Tirar o mximo, dando o mnimo

Carlos Chagas

Desta vez foi em Portugal, como havia sido na Grcia, Espanha, Itlia e at Frana: multides vo para as ruas das principais cidades protestar contra as chamadas medidas de austeridade adotadas pelos respectivos governos para enfrentar a crise econmica. A receita uma s: demisses em massa, reduo nos salrios, aumento na jornada semanal de trabalho, diminuio das aposentadorias e penses, extino de programas sociais e sucedneos.

Com elas, equilibram-se as contas dos bancos e das grandes empresas bem como se maquiam os oramentos pblicos em sucessivas prestaes de contas queles que efetivamente gerem a economia mundial, de Nova York a Berlim e adjacncias.

Nada de novo sob o sol. o trabalhador que paga a conta. Aumentam os preos dos alugueis e dos gneros de primeira necessidade. Pioram os servios pblicos. Mas festejam as elites e os potentados financeiros, aqueles que da crise conseguem tirar lucros vantagens ainda maiores.

Indaga-se quando esse embuste cruzar o Atlntico. Por enquanto, o Brasil rejeita a soluo imposta Europa, como tem repetido a presidente Dilma. Para ela, a sada est no crescimento, no na recesso. Pode ser que resista ainda por algum tempo, enquanto o crculo se fecha. Ser inexorvel, porm, entre os, a adoo das formas ortodoxas e malandras de conduo da economia. Privatizaes j se sucedem como rotina. A conseqncia no demora, pois interessa aos grupos selecionados para gerir aeroportos, rodovias, ferrovias e o petrleo do pr-sal tirar o mximo dando o mnimo.

Deve cuidar-se a presidente da Repblica. As elites, se no bastam para reeleg-la, detm influncia e poderes para obstar-lhe a conquista do segundo mandato. As concesses j feitas pelo seu governo acenderam ainda mais ambies e exigncias, at a hora final em que iremos aderir frmula europia do desemprego, das demisses, dos cortes e tudo o mais. Quanto aos protestos da massa, l como c resultam em lamentos e indignao, mas sem meios para passar de depredaes. Parece perigoso juntar as duas pontas do fio…

O golpe para acabar com o golpe (3)

Carlos Chagas

Depois de romper a proibio de deixar a baa da Guanabara, rumando para alto-mar e escapando dos tiros das fortalezas, o Tamandar vira para o Sul, pretendendo aportar em Santos. Presumiam o presidente da Repblica, Carlos Luz, seus ministros, deputados e oficiais da Marinha e do Exrcito embarcados, que poderiam resistir em So Paulo ao golpe desferido pelo ministro da Guerra, general Henrique Lott. Afinal, o governador Jnio Quadros participara da campanha presidencial contra Juscelino Kubitschek, apoiando Juarez Tvora.

Com todo o respeito, eram amadores os que navegaram na maior belonave da Armada. Porque na madrugada daquele longo dia 11 de novembro de 1955, o general Lott j tomara providncias para contar com a unidade do Exrcito em So Paulo, em favor da legalidade e da posse de JK, em janeiro.

A sede do governo paulista era o palcio dos Campos Elseos e quando Jnio acordou e abriu a janela, deparou-se com tanques, baterias, caminhes verde-oliva e montes de soldados ocupando os jardins. Fechou imediatamente a janela, comeou a informar-se e verificou que, se resistisse, estaria deposto. Diz a lenda que no demorou em proclamar estou com o Lott.

De bordo do Tamandar, Carlos Luz passa um radiograma ao governador, anunciando estar chegando brava e patritica terra paulista para resistir pela legalidade atropelada pelo ministro da Guerra. A resposta equivaleu mais ou menos como um no vem que no tem. Santos estava tomada por tropas do Exrcito e as fortalezas prontas para disparar sobre o navio, cujos comandantes perceberam a inocuidade de qualquer tentativa de aportar.

O presidente interino, naquela tarde j avanada, ouviu pelo rdio que no era mais presidente. O general Lott dera ultimato ao Congresso para votar imediatamente o impedimento de Carlos Luz e determinar que Nereu Ramos, vice-presidente do Senado, fosse o novo chefe do governo. De bate-pronto, deputados e senadores cumpriram a ordem.

Fazer o qu? - indagam os abandonados pasageiros do Tamandar. As caldeiras, defeituosas, no garantiam navegao at o Uruguai, como alguns sugeriram. Acionar os canhes tambm no dava. De nada adiantaria ficar contra tudo e contra todos, j que o Congresso e os governadores estaduais solidarizavam-se com Lott.

Carlos Luz d a palavra final: voltar para o Rio. Assim acontece e no domingo ensolarado, com a praia cheia, os banhistas do Posto Seis assistem inusitado espetculo: o Tamandar, aproxima-se perigosamente das margens do Forte Copacabana, com toda a marujada formada no convs, farda branca e posio de sentido. Os poderosos alto-falantes do navio, voltados para o quartel e para a praia, entoam o Cisne Branco, clssico hino cultivado pela Marinha. Seno um ato de provocao, pelo menos uma revanche que o Exrcito ignorou.

O cruzador entra outra vez na baa da Guanabara e vai ao cais do Arsenal. L diversos deputados e senadores aguardavam, como Afonso Arinos e Tancredo Neves, prontos para subir a bordo e garantir a incolumidade dos companheiros. Temiam que o general Lott mandasse prender a todos, mas o ministro da Guerra respeitou a Constituio e a imunidade parlamentar. Carlos Luz foi para seu apartamento, acompanhado de alguns fuzileiros navais, anunciando que cedia ao imprio das circunstncias e que no dia seguinte, segunda-feira, discursaria na Cmara, dando sua verso dos acontecimentos. Quantos o ouviram respeitaram seus pontos de vista, pois o j ex-presidente da Repblica negou de ps juntos estar envolvido em golpes para impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Mas estava.

O nico deputado que no foi para casa, Carlos Lacerda, acompanhado por Afonso Arinos, pediu asilo na embaixada de Cuba, imediatamente concedido, embarcando depois para aquele pas e em seguida para os Estados Unidos, onde permaneceu alguns meses. Voltou para reassumir seu mandato e tornar-se o maior crtico de Juscelino, j ento presidente da Repblica.

Os oficiais de Marinha que desembarcaram no foram molestados, a comear pelo almirante Pena Botto, que pede passagem para a reserva. Exceo, mesmo, foram os coronis do Exrcito integrantes da aventura do Tamandar. Ainda no cais, foram presos por ordem do general Lott e conduzidos para as dependncias do CPOR, em So Cristvo, onde j se encontravam detidos alguns oficiais declaradamente contrrios posse de JK. Respondero a inquritos mas sero lotados em quartis afastados do Rio, nas fronteiras. O nico a no aceitar aquela acomodao tinha sido o coronel Golbery do Couto e Silva, que preferiu passar para a reserva, promovido a general, como dispunha a lei.

CHEIRAM MAL…

De toda a maratona, ficou o comentrio de Tancredo Neves, que depois de percorrer o navio em busca de colegas parlamentares para acompanh-los s residncias, declarou maliciosamente: essas revolues envolvendo navios de guerra cheiram mal. Referia-se ao fato de que nos trs dias em que se encontravam no mar, os civis vomitaram todas as tripas, deixando nos camarotes e corredores um odor inqualificvel.

Essa foi mais uma revoluo brasileira sem sangue, graas ao destino. No houve confronto blico. A Aeronutica ficou impotente, mesmo em maioria contrria posse de Juscelino. Suas bases foram cercadas por tropa do Exrcito, com instrues para abater qualquer avio que ousasse levantar vo. Quando na manh do dia 11 o brigadeiro Eduardo Gomes tentou levar uma esquadrilha do Rio para So Paulo, viu-se dissuadido pelos canhes verde-oliva. Limitou seu protesto a uma proclamao que apenas uma rdio carioca divulgou, pois as outras j estavam sob interveno do ministro da Guerra. Alias, naqueles dias a censura voltou imprensa, pela primeira vez desde a democratizao de 1945. Coronis do Estado-Maior freqentaram por algumas semanas as redaes de jornal, mesmo as insuspeitas favorveis legalidade. Uma das ordens de censura era meio cmica: proibido escrever general Lott. Tem que ser general Henrique Lott. Por que? Porque na composio, algum prfido jornalista da Tribuna da Imprensa passou a embolar as palavras e por um dia ou dois lia-se generalotte…

A crise teve desdobramentos. Uma semana depois de Nereu Ramos haver assumido, com o pas sob estado de stio, o presidente licenciado, Caf Filho, ficou subitamente bom das complicaes cardacas, deixou o hospital onde estava internado, foi para casa e anunciou que no dia seguinte reassumiria a presidncia da Repblica. Voltava o temor de que, reassumindo, demitiria o general Lott e reacenderia a luta contra a posse de Juscelino.

Com tanques e canhes o ministro da Guerra mandou cercar o quarteiro de Copacabana onde Caf tinha apartamento. Ningum entrava, ningum saa. Fez mais o general Lott: foi visitar Caf Filho, em sua modesta residncia. Apelou para que no reassumisse, sua presena no palcio do Catete reavivaria a crise. O presidente licenciado agradeceu a visita mas manteve a disposio. Resultado: em menos de 24 horas o Congresso votou o impedimento de Caf, claro que de olho nas baionetas. Ele impetrou habeas-corpus junto ao Supremo Tribunal Federal para assumir, o recurso no foi examinado. Quem melhor definiu a situao foi o deputado Milton Campos, indagado sobre como votaria caso fosse ministro do Supremo: Nego porque pede. Ora, se um presidente precisa de habeas-corpus para governar, porque no mais presidente… (final)

Um barco deriva

Carlos Chagas

Deve o partido conduzir o governo ou o governo conduzir o partido? Foi essa a pergunta que poucos tiveram coragem de fazer, nas eleies para a direo do PT. Unanimidade em torno de um desses pontos de vista no houve, nem haver.

A reeleio de Rui Falco para presidente confirmou a prevalncia da corrente que subordina o partido ao governo, com a peculiaridade de existirem duas chefias de governo. Uma, formal, expressa por Dilma Rousseff. Outra real, pelo Lula. Para ambos, no entanto, os companheiros devem constituir tropa a servio do governo, quer dizer, deles.

Notcia no h de haver germinado no partido qualquer das diretrizes praticadas pelo palcio do Planalto. Foi assim desde o primeiro dia do mandato do Lula, como assim vem sendo no perodo Dilma, mesmo em condomnio com o antecessor. Rui Falco acopla-se ao modelo que subordina o PT ao governo. Tarso Genro lidera pequena faco discordante, mas ironicamente segue no Rio Grande do Sul a mesma prtica. L, o partido presta vassalagem ao governador.

Spor milagre essa equao se inverter, importando menos a existncia de outros partidos alm do PT formando na base do governo. Eles tambm se encontram prisioneiros da dupla Dilma-Lula quando se trata de definir polticas pblicas e programas de ao. Perderam at a compostura, empenhados apenas em ocupar ministrios e altos cargos na administrao. Seus prprios ministros carecem de iniciativas para gerir os respectivos setores. Da mesma forma como os ministros do PT.

VARGAS

Tersido Getlio Vargas, quando escolhido para governar o Rio Grande do Sul, que quebrou a prevalncia do partido sobre o governo. Quando o chefe inconteste da poltica gacha e seu antecessor, Borges de Medeiros, apresentou-lhe uma lista com os nomes para as diversas secretarias de estado, o futuro presidente da Repblica atalhou: dr.Borges, o senhor manda no partido, mas quem escolhe os secretrios o presidente do estado).

De lpara c, o personalismo dos governantes ocupou todos os espaos partidrios. Mesmo com o retorno democracia,Jos Sarney conseguiu livrar-se gradativamente da tutela do PMDB, melhor dizendo, de Ulysses Guimares. Uns com menos jeito, como Fernando Collor, outros mais jeitosos, como Fernando Henrique, todos demonstraram que os partidos no impunham diretrizes nem tinham nos presidentes seus serviais. Muito pelo contrrio.

Presumindo-se conforme as pesquisas o segundo mandato de Dilma, nada vai mudar. O PT continuara reboque, esquecido de seu programa e das antigas propostas dos tempos em que era oposio. E cada vez mais parecido com os demais partidos que um dia desprezou, voltado para a ocupao de fatias no propriamente de poder, mas de benesses. maneira dos outros, um barco deriva ou, no mnimo, ligado ao rebocador por uma corda.

O casamento da censura com a propaganda


Carlos Chagas

Pacifista extremado, inimigo de todo tipo de militarismo, Bertrand Russell chegou a ser duas vezes confinado pelo governo ingls por opor-se s guerras de 1914-18 e 1939-45. A primeira num quarteiro em Londres, a outra na Esccia. Era socialista.

Viajou Unio Sovitica nos primeiros anos do regime comunista e deparou-se com a frrea censura imprensa e liberdade de manifestao do pensamento. Mais o monoplio da propaganda pelo governo bolchevique. De volta Inglaterra, irritado, escreveu que os russos mais felizes eram os analfabetos, alis, naqueles idos a maioria, porque a capacidade de ler, naqueles tempos de jornais subsidiados, era um obstculo aquisio da verdade.

No vamos chegar a tanto, o analfabetismo existe no Brasil atual, at em ndices maiores do que h dcadas atrs, mas nossos analfabetos, mesmo sem ler jornal, submetem-se a dois fatores iguais e mais sofisticados com os criticados pelo genial matemtico e filsofo. Fala-se da censura e da propaganda. No a censura policial de tempos atrs, sequer da propaganda dos governos, que obviamente existe. A realidade atual 頠 sutil e perversa.

Surge muito mais profundo o risco enfrentado no apenas pelos analfabetos, mas por toda a populao, diante dessa sofisticada manipulao imposta pelas elites.

Primeiro a censura, praticada com a cooperao dos prprios meios de comunicao: suprimiu-se, se que algum dia existiu, o debate a respeito do que seria uma sociedade evoluda e organizada atravs da prpria organizao e evoluo do indivduo. Estabeleceram-se padres que a mdia no contesta, mas, pelo contrrio, integra-se neles. Lemos nas folhas e assistimos nas telinhas, agora teles, ser a livre competio a razo principal de nossas vidas. Obriga-se a todos considerar o vizinho do lado um adversrio. O resultado que as elites transformaram nossa existncia num campo de batalha onde, no por coincidncia, vencem sempre o mais forte e o mais esperto, sob a empulhao de que todos so livres para competir. Mentira, a competio se fere entre cartas marcadas.

Quanto propaganda, serve para alimentar a farsa. Melhor para o cidado sonhar com a troca anual de carro, a maioria sem poder, ou entregar-se pirataria das facilidades bancrias, ou a comidas e remdios maravilhosos do que dedicar recursos e tempo, tambm quando pode e possui, para construir uma sociedade mais justa. Para instruir-se, instruir os filhos e meditar sobre os princpios e os fins de todos ns.

E nem adianta imaginar que seramos mais felizes se fssemos analfabetos. O casamento da censura com a propaganda gerou essa iluso que sufoca o ser humano e impede a sociedade de alcanar suas possibilidades ideais. Um dia, quem sabe…

O Brasil e o futuro

Carlos Chagas

Sem dvidas, cada um sua maneira, esto se mostrando os candidatos presidenciais s eleies do prximo ano. Acio Neves e Marina Silva por exemplo, atravs de artigos semanais na imprensa, entrevistas e pronunciamentos. Eduardo Campos prefere inauguraes em Pernambuco e conversas com empresrios, em So Paulo. Jos Serra opta por visitas a municpios do interior de So Paulo e encontros com parlamentares tucanos, em Braslia. A todos a imprensa escrita d cobertura, apesar do pouco caso das emissoras de rdio e televiso, mais preocupadas em captar audincia atravs do noticirio policial.

bom no esquecer que a presidente Dilma desenvolve sua campanha atravs de aes de governo, tendo adotado a prtica de duas viagens pelo pas a cada semana. O Lula continua falando pelos cotovelos, mesmo para dizer que s se candidatar em 2018.

Mesmo assim, falta a todos, mesmo presidente da Repblica, um programa organizado. Um elenco ordenado de conceitos e de propostas capazes de defini-los. Plulas so espalhadas todos os dias, mas j era hora de os pretendentes a subir a rampa do Planalto ou a ficar l em cima terem divulgado sua viso do Brasil e de suas necessidades nacionais futuras. No se trata de esperar tratados sociolgicos ou geopolticos, mas de conhecer de forma sistematizada o roteiro de pensamento e de ao de cada um, para o caso de vitria. Questes fundamentais so tratadas de forma atabalhoada ou no so tratadas.

Desnecessrio se torna dar grandes exemplos do vazio que cerca os candidatos. At agora, carecem de ideologia, doutrina ou filosofia na definio de suas polticas. Mesmo Dilma continua devendo esclarecer que posio ocupa no cenrio: neoliberal, estatizante ou misturando quantidades distintas e conflitantes? Qual o socialismo de Eduardo Campos? Marina Silva manteria o ambientalismo separado da necessidade do desenvolvimento? Acio Neves e a poltica social sero realidades antagnicas? Jos Serra exerceria o poder pblico para conter a ambio dos bancos?

Tardam as definies, ainda que a onze meses da eleio e sem a designao formal de nenhum dos candidatos pelos respectivos partidos. No se trata de levar o eleitor, desde j, a fazer sua escolha, mas de municiar os diversos grupos, conglomerados e corporaes nacionais sobre o conhecimento dos planos de cada candidato para o futuro. bem verdade que em todas as eleies os candidatos prometem muito, mentem mais ainda e pouco se lembram de suas definies de campanha. Mas seria bom que pelo menos desta vez, j que comearam cedo demais, pudessem ajudar a esclarecer para onde vamos.

HORRIO MALFADADO

H dias que sofre a populao do Sul, Sudeste e Centro-Oeste por conta desse absurdo horrio de vero a dividir o pas pela metade, j que o Norte e o Nordeste rebelaram-se e no aceitam, h alguns anos, adiantar o relgio por uma hora.

No vale pena, hoje, ficar repetindo argumentos tanto biolgicos quanto psicolgicos dessa imposio feita sem consulta aos interessados, registrando-se apenas o ridculo da mudana. O historiador do futuro, empenhado na crnica dos presidentes da Repblica, estranhar que na sexta-feira, 1 de novembro, Dilma Rousseff saiu de Braslia s 8.30 horas e chegou em Salvador s 9 horas. Maravilhas da tecnologia aeronutica, um novo avio presidencial? Ter um n no crebro esse nosso longnquo descendente, porm, quando notar que a presidente deixou a capital baiana s 12.30 horas e s chegou capital federal s 15 horas. Defeito num dos motores?

Cotas para lourinhos?

Carlos Chagas

Todo mundo aplaudiu quando Jnio Quadros, naqueles tumultuados sete meses em que exerceu a presidncia da Repblica, nomeou um negro para embaixador do Brasil num pas da frica. Carlos Lacerda foi o nico a protestar, lembrando estar vaga nossa embaixada na Sucia: vo nomear um lourinho para Estocolmo?

Repete-se agora a situao. A Comisso de Constituio e Justia da Cmara acaba de aprovar a cota de um quinto das cadeiras da casa para, obrigatoriamente, serem ocupadas por deputados negros. Parece difcil que o plenrio vote em favor dessa proposta de emenda constitucional, diante do risco de projetos serem apresentados para tambm beneficiar descendentes de japoneses, ndios, cafusos, quilombolas e, em seguida, gays e at black-blocs.

Todas as categorias raciais tem direito a representao no Congresso, mas desde que amparadas pelo voto popular. A propsito, lembra-se o episdio da queixa do primeiro-ministro do Japo ao todo-poderoso interventor, general MacArthur, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O japons queria providncias para cassar o mandato de uma prostituta pouco antes eleita para a Dieta japonesa. O general indagou quantos votos a deputada havia recebido e ouviu que tinham sido mais de 200 mil. Sua deciso foi de respeitar a vontade do eleitorado, acrescentando: clientela fiel ela possui…

O Brasil resgatou, ainda que em parte, a dvida para com os cidados de cor negra, durante sculos submetidos escravido: foram estabelecidas cotas para eles ingressarem nas universidades. Muito mais precisar ser feito para a conquista da igualdade econmica e social. Mas levar essa preocupao ao Congresso significa agredir o livre direito do voto. Representantes do povo devem ser os mais votados, discutindo-se ainda agora o fim das coligaes partidrias, responsveis por levar Cmara candidatos com menos votos do que outros derrotados.

A Constituio de 1934, por sinal democrtica, oriunda de uma Assemblia Nacional Constituinte, estabeleceu a chamada representao classista para a Cmara dos Deputados. Entidades representativas de patres e empregados apresentaram candidatos que no foram submetidos ao voto. Assumiram suas cadeiras. Logo veio o golpe de 1937 e no tivemos mais Congresso. De l para c, a idia felizmente foi rejeitada. Acaba de dar filhotes, mesmo sob forma diferente, ainda que o resultado final venha a ser o mesmo: deputados sem representatividade.

A PALAVRA EXATA

Para o senador Pedro Simon, no h que evitar a palavra certa: os black blocs que atormentam as principais cidades do pas so, sem tirar nem pr, terroristas. No 11 de setembro, nos Estados Unidos, os dois avies lanados contra as torres gmeas levavam, cada um, 30 mil litros de combustvel. O resultado todo mundo viu. Pois esta semana os black blocs apoderaram-se de um caminho tanque, numa rodovia paulista, e por pouco no o explodiram. Qual a diferena?

Disse o representante gacho que em junho 90% da populao brasileira apoiou as manifestaes de rua contra a m qualidade de vida existente no pas. Hoje, esse mesmo percentual traduz o repdio nacional contra os vndalos que, de cabea coberta, dedicam-se a depredaes e roubos. Os black blocs mataram o movimento democrtico da juventude. Enquanto isso, a polcia s assiste a baderna. Ainda bem que na vspera o ministro da Justia havia se reunido com os secretrios de Segurana do Rio e de So Paulo para acertar providncias. Mesmo com atraso, no pode haver contemporizao com os mascarados, que so terroristas, disse Pedro Simon, ontem, da tribuna do Senado.


A rolha no gargalo da garrafa

Carlos Chagas

O Lula admitiu candidatar-se presidncia da Repblica em 2018, se os adversrios continuarem a encher-lhe o saco. Como acaba de completar 68 anos, seria eleito com 73. Nada demais no mundo de hoje, em termos de preservao de sade, apesar do alerta que nossa histria recente registrou: Tancredo Neves elegeu-se com 76 anos e o processo poltico deu no que deu.

Existe, claro, o reverso da medalha. Konrad Adennauer reconstruiu a Alemanha aos 80 anos. Winston Churchill salvou a Inglaterra pouco antes de completar 70 e, alm disso, voltou a ser primeiro-ministro aos 73.

Nada haveria a opor idade do suposto candidato, j que surpresas acontecem at com criancinhas e tendo em vista o vertiginoso avano da Medicina. O problema da nova candidatura Lula outro. Ainda h dias, num pronunciamento polmico, ele recomendou renovao ao PT. Exortou para o aparecimento de novos lderes entre os companheiros, inclusive para disputarem as eleies do ano que vem. Sua volta ao poder em 2018 no seria propriamente uma renovao no partido. Mais uma vez, a rolha no gargalo da garrafa impediria o contedo de expandir-se.

Apesar disso, dvidas inexistem: caso no sobrevenham inusitados, o Lula se elegeria daqui a cinco anos, como tambm no ano que vem. a certeza da excelncia eleitoral apregoada no rtulo de qualquer pesquisa que venha a ser feita.

O PERIGO DA AUTONOMIA

Por iniciativa do senador Renan Calheiros, volta ao debate a questo da autonomia do Banco Central. O senador Francisco Dornelles apresentou proposta da emenda constitucional desvinculando a poltica cambial do restante da poltica econmica do governo. Foi generoso, dando ao presidente da instituio e seus diretores mandatos de seis anos, renovveis por mais seis. Doze anos na conduo dos negcios ligados moeda seriam mais do que suficientes para sustentar a unidade de uma programao, sem interferncias externas.

O problema da autonomia do Banco Central no esse. outro que envolve o desdobramento do projeto atual. Porque para o senador Dornelles, o presidente da Repblica continuar nomeando o presidente do BC e seus diretores, submetendo seus nomes ao Senado, para aprovao. Logo surgiro adendos e acrscimos em nome da verdadeira autonomia, expressos pela importncia de afastar definitivamente o governo da poltica cambial. Outros senadores proporo, agora ou mais tarde, que os ocupantes desses cargos venham a ser designados por indicao exclusiva da categoria. Qual? A dos banqueiros…

BOM PARAR

De vez em quando os exageros se multiplicam. Tudo bem que o governo tenha proposto e o Congresso, aprovado, as cotas raciais para estudantes universitrios. Quinhentos anos do horror da escravido e de suas consequncias no se apagam da noite para o dia. O nmero de negros que agora tem acesso ao ensino superior s dignifica a nao e aprimora a sociedade. Mesmo o estabelecimento de cotas para mulheres ocuparem cadeiras no Parlamento resgata sculos de opresso contra o sexo feminino.

Agora, determinar que um quinto das vagas na Cmara, Senado, Assemblias Legislativas e Cmaras de Vereadores destinem-se cidados de cor negra, um pouco demais. Interfere no direito de livre escolha do eleitor em seus candidatos. E o pior se a moda pega: logo surgiro projetos determinando cotas para descendentes de japoneses, de escandinavos, quem sabe de gays e at de black-blocs. Melhor seria deixar a democracia desenvolver-se naturalmente…

FALTARAM DOIS

Tomara que produza resultados o encontro de ontem entre o ministro da Justia e os secretrios de Segurana do Rio e So Paulo. So necessrias medidas novas e urgentes para interromper o ciclo de barbaridades verificadas nos dois estados sob a capa de protestos corporativos. S que na reunio referida faltaram dois personagens: os governadores Geraldo Alckmin e Srgio Cabral. Ou no ser deles a responsabilidade maior pela preservao da ordem em seus territrios?

A presena de dois Lulas


Carlos Chagas

Recebido com tapete vermelho, loas e fanfarras em Braslia e especialmente no Congresso, o Lula emitiu com preciso uma srie de conceitos sobre a Constituio e a passada Assemblia Constituinte, mas botou tudo a perder em termos de lgica e de bom-senso quando misturou juventude, poltica, Getlio Vargas, Juscelino Kubitschek e imprensa. A impresso que se teve foi de dois Lulas: um ameno, preciso e portador de inequvocos conhecimentos e de inconteste liderana popular; outro destemperado, mesquinho e desinformado.

Na segunda parte, comeou criticando a juventude, que para ele despreza a poltica por no haver lido as biografias de Getlio Vargas e de Juscelino Kubitschek. Se os moos conhecessem a Histria, estariam elogiando a poltica. Em seguida verberou a imprensa, que avacalha a poltica. Acrescentou que negar a poltica praticar a ditadura.

No nada disso. Se os jovens desprezam a poltica, ser por conta dos polticos, no da imprensa, que tambm podem desprezar. Quem avacalha a poltica no so os meios de comunicao, mas quantos fazem da poltica uma gazua para assaltar o poder pblico. Getlio, no perodo em que foi ditador, censurou a imprensa com crueldade igual dos militares, anos depois. Foram eles que negaram a poltica e praticaram a ditadura. Jamais a juventude e muito menos a imprensa. Ressalva se faa a Juscelino, que no censurou e tornou-se grande exemplo de presidente cultor da democracia.

A gente fica pensando sobre as causas dessa raiva permanente manifestada pelo ex-presidente contra a mdia, j que dela se valeu para chegar ao poder. Claro que sofreu injustias por parte de jornais, revistas, rdios e televises, antes e depois de seus oito anos no palcio do Planalto, mas onde estaramos caso tivesse seguido o conselho de alguns companheiros para estabelecer a censura?

A poltica a que o Lula se refere ser a do mensalo? Do fisiologismo a que se dedicou, herdado pela Dilma, trocando ministrios por apoio parlamentar e privilegiando nulidades?

Perdeu o primeiro-companheiro excelente oportunidade de ficar calado, abreviando suas declaraes repetitivas e injustas contra a imprensa, acrescidas agora de ampla confuso a respeito da poltica e das ditaduras. Como falou estar pronto para concorrer em 2018, bom tomar cuidado…

CARTAS MARCADAS

Seis companheiros disputam a presidncia nacional do PT, dos quais cinco criticam o governo Dilma e querem Lula de candidato, no prximo ano. Apenas um apia a reeleio da presidente, precisamente aquele que vencer a consulta, o atual presidente Rui Falco. Tem-se a impresso de um jogo de cartas marcadas, com cinco jogando para a plateia e um interessado em aumentar seus cacifes, tudo engendrado pelo Lula. Sempre ficar aberta uma porta, na hiptese de sobrevirem inusitados diante da conquista do segundo mandato de Dilma.

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

Decidiu o ministro da Justia promover ainda hoje um encontro entre os secretrios de Segurana do Rio e de So Paulo, mais autoridades federais. A proposta elaborar um plano capaz de interromper o festival de depredaes encenado pelos animais do black-bloc, que apesar de repudiados pela populao dos dois estados, s fazem aumentar o ritmo da baguna. Sempre ser possvel prever com algumas horas de antecedncia onde esses vndalos vo aparecer, mas mesmo admitindo-se a falta de estruturas de inteligncia das respectivas polcias, fcil parece identificar os baderneiros em meio baderna. Mais fcil ainda, cerc-los e prend-los. O problema no solt-los.