltará a reunir-se em Brasília. Isso na teoria, porque  2014 será um ano atípico. Suas excelências, desde já, talvez até bem antes, pensam e agem apenas em função da eleição.   Muito mais a deles, seja para retornar na próxima Legislatura, seja para disputar eventuais governos estaduais.

As regras serão as mesmas que vigoram há muito, ou seja, nem o financiamento publico das campanhas foi aprovado, nem se viu votada a proibição de doações por pessoas jurídicas. Ainda que o Supremo Tribunal Federal, também em fevereiro, venha a interromper a farra de o dinheiro das empresas irrigar a compra de votos, a decisão não valerá para o  próximo ano.

Indaga-se a respeito dos índices de renovação no Congresso. Há quem suponha mais de 50%, abrindo-se a mesma e velha questão:  os que chegarem  serão melhores do que os que saírem? Dizia com graça e amargura o dr. Ulysses que pior do que o atual, só o próximo.

SEM RENOVAÇÃO

Não há notícia de renovação nos partidos. Os principais lugares estão ocupados, a começar pelo PT. Recém-criados, o Solidariedade e o PROS só tem políticos  conhecidos desde muito. Vale o mesmo para as demais legendas.

Ao longo da História registraram-se diversos períodos em que o Legislativo ficou impedido de funcionar. A última delas logo depois da edição do AI-5, em dezembro de 1969.  O recesso forçado durou sete meses.  Mesmo  depois, durante os mandatos dos generais Garrastazu Médici e Ernesto Geisel,  a representação política valia tanto quanto um avião sem asas.

A pergunta que se faz, então, não é apenas sobre como transcorrerá o ano das eleições, com o Congresso funcionando a meia carga ou até não funcionando. A dúvida é saber  qual o lugar do Congresso na realidade nacional, quando inaugurada nova Legislatura?  A conclusão surge óbvia: ou os candidatos se esforçam para desmentir o vaticínio do dr. Ulysses, dispostos a mudar a imagem parlamentar e inaugurar outra fase a partir de 2015, ou logo sequer existirão leis para ser votadas. Judiciário e Executivo terão ocupado  seus espaços. As ruas,  como há muito, darão de ombros…

DÁ PARA VIVER?

No orçamento  para 2014 estabeleceu-se o novo salário mínimo para valer a partir de janeiro: 724 reais por mês.  Poderá  o trabalhador cumprir a Constituição, ou seja, dispor de condições para assegurar à sua família educação, saúde, transporte, habitação, vestuário, alimentação e até lazer?

A tentação é grande de indagar se algum deputado ou senador sobreviveria com tão ridícula quantia.  

Da necessidade de programas, mais do que de diretrizes

Carlos Chagas

Nada a opor às diretrizes divulgadas  pelo PSDB como ideais de novo governo, se Aécio Neves ganhar a eleição. O problema é que são enunciados genéricos, sonhos de noite de verão, quando  esperava-se um programa de verdade, com um elenco de promessas concretas a respeito das grandes questões nacionais.

Fazer o quê, por exemplo, no “combate intransigente à corrupção”? Mudar  o Código Penal para aumentar as penas dos corruptos e corruptores? Extinguir os montes de recursos que fazem os ladrões de colarinho branco passear sua impunidade por restaurantes de luxo?

“Respeito às instituições” é obrigação de todos, mas quais delas estão exigindo reformas e mudanças? O Congresso, por exemplo,  precisa permanecer ao abrigo de leis que valem para todo mundo? Deve perder o mandato o parlamentar que for condenado na Justiça, mas em que limites? 

O que será “combater a radicalização da democracia”? Coibir manifestações violentas nas ruas, aprimorar as forças de segurança, federalizar a ação contra badernas e depredações? “Segurança pública como responsabilidade nacional”: utilizar as forças armadas no patrulhamento das cidades, duplicar o contingente da Polícia Federal, reforçar o caixa de estados e municípios para aprimoramento de suas polícias?

Outra diretriz prega a construção de um ambiente adequado para investimentos. Mas como? Cerceando as remessas de lucros ou isentando ainda mais de impostos o capital especulativo? Entre os dois extremos, os tucanos deixam definições em aberto.

Dizer que o Estado precisa ser eficiente e estar a serviço dos cidadãos vem sendo dito desde a Grécia Antiga, mas que tipo de Estado pretendem estabelecer? Ausente ou paternalista? A serviço das elites ou voltado para as carências sociais?

Depois vem a exortação por uma educação de qualidade, “para um novo mundo”. Seria importante para o eleitorado saber se vão implantar outra vez os CIEPS do velho mundo  de Leonel Brizola, favorecer os estabelecimentos privados ou de que forma estimular o ensino público?

“Superar a pobreza e construir novas oportunidades”. Mais bolsa-família ou cobrar a função social das empresas através da participação dos  empregados em seus lucros? Aumentar ou reduzir o número de funcionários públicos?

São genéricas e prestam-se a todo tipo de interpretação as diretrizes ontem divulgadas. Algumas até meio ingênuas, como “reintegrar o Brasil ao mundo”.  Por acaso estamos na estratosfera ou, matreiramente, preparam nossa adesão   total ao neoliberalismo hoje condenado pelo próprio Papa?

Precisam definir-se. Em especial o candidato Aécio Neves: de que maneira  tratará da agropecuária “para alimentar o presente e o futuro”? Reduzindo a carga fiscal no campo ou promovendo a reforma agrária? Ampliando a demarcação de reservas indígenas  ou incorporando os índios à civilização? Tabelando o preço de gêneros de primeira necessidade ou favorecendo o chamado mercado?

“Infraestrutura, inovação e competitividade”. Inovar em transportes exprime apoio a dezenas de trens-bala? Ao aumento ou à extinção de pedágios nas estradas? Privatizar ainda mais rodovias  ou apresentar um plano de expansão ferroviária que apenas o poder público conseguirá implantar? Competitividade entre os pimpolhos das elites e o menino esfarrapado que ignora quem foi o pai e onde está a mãe? Ou entre São Paulo e o Piauí?   

Mais saúde para os brasileiros importando médicos de Cuba ou aplicando recursos em massa na ampliação do número de faculdades de medicina? Melhorando salários,  condições de trabalho e aumentando o  número de enfermeiros? 

Em suma, postulados dignos de ser entoados por qualquer congregado mariano, mas sem efeito prático algum nas dúvidas que cercam o eleitor. Do que precisávamos mesmo seria um programa detalhado de ação. Ficam devendo, os tucanos…